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Capítulo VI

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VIA relação com a natureza é para todas as coisas o [elemento] primeiro, por isso, o mais respeitável e o mais influente. Quem quer que tenha tomado o pulso da época, ainda que só fugazmente, sabe que o domínio deste conhecimento se encontra em poderosa expansão.A investigação moderna é caracterizada por um rasgo tão pronunciado no sentido da vertente natural de todos os fenómenos que até as pesquisas mais abstractas gravitam sensivelmente em torno do método das ciências naturais. A estética, se não pretender levar uma simples existência aparente, tem de conhecer tanto a raiz nodosa como a fibra fina em que cada arte singular está ligada ao fundamento natural.Se, neste conhecimento, a ciência do belo legou aos pintores e poetas aspectos fragmentários, ao músico deve ela não menos do que tudo.As relações naturais da música costumavam sobretudo considerar-se apenas do ponto de vista físico, e pouco se foi além das ondas e figuras sonoras, do monocórdio, etc. Se se deu um passo qualquer no sentido da investigação mais excelente, bem depressa ele se detém porque se alarmou perante os seus próprios resultados ou frente ao conflito violentíssimo com a doutrina dominante. E, no entanto, a relação da música com a natureza desfralda as mais importantes consequências para a estética musical. A posição das suas mais difíceis matérias, a solução das suas questões mais controversas depende da correcta apreciação desta conexão.

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Capítulo III

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IIIAté agora, abordámos as obras de um modo negativo e tentámos simplesmente rejeitar o pressuposto erróneo de que o belo musical poderia consistir apenas na representação de sentimentos.Devemos agora acrescentar o conteúdo positivo desse perfil, ao responder à questão sobre a natureza do belo na arte sonora.É algo especificamente musical. Entendemos por ele uma beleza que, independente e não necessitada de um conteúdo trazido de fora, radica unicamente nos sons e na sua combinação artística. As relações significativas de sons, em si atractivos, a sua harmonia e contraposição, o seu fugir e o seu alcançar-se, o seu elevar-se e o seu apagar-se– eis o que se apresenta à nossa intuição espiritual em formas livres e o que nos agrada como formoso.O elemento originário da música é o som agradável, a sua essência, o ritmo. Ritmo no grande, como a consonância de uma construção simétrica, e ritmo no pequeno, como o movimento regularmente alternado de membros separados na medida do tempo. O material de que se serve o compositor, e cuja riqueza nunca se poderá supor assaz sumptuosa, são os sons no seu conjunto, com a possibilidade, neles ínsita, para distintas combinações de melodia, harmonia e ritmo. Inesgotada e inesgotável, domina sobretudo a melodia, como figura fundamental da beleza musical; a harmonia oferece sempre novos fundamentos com os seus milhares de possibilidades de transformação, de inversão e reforço; move-as a ambas concertadamente o ritmo, a artéria da vida musical, e dá-lhes colorido o encanto de múltiplos timbres.45

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Capítulo IV

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IVEmbora consideremos que há-de ser princípio e tarefa primordial da estética musical submeter o império usurpado do sentimento ao domínio justificado da beleza, as exteriorizações afirmativas do sentir reclamam, na vida musical prática, um papel demasiado chamativo e importante para se despachar mediante a simples subordinação.Porque a fantasia, enquanto actividade por intuir, e não o sentimento, é o órgão a partir do qual e para o qual nasce todo o belo artístico, a obra de arte musical surge também como uma criação não condicionada pelo nosso sentir, especificamente estética, que a consideração científica, separando-a dos acessórios psicológicos da sua origem e efeito, deve apreender na sua constituição intrínseca.Mas, na realidade, esta obra de arte, conceptualmente livre do nosso sentir, autónoma, revela-se como meio eficaz entre duas forças vivas: o seu donde e o seu para onde, isto é, entre o compositor e o ouvinte.Na vida anímica de ambos, a actividade artística da fantasia não pode extrair-se à maneira de puro metal, tal como se apresenta na obra de arte pronta, impessoal – pelo contrário, opera ali sempre em estreita interrelação com sentimentos e sensações. O sentir conservará, portanto, antes e depois da criação da obra, primeiro no compositor, em seguida no ouvinte, uma importância a que não podemos subtrair a nossa atenção.

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Advertência do tradutor

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ADVERTÊNCIA DO TRADUTORA presente tradução do opúsculo Do Belo Musical de EduardHanslick pretende ser um acto de justiça e um esforço tardio de reparação (ou até de ocultamento e disfarce) de uma vergonha cultural entre nós provecta, como muitas outras. As principais línguas europeias já há muito fizeram passar pelas suas estruturas sintácticas e semânticas este clássico da estética musical que também o é da estética geral e da filosofia. Era mais do que tempo de o trazer também ao nosso idioma.Crítico musical famoso e polémico na Viena do século xix, injustamente ridicularizado na figura de Beckmesser na Ópera Os MestresCantores, de Richard Wagner, a cuja estética (expressa nos escritos Arte e Revolução, Ópera e Drama, A Obra de Arte do Futuro) tenazmente se opunha, Eduard Hanslick (11.9.1825, Praga, 16.8.1904Baden-Viena), embora de formação jurídica, ensinou História daMúsica e Estética na capital austríaca até 1895.Na sua obra, acusa a influência de Kant, mas ao longo dos anos também não permaneceu indiferente ao fascínio de Hegel. Como era defensor de uma teoria da música absoluta (instrumental, no seu caso), tornou-se para ele inevitável o choque com a estética de Wagner, fervoroso adepto da união da poesia e da música, e para quem esta

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Capítulo I

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IPassou o tempo dos sistemas estéticos que abordavam o belo apenas em relação com as «sensações» por ele suscitadas. O impulso para o conhecimento objectivo das coisas, tanto quanto à inquirição humana é concedido, devia abalar um método que partia da sensação subjectiva para, após um passeio pela periferia do fenómeno investigado, retornar mais uma vez à sensação. Nenhuma senda leva ao cerne das coisas, mas cada uma deve para lá dirigir-se. A coragem e a capacidade de pressionar as coisas, de indagar aquilo que, separado das impressões muitíssimo mutáveis por elas exercidas sobre o homem, constitui o seu elemento permanente, objectivo e dotado de imutável validade – caracterizam a ciência moderna nos seus mais diversos ramos.Esta orientação objectiva não podia deixar de bem depressa se comunicar à pesquisa do belo. O tratamento filosófico da estética, que por uma via metafísica tenta aproximar-se da essência do belo e regista os seus elementos últimos, é uma aquisição dos tempos modernos.

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