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Prefácio para a segunda edição, 2016

James Lovelock Editora Almedina PDF Criptografado

Prefácio para a segunda edição, 2016

Há cinquenta anos estava a partilhar um pequeno escritório com o eminente astrónomo Carl Sagan no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL)1 da

NASA em Pasadena, na Califórnia. Conversávamos com a filósofa Dian

Hitchcock sobre formas de detetar vida em Marte usando a ciência física em vez da biologia. A conversa estava a ser calma e pouco animada até que outro astrónomo, Louis Kaplan, entrou, trazendo notícias de observações feitas pelos astrónomos franceses Pierre e Janine Connes no observatório

Pic du Midi. Eles tinham descoberto indícios claros e inequívocos de que tanto Marte como Vénus tinham atmosferas compostas quase exclusivamente por CO2, com menos de 1% de nitrogénio e oxigénio. Segundo um ensaio que eu tinha acabado de publicar na revista Nature (agosto de 1965), essa composição atmosférica significava que os dois planetas eram completamente destituídos de vida. A nossa própria atmosfera, pelo contrário, contém gases que reagem à luz do Sol e encontra-se, por isso, num estado profundo de desequilíbrio químico. Eu sabia que o ar que respiramos tem uma composição constante e isso indica que deve ser regulado pela vida.

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Cibernética

James Lovelock Editora Almedina PDF Criptografado

Cibernética

organismos vivos, do mais pequeno ao maior, é a sua capacidade de desenvolver, operar e manter sistemas que estabelecem um objetivo e depois procuram alcançá-lo através do processo cibernético de tentativa e erro.

A  descoberta de um tal sistema, que funciona à escala global e tem por meta estabelecer e manter as condições físicas e químicas ideais à vida, certamente nos apresentaria provas convincentes da existência de Gaia.

Os sistemas cibernéticos empregam uma lógica circular que pode ser desconhecida e estranha àqueles que estão acostumados a pensar em termos de lógica linear tradicional de causa e efeito. Comecemos, então, por considerar alguns sistemas simples de engenharia que recorrem à cibernética para manter um determinado estado. Veja-se, por exemplo, o controlo da temperatura. A maior parte das casas está equipada com forno, ferro elétrico e sistema de aquecimento central. Cada um destes aparelhos tem por finalidade manter a temperatura desejada e adequada. O  ferro deve estar suficientemente quente para alisar sem queimar; o forno para cozinhar e não esturrar os alimentos nem deixá-los meio crus; e o sistema de aquecimento deve manter a casa confortavelmente aquecida e nem demasiado quente nem demasiado fria. Examinemos melhor o forno. É constituído por uma caixa destinada a conservar o calor sem o perder demasiado depressa para a cozinha, um painel de comando e elementos calefatores, que transformam a corrente elétrica em calor dentro do forno. Aqui, encontramos uma espécie de termómetro a que se dá o nome de termostato. Este dispositivo não necessita de nos mostrar a temperatura, como sucede com um termómetro normal. Em vez disso, foi concebido para fazer acionar um comutador quando se atinge a temperatura pretendida. Esta temperatura

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A atmosfera contemporânea

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A atmosfera contemporânea

Acima dos onze e até aos dezasseis quilómetros, consoante o ponto da superfície da Terra de onde o nosso astronauta efetuar a subida, entraria na estratosfera. Esta região designa-se assim em virtude de o ar nela existente não se misturar facilmente na vertical, embora soprem constantemente ventos fortíssimos a centenas de quilómetros por hora. A temperatura da zona limítrofe inferior da estratosfera, a tropopausa, é muito baixa, mas à medida que avançamos aumenta. A natureza das duas camadas encontra-se intimamente ligada aos gradientes da temperatura nelas existentes. A troposfera, com a sua descida constante de cerca de 1 °C a cada cem metros que se avança em altitude, facilita a circulação vertical do ar e a formação de nuvens nas suas configurações familiares.

Na estratosfera, em que a temperatura das zonas superiores é cada vez maior, o ar quente tem relutância em subir e, consequentemente, predomina a estabilidade estratificada. As ondas mais curtas e intensas emitidas pelos raios ultravioletas do Sol penetram na estratosfera superior, onde dividem o oxigénio em átomos de oxigénio, que se recombinam, e vêm normalmente a constituir o ozono. Este é também dividido pelos raios ultravioletas, estabelecendo-se assim um equilíbrio com cerca de cinco partes por milhão de ozono, na densidade máxima. O ar da estratosfera não é muito mais denso do que o de Marte, e não poderia lá sobreviver nenhuma espécie que respirasse oxigénio; com efeito, mesmo que à baixa pressão se sobreponha um meio envolvente pressurizado, a vida seria rapidamente destruída pelo envenenamento do ozono. Como descobriram recentemente, para seu risco e desconforto, os passageiros e a tripulação de aviões a jato de longo curso e alta velocidade, o ar da estratosfera, ainda que reduzido a temperaturas e pressões toleráveis no interior do avião, é irrespirável.

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No começo

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No começo

ao solo, ou da deriva de esporos vindos de outro lugar ou sequer por uma qualquer intervenção exterior. Não estamos propriamente interessados na origem da vida, mas antes na relação entre a evolução da biosfera e o meio envolvente planetário inicial da Terra.

Em que estado se encontrava a Terra antes de aparecer a vida, talvez há três evos e meio? Por que motivo conseguiu o nosso planeta criar e manter a vida quando os seus congéneres mais próximos, Marte e Vénus, aparentemente falharam? Com que acasos e quase catástrofes se teria visto confrontada a jovem biosfera e como poderia a presença de Gaia ter ajudado a superá-los? Para apresentarmos possíveis respostas a estas intrigantes questões, teremos primeiro de analisar as circunstâncias em que a própria Terra se formou há cerca de quatro evos e meio.

É quase tido como certo que no tempo e no espaço da origem do nosso sistema solar se deu o aparecimento de uma supernova, que resulta da explosão de uma estrela grande. Os astrónomos especulam que este desfecho pode ocorrer da seguinte forma: à medida que uma estrela arde, essencialmente devido à fusão dos seus átomos de hidrogénio e, posteriormente, dos de hélio, as cinzas destas chamas, que revestem a forma de outros elementos pesados como silício e ferro, vão-se acumulando no centro. Se este núcleo de elementos mortos, que já não produz calor nem pressão, exceder bastante a massa do nosso Sol, a força imensa do seu próprio peso conseguirá, numa questão de segundos, provocar a sua destruição num corpo que não tem de volume mais do que alguns milhares de quilómetros cúbicos, embora com o mesmo peso de uma estrela. A criação deste objeto extraordinário, uma estrela de neutrões, é uma catástrofe de dimensões cósmicas.

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Introdução

James Lovelock Editora Almedina PDF Criptografado

Introdução

instalara-se no meu cérebro. Cresceu e frutificou, até – com o auxílio de muitos colegas, Dian Hitchcock, Sidney Epton e especialmente Lynn ­Margulis

– evoluir para a hipótese que constitui o tema da presente obra.

Em casa, no sossego da região do Wiltshire, após as minhas visitas aos

Laboratórios de Propulsão a Jato, tive mais tempo para pensar e ler sobre o verdadeiro caráter da vida e de como seria possível reconhecê-la em qualquer lado e em qualquer circunstância. Contava descobrir algures, na literatura científica, uma definição completa da vida como processo físico, em que se pudesse basear a conceção de experiências de deteção de vida, mas fiquei surpreendido ao verificar que muito pouco fora escrito a respeito da natureza da própria vida. Ainda mal começara o atual interesse pela

­Ecologia e pela aplicação da análise de sistemas à Biologia e verificava-se já o ar académico desinteressado da aula sobre as ciências da vida. Tinham-se vindo a acumular dados sobre cada aspeto concebível das espécies vivas, tanto dos seus aspetos exteriores aos interiores mas, de um modo geral no meio de toda a vasta enciclopédia de factos, o cerne da questão, a própria vida, tinha sido quase totalmente ignorado. Quando muito, a bibliografia apresentava-se como um conjunto de relatórios de peritos, como se um grupo de cientistas de outro mundo tivesse levado para as suas casas um recetor de televisão e elaborado um relatório a seu respeito. O químico disse que era feito de madeira, vidro e metal. O físico, que irradiava calor e luz. O engenheiro afirmou que as rodas de apoio eram demasiado pequenas e estavam no local menos indicado para deslizar numa superfície plana.

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