12 capítulos
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9 O princípio do prazer e a liberdade de escolha: dependências

Eric R. Kandel Editora Manole ePub Criptografado

Notamos que o medo normal pode evoluir para um transtorno do estresse pós-traumático, tornando as pessoas incapazes de lidar com o dia a dia. Da mesma forma, nossa atração normal pelo prazer pode ser exagerada, o que causa produção excessiva de dopamina pelo cérebro e resulta em dependência. Essa dependência pode estar relacionada a substâncias como drogas, álcool, tabaco, ou a atividades como jogos de azar, comer ou fazer compras.

A dependência gera estragos na vida das pessoas. Pode custar-lhes o emprego, a saúde ou o casamento. Elas podem acabar na pobreza ou na prisão. Às vezes, a dependência leva à morte. Dependentes não querem continuar a fazer o que estão fazendo, mas não conseguem parar – o abuso repetido deteriorou a capacidade do cérebro de controlar desejos e emoções. Desse modo, a dependência rouba nossa vontade, nossa capacidade de escolher livremente entre as várias formas possíveis de agir.

A dependência de substâncias tem um custo enorme em nossa sociedade, com despesa estimada de mais de 740 bilhões de dólares por ano nos EUA. Esse custo econômico aumenta muito se considerarmos distúrbios compulsivos semelhantes à dependência, como jogo patológico e consumo excessivo de alimentos. O custo humano da dependência, para os indivíduos e para a sociedade, é incalculável. Nas últimas décadas, embora tenhamos feito progressos no tratamento de pessoas com certos tipos de dependência como o alcoolismo, as terapias disponíveis para a maioria das dependências, sejam abordagens comportamentais ou medicamentos, provaram ser inadequadas. Felizmente, os cientistas estabeleceram avanços importantes nos últimos trinta anos para a compreensão da biologia da dependência, aumentando a esperança de que novos tratamentos surjam desses novos conhecimentos.

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Conclusão: completando um ciclo

Eric R. Kandel Editora Manole ePub Criptografado

Aprendemos mais sobre o cérebro e seus distúrbios no século passado do que durante todos os anos anteriores da história humana juntos. A decodificação do genoma humano nos mostrou como os genes determinam a organização do cérebro e como as mudanças nos genes influenciam os distúrbios. Adquirimos novos conhecimentos sobre as vias moleculares associadas a funções cerebrais específicas, como a memória, assim como os genes defeituosos que contribuem para distúrbios dessas funções, como a doença de Alzheimer. Além disso, sabemos mais sobre a forte interação de genes e meio ambiente na causa dos distúrbios cerebrais, como o papel do estresse nos transtornos do humor e no transtorno de estresse pós-traumático.

Igualmente notáveis são os recentes avanços na tecnologia de neuroimagem. Hoje os cientistas podem rastrear determinados processos mentais e transtornos mentais em regiões cerebrais específicas e suas combinações com a pessoa alerta, método no qual as células nervosas ativas reluzem e geram mapas coloridos das funções cerebrais. Por fim, modelos animais de distúrbios têm nos direcionado para novas linhas de pesquisa em pacientes humanos.

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6 Nossa criatividade inata: distúrbios cerebrais e arte

Eric R. Kandel Editora Manole ePub Criptografado

Os artistas – pintores, escritores, escultores, compositores – parecem diferentes de outras pessoas, privilegiados com dons especiais que o restante de nós não possui. Os antigos gregos acreditavam que pessoas criativas eram inspiradas por musas, as deusas do conhecimento e das artes. Os poetas românticos do século XIX tinham uma visão diferente da criatividade. Eles alegavam que esta surge da doença mental, o que diminui as restrições impostas pelo hábito, pela convenção e pelo pensamento racional, além de permitir ao artista explorar os poderes criativos inconscientes.

Hoje sabemos que a criatividade tem origem no cérebro e possui uma base biológica. Também sabemos que, embora certas formas de criatividade surjam associadas a transtornos mentais, nossa capacidade criativa não depende deles. Além disso, a capacidade de ser criativo é universal. Cada um de nós expressa a criatividade de diversas maneiras e com diferentes graus de habilidade.

No entanto, os românticos não estavam totalmente errados. Para a maioria das pessoas, nossa capacidade criativa inata não é facilmente evocada. Os cientistas ainda não conseguiram desvendar os mecanismos biológicos da criatividade, mas descobriram alguns de seus precursores, um dos quais parece nos livrar de inibições, permitindo que nossas mentes vaguem livremente e busquem novas conexões entre ideias. Essa comunhão com o inconsciente é compartilhada por todas as pessoas criativas, mas às vezes é particularmente marcante em indivíduos criativos com transtornos mentais.

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10 Diferenciação sexual do cérebro e identidade de gênero

Eric R. Kandel Editora Manole ePub Criptografado

No início da vida, a maioria de nós apresenta um forte senso de identidade de gênero – de ser menino ou menina. Por isso, crescemos nos comportando de maneira mais ou menos habitual como outros meninos ou meninas em nossa sociedade. Em geral, nossa identidade de gênero está de acordo com nosso sexo anatômico, nossos órgãos genitais e reprodutores, mas nem sempre. Podemos ter um corpo masculino mas nos sentirmos como menina ou mulher, ou podemos ter um corpo feminino e nos sentirmos como menino ou homem. Essa discrepância é possível porque nosso sexo e nossa identidade de gênero são determinados de maneira distinta, em momentos diferentes durante o desenvolvimento.

A identidade de gênero é o senso de onde nos inserimos no continuum da sexualidade, de ser um homem, uma mulher, ou nenhum dos dois, ou ambos. Ela inclui nosso desenvolvimento biológico, sentimentos e comportamento. Portanto, embora a identidade de gênero possa variar bastante entre os indivíduos, ela depende da diferenciação sexual normal do cérebro. Pelo fato de podermos aprender muito sobre nós mesmos a partir do estudo da identidade de gênero, é oportuna uma digressão do estudo dos distúrbios cerebrais para incluir este capítulo sobre diferenciação sexual do cérebro.

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11 Consciência: o grande mistério remanescente do cérebro

Eric R. Kandel Editora Manole ePub Criptografado

Francis Crick, o biólogo mais importante de nossa época, dedicou os últimos trinta anos de sua vida a estudar como surge a consciência a partir do funcionamento do cérebro. “As suas alegrias e as suas tristezas, as suas memórias e as suas ambições, o seu sentido de identidade pessoal e livre-arbítrio não são, de fato, mais do que o comportamento de um vasto conjunto de células nervosas e de suas moléculas associadas”, escreveu Crick em seu livro de 1994 – A hipótese espantosa: busca científica da alma.

Crick progrediu relativamente pouco na descoberta dos mecanismos da consciência, contudo, hoje sua unidade – nossa percepção do self – continua sendo o maior mistério do cérebro. Como conceito filosófico, a consciência continua desafiando o consenso, mas a maioria das pessoas que a estuda e que examinou seus distúrbios a considera não como uma função unitária da mente, mas como estados diferentes em contextos diferentes.

Um dos mais surpreendentes insights a surgir do estudo moderno dos estados de consciência é que Sigmund Freud estava certo: não podemos entender a consciência sem entender que processos mentais complexos e inconscientes permeiam o pensamento consciente. Toda percepção consciente depende de processos inconscientes. Dessa forma, ao nos aprofundarmos no mistério da consciência, lembremo-nos do que nossa exploração de distúrbios cerebrais nos ensinou sobre o processamento mental. Sabemos que o cérebro emprega processos inconscientes e conscientes para construir uma representação interna do mundo exterior que orienta nosso comportamento e nossos pensamentos. Se os circuitos neurais do nosso cérebro estão alterados, vivenciamos o mundo de maneira diferente das outras pessoas, em grau e tipo, nos níveis consciente e inconsciente.

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