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DESEJO NÃO É PECADO, MAS…

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DESEJO NÃO É PECADO, MAS…

(Uma rua chamada pecado, de Elia Kazan, 1951)

O filme de Elia Kazan sobre o clássico drama de Tennessee Williams,

Um bonde chamado desejo (texto antes agraciado com o importante

Prêmio Pulitzer de 1948)1, foi um desdobramento previsível diante da grande repercussão atingida pela primeira montagem da peça na

Broadway, em 1947. Kazan dirigira essa encenação, o ator Marlon

Brando a estrelara (diz-se que o impacto de seu desempenho foi tão grande que deu um especial destaque ao personagem Stanley Kowalsky, até maior do que o atingido pela protagonista Blanche Du Bois, sob a responsabilidade de Jessica Tandy), os atores Kim Hunter (fazendo a personagem Stella, irmã de Blanche) e Karl Malden (representando

Mitch, amigo de Stanley e namorado de Blanche por algum tempo) também participaram dela.

Essa forte memória que deu destaque a Marlon Brando na montagem teatral incidiu sobre o talento (em especial, uma dicção anti-clássica) e

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WUNDERBARE HARMONIE (O canto do mar, de Alberto Cavalcanti, 1953)

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WUNDERBARE HARMONIE

(O canto do mar, de Alberto Cavalcanti, 1953)

Alberto Cavalcanti (1897-1982), nascido no Brasil, fez carreira, como diretor, na Avant-Garde francesa, dos anos 1920, e no cinema inglês, a partir da década seguinte. Ele realizou dezenas de filmes entre 1925 e

1967, em francês, inglês, alemão e italiano, mas apenas três em português! A limitada dimensão nacional dessa obra resultou em barreiras enfrentadas durante o período em que Cavalcanti tentou voltar a viver entre nós (1949/1954), culminando com seu retorno para a Europa, onde morreu1.

O canto do mar retomou En rade (À deriva), filme francês de

Cavalcanti, de 1927. Refilmar aqui um clássico europeu dele mesmo foi um ato quase exibicionista e uma bofetada nos donos da Companhia

Cinematográfica Vera Cruz, que lhe dificultaram o trajeto brasileiro entre os anos 1940 e 1950. Eles o convidaram para ser produtor geral da empresa, mas não acatavam suas sugestões, transformando-o num executivo sem poder. Alberto se afastou dali em 1951, e filmou Simão, o caolho, em 1952, O canto do mar, em 1953, e Mulher de verdade, em

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A PEQUENEZ DO NAZISMO: O TRIUNFO DO ATOR

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A PEQUENEZ DO NAZISMO: O TRIUNFO DO ATOR

(O grande ditador, de Charles Chaplin, 1940)

“Gostaria de ajudar — se possível — judeus, o gentio… negros… brancos.”

(Discurso final do barbeiro judeu, confundido com

Hynkel, desfecho de O grande ditador)

O grande ditador, de Charles Chaplin, fez e continua a fazer o público rir de Adolf Hitler e Benito Mussolini (apresentados como Adenoid

Hynkel e Benzini Napaloni, nomes paródicos) desde seu lançamento, em 1940 — quando os EEUU ainda não tinham entrado em guerra contra a Alemanha nazista1. Essa reação derivava, e ainda deriva, tanto dos acontecimentos narrativos (desencontros, correrias, batalha no estilo pastelão) quanto do grande talento histriônico dos atores responsáveis por esses e outros personagens do filme, nos planos de voz, expressão facial e coreografias. Chaplin, como ator, encarna o ditador e um veterano da Primeira Guerra Mundial, barbeiro judeu — blasfêmia inominável para o racismo nazista, produzida num momento em que esse racismo vigorava intensamente em parte do mundo. Ainda

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RIR DA TRÁGICA CIDADE

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RIR DA TRÁGICA CIDADE

(A beleza e a verdade de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, 1971)

A abertura visual do filme Morte em Veneza traz um enigma: o que

é mesmo que se vê, ao som do Adagietto da Sinfonia n° 5, de Gustav

Mahler?

A mancha de cor, aos poucos, se deixa identificar — a imensidão do mar, a fumaça que sai de um barco em pleno curso, talvez uma metáfora visual da frágil vida humana, longe de qualquer porto seguro e se desfazendo no ar, retomando barcos fundadores dos imaginários grego, judaico e cristão: a nave de Ulisses, o bote dos argonautas, a arca de Noé, os barcos de Pedro e seus companheiros 1. O século XIX tratou de apresentar outros barcos muito intensos (Hermann Melville e Arthur Rimbaud), que invadiram o século XX (Fernando Pessoa), até chegarmos a um Ulysses sem nau (James Joyce) e a um astronauta com destino incerto (Stanley Kubrick)2.

1  Cf.:AUERBACH, Erich. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental.

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SER ALGUÉM (A hora e vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, 1965)

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SER ALGUÉM

(A hora e vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, 1965)

Guimarães Rosa abre o conto “A hora e vez de Augusto Matraga” com uma definição de seu personagem principal:

Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira.

Ou Nhô Augusto — o homem — nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.

Esse trecho começa com uma negação absoluta: Matraga não é nem o que ele e os demais supõem que Augusto seja. E esse nada é traduzido em seguida: um sobrenome, um pai evocado por patente honorífica e aumentativo, mais propriedades, o personagem tendo o prenome antecedido por um “Nhô” (Senhor) e sintetizado como

“o homem”.

O leitor é colocado diante desse nada do poder, portanto, desde o começo da narração. Um poder exercido num momento e num lugar minúsculos — nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da

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