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Paulmier de Gonneville

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Dicionário dos apaixonados pelo Brasil

de 2007, a Convenção sobre as espécies ameaçadas, em Haia, decidiu proteger os elefantes de Botsuana, alguns corais e a Caesalpinia echinata (pau-brasil).

Em relação aos elefantes, a França aprovou. Em contrapartida, lamentou que a

Convenção tomasse medidas em favor do pau-brasil. É que ele não limita seus talentos somente à tintura. Também interessa à música. De todas as árvores da terra, o pau-brasil é aquele com o qual são moldados os melhores arcos de violino. Algumas centenas de empresas, nos Estados Unidos, na Inglaterra, na China, no

Brasil e principalmente na França, fazem arcos de alto nível.

Desde o século XVII, as virtudes musicais dessa madeira são reconhecidas, mas pouco utilizadas. Recorre-se, para moldar os arcos, ou às madeiras domésticas – teixo, freixo ou lariço –, ou a uma madeira da Guiana, a muirapinima, uma madeira tão densa que afunda na água. No final do século XVIII, os artesãos utilizam cada vez mais o pau-brasil. Por volta de 1860, os irmãos Tourte percebem as virtudes dele.

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Etanol

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-lhe meu desejo: ir até Teresina e depois, Fortaleza. Ele riu, sem maldade. Assobiou.

Depois, fez várias objeções. Observou que em determinado lugar a distância entre os trilhos mudava, pois outra rede era tomada. Disse-lhe que costumava viajar sobre trilhos de todos os formatos, que essa diferença não me incomodava, e me arrisquei a perguntar sobre os horários. Ele respondeu que nos vagões o calor era horrível e que a viagem seria longa, muito longa, dois ou talvez três dias; tudo bem, a duração não me assustava. Eu só queria saber quando o trem partiria, disse-lhe, olhando com um ar severo, através do vidro quebrado, os trilhos que brilhavam ao sol e uma locomotiva que não estava nem um pouco enferrujada. O funcionário reconheceu então que o trem para Teresina partira dois dias antes.

Deixei-me intimidar. Abandonei meu plano. Se tivesse insistido, acho que o funcionário acabaria admitindo que havia outro trem. Provavelmente não teria me confessado em que momento esse outro trem passaria, mas bastava eu me instalar na plataforma, bem pertinho dos trilhos, com minha bagagem, e esperar pacientemente até que um trem aparecesse. Sim, posso até dedicar algumas boas horas para encontrar um trem, mas esperar, sozinho, nessa estação sombria e até mesmo descontente, como um lorde, um marajá ou um presidente, um trem construído só para mim, um trem especial, talvez com um tapete de veludo vermelho para subir nele, não, isso já é pedir muito, e foi de ônibus que acabei percorrendo o deserto, esse belo e sublime deserto do Nordeste.”

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Escravos

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Escravos

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Escravos

Os Estados Unidos e a África do Sul foram cruéis com os negros. Quando acabaram de tratá-los como escravos, impuseram-lhes o apartheid ou a segregação. O

Brasil, ao contrário, sempre foi gentil. Graças ao espírito português que é carinhoso, tranquilo e impróprio ao racismo, os africanos e as africanas descarregados pelos navios negreiros em Salvador e Recife tiveram sorte.

No entanto, essa sorte revelou-se uma faca de dois gumes, pois foram enforcados, espancados e assassinados. A verdade é que não foram mais bem tratados no

Brasil do que em Nova Jersey. Alguns acadêmicos pretendem que no Brasil foi pior.

Vamos nos abster de distribui medalhas de racismo a este ou aquele. O certo é que os negros capturados na África e vendidos em Salvador ou no Rio de Janeiro foram infelizes como negros. O Brasil aguardou até o ano de 1888 para abolir a escravidão por meio da Lei Áurea, e a Inglaterra ainda teve de ameaçar. Ele libertou bruscamente esses milhões de presos. E nada previu para ajudá-los a serem livres. Foi uma catástrofe. O sociólogo brasileiro Thales de Azevedo fulmina: “Lincoln abriu

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Acolhida

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Acolhida

das à sua descendência. Ela deposita o mel em pequenos potes de cera, o que impõe ao apicultor procedimentos complicados. Os preços do mel nativo são mais elevados do que os do mel comum. Além do mais, a comercialização da fauna doméstica foi por muito tempo proibida no Brasil. Felizmente, desde 2004, essas restrições foram retiradas em relação às abelhas.

Esses inconvenientes são, contudo, compensados por qualidades que as abelhas europeias não possuem. O mel da abelha nativa é uma farmácia fabulosa, que contém toda espécie de remédios. Ele trata dos mais variados sofrimentos, queimaduras, ferimentos. É mais ativo do que o mel comum contra as bactérias Escherichia,

Salmonella spp, Pseudomonas e Streptococcus. Alguns estudos acadêmicos estabeleceram que uma aplicação de mel nativo destrói em 24 horas o Bacillus anthracis, o antraz, essa terrível infecção glandular que faz parte do arsenal de alguns grupos terroristas.

Outra superioridade da abelha nativa sobre a da Europa: sua maior habilidade para a polinização. Por exemplo, algumas espécies de orquídeas ou de bromélias só suportam ser fecundadas pelas abelhas pertencentes à tribo Euglossini, magníficos insetos revestidos de cores metálicas que vão do verde ao vermelho. No Brasil, são chamadas de abelhas das orquídeas. O mesmo acontece com o maracujá. É claro que a abelha europeia-brasileira visita de bom grado a flor (Passiflora edulis), mas, em razão de seu reduzido tamanho, ela não tem acesso à parte fêmea da flor, o que limita o alcance de suas carícias. Ao contrário, a abelha nativa mamangava (da tribo Bombini) é grande, peluda e alcança facilmente essa parte da flor do maracujá.

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Vazio

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V

Vazio

O novo país é imenso. E também despovoado. Hoje, ele é considerado um gigante demográfico, com seu crescimento fulgurante, seus 200 milhões de habitantes, suas cidades gigantescas, mas é uma ilusão. O Brasil é um vasto oceano no qual flutuam algumas ilhas. A quase totalidade das populações se empilha sobre essas ilhotas. Em 1975, a metade dos espaços brasileiros era virgem de homens, contando apenas com um único habitante por quilômetro quadrado.

Gilles Lapouge

Nasceu em Digne-les-Bains, na França, em 1923.

Ele é escritor e jornalista. Vindo para o Brasil em 1951, colabora desde então para o jornal

O Estado de São Paulo, mesmo após retornar à

França, onde mora até hoje. Entre seus livros estão

Équinoxiales, que narra uma jornada solitária no nordeste brasileiro, La Mission des frontières, um épico barroco situado na selva amazônica no século XVII, e outros. Suas obras mais recentes incluem L’Encre du voyageur (que recebeu o prêmio Femina de ensaios) e La Légende de la géographie.

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