50 capítulos
  Título Autor Editora Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta
Medium 9788562938399

NÃO HÁ PARAÍSO (O céu de Suely, de Karim Aïnouz, 2006)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

NÃO HÁ PARAÍSO

(O céu de Suely, de Karim Aïnouz, 2006)

A abertura de O céu de Suely é quase uma colagem, cenas filmadas com recursos técnicos deliberadamente frágeis, próprios a amadores, para lembrar um tempo de descobertas e esperanças da personagem

Hermila: amor pelo namorado (Mateus); primeira experiência sexual plena com ele — primeira na vida dela —, sobre um pano azul, simbólico céu; engravidar e fugir para a cidade grande com aquele homem.

Mas o que se segue imediatamente na narração, agora nas condições de linguagem que o filme assume como suas, é o retorno da moça para a cidade natal (Iguatu), sem Mateus, com o filho e a pesada mala, cenário de estrada esburacada, insegurança.

O filme traz o interior do Brasil, um nordeste semi-identificado

(Iguatu fica no Ceará, mas o filme não indica explicitamente esse

Estado): urbano, pobre e difícil. E a cidade grande (São Paulo, onde

Hermila morou durante algum tempo com o pai de seu filho) é outra dificuldade, evocada pela carestia: “Não dava para ficar”. Estamos diante de uma saída frustrada, de um retorno para o lugar de onde se fugiu, enfrentando olhares hostis, que questionam e cobram. É como se todo lugar fosse incômodo e perspectiva perdida, espaço que não se consegue ocupar. A imagem de nordeste como única região-problema do Brasil não sobrevive, tal qual na canção “Alfômega”, de Gilberto Gil

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

GENI DESNUDA (Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor, 1972)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

GENI DESNUDA

(Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor, 1972)

Peca só por prazer,

Vive para pecar.

(Adelino Moreira, “Meu vício é você”).

Quando Arnaldo Jabor dirigiu Toda nudez será castigada (1972), já havia uma tradição consolidada de adaptar Nelson Rodrigues para o cinema: Meu destino é pecar, de Manuel Peluffo (1952), O boca de ouro, de Nelson Pereira dos Santos (1963), O beijo, de Flávio Tambellini

(1965), Bonitinha mas ordinária, de Billy Davis (1963), Asfalto selvagem, de J. B. Tanko (1964), A falecida, de Leon Hirszman (1965), e

Engraçadinha depois dos 30, de J. B. Tanko (1966). Jabor realizara quatro filmes antes, no universo do Cinema Novo: O circo, curta-metragem de 1965; A grande cidade, de 1966; A opinião pública, documentário de 1967; e Pindorama, ficção histórica de 1970. A presença teatral de

Nelson era muito forte no Brasil ao menos desde meados dos anos

1940, tanto no plano de encenações quanto na receptividade da crítica ao nível excepcional de seus textos — mereceu elogios de nomes tão expressivos quanto Manuel Bandeira e Gilberto Freyre —, um pouco abalada, junto a públicos de esquerda, por falas de apoio a personagens da ditadura de 1964/1985, divulgadas pelo dramaturgo na Imprensa 1.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

WUNDERBARE HARMONIE (O canto do mar, de Alberto Cavalcanti, 1953)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

WUNDERBARE HARMONIE

(O canto do mar, de Alberto Cavalcanti, 1953)

Alberto Cavalcanti (1897-1982), nascido no Brasil, fez carreira, como diretor, na Avant-Garde francesa, dos anos 1920, e no cinema inglês, a partir da década seguinte. Ele realizou dezenas de filmes entre 1925 e

1967, em francês, inglês, alemão e italiano, mas apenas três em português! A limitada dimensão nacional dessa obra resultou em barreiras enfrentadas durante o período em que Cavalcanti tentou voltar a viver entre nós (1949/1954), culminando com seu retorno para a Europa, onde morreu1.

O canto do mar retomou En rade (À deriva), filme francês de

Cavalcanti, de 1927. Refilmar aqui um clássico europeu dele mesmo foi um ato quase exibicionista e uma bofetada nos donos da Companhia

Cinematográfica Vera Cruz, que lhe dificultaram o trajeto brasileiro entre os anos 1940 e 1950. Eles o convidaram para ser produtor geral da empresa, mas não acatavam suas sugestões, transformando-o num executivo sem poder. Alberto se afastou dali em 1951, e filmou Simão, o caolho, em 1952, O canto do mar, em 1953, e Mulher de verdade, em

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

COMPARTILHANDO BELEZA E DOR (Cidade Baixa, de Sérgio Machado, 2005)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

COMPARTILHANDO BELEZA E DOR

(Cidade Baixa, de Sérgio Machado, 2005)

Sérgio Machado, no filme Cidade Baixa, faz uma leitura informal e enxuta de temas presentes em alguns dos romances soteropolitanos de Jorge Amado: a prostituição pobre e a força do desejo (Suor, 1934), o boxe como sobrevivência para rapazes corajosos e sem dinheiro

(Jubiabá, 1935), os meninos de rua em pequenas contravenções (Capitães de areia, 1937) e o mundo de marinheiros e seus companheiros de viagem (Mar morto, 1936) reaparecem nas andanças dos marítimos

Naldinho e Deco e da prostituta Karinna, despojados da religiosidade afro-brasileira, presente naquele universo literário1. Trabalhando com a linguagem do cinema, Machado atinge resultados próprios, que se referem ao tempo em que o filme foi feito. As questões sociais, que

Jorge, nos anos 1930, vinculava tanto à esperança de revolução, surgem de maneira menos alvissareira no discurso de Sérgio, embora o amor retenha experiências de humanidade e alguma perspectiva de futuro.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

QUEM COME QUEM? QUEM COME QUEM? (Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, 1971)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

QUEM COME QUEM?

QUEM COME QUEM?

(Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, 1971)

O historiador Fernando Novais e os co-autores do livro Cotidiano e vida privada na América portuguesa (volume inaugural da série

“História da vida privada no Brasil”, que Novais dirigiu em seu conjunto) nos ensinaram que não existiu Brasil, como identidade nacional nem outra, antes do final do século XVIII, que o conceito de “brasileiro” não designava, até então, a identidade de um grupo nacional em formação, e sim as pessoas que praticavam o comércio do pau-brasil 1.

Mas a invenção da identidade Brasil não se deu de uma hora para outra, nem sobre um vazio. Talvez, sim, sobre um esvaziamento, produzido pelo holocausto dos povos indígenas e africanos, que foi também holocausto de europeus: estes se matavam entre si, inclusive no continente de origem, muitas vezes em nome de Deus, em guerras religiosas ou em disputas por territórios, conflitos que, por vezes, se misturavam.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

POESIA SALVA DO INCÊNDIO (O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, 1965)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

POESIA SALVA DO INCÊNDIO

(O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, 1965)

O filme O desafio, de Paulo Cesar Saraceni, foi lançado em 1965, um ano depois de se iniciar longo período ditatorial na política brasileira que, todavia, ainda não aparentava, naquele momento, ter fôlego suficiente para a extensa existência de mais de 20 anos. Ele constrói artisticamente o clima desse começo de ditadura tal como sentido pelo jovem jornalista

Marcelo (papel do ator Oduvaldo Vianna Filho), seus desencontros amorosos com a bela amante Ada (uma sempre elegante senhora burguesa, no desempenho da atriz Isabella) casada com outro homem (o empresário Mário, interpretado pelo ator Sérgio Brito), o travamento social e político que o novo regime impôs aos projetos de mudança do mundo e de realização pessoal — escrever um livro que contribuísse para aquela mudança —, antes assumidos pelo jornalista e que a paralisia de seu relacionamento amoroso com aquela mulher mimetiza tão claramente.

O diretor do filme já era um cineasta experiente quando realizou esse trabalho, antecedido pelo elogiado longa-metragem Porto das Caixas, de 1962, e os curtas-metragens Caminhos, de 1957, e Arraial do Cabo, de 1960. Saraceni estudou no Centro Experimental de Cinematografia, em Roma, graças a prêmio obtido com o filme de 1960. Artista de esquerda que vivera o período cultural e político anterior a O desafio e esmagado pela ditadura (deu apoio à realização do filme Cinco vezes favela, obra coletiva, produzida pelo CPC/UNE em 1962), Saraceni findou apresentando, nesse novo trabalho, uma espécie de longa confissão de derrota, fortemente marcada pela falta de perspectivas, que o verso final da canção “Tempo de guerra” (de Edu Lobo e Gianfrancesco

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

LONGE DA POLTRONA (Lamarca, de Sérgio Rezende, 1994)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

LONGE DA POLTRONA

(Lamarca, de Sérgio Rezende, 1994)

O cartaz de divulgação desse filme inclui um logotipo muito sugestivo, também usado na apresentação (título que antecede os créditos na abertura) da obra: o nome de Lamarca recortado sobre uma bandeira do Brasil. A imagem evoca a bandeira nacional ao vento, bandeira estraçalhada, uma identificação entre Brasil e Lamarca.

Um documentário fake que abre, numa tensa reunião de militares, a narração, com uma sequência de slides em preto e branco sobre o personagem, com o rosto do ator Paulo Betti, aponta uma pretensão de realismo e didatismo. Mas Lamarca mescla a isso cargas simbólicas muito intensas, dramatizando o que já é dramático: o trajeto do guerrilheiro rumo à morte que, já sabemos, ocorrerá tristemente, como um sacrifício; a coragem e a ousadia do personagem sem futuro pessoal imediato, diante de inimigos muito mais fortes; um futuro que existe, sim, na superação da ditadura, futuro que reabilitará Lamarca como figura humana e política de peso — e o filme é um exemplo de tal recuperação, que foi realizado em 1994.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

SER ALGUÉM (A hora e vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, 1965)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

SER ALGUÉM

(A hora e vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, 1965)

Guimarães Rosa abre o conto “A hora e vez de Augusto Matraga” com uma definição de seu personagem principal:

Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonsão Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira.

Ou Nhô Augusto — o homem — nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.

Esse trecho começa com uma negação absoluta: Matraga não é nem o que ele e os demais supõem que Augusto seja. E esse nada é traduzido em seguida: um sobrenome, um pai evocado por patente honorífica e aumentativo, mais propriedades, o personagem tendo o prenome antecedido por um “Nhô” (Senhor) e sintetizado como

“o homem”.

O leitor é colocado diante desse nada do poder, portanto, desde o começo da narração. Um poder exercido num momento e num lugar minúsculos — nessa noitinha de novena, num leilão de atrás de igreja, no arraial da

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

REITERAR A DOR? (Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, 2007)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

REITERAR A DOR?

(Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, 2007)

O filme Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, se dedica a um grande campo temático: a ação dos dominicanos contra a ditadura brasileira no final dos anos 1960 do século XX, a extrema violência governamental no país durante esse período, os grandes sofrimentos impostos aos que ousaram se opor a ela. Tal universo é tratado através de recursos narrativos que procuram reproduzir os acontecimentos com a máxima verossimilhança, o que inclui torturantes cenas de tortura. Essas posturas se desdobram numa tendência a renunciar a arte (o que importa, anti-aristotelicamente, é a fidelidade ao real, ao que aconteceu), numa estética da identificação por parte do espectador que transforma a narração numa espécie de jornada reiterativa, confirmatória.

Muitos ótimos filmes retomaram grandes temas, reelaborando-os cinematograficamente. Um exemplo é O sétimo selo, de Ingmar Bergman

(1956), que aborda a Europa medieval e a arte popular como força crítica — e isso antes da divulgação internacional do livro clássico de

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

ADEUS AO FIM DO MUNDO (Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

ADEUS AO FIM DO MUNDO

(Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

Bacurau é nordeste do Brasil e mundo, macho e fêmea (como o demonstra a central figura hermafrodita do personagem Lunga, interpretado por Silvero Pereira, marginal redentor, Tirésias e Corisco 1 reconfigurados, com unhas pintadas e capacidade de mobilização),

“isso e aquilo”, de acordo com a canção “A voz do vivo”, de Caetano

Veloso, gravada por Gilberto Gil em 1969, entre a prisão dos dois, após o AI-5, e seu exílio:

“Quem já esteve na lua, viu.

Quem já esteve na rua também viu.

Quanto a mim é isso e aquilo.

Eu estou muito tranquilo

Pousado no meio

Do planeta

Girando ao redor do sol”.2

1  Tirésias é personagem mitológico grego, cego, que viveu como homem e como mulher, personagem na tragédia Edipo Rei.SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Geir Campos. São

Paulo, Abril, sem data.

Corisco foi cangaceiro, ligado ao Grupo de Lampião, personagem do filme Deus e o

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO (Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO

(Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

O filme Central do Brasil aborda fim e começo de vidas,: a idosa professora aposentada Dora (elogiado desempenho de Fernanda

Montenegro, indicada para o Oscar de Melhor Atriz por ele) cuida do menino órfão Josué (bonita estreia do ator Vinícius de Oliveira), até que o jovem encontre sua família; e o Brasil, tão sofrido em violência e miséria — mas dotado de potencialidades. Isso se dá a partir de um país metropolitano, violentamente degradado (o mundo da estação ferroviária Central do Brasil, o caos citadino do Rio de Janeiro), contraponto ao país interiorano povoado por gente boa (os carinhosos irmãos de Josué, Isaías e Moisés, interpretados pelos ótimos atores

Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira). Nesses termos, o filme configura um retorno do Brasil a si mesmo, um bom caráter extraviado, reconduzido à linha, desvencilhando-se dos acidentes de percurso a que a modernidade urbana o levara.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

O RETORNO DO VOLUNTARISMO CONSERVADOR (Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro , de José Padilha 2010)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

O RETORNO DO VOLUNTARISMO CONSERVADOR

(Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro, de José Padilha 2010)

O filme Tropa de Elite, dirigido por José Padilha em 2007 e comentado anteriormente, alcançou grande sucesso de público e crítica. Chegou a merecer homenagens, aparentemente espontâneas, no carnaval carioca seguinte a seu lançamento: pessoas de diferentes faixas etárias surgiram em público com a roupa negra básica do BOPE, grupo policial que a obra expôs de forma detalhada em sua face francamente dedicada à missão profissional (muito sofrida, pelas agruras resultantes da absoluta honestidade) no combate ao crime e à corrupção.

O talento de Padilha nos campos de montagem e direção de atores

(com destaque para Wagner Moura, no papel do Capitão Nascimento, mais um bom elenco de apoio) e múltiplos prêmios em festivais contribuíram para que significados francamente conservadores da película de 2007 merecessem pouca atenção. O BOPE findou caracterizado como um Esquadrão da Morte redimido, “do Bem”, com honestidade que legitimava o espetacular justiçamento de traficantes e violências contra quem tivesse relações pessoais com eles (mesmo que não participasse do tráfico: namoradas, parentes), inclusive torturas realizadas ou ameaçadas — torturas reabilitadas no Brasil posterior à ditadura de 1964/1985, depois de denunciadas em tantos filmes sobre esse período1. O argumento dos Direitos Humanos apareceu na condição de veleidade própria a pessoas caracterizadas como coniventes com a corrupção — universitários irresponsáveis, de classe média, consumidores de drogas e integrantes de ONGs demagógicas, suportes mais ou menos involuntários para o tráfico e outros crimes.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

ENCONTRAR E SER ENCONTRADO (Agulha no palheiro, de Alex Viany, 1953)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

ENCONTRAR E SER ENCONTRADO

(Agulha no palheiro, de Alex Viany, 1953)

Era uma vez o Segundo Pós-Guerra, na Itália, no Brasil e no mundo.

Os estúdios cinematográficos italianos estavam em parte destruídos pelos bombardeios, além de desmoralizados pela associação que tiveram com o derrotado fascismo (a Cinecittà foi fundada por Mussolini, em

1937). Os brasileiros mal tinham sido construídos, e já ruíam a olhos vistos — defeitos especiais num capitalismo estabanado. Hollywood continuava de vento em popa, depois de atuar no lado vencedor da guerra, reforçando a hegemonia estadunidense, mas abrigando o trabalho de grandes diretores — John Ford, Fritz Lang e outros.

A experiência da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São

Paulo, naufragava a todo vapor, em meados dos anos 1950; apesar de alguns de seus filmes terem alcançado sucesso até internacional, com destaque para O Cangaceiro, sem esquecer de Sinhá Moça e

Tico-Tico-no Fubá, dentre outros. Um dos fatores para o fracasso da empresa foi o contrato com a Columbia Pictures, que distribuía a produção da Vera Cruz e ficava com os lucros, sem responsabilidades de investir. O amadorismo administrativo (compadrios entre conterrâneos), o autoritarismo contra gente talentosa e experiente, como o diretor e produtor Alberto Cavalcanti, e o simulacro de um star system também contribuíram para aquela derrocada.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

(Aleluia, Gretchen, de Sylvio Back, 1976)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

DITADURAS E BOVINIZAÇÃO:

ALEMANHA/BRASIL, 1933/1946

(Aleluia, Gretchen, de Sylvio Back, 1976)

Aleluia, Gretchen foi realizado por Sylvio Back em 1976, momento em que a ditadura civil-militar brasileira experimentava uma sutil passagem de seu auge (governo Emílio Garrastazu Médici, intensa propaganda mesclada a atrocidades explícitas, que incluíam arrocho salarial torturante, exploração publicitária de eventos como conquista da Copa do Mundo, em 1970, e Sesquicentenário da Independência, em 1972) para o reconhecimento de seu declínio (governo Ernesto

Geisel, crise econômica internacional, com a alta dos preços do petróleo, anúncio de distensão “lenta, segura e gradual” — expressões da propaganda oficial)1.

Dois personagens desse filme vivem experiências de bovinização explícita. Antes de vir para o Brasil, a jovem alemã Heike fora levada pela própria mãe (Frau Lotte) para servir como fêmea de um oficial nazista da SS, que a repassou sexualmente para vários outros colegas, na suposta geração de uma raça superior. E Eurico, brasileiro casado com outra filha de Frau Lotte — Gudrun —, foi castrado em sessão de tortura por remanescentes do nazismo, usando fardas da SS e condecorações — “autêntica operação blitzkrieg”, na definição de um deles

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

ENFIM UMA PRINCESA DE CARNE (Carlota Joaquina, princesa do Brasil, de Carla Camurati, 1995)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

ENFIM UMA PRINCESA DE CARNE

(Carlota Joaquina, princesa do Brasil, de Carla Camurati, 1995)

Quem assistiu às primeiras entrevistas de Carla Camurati para a televisão, durante as filmagens de Carlota Joaquina, princesa do Brasil

(programas “Jô Soares” e “Hebe Camargo”, dentre outros), tinha motivos para ficar um pouco desanimado. Carla falava com entusiasmo sobre lances tediosamente pitorescos da vida de Carlota e seus parentes (João VI, marido e rei de Portugal; Maria, enlouquecida sogra e ex-rainha lusitana; Pedro de Alcântara, filho, futuro proclamador da Independência do Brasil, imperador desse novo estado nacional e, posteriormente, rei de Portugal), fazendo temer por um resultado que não fosse, em termos artísticos, além de uma razoável aula de telecurso, quando muito.

Concluído e lançado o filme, descobriu-se, com alívio, que Camurati era meio fraca de entrevista e muito boa de câmera: Carlota Joaquina, princesa do Brasil é interessante, ágil, quase sempre bem realizado artisticamente e, em muitos momentos, aproximou-se da melhor tradição carnavalizadora do cinema brasileiro visto como histórico — Terra em

Ver todos os capítulos

Carregar mais