26 capítulos
  Título Autor Editora Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta
Medium 9788562938399

O BELO DOCUMENTO (Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, 1964/1984)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

O BELO DOCUMENTO

(Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, 1964/1984)

É preciso identificar a beleza de Cabra marcado para morrer: o diretor

Eduardo Coutinho investe em um universo da emoção, que vem tanto das memórias dos narradores que ele filmou, quanto das memórias dele mesmo, explicitadas em sua presença física nas várias cenas do filme, visual e vocalmente, na condição de narrador e entrevistador, além da obra ser uma retomada de experiência sua anterior: o filme homônimo, iniciado em 1964, sob o patrocínio do Centro Popular de

Cultura da União Nacional de Estudantes (CPC/UNE), e interrompido em abril daquele ano pelo nascimento da ditadura.

Eduardo Coutinho introduz, portanto, elementos perturbadores no gênero documentário, assumido também como trabalho com a beleza.

O filme não se pretendeu revelação de uma realidade que falasse por si, pois resultou de várias opções de um diretor (escolha de tema, definição de entrevistados, questões colocadas), e também das construções que esses narradores fizeram com seus pensamentos, com seus gestos, com suas expressões faciais e tonalidades de voz. Além de aparecer em cena — filmando, entrevistando, dirigindo —, Eduardo ainda teve o requinte narrativo de preservar, na montagem final, várias tensões dos entrevistados com ele: desde a primeira aparição de Abraão, filho mais velho da narradora central (a viúva de João Pedro Teixeira, Elizabete), até a fala final dessa mulher, que continuou a argumentar mesmo depois que o diretor se despediu e anunciou o encerramento das filmagens.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

ENCONTRAR E SER ENCONTRADO (Agulha no palheiro, de Alex Viany, 1953)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

ENCONTRAR E SER ENCONTRADO

(Agulha no palheiro, de Alex Viany, 1953)

Era uma vez o Segundo Pós-Guerra, na Itália, no Brasil e no mundo.

Os estúdios cinematográficos italianos estavam em parte destruídos pelos bombardeios, além de desmoralizados pela associação que tiveram com o derrotado fascismo (a Cinecittà foi fundada por Mussolini, em

1937). Os brasileiros mal tinham sido construídos, e já ruíam a olhos vistos — defeitos especiais num capitalismo estabanado. Hollywood continuava de vento em popa, depois de atuar no lado vencedor da guerra, reforçando a hegemonia estadunidense, mas abrigando o trabalho de grandes diretores — John Ford, Fritz Lang e outros.

A experiência da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São

Paulo, naufragava a todo vapor, em meados dos anos 1950; apesar de alguns de seus filmes terem alcançado sucesso até internacional, com destaque para O Cangaceiro, sem esquecer de Sinhá Moça e

Tico-Tico-no Fubá, dentre outros. Um dos fatores para o fracasso da empresa foi o contrato com a Columbia Pictures, que distribuía a produção da Vera Cruz e ficava com os lucros, sem responsabilidades de investir. O amadorismo administrativo (compadrios entre conterrâneos), o autoritarismo contra gente talentosa e experiente, como o diretor e produtor Alberto Cavalcanti, e o simulacro de um star system também contribuíram para aquela derrocada.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

QUEM COME QUEM? QUEM COME QUEM? (Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, 1971)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

QUEM COME QUEM?

QUEM COME QUEM?

(Como era gostoso meu francês, de Nelson Pereira dos Santos, 1971)

O historiador Fernando Novais e os co-autores do livro Cotidiano e vida privada na América portuguesa (volume inaugural da série

“História da vida privada no Brasil”, que Novais dirigiu em seu conjunto) nos ensinaram que não existiu Brasil, como identidade nacional nem outra, antes do final do século XVIII, que o conceito de “brasileiro” não designava, até então, a identidade de um grupo nacional em formação, e sim as pessoas que praticavam o comércio do pau-brasil 1.

Mas a invenção da identidade Brasil não se deu de uma hora para outra, nem sobre um vazio. Talvez, sim, sobre um esvaziamento, produzido pelo holocausto dos povos indígenas e africanos, que foi também holocausto de europeus: estes se matavam entre si, inclusive no continente de origem, muitas vezes em nome de Deus, em guerras religiosas ou em disputas por territórios, conflitos que, por vezes, se misturavam.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO (Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

EM BUSCA DO SAGRADO CORAÇÃO DA NAÇÃO

(Central do Brasil, de Walter Salles, 1998)

O filme Central do Brasil aborda fim e começo de vidas,: a idosa professora aposentada Dora (elogiado desempenho de Fernanda

Montenegro, indicada para o Oscar de Melhor Atriz por ele) cuida do menino órfão Josué (bonita estreia do ator Vinícius de Oliveira), até que o jovem encontre sua família; e o Brasil, tão sofrido em violência e miséria — mas dotado de potencialidades. Isso se dá a partir de um país metropolitano, violentamente degradado (o mundo da estação ferroviária Central do Brasil, o caos citadino do Rio de Janeiro), contraponto ao país interiorano povoado por gente boa (os carinhosos irmãos de Josué, Isaías e Moisés, interpretados pelos ótimos atores

Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira). Nesses termos, o filme configura um retorno do Brasil a si mesmo, um bom caráter extraviado, reconduzido à linha, desvencilhando-se dos acidentes de percurso a que a modernidade urbana o levara.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

(Aleluia, Gretchen, de Sylvio Back, 1976)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

DITADURAS E BOVINIZAÇÃO:

ALEMANHA/BRASIL, 1933/1946

(Aleluia, Gretchen, de Sylvio Back, 1976)

Aleluia, Gretchen foi realizado por Sylvio Back em 1976, momento em que a ditadura civil-militar brasileira experimentava uma sutil passagem de seu auge (governo Emílio Garrastazu Médici, intensa propaganda mesclada a atrocidades explícitas, que incluíam arrocho salarial torturante, exploração publicitária de eventos como conquista da Copa do Mundo, em 1970, e Sesquicentenário da Independência, em 1972) para o reconhecimento de seu declínio (governo Ernesto

Geisel, crise econômica internacional, com a alta dos preços do petróleo, anúncio de distensão “lenta, segura e gradual” — expressões da propaganda oficial)1.

Dois personagens desse filme vivem experiências de bovinização explícita. Antes de vir para o Brasil, a jovem alemã Heike fora levada pela própria mãe (Frau Lotte) para servir como fêmea de um oficial nazista da SS, que a repassou sexualmente para vários outros colegas, na suposta geração de uma raça superior. E Eurico, brasileiro casado com outra filha de Frau Lotte — Gudrun —, foi castrado em sessão de tortura por remanescentes do nazismo, usando fardas da SS e condecorações — “autêntica operação blitzkrieg”, na definição de um deles

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

TRISTEZA, TRISTEZA (Nunca fomos tão felizes, de Murilo Salles, 1984)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

TRISTEZA, TRISTEZA

(Nunca fomos tão felizes, de Murilo Salles, 1984)

O filme Nunca fomos tão felizes se constitui num drama intimista de formação. Gabriel, órfão de mãe, depois de muitos anos num internato em cidade do interior, é resgatado pelo pai, Beto, para o desconhecido: o mundo em que esse pai destrói o carro usado na viagem (utiliza um coquetel Molotov, habitualmente associado a atentados ou outros tipos de atos políticos designados como terrorismo); o mundo da grande cidade (Rio de Janeiro); o mundo de objetos e corpos humanos nunca dantes navegados, chegando à descoberta física da mulher.

Mas o mesmo filme explora outras tantas possibilidades de narrativa, passando pela tragédia política — há uma ditadura lá fora!

—,chegando à indagação existencial sobre o que é ser um homem, no sentido de gênero (macho) e no sentido geral (ser humano), nesse tempo de guerra1.

Murilo Salles organiza sua narrativa a partir do olhar e dos sentimentos de Gabriel, que tem nome e face de um anjo triste. Tal procedimento se desdobra na solidariedade do público em relação ao protagonista, experimentando a mesma sensação de não entender o que se passa, o mesmo ar sufocante e sem solução, o mesmo duro ritual de iniciação nesse mundo complicado.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

COMPARTILHANDO BELEZA E DOR (Cidade Baixa, de Sérgio Machado, 2005)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

COMPARTILHANDO BELEZA E DOR

(Cidade Baixa, de Sérgio Machado, 2005)

Sérgio Machado, no filme Cidade Baixa, faz uma leitura informal e enxuta de temas presentes em alguns dos romances soteropolitanos de Jorge Amado: a prostituição pobre e a força do desejo (Suor, 1934), o boxe como sobrevivência para rapazes corajosos e sem dinheiro

(Jubiabá, 1935), os meninos de rua em pequenas contravenções (Capitães de areia, 1937) e o mundo de marinheiros e seus companheiros de viagem (Mar morto, 1936) reaparecem nas andanças dos marítimos

Naldinho e Deco e da prostituta Karinna, despojados da religiosidade afro-brasileira, presente naquele universo literário1. Trabalhando com a linguagem do cinema, Machado atinge resultados próprios, que se referem ao tempo em que o filme foi feito. As questões sociais, que

Jorge, nos anos 1930, vinculava tanto à esperança de revolução, surgem de maneira menos alvissareira no discurso de Sérgio, embora o amor retenha experiências de humanidade e alguma perspectiva de futuro.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

REITERAR A DOR? (Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, 2007)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

REITERAR A DOR?

(Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, 2007)

O filme Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, se dedica a um grande campo temático: a ação dos dominicanos contra a ditadura brasileira no final dos anos 1960 do século XX, a extrema violência governamental no país durante esse período, os grandes sofrimentos impostos aos que ousaram se opor a ela. Tal universo é tratado através de recursos narrativos que procuram reproduzir os acontecimentos com a máxima verossimilhança, o que inclui torturantes cenas de tortura. Essas posturas se desdobram numa tendência a renunciar a arte (o que importa, anti-aristotelicamente, é a fidelidade ao real, ao que aconteceu), numa estética da identificação por parte do espectador que transforma a narração numa espécie de jornada reiterativa, confirmatória.

Muitos ótimos filmes retomaram grandes temas, reelaborando-os cinematograficamente. Um exemplo é O sétimo selo, de Ingmar Bergman

(1956), que aborda a Europa medieval e a arte popular como força crítica — e isso antes da divulgação internacional do livro clássico de

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

LONGE DA POLTRONA (Lamarca, de Sérgio Rezende, 1994)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

LONGE DA POLTRONA

(Lamarca, de Sérgio Rezende, 1994)

O cartaz de divulgação desse filme inclui um logotipo muito sugestivo, também usado na apresentação (título que antecede os créditos na abertura) da obra: o nome de Lamarca recortado sobre uma bandeira do Brasil. A imagem evoca a bandeira nacional ao vento, bandeira estraçalhada, uma identificação entre Brasil e Lamarca.

Um documentário fake que abre, numa tensa reunião de militares, a narração, com uma sequência de slides em preto e branco sobre o personagem, com o rosto do ator Paulo Betti, aponta uma pretensão de realismo e didatismo. Mas Lamarca mescla a isso cargas simbólicas muito intensas, dramatizando o que já é dramático: o trajeto do guerrilheiro rumo à morte que, já sabemos, ocorrerá tristemente, como um sacrifício; a coragem e a ousadia do personagem sem futuro pessoal imediato, diante de inimigos muito mais fortes; um futuro que existe, sim, na superação da ditadura, futuro que reabilitará Lamarca como figura humana e política de peso — e o filme é um exemplo de tal recuperação, que foi realizado em 1994.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

POEIRA VIVA (Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, 1963)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

POEIRA VIVA

(Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, 1963)

O filme Vidas secas é muito fiel à obra literária com o mesmo título, escrita por Graciliano Ramos e publicada em 1938, durante outro período de ditadura na história do Brasil (Estado Novo, que durou de 1937 a 1945). A extrema fidelidade ao romance se manifesta na capacidade de recriar seu entrecho em imagens e sons. Os gemidos do carro de bois (um veículo que não é visto em nenhuma cena), no prólogo e no epílogo do filme, construíram, com linguagem de cinema, um dos principais temas do romance: O que é ser um ser humano? Essas criaturas são seres humanos? A pergunta sobre a humanidade de tais pessoas não pode ser resolvida por uma desmedida ênfase apenas especular na cadela Baleia, figura importante no romance e no filme. Ela está nos horizontes de reflexão sobre o mundo de sentimentos muito humanos e fantasias que os personagens Fabiano, Nha Vitória e seus dois filhos

(chamados “os meninos”) experimentam .

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

O RETORNO DO VOLUNTARISMO CONSERVADOR (Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro , de José Padilha 2010)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

O RETORNO DO VOLUNTARISMO CONSERVADOR

(Tropa de Elite 2: O inimigo agora é outro, de José Padilha 2010)

O filme Tropa de Elite, dirigido por José Padilha em 2007 e comentado anteriormente, alcançou grande sucesso de público e crítica. Chegou a merecer homenagens, aparentemente espontâneas, no carnaval carioca seguinte a seu lançamento: pessoas de diferentes faixas etárias surgiram em público com a roupa negra básica do BOPE, grupo policial que a obra expôs de forma detalhada em sua face francamente dedicada à missão profissional (muito sofrida, pelas agruras resultantes da absoluta honestidade) no combate ao crime e à corrupção.

O talento de Padilha nos campos de montagem e direção de atores

(com destaque para Wagner Moura, no papel do Capitão Nascimento, mais um bom elenco de apoio) e múltiplos prêmios em festivais contribuíram para que significados francamente conservadores da película de 2007 merecessem pouca atenção. O BOPE findou caracterizado como um Esquadrão da Morte redimido, “do Bem”, com honestidade que legitimava o espetacular justiçamento de traficantes e violências contra quem tivesse relações pessoais com eles (mesmo que não participasse do tráfico: namoradas, parentes), inclusive torturas realizadas ou ameaçadas — torturas reabilitadas no Brasil posterior à ditadura de 1964/1985, depois de denunciadas em tantos filmes sobre esse período1. O argumento dos Direitos Humanos apareceu na condição de veleidade própria a pessoas caracterizadas como coniventes com a corrupção — universitários irresponsáveis, de classe média, consumidores de drogas e integrantes de ONGs demagógicas, suportes mais ou menos involuntários para o tráfico e outros crimes.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

ADEUS AO FIM DO MUNDO (Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

ADEUS AO FIM DO MUNDO

(Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019)

Bacurau é nordeste do Brasil e mundo, macho e fêmea (como o demonstra a central figura hermafrodita do personagem Lunga, interpretado por Silvero Pereira, marginal redentor, Tirésias e Corisco 1 reconfigurados, com unhas pintadas e capacidade de mobilização),

“isso e aquilo”, de acordo com a canção “A voz do vivo”, de Caetano

Veloso, gravada por Gilberto Gil em 1969, entre a prisão dos dois, após o AI-5, e seu exílio:

“Quem já esteve na lua, viu.

Quem já esteve na rua também viu.

Quanto a mim é isso e aquilo.

Eu estou muito tranquilo

Pousado no meio

Do planeta

Girando ao redor do sol”.2

1  Tirésias é personagem mitológico grego, cego, que viveu como homem e como mulher, personagem na tragédia Edipo Rei.SÓFOCLES. Édipo Rei. Tradução de Geir Campos. São

Paulo, Abril, sem data.

Corisco foi cangaceiro, ligado ao Grupo de Lampião, personagem do filme Deus e o

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

SEM REVOLUÇÃO — O RETORNO DA CLASSE MÉDIA (Tropa de elite, de José Padilha, 2007)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

SEM REVOLUÇÃO — O RETORNO

DA CLASSE MÉDIA

(Tropa de elite, de José Padilha, 2007)

O livro clássico Brasil em tempo de cinema, de Jean-Claude Bernardet, analisa vários filmes seminais do Cinema Novo a partir da angústia de classe média diante da miséria reinante no país 1. Personagens tão importantes quanto Antonio das Mortes (o ator Maurício do Vale), em

Deus e o diabo na terra do sol (1964), de Glauber Rocha; o motorista

Gaúcho (o ator Átila Iório) e o soldado Mário (o ator Nelson Xavier), de Os fuzis (1964), de Ruy Guerra; e o jornalista Marcelo (o ator

Oduvaldo Vianna Filho), de O desafio (1965), de Paulo César Saraceni, representam aquela tensão, entre a consciência das relações de poder, a miséria reinante no país e a situação de cada um daqueles homens: nem tão privilegiada, nem tão degradada, intelectuais à sua maneira.

É um quadro organizado ao redor dos projetos reformistas do governo

João Goulart, abortados pela ditadura de 1964.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

SEM DEUS — A IMPOSSÍVEL FELICIDADE (Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, 2002)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

SEM DEUS — A IMPOSSÍVEL FELICIDADE

(Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, 2002)

Cidade de Deus é um filme que evidencia preciosismos de virtuose em muitas passagens narrativas.

O personagem Cabeleira (o ator Jonathan Haagensen) e seus dois companheiros de pequena contravenção — Alicate (o ator Jefechander

Suplino) e Marreco (o ator Renato de Souza) — formavam o “Trio

Ternura”. Eles roubavam caminhões de gás, para distribuir o produto do assalto entre os moradores do bairro, por exemplo. Fugitivos da polícia, no início do filme, ficam escondidos em árvore muito alta. Uma grande gota de orvalho escorre de uma folha, sugerindo citação visual enviesada da clássica canção “A felicidade”, de 1959, de Tom Jobim e

Vinícius de Morais:

A felicidade é como a gota

De orvalho numa pétala de flor:

Brilha tranquila,

Depois, de leve, oscila

E cai como uma lágrima de amor.

Essa brilhante canção, com uma preciosa melodia, desdobrada em harmonias e metáforas verbais igualmente requintadas, integrou a trilha sonora de Orfeu negro (também conhecido como Orfeu de carnaval), de Marcel Camus (1959), e nos lembra uma tradição temática do cinema brasileiro ou feito no Brasil por estrangeiros: imagens da favela e da pobreza urbana. Embora o filme desse diretor francês seja uma produção franco-ítalo-brasileira, a repercussão internacional da obra e o peso de sua excepcional trilha sonora (além das magistrais peças de Jobim e Morais, outras canções igualmente magníficas de

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

COMPANHEIRO ELBRICK (O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto, 1997)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

COMPANHEIRO ELBRICK

(O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto, 1997)

O livro O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, foi um best-seller, quando de seu lançamento em 1979, e um importante marco político na discussão sobre a ditadura e seus oponentes. Ele se potencializou ainda mais pela fluência da escrita jornalística e emocionada do autor. Tal olhar organizador do discurso se faz presente o tempo todo como confissão e reflexão de um participante dos eventos ali tratados.

Lançado num momento em que se intensificavam lutas sociais no país contra a ditadura (grandes greves no ABC paulista, debates sobre a superação do regime, movimentos de diferentes grupos da sociedade civil), o livro apresentava dimensões memorialísticas, mescladas a uma grande capacidade de prender emocionalmente o leitor, mais comum na escrita ficcional ou na poesia.

O filme homônimo, de 1997, assumiu outros caracteres nos campos da memória e da linguagem. Bruno Barreto, seu diretor, não teve nenhuma presença naqueles acontecimentos, e fez uma clara opção narrativa: quem passou a organizar os eventos apresentados no filme foi o ponto de vista de Charles Burke Elbrick, embaixador norte-americano no Brasil, sequestrado pelos jovens esquerdistas. Essa escolha de Barreto se manifesta desde o início de seu trabalho, quando Elbrick

Ver todos os capítulos

Carregar mais