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Capítulo 19. A interpretação

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A INTERPRETAÇÃO

Quando as coisas estão se esfacelando, o ato mais intencional talvez seja sentar-se e ficar quieto... Nem sempre é necessário, além do mais, proferir a verdade.

Henry Miller

O menino de três anos voltou da escola e pediu a mãe em casamento.

Freud revirou-se na tumba e, mesmo feliz da longevidade de seus insights, lamentou não poder ser o padrinho. A mãe tinha duas opções principais.

A primeira era responder “sinto muito, eu sou casada com o teu pai, tu

és apenas uma criança, crianças não casam, mas tu crescerás e, um dia, quando fores adulto, poderás amar outra mulher que não eu”. Poderia acrescentar: “os amores não são pra já”, citando Chico Buarque. Ela, por exemplo, também preferia ter casado com o Chico Buarque.

A mãe no caso fez diferente e aceitou o filho em casamento. Antes perguntou o que era casar para ele, que respondeu assim: piscou os olhinhos e se aninhou nos braços dela. Bocejou. Dormiu. Sonhou. Não teve outro ritual, não teve cerimônia, Freud não foi o padrinho e voltou a dormir profundamente como em um poema do Bandeira. Mas a cena deu uma lição de psicanálise e poesia. E de interpretação.

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Capítulo 68. Contar: o furto saudável

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CONTAR: O FURTO SAUDÁVEL

Sou um psicanalista. De crianças, também. Às vezes, eu as atendo com seus pais. Com seus pais, eu ouço e conto. Com elas, eu brinco. É que as crianças se expressam brincando, o que inclui desenhar. As palavras não são ainda o seu carro-chefe. Há outro mediador que ofereço para elas: contos. Com palavras, é claro, mas vestidas de histórias e ritmos. Portanto, livros. Eles estão na sala de espera e adentram o consultório; seguido, participam da consulta como um brinquedo, um desenho.

Quando uma criança brinca, ela diz tudo o que quer dizer e não conseguia antes de brincar. Ela diz o que a alegra, o que a assusta, o que a apavora. O brinquedo é a sua palavra. Teve uma que construiu uma casa com Lego. Brincou de construir e deu atenção especial ao quarto dos pais.

Ela tinha medo do que se passava lá dentro. Ao brincar, disse, e, ao dizer, passou a conviver com o medo que já não era uma coisa sem nome, dessas que apavoram e, por isso, trágica. Brincar com as coisas – ou contá-las – é como disse Freud, tudo o que podemos fazer, ou seja, transformar grandes tragédias (não ditas) em pequenas desgraças (ditas agora).

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Capítulo 26. Brincar - o espaço lúdico

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BRINCAR – O ESPAÇO LÚDICO

Mesclar bobagens com revezes, pois é bom

Sair do sério, às vezes.

Horácio, tradução de Décio Pignatari

Eu jogava futebol de botão com meus amigos. Manhãs ou tardes inteiras, dependia do turno do colégio. Não era o jogo em si, mas o entorno: era dentro. A gente inventava campeonatos, histórias para os jogadores, fofocas, Deus e o Diabo na terra do sol. Havia pátios para serem as canchas.

A gente aprendia da vida e da morte quase tanto quanto no colégio.

Tanto quanto no colégio. Mais do que no colégio. Aquilo era uma escola de vida para nós e para o dramaturgo e psicanalista Eduardo Pavlovsky que, anos depois, eu pude ler. Ele contou a mesma história, vivida um pouco antes na Argentina. Pavlovsky também passou a infância jogando futebol de botão com seus amigos. Inventavam histórias, fofocas, campeonatos para os jogadores.

Ele foi adiante e cunhou o conceito de espaço lúdico. Trata-se de um lugar abstrato, cavado na infância, entre crianças. Na vida adulta, funcionará como um reservatório da saúde mental. O dramaturgo emprestou a história ao psicanalista que, no seu trabalho, estimulou a criação de lugares

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Capítulo 72. Heitor, a criança sábia

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HEITOR, A CRIANÇA SÁBIA

Ele tem seis anos e se chama Heitor. Estuda na escola Theodoro Bogen, de Canoas. Fui lá contar histórias. Esperava-me na porta e foi logo me passando o número do seu telefone com o endereço. Esqueceu-se do nome da rua, mas disse que não tinha problema, era só eu ligar antes de vir que ele descia para abrir a porta. Queria que eu fosse à sua casa para continuar contando histórias, pois seus pais eram muito ocupados.

Na hora da palestra, sentou-se na primeira fila. Desfiei, então, um de meus truques: dizer que tenho vergonha; em geral, faz as crianças ajudarem, ou seja, prestarem atenção. Dificilmente um adulto tem bala na agulha para entreter uma criança por muito tempo. Basta elas olharem para dentro que verão algo mais fascinante, mas o Heitor olhava para fora e foi logo dizendo que eu não precisava ter vergonha, tomasse uma água que passava. Tomei, e me passou que eu ainda precisava de alguns truques diante dos mais sábios. Na hora das perguntas, ele já tinha a primeira:

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Capítulo 1. Ok, o contrato

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OK, O CONTRATO

O contrato – essas combinações antes de iniciar o tratamento – é fundamental na psicanálise. Desde Freud, não passou despercebido pelos autores. O contrato oferece referências de tempo e espaço que são básicas desde bebê. Proporciona limites e colabora com a organização do caos no inconsciente. Do indivíduo à civilização, somos frutos de certas regras.

Elas também nos contêm.

Como disse Etchegoyen, a partir de Freud, o contrato é feito para não ser obedecido; porém, essa desobediência é o que mais interessa. Como um sonho, a via régia, um ato falho, o acesso ao desconhecido. Como uma radiografia da falta a ser compreendida, ou seja, preenchida. Podemos falar das referências do contrato: tempo de sessão, frequência, honorários, férias, etc. E variantes que costumam ser individuais ou da dupla (o campo), construídas a partir de experiências sempre originais.

De minha parte, cuido com o que possa acontecer fora da sessão. Costumo ser firme nos limites de espaço e tempo oferecidos além do setting.

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