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Capítulo 6 - Biografias: o que os filhos ouvintes de pais surdos contam sobre as línguas, as identidades e as culturas

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Biografias: o que os filhos ouvintes de pais surdos contam sobre as línguas, as identidades e as culturas 16

Ter uma segunda língua é possuir uma segunda alma.17 (Charlemagne)

Essa frase de Charlemagne, amplamente difundida na internet, procura captar o quanto as línguas refletem nossa forma de viver. No caso de filhos ouvintes de pais surdos, codas, a língua de sinais e a língua falada no país, adquiridas de modo concomitante, estão intrinsicamente relacionadas com suas experiências. Compreendo aqui “alma” como base de nossas experiências de vida, nossos sentimentos, nossas culturas. A relação das línguas e dos significados traduzidos por elas afetam a constituição dessas pessoas.

Neste capítulo, abordamos as histórias de alguns codas. Essas histórias foram contadas a mim por meio de uma conversa realizada como parte de um subprojeto do Inventário Nacional de Libras, Corpus de Libras,

Codas, que objetiva documentar produções em Libras. A proposta era fazer uma conversa sobre as histórias de vida desses filhos ouvintes de pais surdos, contando sobre a relação deles com os pais surdos, com a comunidade ouvinte, com a comunidade surda e com suas línguas: a língua que herdaram de seus pais, a língua de sinais, e a língua portuguesa falada no resto da sociedade brasileira, nas escolas, nas igrejas, nos hospitais, nos órgãos públicos e assim por diante. O foco aqui é mais antropológico, com o objetivo de captar momentos que ilustram as formas dessas pessoas de se relacionarem com as culturas, com zonas de conforto, com zonas de conflito, as fronteiras

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Capítulo 1 - Línguas de herança

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Línguas de herança

Línguas de herança são as línguas que, em um contexto sociocultural, são dominantes diferentes da usada na comunidade em geral. A palavra

“herança” remete à ideia de tradição herdada, assim como a ideia de patrimônio, que remete à relação familiar. As línguas que a pessoa adquire em casa com seus pais, diferentes da língua usada de forma massiva no país, configuram línguas de herança. Isso é o que normalmente acontece com as famílias de imigrantes e de indígenas. Os pais que ainda preservam sua língua nativa e a usam em casa passam a sua língua para seus filhos, embora essa língua não seja falada por outras pessoas na comunidade onde estejam inseridos. De certa forma, essa herança pode estar sendo passada por uma comunidade em que a família esteja inserida. Assim, língua de herança está diretamente relacionada linguística e culturalmente aos usos de uma língua por pessoas de um grupo social específico dentro de um grupo social maior. Essa língua não é a mesma da comunidade dominante, “dominante” no sentido de ter o maior número de pessoas utilizando uma língua com abrangência e número de falantes muito maior do que as línguas usadas em comunidades locais inseridas em determinado país.

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Capítulo 5 - Língua de herança: políticas linguísticas e a língua brasileira de sinais

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Língua de herança: políticas linguísticas e a língua brasileira de sinais

As políticas linguísticas se ocupam em pensar a respeito de formas de garantir que as línguas preencham espaços de diferentes ordens dentro de um país.

A partir das políticas linguísticas, são estabelecidas ações para a implementação das línguas. No caso do Brasil, existe uma política linguística em relação à língua brasileira de sinais, a Libras, instaurada por meio da Lei 10.436 de 2002, chamada de Lei de Libras, que reconhece essa língua como língua nacional usada pelas comunidades surdas brasileiras. A partir da Lei de

Libras, foi assinado um decreto para implementar essa lei, o Decreto 5.626 de 2005, que apresenta uma série de ações relativas à Libras, no sentido de garantir seu reconhecimento, sua valorização, sua disseminação e sua manutenção.

Agora, aprendemos que a Libras constitui uma língua de herança. Isso nos leva a pensar em propostas de manutenção da Libras, pois, em vários casos apresentados neste livro, os sinalizantes adotam a Libras como uma língua secundária. Há os surdos, filhos de pais ouvintes, que terão acesso à sua língua de herança de forma inusitada, pois normalmente a primeira língua será adquirida por outros sinalizantes da Libras que não são seus pais.

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Capítulo 2 - Comunidades de línguas de herança

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Comunidades de línguas de herança

As comunidades de línguas de herança podem ser representadas por 1) uma família em um país que não é seu país de origem, 2) uma comunidade que envolve um grupo de famílias e seus descendentes ou, ainda, 3) uma comunidade que abrange diferentes famílias com línguas diferentes, mas compartilhando uma língua comum. Em cada um desses contextos, podemos ainda ter uma série de variações. Vamos apresentar alguns casos para ilustrar esses diferentes níveis de comunidades que envolvem línguas de herança.

Em São Paulo, temos a família de David, que veio dos Estados Unidos, pois o pai de David é cônsul norte-americano. David nasceu no Brasil, mas fala inglês com seus pais, embora tenha contato com o português em diversos contextos fora de casa. No caso de David, a família optou em colocá-lo em uma escola norte-americana, pois é uma alternativa disponível em São

Paulo. A escola norte-americana é uma escola em inglês, com a opção do ensino do português como segunda língua. David está crescendo bilíngue em inglês e português de forma “balanceada”, pois tem várias oportunidades de falar inglês e português em diferentes contextos sociais.

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Capítulo 4 - Pesquisas com línguas de sinais como língua de herança

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Pesquisas com línguas de sinais como língua de herança

AS PESQUISAS COM LÍNGUAS DE HERANÇA

As pesquisas com línguas de herança começam a ser estabelecidas, especial­ mente, por causa do ensino de línguas nas escolas. Os falantes de línguas de herança chegam à escola e se deparam com o ensino de sua primeira língua como língua estrangeira. Esse é o caso dos bilíngues de fronteira no Brasil, em que a escola está organizada na língua portuguesa e contempla o ensino da língua espanhola como língua estrangeira. Na verdade, o espanhol não

é uma língua estrangeira para esses falantes de língua de herança, pois eles adquiriram essa língua em suas famílias ou em suas comunidades linguísti­ cas, uma vez que as fronteiras configuram espaços multilíngues. O estatuto de língua estrangeira e as metodologias usadas no ensino de línguas estran­ geiras não contemplam esses contextos sociolinguísticos. A partir disso, as pesquisas começaram a discutir sobre as línguas de herança e sobre os falantes de línguas de herança do ponto de vista sociolinguístico e a partir da perspectiva linguística, com o objetivo de estimular políticas linguísticas, assim como subsidiar teoricamente as propostas de ensino dessas línguas.

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