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Favela

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Favela

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io

Estava progredindo em meu português. O jornal enviou-me para fazer uma reportagem em Santos, pois os operários do porto ameaçavam entrar em greve. Chovia muito naquele dia e, como tive de correr de escritório em escritório, acabei minha reportagem em um estado deplorável: molhado e com os cabelos grudados na cabeça. Mesmo assim, causei certo impacto em duas moças que também se aventuraram naquele dilúvio. Uma delas deu uma cotovelada na amiga e disse em voz bastante alta: “Olha, olha aquele rapaz. Ele tem uma cara esquisita”. Fiquei contente.

Pensei: pois é, nunca se sabe... Aproximei-me delas e elas foram embora.

Alguns dias mais tarde, encontrei uns amigos, professores franceses da Aliança

Francesa que na época ficava na praça Bráulio Gomes (ou então Largo Bráulio Gomes). Contei vantagem sobre o meu sucesso com as mulheres. E não é que duas moças de Santos tinham achado meu rosto esquisito? A minha pretensão me custou algumas zombarias. Fiquei sabendo que a palavra esquisito não tem o mesmo sentido da palavra em francês “esquis”. Se às vezes ela é empregada no sentido de

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Pierre Verger

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Pierre Verger

134. Turva

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136. Vermelha

135. Verde

Pierre Verger

Pierre Verger morava então em Salvador, no bairro Vila Americana, em um pequeno morro, e sua casa era vermelha. Ele morreu em fevereiro de 1996, com 94 anos.

Eu o conheci na década de 1970. Costumávamos passear juntos. A cidade era bonita, com seus dois níveis, um no porto e o outro no céu, com poeiras, verdes acinzentados, azuis e bronzes, salitres e trilhas de ferrugem, dourados negros, como ela tivesse acabado de sair do mar. Não conseguíamos andar rápido. Não dávamos três passos sem sermos abordados por um garoto, uma garota, uma vendedora de peixe, um pescador, uma puta ou um desocupado.

Conheci Verger na casa de seu amigo Jorge Amado. Ele me sugeriu assistir aos funerais de uma mãe de santo de quem gostava. À noite, fui encontrá-lo em um galpão, sobre uma colina. Tinha muita gente. O caixão estava sobre uma mesa. Era um caixão minúsculo, um caixão para uma boneca ou uma menina, mas não era uma boneca, era uma velha senhora de cem anos e não restava quase nada dela.

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Pecado da carne

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Pecado da carne

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cida apenas por um único documento, a famosa carta compulsória que foi lida por ocasião de um processo no tribunal. Ora, essa carta, Gilles Roques a relê com cuidado e fineza e ela lhe parece duvidosa. Eis o que ele diz:

“O documento de 1505 é escrito em uma língua muito mais jovem, como mostra seu vocabulário (Revue de linguistique romane, 1996). Percebi então que ela era constituída de pedaços de textos emprestados, entre outros, da História de uma viagem feita à terra do Brasil de Jean de Léry, publicada em 1578, e da Hidrografia de

Fournier, cuja primeira edição data de 1643. Nessas condições, podemos nos perguntar que crédito se pode dar a uma narrativa passavelmente rocambolesca, que

é o único documento sobre essa primeira expedição francesa ao Brasil [...]. Que razões podem ter os historiadores para continuar a ver em Paulmier de Gonneville o primeiro viajante francês ao Brasil?”

Sim, trata-se de um mistério histórico!

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Ifigênia e Orfeu

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Ifigênia e Orfeu

Quando morava em São Paulo, na década de 1950, lia muitos jornais. Jornais importantes, claro, que me informavam sobre o mundo. The Economist, The Times,

Le Monde, O Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil, Diários Associados, e até mesmo o antigo Jornal do Comércio, do Rio, jornal monumental e ultrapassado, inimigo de qualquer foto, e que parecia ter sido redigido e impresso cem anos antes, entre a chegada do rei de Portugal ao Brasil, no início do século XIX, e a proclamação da República no final do mesmo século.

O Jornal do Comércio era meu preferido. Levava-me ao passado, como as fadas fazem nos contos. Quando eu abria esse vasto cotidiano, respirava seu odor de trapos, de salitre e de tinta preta, pensava em Balzac, e procurava as últimas notícias: esperava saber que Victor Hugo se preparava para deixar Guernesey e se tornar um imigrante em Bruxelas; que o imperador dom Pedro II estava tão cansado por causa da guerra idiota com o Paraguai que seu amigo, o marechal Fonseca, acabou dizendo: “O velho não governa mais”; e sempre me parecia, lendo as “últimas notícias” do Jornal do Comércio, que a guerra de 1914-1918 ia estourar. Não estou brincando. Esse jornal não se dedicava muito ao presente. Ele compartilhava com uma parte da burguesia esclarecida brasileira da década de 1950 uma vasta indiferença pela modernidade. Depois, as coisas mudaram bastante. E, como o

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Cordel

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Dicionário dos apaixonados pelo Brasil

bem como aos seus próprios cansaços e misérias, às suas doenças, ele respondia com esse estoicismo heroico que opunha à injustiça das coisas.

Ele esperava, sem dúvida, que o soberbo e também miraculoso e luminoso tecido da vida se desfizesse. Habitava um mundo ultrapassado cujos mecanismos, estruturas, constâncias, regularidades e racionalidades, harmonias, ele continuava a desmontar, mas não via muito bem por que ele ainda vivia. Sonhava com outras sabedorias que não as da Europa. Sonhava com “pensamentos selvagens” e em seu esplendor, com os tupinambás, o budismo, mas permanecia “ocidental”. Não era desses intelectuais que um belo dia se esquecem do Ocidente para esposar de repente a sabedoria dos brâmanes ou dos bororos. Eu me dizia que algumas noites ele pensava no odor das florestas, nesse Brasil do qual se lembrava, segundo me dissera, “como de um perfume queimado”, nas cintilâncias dos rios da Amazônia, talvez nas grossas nuvens que andam acima do Planalto Central ou do Mato Grosso.

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