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Capítulo 76. Davi e golias

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DAVI E GOLIAS

Eu fui a uma banca de TCC. Qual a importância disso?

Trabalhos de conclusão de curso existem no mundo acadêmico do mundo inteiro. Em todos os cursos, da graduação à pós. São eventos meio fechados que interessam a seus protagonistas e suas famílias, quando muito. Alguns rendem frutos à comunidade, mas a colheita costuma ser feita bem depois.

Eu não era protagonista e nem da família. Poderia alegar que o assunto escolhido era original: a utilização terapêutica dos contos. Balela! Desde a noite dos tempos, os contos têm uma função terapêutica, era uma vez e será todos os dias. Quem conta e ouve se sente melhor, mas tudo é história, em que as personagens principais são as pessoas. Gente é sempre importante e não falta a essa trama. Cleonice, a autora do trabalho, é filha de agricultores. Desde pequena precisou ajudar os pais na plantação de milho. No verão, ficava atrás de um arbusto para se esconder do sol. Os cães a protegiam de perigos como cobras e aranhas. A seca era farta, a terra pouca e se acabou. A família foi morar na Vila do Arrabalde, onde a Cleonice passou a infância e permanece até hoje. Ela comeu o pão que o diabo amassou e, algumas vezes, não se alimentou direito. Dias antes da formatura, escapou por pouco de uma bala perdida. Tinha ido a um bar para assistir pela TV a inauguração da Arena, mas nunca deixou de

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Capítulo 40. Um scott para freud

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UM SCOTT PARA FREUD

Sou da turma que arrisca ao acreditar que a verdade faz bem.

Do autor

Carlito avisou que Paulo Scott estava lançando um livro de poemas chamado Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Mesmo sem poder ir, o encomendei. Chegou no mesmo dia outra obra que eu havia pedido:

Freud – uma biografia ilustrada, de Octave Mannoni. Era maio. Fim de semana. Os poemas e a biografia adentraram o sábado.

Sempre gostei de leituras simultâneas, especialmente a mistura de poesia e prosa. Complementam-se, e eu descanso de uma na outra. Maravilhar-me com o poético e achar a prosa para contá-lo parece aproximar-se da completude. Já venho acasalando outros autores ao longo da vida de leitor: Bandeira e Nietzsche; Manoel de Barros e Jung; Edmund Wilson e Ferreira Gullar. Ninguém é completo, nem na arte.

Há horas não rolava tanta liga entre dois gêneros. A poesia de Scott

é daquelas sem concessões e encontra uma verdade psíquica desde os primeiros versos:

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Capítulo 24. No carnaval da simbolização

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NO CARNAVAL DA SIMBOLIZAÇÃO

Ted Boy Marino morreu, e eu acusei o golpe. Ele foi meu ídolo nos anos sessenta, me deu até o direito de ir dormir mais tarde. Ele foi o meu primeiro Dom Quixote ao me fazer sonhar acordado com inimigos imaginários. Nas lutas do telecatch, eu sorria quando Ted vencia e chorava quando perdia, o que, felizmente, era raro. Desabei quando “quebraram” seu braço, pedi para engessarem o meu também. Eu o imitava dia e noite.

Eu e toda a torcida do Flamengo, do Grêmio, do Inter.

Hoje seria como o UFC com Anderson Silva, mas não era. Tinha uma diferença: as lutas livres faziam um faz de conta, um “como se”. Até o menino de cinco anos sabia que não eram de verdade. Adultos e crianças, fingíamos juntos. O UFC não põe aspas para quebrar braços, machucar pernas, arrancar pedaços da orelha.

São anos de surra no símbolo, na brincadeira, na possibilidade de imaginar. A realidade vem sendo imposta direto e cedo demais. Há excesso de videogame e falta de convivência. Lutamos contra o desconhecido, que pulsa com violência dentro de nós. Seria mortal, caso não tivesse a festa de consertar, mas o conserto depende de estar com o outro, fingindo, tocando, brincando, fazendo de conta. Da ilusão surge a criatividade, e tudo fica realmente mais vivo.

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Capítulo 19. A interpretação

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A INTERPRETAÇÃO

Quando as coisas estão se esfacelando, o ato mais intencional talvez seja sentar-se e ficar quieto... Nem sempre é necessário, além do mais, proferir a verdade.

Henry Miller

O menino de três anos voltou da escola e pediu a mãe em casamento.

Freud revirou-se na tumba e, mesmo feliz da longevidade de seus insights, lamentou não poder ser o padrinho. A mãe tinha duas opções principais.

A primeira era responder “sinto muito, eu sou casada com o teu pai, tu

és apenas uma criança, crianças não casam, mas tu crescerás e, um dia, quando fores adulto, poderás amar outra mulher que não eu”. Poderia acrescentar: “os amores não são pra já”, citando Chico Buarque. Ela, por exemplo, também preferia ter casado com o Chico Buarque.

A mãe no caso fez diferente e aceitou o filho em casamento. Antes perguntou o que era casar para ele, que respondeu assim: piscou os olhinhos e se aninhou nos braços dela. Bocejou. Dormiu. Sonhou. Não teve outro ritual, não teve cerimônia, Freud não foi o padrinho e voltou a dormir profundamente como em um poema do Bandeira. Mas a cena deu uma lição de psicanálise e poesia. E de interpretação.

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Capítulo 26. Brincar - o espaço lúdico

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BRINCAR – O ESPAÇO LÚDICO

Mesclar bobagens com revezes, pois é bom

Sair do sério, às vezes.

Horácio, tradução de Décio Pignatari

Eu jogava futebol de botão com meus amigos. Manhãs ou tardes inteiras, dependia do turno do colégio. Não era o jogo em si, mas o entorno: era dentro. A gente inventava campeonatos, histórias para os jogadores, fofocas, Deus e o Diabo na terra do sol. Havia pátios para serem as canchas.

A gente aprendia da vida e da morte quase tanto quanto no colégio.

Tanto quanto no colégio. Mais do que no colégio. Aquilo era uma escola de vida para nós e para o dramaturgo e psicanalista Eduardo Pavlovsky que, anos depois, eu pude ler. Ele contou a mesma história, vivida um pouco antes na Argentina. Pavlovsky também passou a infância jogando futebol de botão com seus amigos. Inventavam histórias, fofocas, campeonatos para os jogadores.

Ele foi adiante e cunhou o conceito de espaço lúdico. Trata-se de um lugar abstrato, cavado na infância, entre crianças. Na vida adulta, funcionará como um reservatório da saúde mental. O dramaturgo emprestou a história ao psicanalista que, no seu trabalho, estimulou a criação de lugares

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