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Capítulo 5 - PSICOPATOLOGIA E RELIGIÃO

Dalgalarrondo, Paulo Grupo A PDF Criptografado

Religião, psicopatologia e saúde mental

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PSICOPATOLOGIA E RELIGIÃO

LOUCURA E RELIGIÃO: UMA ANTIGA E ÍNTIMA RELAÇÃO

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma...

Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas.

Ackerknecht (1985) afirma, em sua breve história da psiquiatria, que a noção de transtorno, doença mental ou “loucura” que o Ocidente hoje admite difere muito das noções dos povos indígenas, seja da atualidade ou do passado remoto. Nesses povos, quase todas as doenças e, sobretudo, as formas de alteração mental e comportamental que designamos “transtorno mental grave” são concebidas como produtos de forças sobrenaturais: maus espíritos, deuses, roubos espirituais, possessões, obra de bruxas ou de feiticeiros. Descontada a grande variação em termos do que se considera “anormal” entre povos não-ocidentais, quando a “loucura” ocorre e é reconhecida nesses povos, quase sempre são acionadas percepções e representações que a localizam no âmbito do sagrado, do demoníaco, da possessão, enfim, ela ganha uma acepção plenamente religiosa.

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Capítulo 2 - FORMADORES DO CAMPO TEÓRICO

Dalgalarrondo, Paulo Grupo A PDF Criptografado

Religião, psicopatologia e saúde mental

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FORMADORES DO

CAMPO TEÓRICO

Quem morre vai descansar na paz de Deus.

Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.

Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.

Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.

Deus, como entendê-lo?

Ele também não entende suas criaturas,

Condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.

Carlos Drummond de Andrade,

“Deus e suas criaturas” (In: Corpo)

OLHANDO PARA A SOCIEDADE E PARA A CULTURA

Em um passado longínquo

Nas várias sociedades humanas, a visão dominante sobre a religião e suas conseqüências para a vida dos homens tendeu, ao longo da história, a ser aquela adotada pelas hierarquias, sejam elas religiosas, políticas ou sociais. As versões oficiais e dominantes tenderam a ser quase sempre apologéticas. Os sacerdotes, teólogos e pensadores afirmam os dogmas, a certeza da existência e centralidade dos deuses e suas leis inexoráveis; a salvação e a felicidade (sejam elas terrenas ou celestiais) só sendo possíveis pela adoção das crenças e pela obediência às leis. Em particular, nas tradições cristã, islâmica e judaica, desde o final da Antigüidade, vários pensadores sutis e profundos, como Santo Agostinho, Anselmo, Abelardo,

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Capítulo 3 - Fazendo antropologia

Conrad Phillip Kottak Grupo A PDF Criptografado

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FAZENDO ANTROPOLOGIA

Métodos de pesquisa em antropologia cultural

Etnografia: a estratégia distintiva da antropologia

Aplicando a antropologia à cultura popular: Bones

Técnicas etnográficas

Observação e observação participante

Conversação, entrevistas e roteiros de entrevista

O método genealógico

Interlocutores culturais-chave

Histórias de vida

“Você tem feito escavações ultimamente?”

Pergunte ao seu professor quantas vezes ele ouviu essa pergunta. Em seguida, pergunte quantas vezes ele de fato participou de uma escavação. Lembre-se de que a antropologia tem quatro subcampos, dos quais apenas dois (arqueologia e antropologia biológica) exigem muita escavação, pelo menos no solo. É claro que os antropólogos culturais “desenterram” informações sobre estilos de vida variados, como fazem os antropólogos linguistas com as características da linguagem. Tradicionalmente, os antropólogos culturais têm executado uma variante sobre o tema de Jornada nas estrelas ao procurar, quando não

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Capítulo 6 - Sistemas políticos

Conrad Phillip Kottak Grupo A PDF Criptografado

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SISTEMAS POLÍTICOS

O que é “o político”?

Tipos e tendências

Bandos e tribos

Bandos de forrageio

Cultivadores tribais

O chefe de aldeia

Os “grandes homens”

Aplicando a antropologia à cultura popular: super-heróis

Irmandades pantribais

Política nômade

Chefias

Sistemas políticos e econômicos

Sistemas de status

O surgimento da estratificação

Os antropólogos têm em comum com os cientistas políticos o interesse em organização e sistemas políticos, mas, nesse caso, mais uma vez, a abordagem antropológica é global e comparativa e inclui os não Estados,* enquanto os cientistas políticos tendem a trabalhar com Estados-nação contemporâneos e recentes. Estudos antropológicos têm revelado uma variação substancial em poder, autoridade e sistemas jurídicos em diferentes sociedades. (O poder é a capacidade de exercer a própria vontade sobre a dos outros; autoridade é o uso formal, socialmente aprovado, do poder, por exemplo, por funcionários do governo.) (Ver Gledhill, 2000; Kurtz,

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Capítulo 1 - INTRODUÇÃO

Dalgalarrondo, Paulo Grupo A PDF Criptografado

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INTRODUÇÃO

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!

Por exemplo, por aquele manipanso

Que havia em casa, lá nessa, trazido de África,

Era feiíssimo, era grotesco,

Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer em um manipanso qualquer –

Júpiter, Jeová, a Humanidade –

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Fernando Pessoa (In: Poesias de Álvaro de Campos)

A primeira parte deste livro visa revisar criticamente a literatura sobre religião na sua interface com disciplinas como psicopatologia, psicologia e antropologia. Isso servirá de moldura teórica a uma reflexão sobre investigações empíricas desenvolvida na segunda parte do livro. Assim, praticamente toda a análise e reflexão deste livro tem em comum o tema da religião, articulada com distintos aspectos da saúde mental e de diferentes transtornos mentais.

Procede, portanto, indagar logo de início o que é, enfim, esta invenção humana1 chamada religião. Como se deve conceber hoje e em nosso meio a experiência religiosa? E, afinal, por que relacionar religião e psicopatologia? Que conexões existiriam entre a religião e os transtornos mentais? Existiriam relações necessárias ou, se não necessárias, importantes entre a religião e o campo da saúde mental?

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