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Capítulo V

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VNada impediu tanto o desenvolvimento científico da estética musical como o valor excessivo que se atribuiu aos efeitos da música sobre os sentimentos. Quanto mais conspícuos se mostravam tais efeitos tanto mais se enalteceram como arautos da beleza musical. Pelo contrário, vimos que nas impressões mais avassaladoras da música se imiscui a fortíssima participação da excitação corpórea, por parte do ouvinte. Do lado da música, esta intensa ingerência no sistema nervoso não reside no seu momento artístico, que dimana do espírito e se dirige ao espírito, mas no seu material, que a natureza dotou com aquela insondável afinidade electiva fisiológica. O elementar da música, o som, e o movimento é o que acorrenta os sentimentos indefesos de tantos afeiçoados da música, cadeias que eles de bom grado fazem retinir. Longe de nós pretender cercear os direitos do sentimento na música. Mas este sentimento que efectivamente se une mais ou menos à contemplação pura só pode passar por artístico quando permanece consciente da sua origem estética, isto é, da alegria encontrada numa beleza e, claro está, determinada. Se esta consciência falta, falta a contemplação livre do belo artístico determinado e o ânimo sente-se apenas prisioneiro do poder natural dos sons, então a arte pode tanto menos atribuir a si semelhante impressão quanto mais intenso ele se apresenta. É muito significativo o número dos que ouvem ou, em rigor, sentem deste modo a música. Ao permitir que o elementar da música actue neles em passiva receptividade, ficam enredados numa vaga agitação, imperceptivalmente sensível,85

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Capítulo III

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IIIAté agora, abordámos as obras de um modo negativo e tentámos simplesmente rejeitar o pressuposto erróneo de que o belo musical poderia consistir apenas na representação de sentimentos.Devemos agora acrescentar o conteúdo positivo desse perfil, ao responder à questão sobre a natureza do belo na arte sonora.É algo especificamente musical. Entendemos por ele uma beleza que, independente e não necessitada de um conteúdo trazido de fora, radica unicamente nos sons e na sua combinação artística. As relações significativas de sons, em si atractivos, a sua harmonia e contraposição, o seu fugir e o seu alcançar-se, o seu elevar-se e o seu apagar-se– eis o que se apresenta à nossa intuição espiritual em formas livres e o que nos agrada como formoso.O elemento originário da música é o som agradável, a sua essência, o ritmo. Ritmo no grande, como a consonância de uma construção simétrica, e ritmo no pequeno, como o movimento regularmente alternado de membros separados na medida do tempo. O material de que se serve o compositor, e cuja riqueza nunca se poderá supor assaz sumptuosa, são os sons no seu conjunto, com a possibilidade, neles ínsita, para distintas combinações de melodia, harmonia e ritmo. Inesgotada e inesgotável, domina sobretudo a melodia, como figura fundamental da beleza musical; a harmonia oferece sempre novos fundamentos com os seus milhares de possibilidades de transformação, de inversão e reforço; move-as a ambas concertadamente o ritmo, a artéria da vida musical, e dá-lhes colorido o encanto de múltiplos timbres.45

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Capítulo VI

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VIA relação com a natureza é para todas as coisas o [elemento] primeiro, por isso, o mais respeitável e o mais influente. Quem quer que tenha tomado o pulso da época, ainda que só fugazmente, sabe que o domínio deste conhecimento se encontra em poderosa expansão.A investigação moderna é caracterizada por um rasgo tão pronunciado no sentido da vertente natural de todos os fenómenos que até as pesquisas mais abstractas gravitam sensivelmente em torno do método das ciências naturais. A estética, se não pretender levar uma simples existência aparente, tem de conhecer tanto a raiz nodosa como a fibra fina em que cada arte singular está ligada ao fundamento natural.Se, neste conhecimento, a ciência do belo legou aos pintores e poetas aspectos fragmentários, ao músico deve ela não menos do que tudo.As relações naturais da música costumavam sobretudo considerar-se apenas do ponto de vista físico, e pouco se foi além das ondas e figuras sonoras, do monocórdio, etc. Se se deu um passo qualquer no sentido da investigação mais excelente, bem depressa ele se detém porque se alarmou perante os seus próprios resultados ou frente ao conflito violentíssimo com a doutrina dominante. E, no entanto, a relação da música com a natureza desfralda as mais importantes consequências para a estética musical. A posição das suas mais difíceis matérias, a solução das suas questões mais controversas depende da correcta apreciação desta conexão.

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Capítulo I

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IPassou o tempo dos sistemas estéticos que abordavam o belo apenas em relação com as «sensações» por ele suscitadas. O impulso para o conhecimento objectivo das coisas, tanto quanto à inquirição humana é concedido, devia abalar um método que partia da sensação subjectiva para, após um passeio pela periferia do fenómeno investigado, retornar mais uma vez à sensação. Nenhuma senda leva ao cerne das coisas, mas cada uma deve para lá dirigir-se. A coragem e a capacidade de pressionar as coisas, de indagar aquilo que, separado das impressões muitíssimo mutáveis por elas exercidas sobre o homem, constitui o seu elemento permanente, objectivo e dotado de imutável validade – caracterizam a ciência moderna nos seus mais diversos ramos.Esta orientação objectiva não podia deixar de bem depressa se comunicar à pesquisa do belo. O tratamento filosófico da estética, que por uma via metafísica tenta aproximar-se da essência do belo e regista os seus elementos últimos, é uma aquisição dos tempos modernos.

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Capítulo VII

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VIITem a música um conteúdo?Tal é a sua questão mais candente, desde que existe o hábito de reflectir sobre a nossa arte. Foi decidida pró e contra. Vozes importantes afirmam a ausência de conteúdo da música, vozes que, na sua quase totalidade, correspondem a filósofos: Rousseau, Kant, Hegel,Herbart, Kahlert, etc. São incomparavelmente mais numerosos os lutadores que defendem o conteúdo da música; são os genuínos músicos entre os escritores e são secundados pelo grosso da convicção geral.Quase pode parecer estranho que justamente os que estão familiarizados com as determinações técnicas da música não consigam libertar-se do erro inerente à opinião que contradiz uma dessas condições, que se poderia antes perdoar aos filósofos abstractos. Tal deve-se a que muitos dos musicógrafos se preocupam neste ponto mais com a honra putativa da sua arte do que com a verdade. Combatem a doutrina da falta de conteúdo da música não como uma opinião em face de outra opinião, mas como uma heresia perante o dogma. A concepção contrária afigura-se-lhes como uma incompreensão indigna, como materialismo grosseiro e insolente. «Como, a arte que tão alto nos eleva e entusiasma, a que tantos nobres espíritos dedicaram a sua vida, que pode servir as mais sublimes ideias, estaria oprimida pelo anátema da falta de conteúdo, seria um mero joguete dos sentidos, zumbido vazio!?» Com semelhantes exclamações, tantas vezes ouvidas e que geralmente se proferem aos pares, embora uma frase não corresponda a outra, nada se refuta nem demonstra. Não se trata111

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