111 capítulos
Medium 9788520435755

Estação de São Luís

Gilles Lapouge Editora Manole PDF Criptografado

Estação de São Luís

139

Estação de São Luís

Há meio século, fiz uma reportagem sobre o Brasil. Cismei de atravessar os estados do Nordeste de trem. Para conhecer um país, esse meio de locomoção parecia-me mais prático do que o avião. Fiz algumas anotações:

“Saio de São Luís, faço uma parada em Teresina, no interior do Piauí, antes de subir em direção ao litoral até Fortaleza. Dois dias para fazer esse percurso, talvez cinco, e também muitas lembranças: essa grande terra em demolição, o torpor das tardes no ruído das rodas de ferro, as conversas sonolentas com lenhadores e lavradores, e de tempos em tempos uma parada nas pequenas estações modorrentas, e depois o silêncio, como se tivéssemos chegado ao final dos tempos, ao ponto final do tempo.

O problema é que a estação de São Luís é inóspita. Ela não se revela facilmente e, quando a descobrimos, é bem difícil perceber, nessa espécie de abrigo, algo que se assemelhe a uma porta. Em seguida, basta uma espiadela para compreender que essa estação é desconfiada. Não lhe agrada o seu destino. Ela detesta os trens, os mecânicos, os condutores e os viajantes. Detesta as estações. Tem vergonha. Dá as costas para as suas plataformas e seus trilhos, como uma pessoa enraivecida não fala mais com o seu vizinho. Ela dissimula tudo o que pode revelar sua condição de estação: trilhos e guichês, balanças e sinalizações, cartazes turísticos, nada disso é visível. Ela faz de conta que é outra. Se ousasse, colocaria na sala de espera um pouco de grama, um monte de abacaxis, ou então bicicletas ou barcos de pesca para nos fazer pensar que só por distração os trens passam ali.

Ver todos os capítulos
Medium 9788520435755

Éden

Gilles Lapouge Editora Manole PDF Criptografado

E

Éden

Até hoje não sabemos onde fica o paraíso terrestre. No início, ele era situado na

Ásia, para os lados da manhã tranquila, na direção do nascer do Sol. Para a Bíblia, ele se localizava entre o Eufrates e o Tigre. O Preste João o transportou para a Índia. As águas do Indo e às vezes as do Ganges espelhavam suas pradarias.

No Renascimento, o jardim começa a se deslocar. Ele muda de continente. Dirige-se para o pôr do sol. Atravessa os mares. Os grandes navegadores o seguem.

Contudo, eles se enganaram: o jardim das delícias não se estendia para o Oriente, mas para o Ocidente. Escondera-se na floresta amazônica. Era um paraíso paciente: desde o início do mundo, ele esperava silenciosamente os conquistadores.

Cristóvão Colombo o descobre nas Antilhas. Ele anuncia a “boa nova” na carta dirigida a Fernando e Isabel, a Católica. Ele exulta. E anuncia ter chegado “em outro mundo”, no “lugar abençoado onde viviam os primeiros pais”.

Ele não está realmente tão surpreso assim, pois já esperava fazer uma grande descoberta. A sua cabeça estava repleta de miragens. Munido da incorreta geografia de Ptolomeu, ele não sabia muito bem com o que ia se deparar, mas sabia que seria algo extraordinário. Talvez desembarcasse nas ilhas do mar oceano onde as amazonas de Homero e de Heródoto se estabeleceram depois de um longo périplo no Cáucaso, na Capadócia e na África. Ou então veria o país no qual os ciclopes da Odisseia se refugiaram. Uma coisa era certa: ele colocaria os pés nas regiões fabulosas exploradas dois séculos antes por Marco Polo, em Catai (a China).

Ver todos os capítulos
Medium 9788520435755

Jean-Baptiste Debret

Gilles Lapouge Editora Manole PDF Criptografado

194

Dicionário dos apaixonados pelo Brasil

Janelar não é uma atividade anódina. Ela obedece a regras mudas, mas rigorosas. É uma função de tempo integral e que exige aprendizados. Janelar requer fineza, paciência, senso de tragédia e de ironia. É preciso também certa resistência física. Claro, sempre haverá algumas mocinhas sem juízo, mais preocupadas com a frivolidade do que com o amor, e que se contentam em aparecer de vez em quando em sua janela. Entretanto, aquelas que levam seu destino e seu ofício a sério não perdem seu tempo, nem sua dor, nem sua alma.

Janelar é um ofício. Os acidentes de trabalho são inúmeros. Os cotovelos que descansam no parapeito da janela durante as tardes acabam sofrendo. Eles se desgastam. Endurecem. E uma pele grossa se forma. A sua cor muda. Reconhece-se uma habituée da janela por esse traço: seus cotovelos são um pouco escuros. No caso de vício severo, forma-se um calo. Então é necessário apelar para a farmacopeia. As velhas senhoras fornecem as receitas. Elas aconselham esfregar o cotovelo, suavemente, mas durante longos minutos, com uma mistura de limão e açúcar.

Ver todos os capítulos
Medium 9788520435755

Palmares

Gilles Lapouge Editora Manole PDF Criptografado

P

Palmares

A condição do escravo, nas grandes plantações de cana de açúcar, é indigna. Órfãos de suas terras natais, separados de suas tribos e tristes pela perda de sua língua, eles trabalham e morrem. Muitos se resignam. Alguns se suicidam. Outros se rebelam, ainda que morram ou sejam supliciados no pelourinho. Alguns conseguem se reagrupar e organizam uma fuga que resulta em uma repressão implacável, ou na criação de um quilombo – também chamado de mocambo.

Um quilombo é um vilarejo livre que os negros em fuga criam longe das plantações, nas florestas mal conhecidas e impenetráveis. Esses quilombos geralmente têm uma vida bem curta. Os senhores de engenho, auxiliados por seus vigias, os destroem e os castigos continuam. Alguns, no entanto, conseguem durar. O mais célebre, e um dos mais antigos, foi o de Palmares. Ele desafiou as autoridades durante um século e contou com até 80 mil pessoas.

Palmares localiza-se no Nordeste, ao norte do curso inferior do rio São Francisco, no atual Estado de Alagoas. Nos últimos anos do século XVI, cerca de quarenta negros fogem de um dos maiores engenhos de açúcar de Pernambuco. Dirigem-se para as terras altas do interior, que são chamadas de palmares, pois são cobertas de espessas florestas de palmeiras. Os fugitivos distanciam-se do litoral.

Ver todos os capítulos
Medium 9788520435755

Capitais: Salvador, Rio, Brasília

Gilles Lapouge Editora Manole PDF Criptografado

68

Dicionário dos apaixonados pelo Brasil

Capitais: Salvador, Rio, Brasília

De tempos em tempos, o Brasil muda de capital. Nos primeiros anos, a capital é

Lisboa. A Terra da Vera Cruz, mesmo rebatizada Brasil, é tão decepcionante! Um continente indistinto, só o vazio, índios e poeira. Não vamos nomear um funcionário para governar desertos. Portugal gerencia a colônia à distância, preguiçosamente. Todos os pensamentos dos monarcas e todas as cobiças são para a Índia, para seus nativos catequizados por jesuítas, para seus tecidos preciosos e seus milênios. O Brasil aborrece Portugal. Ele não rende um centavo e os índios são às vezes desagradáveis. Em 1530, o rei João III, o Piedoso, aquele que estabelece a Inquisição em Portugal, se limita a retalhar o continente em quinze capitanias donatárias, de um comprimento de trinta a cem léguas portuguesas. O feliz donatário possui sobre seu território uma autoridade soberana. Ele nomeia os juízes, os funcionários. Distribui terrenos de acordo com sua vontade. Fixa os impostos.

Ver todos os capítulos

Visualizar todos os capítulos