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RIR DA TRÁGICA CIDADE

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RIR DA TRÁGICA CIDADE

(A beleza e a verdade de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, 1971)

A abertura visual do filme Morte em Veneza traz um enigma: o que

é mesmo que se vê, ao som do Adagietto da Sinfonia n° 5, de Gustav

Mahler?

A mancha de cor, aos poucos, se deixa identificar — a imensidão do mar, a fumaça que sai de um barco em pleno curso, talvez uma metáfora visual da frágil vida humana, longe de qualquer porto seguro e se desfazendo no ar, retomando barcos fundadores dos imaginários grego, judaico e cristão: a nave de Ulisses, o bote dos argonautas, a arca de Noé, os barcos de Pedro e seus companheiros 1. O século XIX tratou de apresentar outros barcos muito intensos (Hermann Melville e Arthur Rimbaud), que invadiram o século XX (Fernando Pessoa), até chegarmos a um Ulysses sem nau (James Joyce) e a um astronauta com destino incerto (Stanley Kubrick)2.

1  Cf.:AUERBACH, Erich. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental.

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LONGE DOS “NOBRES HERÓIS UM BRASILEIRO MAIS OU MENOS COMO EU E VOCÊ (Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

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LONGE DOS “NOBRES HERÓIS

UM BRASILEIRO MAIS OU MENOS COMO EU E VOCÊ

(Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

A rapsódia Macunaíma, de Mário de Andrade, publicada em 1928, é considerada marco na Literatura modernista brasileira. Ela acumulou uma fortuna crítica extensa e diversificada, abrangendo de Roger Bastide a Wilson Martins e Haroldo de Campos, mais Cavalcanti Proença, Gilda de Mello e Souza, Telê Ancona Porto Lopes e muitos outros 1.

Quando Joaquim Pedro de Andrade realizou o filme homônimo, parte dessa valorização estava consolidada. Um desafio para ele foi evitar abordar tal clássico de ruptura cedendo às facilidades da adaptação literal ou apenas laudatória. Isso significaria renunciar à ousadia provocativa do texto modernista e à tradição reflexiva do Cinema Novo.

Joaquim Pedro, ainda jovem (nasceu em 1932), participara da construção do Cinema Novo, com, dentre outros, “Couro de gato” (1960, incluído depois na obra coletiva Cinco vezes favela, de 1962), Garrincha, alegria do povo (1962) e O padre e a moça (1966), inspirado em poema de Carlos Drummond de Andrade2.

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SEM FUTURO: A POLIVALÊNCIA DO MAL

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SEM FUTURO: A POLIVALÊNCIA DO MAL

(A marca da Maldade, de Orson Welles, 1958)

O ator Charlton Heston (1923 — 2008) foi um grande astro do cinema norte-americano, conhecido especialmente pelo trabalho em

épicos bíblicos como Os dez mandamentos (1956, dirigido por Cecil

B. DeMille) e Ben-Hur (1959, dirigido por William Wyler) e também com grande sucesso, depois, no primeiro filme da série O planeta dos macacos (1968, dirigido por Franklin J. Schaffner). Apesar da forte presença do ator nesse universo, setores da crítica o julgavam um canastrão e seu papel de lobista a favor do livre comércio de armas de fogo, assumido na maturidade, granjeou-lhe forte antipatia entre aqueles que se opunham a essa perigosa prática.

Em 1958, Heston, ator principal nas filmagens de Touch of Evil, interferiu para que Orson Welles — já contratado como ator do filme

— também fosse encarregado de sua direção. O poder do astro junto

à produção da obra garantiu essa nova situação, embora Welles, avaliado como grande renovador do cinema desde o clássico Cidadão

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EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO (Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

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EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO

(Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

O filme Central do Brasil aborda fim e começo de vidas,: a idosa professora aposentada Dora (elogiado desempenho de Fernanda

Montenegro, indicada para o Oscar de Melhor Atriz por ele) cuida do menino órfão Josué (bonita estreia do ator Vinícius de Oliveira), até que o jovem encontre sua família; e o Brasil, tão sofrido em violência e miséria — mas dotado de potencialidades. Isso se dá a partir de um país metropolitano, violentamente degradado (o mundo da estação ferroviária Central do Brasil, o caos citadino do Rio de Janeiro), contraponto ao país interiorano povoado por gente boa (os carinhosos irmãos de Josué, Isaías e Moisés, interpretados pelos ótimos atores

Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira). Nesses termos, o filme configura um retorno do Brasil a si mesmo, um bom caráter extraviado, reconduzido à linha, desvencilhando-se dos acidentes de percurso a que a modernidade urbana o levara.

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A NECESSIDADE DA MEMÓRIA

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A NECESSIDADE DA MEMÓRIA

(Hiroshima meu amor, de Alain Resnais, 1959)

A primeira imagem de Hiroshima meu amor é de difícil entendimento: massas se movem, pouco a pouco se definem como mulher e homem nus, corpos em cópula, belos recortes visuais de torsos enlaçados, em texturas preparadas especialmente para serem filmadas

— possíveis camadas de óleo, espuma ou areia sobre a pele —, entrega e posse recíprocos. E suas vozes dizem:

— Você não viu nada em Hiroshima, nada.

— Eu vi tudo em Hiroshima, tudo.

Entre tudo e nada, o feminino e o masculino, a condição humana, o intenso encontro amoroso e a sofrida cidade onde estão ou onde cada um esteve isoladamente, as cidades que o homem e a mulher são, como é sintetizado no desfecho do filme:

— Seu nome é Hiroshima, Japão.

— Seu nome é Nevers, França.

Cada cidade é seus homens e suas mulheres, suas belezas e suas dores, suas memórias incontornáveis — por mais que se queira esquecer.

A ação imediata do filme se passa em um dia, entre a noite do encontro amoroso e a noite da separação. Ela é francesa, ele é japonês.

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