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Capítulo IV

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IVEmbora consideremos que há-de ser princípio e tarefa primordial da estética musical submeter o império usurpado do sentimento ao domínio justificado da beleza, as exteriorizações afirmativas do sentir reclamam, na vida musical prática, um papel demasiado chamativo e importante para se despachar mediante a simples subordinação.Porque a fantasia, enquanto actividade por intuir, e não o sentimento, é o órgão a partir do qual e para o qual nasce todo o belo artístico, a obra de arte musical surge também como uma criação não condicionada pelo nosso sentir, especificamente estética, que a consideração científica, separando-a dos acessórios psicológicos da sua origem e efeito, deve apreender na sua constituição intrínseca.Mas, na realidade, esta obra de arte, conceptualmente livre do nosso sentir, autónoma, revela-se como meio eficaz entre duas forças vivas: o seu donde e o seu para onde, isto é, entre o compositor e o ouvinte.Na vida anímica de ambos, a actividade artística da fantasia não pode extrair-se à maneira de puro metal, tal como se apresenta na obra de arte pronta, impessoal – pelo contrário, opera ali sempre em estreita interrelação com sentimentos e sensações. O sentir conservará, portanto, antes e depois da criação da obra, primeiro no compositor, em seguida no ouvinte, uma importância a que não podemos subtrair a nossa atenção.

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Prefácio

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PREFÁCIODificilmente o entendido negará que a «estética da arte sonora» até agora prevalecente carece de uma revisão geral.Apresentar os princípios que semelhante revisão teria de estabelecer na sua actividade crítica e construtiva é a tarefa deste escrito.De todo afastada de mim está a arrogância, quase epidémica nas monografias sobre estética musical, de que nestas escassas folhas dormita uma estética integral da arte dos sons. Para uma assim – mesmo no sentido mais restrito em que a considero possível – não era de antemão suficiente nem a intenção nem a força.Basta que eu consiga trazer para o campo de batalha vitoriosos aríetes contra a apodrecida estética do sentimento e aprontar alguns alicerces para a futura reconstrução. A propósito das lacunas, de que estou muito consciente, da minha exposição, tenho de recorrer à esperança de algum dia me ser permitida uma discussão mais pormenorizada dos princípios aqui desenvolvidos.Se este ensaio puder contribuir para, na arte sonora, acercar a fruição e o conhecimento do belo do único solo adequado (isto é, o estético), terá assim plenamente compensado vários desfavores nele patentes para o meu sentimento.

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Capítulo V

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VNada impediu tanto o desenvolvimento científico da estética musical como o valor excessivo que se atribuiu aos efeitos da música sobre os sentimentos. Quanto mais conspícuos se mostravam tais efeitos tanto mais se enalteceram como arautos da beleza musical. Pelo contrário, vimos que nas impressões mais avassaladoras da música se imiscui a fortíssima participação da excitação corpórea, por parte do ouvinte. Do lado da música, esta intensa ingerência no sistema nervoso não reside no seu momento artístico, que dimana do espírito e se dirige ao espírito, mas no seu material, que a natureza dotou com aquela insondável afinidade electiva fisiológica. O elementar da música, o som, e o movimento é o que acorrenta os sentimentos indefesos de tantos afeiçoados da música, cadeias que eles de bom grado fazem retinir. Longe de nós pretender cercear os direitos do sentimento na música. Mas este sentimento que efectivamente se une mais ou menos à contemplação pura só pode passar por artístico quando permanece consciente da sua origem estética, isto é, da alegria encontrada numa beleza e, claro está, determinada. Se esta consciência falta, falta a contemplação livre do belo artístico determinado e o ânimo sente-se apenas prisioneiro do poder natural dos sons, então a arte pode tanto menos atribuir a si semelhante impressão quanto mais intenso ele se apresenta. É muito significativo o número dos que ouvem ou, em rigor, sentem deste modo a música. Ao permitir que o elementar da música actue neles em passiva receptividade, ficam enredados numa vaga agitação, imperceptivalmente sensível,85

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Capítulo III

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IIIAté agora, abordámos as obras de um modo negativo e tentámos simplesmente rejeitar o pressuposto erróneo de que o belo musical poderia consistir apenas na representação de sentimentos.Devemos agora acrescentar o conteúdo positivo desse perfil, ao responder à questão sobre a natureza do belo na arte sonora.É algo especificamente musical. Entendemos por ele uma beleza que, independente e não necessitada de um conteúdo trazido de fora, radica unicamente nos sons e na sua combinação artística. As relações significativas de sons, em si atractivos, a sua harmonia e contraposição, o seu fugir e o seu alcançar-se, o seu elevar-se e o seu apagar-se– eis o que se apresenta à nossa intuição espiritual em formas livres e o que nos agrada como formoso.O elemento originário da música é o som agradável, a sua essência, o ritmo. Ritmo no grande, como a consonância de uma construção simétrica, e ritmo no pequeno, como o movimento regularmente alternado de membros separados na medida do tempo. O material de que se serve o compositor, e cuja riqueza nunca se poderá supor assaz sumptuosa, são os sons no seu conjunto, com a possibilidade, neles ínsita, para distintas combinações de melodia, harmonia e ritmo. Inesgotada e inesgotável, domina sobretudo a melodia, como figura fundamental da beleza musical; a harmonia oferece sempre novos fundamentos com os seus milhares de possibilidades de transformação, de inversão e reforço; move-as a ambas concertadamente o ritmo, a artéria da vida musical, e dá-lhes colorido o encanto de múltiplos timbres.45

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Capítulo II

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IIEm parte como consequência desta teoria, que considera os sentimentos o fim último do efeito musical, em parte como correctivo seu, estabelece-se a asserção de que os sentimentos constituem o conteúdo que a arte dos sons deve representar.A investigação filosófica de uma arte impele à indagação do seu conteúdo. A toda a arte é peculiar um âmbito de ideias, que ela representa com os seus meios de expressão: som, palavra, cor, pedra.A obra de arte individual encarna, pois, uma determinada ideia como belo em manifestação sensível. Esta ideia determinada, a forma que a corporifica e a unidade de ambas são as condições do conceito de beleza, de que nenhuma inquirição científica de uma arte qualquer pode já separar-se.O que constitui o conteúdo de uma obra da arte poética ou plástica pode expressar-se com palavras e reduzir-se a conceitos. Dizemos: este quadro representa uma florista, esta estátua um gladiador, aquele poema uma façanha de Rolando. A absorção mais ou menos perfeita do conteúdo assim determinado na manifestação artística fundamenta, em seguida, o nosso juízo sobre a beleza da obra de arte.

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