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POLICARPO & POLICARPO (Policarpo Quaresma, Herói do Brasil, de Paulo Thiago, 1998)

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POLICARPO & POLICARPO

(Policarpo Quaresma, Herói do Brasil, de Paulo Thiago, 1998)

O romance Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Afonso Henriques de Lima Barreto, publicado originalmente em 1915, chegou a ser comparado, pelo importante historiador Manuel de Oliveira Lima, ao Dom

Quixote, de Miguel de Cervantes.

Mesmo com algum desconto em relação ao paralelo (afinal, o que pode ser cotejado com o magnífico livro de Cervantes?), não resta dúvida sobre Triste fim de Policarpo Quaresma ser um ótimo texto, frequentemente indicado — e com justiça — para alunos brasileiros de diferentes graus, e que interessa ao leitor culto em geral. Muitos jovens de nosso país, no meio da correria para prestarem o vestibular, desde 1998, assistiram ao filme Policarpo Quaresma, Herói do

Brasil, de Paulo Thiago, pensando que resolveriam o problema de ler o romance.

Filmar um monumento desses é sempre se expor às cobranças.

Não vale a pena, todavia, agir como se o livro e o filme devessem (ou mesmo pudessem!) ser uma mesma coisa, ou como se o diretor do filme estivesse obrigado a “repetir” o romance. Filmar um escrito literário

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RIR DA TRÁGICA CIDADE

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RIR DA TRÁGICA CIDADE

(A beleza e a verdade de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, 1971)

A abertura visual do filme Morte em Veneza traz um enigma: o que

é mesmo que se vê, ao som do Adagietto da Sinfonia n° 5, de Gustav

Mahler?

A mancha de cor, aos poucos, se deixa identificar — a imensidão do mar, a fumaça que sai de um barco em pleno curso, talvez uma metáfora visual da frágil vida humana, longe de qualquer porto seguro e se desfazendo no ar, retomando barcos fundadores dos imaginários grego, judaico e cristão: a nave de Ulisses, o bote dos argonautas, a arca de Noé, os barcos de Pedro e seus companheiros 1. O século XIX tratou de apresentar outros barcos muito intensos (Hermann Melville e Arthur Rimbaud), que invadiram o século XX (Fernando Pessoa), até chegarmos a um Ulysses sem nau (James Joyce) e a um astronauta com destino incerto (Stanley Kubrick)2.

1  Cf.:AUERBACH, Erich. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental.

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A ARTE VENCE O MEDO

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A ARTE VENCE O MEDO

(O sétimo selo, de Ingmar Bergman, 1956)

Antes de assistir a esse filme, vi, nos anos 60, fotogramas de algumas de suas cenas (belos enquadramentos de paisagens e personagens, impressionantes claro-escuros), em livros e revistas sobre Cinema europeu. A imagem da Morte, personagem interpretada pelo ator Bengt

Ekerot, com sua maquiagem muito branca e uma roupa colante e preta, junto da grande capa, jogando xadrez com o cavaleiro Antonius Block

(o ator Max Von Sidow), intrigava-me, possivelmente, porque eu era mais acostumado às tradições cinematográficas marcadas pela pretensão a algum vínculo direto com o social — Neo-Realismo, Nouvelle

Vague, Cinema Novo.

Quando conheci O sétimo selo, nos anos 70, a surpresa foi outra:

Bergman lida com a Morte através dos demais personagens, misturando serenidade e medo, tentativa de postergar a partida final e certeza da derrota, a sobrevivência cotidiana e os rituais de dominação, pequenas rebeliões e gestos de submissão, saídas críticas e possibilidades de beleza. Fala, afinal de contas, da vida! O que parecia, naqueles fotogramas, apenas fantasia enigmática revela-se, no filme, uma realidade complexa, objeto de densa reflexão e atenta a relações sociais.

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POESIA SALVA DO INCÊNDIO (O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, 1965)

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POESIA SALVA DO INCÊNDIO

(O Desafio, de Paulo Cesar Saraceni, 1965)

O filme O desafio, de Paulo Cesar Saraceni, foi lançado em 1965, um ano depois de se iniciar longo período ditatorial na política brasileira que, todavia, ainda não aparentava, naquele momento, ter fôlego suficiente para a extensa existência de mais de 20 anos. Ele constrói artisticamente o clima desse começo de ditadura tal como sentido pelo jovem jornalista

Marcelo (papel do ator Oduvaldo Vianna Filho), seus desencontros amorosos com a bela amante Ada (uma sempre elegante senhora burguesa, no desempenho da atriz Isabella) casada com outro homem (o empresário Mário, interpretado pelo ator Sérgio Brito), o travamento social e político que o novo regime impôs aos projetos de mudança do mundo e de realização pessoal — escrever um livro que contribuísse para aquela mudança —, antes assumidos pelo jornalista e que a paralisia de seu relacionamento amoroso com aquela mulher mimetiza tão claramente.

O diretor do filme já era um cineasta experiente quando realizou esse trabalho, antecedido pelo elogiado longa-metragem Porto das Caixas, de 1962, e os curtas-metragens Caminhos, de 1957, e Arraial do Cabo, de 1960. Saraceni estudou no Centro Experimental de Cinematografia, em Roma, graças a prêmio obtido com o filme de 1960. Artista de esquerda que vivera o período cultural e político anterior a O desafio e esmagado pela ditadura (deu apoio à realização do filme Cinco vezes favela, obra coletiva, produzida pelo CPC/UNE em 1962), Saraceni findou apresentando, nesse novo trabalho, uma espécie de longa confissão de derrota, fortemente marcada pela falta de perspectivas, que o verso final da canção “Tempo de guerra” (de Edu Lobo e Gianfrancesco

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SEM FUTURO: A POLIVALÊNCIA DO MAL

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SEM FUTURO: A POLIVALÊNCIA DO MAL

(A marca da Maldade, de Orson Welles, 1958)

O ator Charlton Heston (1923 — 2008) foi um grande astro do cinema norte-americano, conhecido especialmente pelo trabalho em

épicos bíblicos como Os dez mandamentos (1956, dirigido por Cecil

B. DeMille) e Ben-Hur (1959, dirigido por William Wyler) e também com grande sucesso, depois, no primeiro filme da série O planeta dos macacos (1968, dirigido por Franklin J. Schaffner). Apesar da forte presença do ator nesse universo, setores da crítica o julgavam um canastrão e seu papel de lobista a favor do livre comércio de armas de fogo, assumido na maturidade, granjeou-lhe forte antipatia entre aqueles que se opunham a essa perigosa prática.

Em 1958, Heston, ator principal nas filmagens de Touch of Evil, interferiu para que Orson Welles — já contratado como ator do filme

— também fosse encarregado de sua direção. O poder do astro junto

à produção da obra garantiu essa nova situação, embora Welles, avaliado como grande renovador do cinema desde o clássico Cidadão

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O CINEMA EM PATCHWORK

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O CINEMA EM PATCHWORK

(Para Wong Foo — Obrigada por Tudo! Julie Newmar, de Biban Kidron, 1995)

Uma tradição folclórica estadunidense é o patchwork, costura com retalhos, empregada para confecção de roupa de cama e mesa e outras peças artesanais. No mundo da indústria cultural, esse procedimento foi reapropriado, com maior ou menor sucesso, tanto para fins de moda como, noutras linguagens artísticas, na dinâmica de mesclar diferentes elementos narrativos e poéticos em repertórios já conhecidos do público.

O filme Para Wong Foo — Obrigada por Tudo! Julie Newmar, que tem drag queens como personagens centrais,adota essa estratégia, a partir de várias fontes: retoma a tradição dos road movies (O Selvagem da Motocicleta, Easy Rider, Encurralado, Thelma & Louise etc.), importante gênero do cinema norte-americano, já atualizado por personagens drag queens na comédia dramática australiana Priscila, A Rainha do

Deserto, dirigida por Stephan Elliot, passa por perto de fantasias de formação, parábolas ou quase contos de fadas, como O Mágico de Oz, de Victor Fleming, Richard Thorpe e King Vidor, e Bagdá Café, de Percy

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A PEQUENEZ DO NAZISMO: O TRIUNFO DO ATOR

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A PEQUENEZ DO NAZISMO: O TRIUNFO DO ATOR

(O grande ditador, de Charles Chaplin, 1940)

“Gostaria de ajudar — se possível — judeus, o gentio… negros… brancos.”

(Discurso final do barbeiro judeu, confundido com

Hynkel, desfecho de O grande ditador)

O grande ditador, de Charles Chaplin, fez e continua a fazer o público rir de Adolf Hitler e Benito Mussolini (apresentados como Adenoid

Hynkel e Benzini Napaloni, nomes paródicos) desde seu lançamento, em 1940 — quando os EEUU ainda não tinham entrado em guerra contra a Alemanha nazista1. Essa reação derivava, e ainda deriva, tanto dos acontecimentos narrativos (desencontros, correrias, batalha no estilo pastelão) quanto do grande talento histriônico dos atores responsáveis por esses e outros personagens do filme, nos planos de voz, expressão facial e coreografias. Chaplin, como ator, encarna o ditador e um veterano da Primeira Guerra Mundial, barbeiro judeu — blasfêmia inominável para o racismo nazista, produzida num momento em que esse racismo vigorava intensamente em parte do mundo. Ainda

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EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO (Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

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EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO

(Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

O filme Central do Brasil aborda fim e começo de vidas,: a idosa professora aposentada Dora (elogiado desempenho de Fernanda

Montenegro, indicada para o Oscar de Melhor Atriz por ele) cuida do menino órfão Josué (bonita estreia do ator Vinícius de Oliveira), até que o jovem encontre sua família; e o Brasil, tão sofrido em violência e miséria — mas dotado de potencialidades. Isso se dá a partir de um país metropolitano, violentamente degradado (o mundo da estação ferroviária Central do Brasil, o caos citadino do Rio de Janeiro), contraponto ao país interiorano povoado por gente boa (os carinhosos irmãos de Josué, Isaías e Moisés, interpretados pelos ótimos atores

Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira). Nesses termos, o filme configura um retorno do Brasil a si mesmo, um bom caráter extraviado, reconduzido à linha, desvencilhando-se dos acidentes de percurso a que a modernidade urbana o levara.

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ADEUS AO FIM DO MUNDO (Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

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ADEUS AO FIM DO MUNDO

(Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

Bacurau é nordeste do Brasil e mundo, macho e fêmea (como o demonstra a central figura hermafrodita do personagem Lunga, interpretado por Silvero Pereira, marginal redentor, Tirésias e Corisco 1 reconfigurados, com unhas pintadas e capacidade de mobilização),

“isso e aquilo”, de acordo com a canção “A voz do vivo”, de Caetano

Veloso, gravada por Gilberto Gil em 1969, entre a prisão dos dois, após o AI-5, e seu exílio:

“Quem já esteve na lua, viu.

Quem já esteve na rua também viu.

Quanto a mim é isso e aquilo.

Eu estou muito tranquilo

Pousado no meio

Do planeta

Girando ao redor do sol”.2

1  Tirésias é personagem mitológico grego, cego, que viveu como homem e como mulher, personagem na tragédia Edipo Rei.SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Geir Campos. São

Paulo, Abril, sem data.

Corisco foi cangaceiro, ligado ao Grupo de Lampião, personagem do filme Deus e o

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O RETORNO DO VOLUNTARISMO CONSERVADOR (Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro , de José Padilha 2010)

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O RETORNO DO VOLUNTARISMO CONSERVADOR

(Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro, de José Padilha 2010)

O filme Tropa de Elite, dirigido por José Padilha em 2007 e comentado anteriormente, alcançou grande sucesso de público e crítica. Chegou a merecer homenagens, aparentemente espontâneas, no carnaval carioca seguinte a seu lançamento: pessoas de diferentes faixas etárias surgiram em público com a roupa negra básica do BOPE, grupo policial que a obra expôs de forma detalhada em sua face francamente dedicada à missão profissional (muito sofrida, pelas agruras resultantes da absoluta honestidade) no combate ao crime e à corrupção.

O talento de Padilha nos campos de montagem e direção de atores

(com destaque para Wagner Moura, no papel do Capitão Nascimento, mais um bom elenco de apoio) e múltiplos prêmios em festivais contribuíram para que significados francamente conservadores da película de 2007 merecessem pouca atenção. O BOPE findou caracterizado como um Esquadrão da Morte redimido, “do Bem”, com honestidade que legitimava o espetacular justiçamento de traficantes e violências contra quem tivesse relações pessoais com eles (mesmo que não participasse do tráfico: namoradas, parentes), inclusive torturas realizadas ou ameaçadas — torturas reabilitadas no Brasil posterior à ditadura de 1964/1985, depois de denunciadas em tantos filmes sobre esse período1. O argumento dos Direitos Humanos apareceu na condição de veleidade própria a pessoas caracterizadas como coniventes com a corrupção — universitários irresponsáveis, de classe média, consumidores de drogas e integrantes de ONGs demagógicas, suportes mais ou menos involuntários para o tráfico e outros crimes.

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ENCONTRAR E SER ENCONTRADO (Agulha no palheiro, de Alex Viany, 1953)

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ENCONTRAR E SER ENCONTRADO

(Agulha no palheiro, de Alex Viany, 1953)

Era uma vez o Segundo Pós-Guerra, na Itália, no Brasil e no mundo.

Os estúdios cinematográficos italianos estavam em parte destruídos pelos bombardeios, além de desmoralizados pela associação que tiveram com o derrotado fascismo (a Cinecittà foi fundada por Mussolini, em

1937). Os brasileiros mal tinham sido construídos, e já ruíam a olhos vistos — defeitos especiais num capitalismo estabanado. Hollywood continuava de vento em popa, depois de atuar no lado vencedor da guerra, reforçando a hegemonia estadunidense, mas abrigando o trabalho de grandes diretores — John Ford, Fritz Lang e outros.

A experiência da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São

Paulo, naufragava a todo vapor, em meados dos anos 1950; apesar de alguns de seus filmes terem alcançado sucesso até internacional, com destaque para O Cangaceiro, sem esquecer de Sinhá Moça e

Tico-Tico-no Fubá, dentre outros. Um dos fatores para o fracasso da empresa foi o contrato com a Columbia Pictures, que distribuía a produção da Vera Cruz e ficava com os lucros, sem responsabilidades de investir. O amadorismo administrativo (compadrios entre conterrâneos), o autoritarismo contra gente talentosa e experiente, como o diretor e produtor Alberto Cavalcanti, e o simulacro de um star system também contribuíram para aquela derrocada.

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POEIRA VIVA (Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, 1963)

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POEIRA VIVA

(Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, 1963)

O filme Vidas secas é muito fiel à obra literária com o mesmo título, escrita por Graciliano Ramos e publicada em 1938, durante outro período de ditadura na história do Brasil (Estado Novo, que durou de 1937 a 1945). A extrema fidelidade ao romance se manifesta na capacidade de recriar seu entrecho em imagens e sons. Os gemidos do carro de bois (um veículo que não é visto em nenhuma cena), no prólogo e no epílogo do filme, construíram, com linguagem de cinema, um dos principais temas do romance: O que é ser um ser humano? Essas criaturas são seres humanos? A pergunta sobre a humanidade de tais pessoas não pode ser resolvida por uma desmedida ênfase apenas especular na cadela Baleia, figura importante no romance e no filme. Ela está nos horizontes de reflexão sobre o mundo de sentimentos muito humanos e fantasias que os personagens Fabiano, Nha Vitória e seus dois filhos

(chamados “os meninos”) experimentam .

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SEM DEUS — A IMPOSSÍVEL FELICIDADE (Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, 2002)

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SEM DEUS — A IMPOSSÍVEL FELICIDADE

(Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, 2002)

Cidade de Deus é um filme que evidencia preciosismos de virtuose em muitas passagens narrativas.

O personagem Cabeleira (o ator Jonathan Haagensen) e seus dois companheiros de pequena contravenção — Alicate (o ator Jefechander

Suplino) e Marreco (o ator Renato de Souza) — formavam o “Trio

Ternura”. Eles roubavam caminhões de gás, para distribuir o produto do assalto entre os moradores do bairro, por exemplo. Fugitivos da polícia, no início do filme, ficam escondidos em árvore muito alta. Uma grande gota de orvalho escorre de uma folha, sugerindo citação visual enviesada da clássica canção “A felicidade”, de 1959, de Tom Jobim e

Vinícius de Morais:

A felicidade é como a gota

De orvalho numa pétala de flor:

Brilha tranquila,

Depois, de leve, oscila

E cai como uma lágrima de amor.

Essa brilhante canção, com uma preciosa melodia, desdobrada em harmonias e metáforas verbais igualmente requintadas, integrou a trilha sonora de Orfeu negro (também conhecido como Orfeu de carnaval), de Marcel Camus (1959), e nos lembra uma tradição temática do cinema brasileiro ou feito no Brasil por estrangeiros: imagens da favela e da pobreza urbana. Embora o filme desse diretor francês seja uma produção franco-ítalo-brasileira, a repercussão internacional da obra e o peso de sua excepcional trilha sonora (além das magistrais peças de Jobim e Morais, outras canções igualmente magníficas de

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PODEROSAS MULHERES

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PODEROSAS MULHERES

(Levada da Breca, de Howard Hawks, 1938)

Levada da Breca é um exemplo destacado das comédias amalucadas

(screwball comedies) no cinema norte-americano dos anos 30: nada parece funcionar nos eixos e a personagem de Katharine Hepburn, a rica herdeira Susan Vance, faz de tudo para não deixar o pacato paleontólogo Dr. David Huxley (o ator Cary Grant) em paz e conquistá-lo amorosamente. A desvairada energia de Susan e a excessiva quietude de David sugerem uma complementaridade libidinosa particular: a potência vem dela. O homem precisa ser muito provocado (excitado) para atender às demandas da fêmea, que se expressam como excesso de atividade e desejo atropelador. A paz é mais de cemitério que outra coisa, não merece ser mantida. E o macho parece gostar da situação, que o retira do imobilismo, apesar das confusões — as demandas eróticas são dele também, talvez menos conscientes.

Trata-se de um erotismo difuso muito peculiar, como se o sexo estivesse longe dali o tempo todo. Mas a própria energia alucinante da ação e algumas sugestões simbólicas dispersas no filme — o osso do brontossauro (falo adormecido), que aparece, some e retorna, e a fuga da onça (a feroz maciez da libido, tema indireto de uma canção muito posterior de Roberto e Erasmo Carlos: “Um leão está solto nas ruas”) — indicam que o desejo está a todo vapor e produzindo efeitos

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SEM REVOLUÇÃO — O RETORNO DA CLASSE MÉDIA (Tropa de elite, de José Padilha, 2007)

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SEM REVOLUÇÃO — O RETORNO

DA CLASSE MÉDIA

(Tropa de elite, de José Padilha, 2007)

O livro clássico Brasil em tempo de cinema, de Jean-Claude Bernardet, analisa vários filmes seminais do Cinema Novo a partir da angústia de classe média diante da miséria reinante no país 1. Personagens tão importantes quanto Antonio das Mortes (o ator Maurício do Vale), em

Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha; o motorista

Gaúcho (o ator Átila Iório) e o soldado Mário (o ator Nelson Xavier), de Os fuzis (1964), de Ruy Guerra; e o jornalista Marcelo (o ator

Oduvaldo Vianna Filho), de O desafio (1965), de Paulo César Saraceni, representam aquela tensão, entre a consciência das relações de poder, a miséria reinante no país e a situação de cada um daqueles homens: nem tão privilegiada, nem tão degradada, intelectuais à sua maneira.

É um quadro organizado ao redor dos projetos reformistas do governo

João Goulart, abortados pela ditadura de 1964.

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