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Capítulo 61. Por que psicopatas abrem mão do sucesso

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POR QUE PSICOPATAS ABREM

MÃO DO SUCESSO

Em 2011, John Malkovich veio ao Brasil com a peça The Infernal Comedy,

à qual tive o prazer de assistir no Teatro Municipal de São Paulo. No papel de Johann Unterweger, Malkovich contracena com duas sopranos, que, can­tando trechos de óperas famosas, pontuam seu monólogo de pouco menos de duas horas sobre as desventuras desse famoso serial killer. A peça

é uma comédia à la Guilherme Arantes, na qual não é possível “sorrir sem um travo de amargura”.

Embora eu seja um crítico implacável da banalização do diagnóstico de psicopatia, hoje utilizado levianamente como sinônimo de vilania ou mal­dade, acredito que Unterweger tenha sido mesmo um psicopata. Entretanto, sua história ilustra dois aspectos dessas pessoas: há uma nova linha de estudo que procura diferenças entre os psicopatas bem e os malsucedidos. E ele foi um pouco de cada.

Com uma carreira criminal de início precoce, passou a adolescência e o começo da idade adulta entrando e saindo de reformatórios e prisões, até ser preso por assassinar uma prostituta em Viena, estrangulando-a com seu próprio sutiã. Até aqui, ele não se diferenciava dos psicopatas mal­sucedidos. Mas então ele começou a escrever. E seus artigos passaram a fazer sucesso entre a elite austríaca. Convenceu escritores e intelectuais

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Capítulo 111. Botox contra depressão

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BOTOX CONTRA DEPRESSÃO

Dois patos estavam nadando quando um disse “quack!”, ao que o outro respondeu: “Eu ia dizer exatamente isso!”.

A piada não é tão boa, mas, estranhamente, é considerada mais engraçada do que as versões usando outros personagens, como vacas dizendo

“muu”, ou cachorros, “au”. A teoria é de que a expressão facial envolvida em dizer “quack”, aberta e mais semelhante a um sorriso, influencia positivamente o humor, enquanto com as sisudas “muuu” ou “au” aconteceria o contrário. Segundo tal raciocínio, a emoção modifica o rosto, mas a expressão facial também altera as emoções.

A ideia não é nova. Em 1844, Edgar Alan Poe, o pai das histórias policiais e de mistério, escreveu o antológico conto A carta roubada. Em determinado trecho, seu famoso detetive Dupin descreve um menino que sempre ganhava num jogo de par ou ímpar com bolas de gude, como que adivinhando o pensamento dos oponentes. Ao perguntar seu método, ele ouve do garoto: “Quando quero saber até que ponto alguém é inteligente, estúpido, bom ou mau, ou quais são os seus pensamentos no momento, modelo a expressão de meu rosto, tão exata­mente quanto possível, de acordo com a expressão da refe­rida pessoa e, depois, espero para ver quais os sentimentos ou pensamentos que surgem em meu cérebro ou em meu

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Capítulo 125. O mercado de antidepressivos – enquanto uns choram, outros vendem lenço

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O MERCADO DE

ANTIDEPRESSIVOS –

ENQUANTO UNS CHORAM,

OUTROS VENDEM LENÇO

O ano de 2016 foi um ano pesado – talvez um dos mais complicados nos

últimos tempos, tanto no Brasil como no mundo. Como se não faltassem evidências de que foram doze meses duros de aguentar, um levantamento da IMS Health sobre o mercado farmacêutico brasileiro mostrou que os antidepressivos e os estabilizadores do humor foram os remédios cujas vendas mais cresceram naquele ano (18,2%), só perdendo, em faturamento total, para analgésicos. Enquanto uns choram, outros vendem lenços. Ou antidepressivos.

Mas essa não é necessariamente uma notícia ruim.

A venda dessas medicações vem crescendo no mundo todo, ano a ano, há bastante tempo. Levantamentos prévios já mostravam a tendência também por aqui: entre 2003 e 2007, o aumento havia sido de 42%; entre

2008 e 2013, 48%. Isso na época em que o Brasil voava em céu de brigadeiro, todo mundo estava empregado e ninguém se xingava de coxinha ou mortadela. Aqui, como no restante do mundo, o preconceito com a psi­quiatria vem diminuindo, a segurança dos remédios, aumentando, e o acesso aos tratamentos, se tornando mais fácil – e mais pessoas passaram a ser medicadas. 

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Capítulo 97. Dengue – a hora de uma política baseada em evidências

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DENGUE – A HORA DE UMA

POLÍTICA BASEADA EM

EVIDÊNCIAS

Dos muitos desafios que o Brasil enfrenta, poucos me parecem tão urgentes como o combate ao Aedes aegypti. A epidemia de dengue bate recordes, e nada no horizonte aponta para um arrefecimento do problema – bem ao contrário. Agora, o mosquito passa a transmitir também o vírus zika, e uma epidemia inédita de microcefalia surge para nos assombrar.

Sabemos que o Estado brasileiro vem falhando no enfrentamento ao mosquito há anos, quiçá décadas, em todas as esferas de poder. Apesar disso, as pessoas desempenham um papel fundamental nessa luta, já que o Aedes é essencialmente doméstico e seus criadouros estão em grande parte dentro das casas. Mesmo que os governos façam sua parte, portanto, sem mudanças de comportamento em massa da população essa é uma batalha fadada ao fracasso.

É um bom momento, portanto, para entendermos por que vários Estados ao redor do mundo estão incorporando formalmente cientistas comportamentais a seus quadros. Sabendo que a definição e a implementação de políticas públicas dependem muitas vezes da adesão da população, de mudanças de atitudes ou adoção de novos comportamentos, países como

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Capítulo 116. Beleza não se põe à mesa, mas ninguém quer comer no chão

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BELEZA NÃO SE PÕE À MESA,

MAS NINGUÉM QUER

COMER NO CHÃO

Você está satisfeito com seu corpo? Se não estiver, consideraria fazer uma cirurgia plástica? Pois praticamente 1,5 milhão de brasileiros (1,49 milhão para ser exato) optaram pelo bisturi ao longo de 2013; com isso, o País superou os Estados Unidos como o primeiro colocado mundial nessas intervenções, segundo o jornalista Jamil Chade.

Por que isso acontece? E que consequências esse fenômeno pode trazer?

As respostas são várias. Há um fator cultural bem nosso, mas que não age sozinho, e sim em conjunção com o atual cenário econômico do Brasil.

Estudando as formas de se relacionar conjugalmente no País, a antropólo­ ga Miriam Goldberg se surpreendeu com a centralidade do “corpo” na nossa cultura, atestando algo que empiricamente Gilberto Freyre já havia proposto e que todos imaginamos: o brasileiro valoriza muito o corpo e sua aparência jovem e saudável. Assim, com o aumento do poder aquisitivo nos

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Capítulo 53. Neurobullshit – como evitar que ouvidos sejam penicos

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NEUROBULLSHIT – COMO EVITAR

QUE OUVIDOS SEJAM PENICOS

Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação.

(Harry Gordon Frankfurt, 1986)

A fim de aumentar a consciência pública sobre os benefícios a serem obtidos pela pesquisa sobre o cérebro, o Congresso designou a década que se inicia em 1º de janeiro de 1990 como a “Década do Cérebro”. (George Bush, pai, 1990)

Depois da neuroeconomia, do neuromarketing, da neuroética, da neuroestética, proponho oficialmente a criação da neurobullshit. Li recentemente o ensaio On bullshit (Sobre falar merda, Editora Intrínseca, 2005) e percebi que esse fenômeno descrito pelo filósofo Harry Frankfurt no final dos anos 1980 antecipava exatamente o que viria a acontecer pouco depois com as neurociências. Finda a década do cérebro, nunca se falou tanta bobagem sobre o tema.

O essencial sobre a bullshit, Frankfurt teoriza, não é que se trate de mentiras deliberadas, nem tentativas de enganar. O ponto é que a “bullshi­

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Capítulo 48. Alegrias e tristezas de bichos e humanos

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ALEGRIAS E TRISTEZAS DE

BICHOS E HUMANOS

Não sei se você já percebeu como os animais facilitam a conversa. Quando existe um cachorro presente raramente falta assunto para as pessoas, e as relações humanas parecem facilitadas. Se, em vez de um cão, forem duzentos animais selvagens, vários deles ameaçados de extinção, além de uma boa conversa, a situação pode render um bom filme.

Compramos um zoológico, filme do diretor Cameron Crowe com Matt

Damon e Scarlett Johansson, retrata essa situação. É a história real do escritor norte-americano Benjamin Mee, que decidiu, junto com a mulher, dois filhos, o irmão e a mãe, comprar um zoológico falido, mudando-se com a família para lá. Durante o processo, logo antes da inauguração, a esposa faleceu de um tumor cerebral, mas o projeto foi em frente, não apenas ressuscitando o zoo, mas dando origem a um livro e posteriormente ao filme homônimo. No filme, a história foi ligeiramente modificada, mas a “essência foi preservada”, de acordo com o próprio autor.

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Capítulo 55. A complexa violência

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A COMPLEXA VIOLÊNCIA

“Um bom assassinato, um legítimo assassinato, um belo assassinato” – declara o policial a repórteres – “Tão belo quanto era de se desejar”.

A frase faz parte da peça Anatomia Woyzeck, que fecha a trilogia da violência da Cia Razões Inversas. Nela, talvez até mais do que em Agreste ou Anatomia Frozen, vê-se como a violência é um fenômeno complexo e que resiste a explicações simplistas.

O texto da peça inacabada de Georg Büchner – considerada uma das mais importantes do teatro do século XIX – foi inspirado pelo caso real do soldado Johann Christian Woyzeck, que assassinou sua companheira e mãe de seu filho, em 1821, na cidade de Leipzig. Preso, logo foi alegada insanidade mental por sua defesa, levando o caso a se arrastar por dois anos entre avaliações e laudos psiquiátricos. Dos médicos locais até a

Faculdade de Medicina da Universidade de Leipzig, muito se debateu sobre a causa do homicídio e a responsabilidade de Woyzeck, até que, a despeito de um quadro psicótico, ele foi executado.

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Capítulo 90. Pondo um freio na corrupção – Mentes corrompidas, Final

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PONDO UM FREIO NA

CORRUPÇÃO –

MENTES CORROMPIDAS, FINAL

Terminando a série “Mentes corrompidas”, chegamos à pergunta central: existe alguma forma de deter a corrupção? Nós já vimos que o poder corrompe, que conseguimos nos convencer de que não há nada errado, que o dinheiro pode nos tornar egoístas e que o cérebro influencia nosso comportamento dependendo do quanto leva os outros em consideração.

Mas será que a análise dos fatores individuais que levam à corrupção poderia nos ajudar a combatê-la?

Um dos pesquisadores mais produtivos no tema é o economista comportamental Dan Ariely, da Universidade de Duke. Em suas divertidas experiências sobre desonestidade, muitas delas compiladas no livro A mais pura verdade sobre a desonestidade (Editora Elsevier, 2012), ele descobriu que quase todo mundo rouba um pouco quando tem oportunidade. No entanto, seja por uma questão de consciência ou pelo que for, a maioria se autoimpõe limites, roubando o suficiente para ter vantagem, mas não tanto para que se sinta um bandido. São raros os que roubam tudo o que podem. O problema disso, no entanto, é que, como muitas pessoas desviam um pouquinho, os prejuízos que esses pequenos desvios causam quando somados é maior do que os das grandes trapaças. Para ilustrar na prática: a escandalosa corrupção oficial custa ao Brasil algo em torno de 85

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Capítulo 72. Blue Jasmine – você, eu e Woody Allen

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BLUE JASMINE – VOCÊ, EU E

WOODY ALLEN

A realidade é dura. A tal ponto que nós não a encaramos continuamente para valer – se enxergássemos a realidade nua e crua o tempo todo, quem aguentaria? É por isso que vivemos ajustando nosso olhar sobre ela, usando

às vezes o enfrentamento do simplório, em outras a fuga do neurótico.

Desse contraste vem a genialidade do filme Blue Jasmine, de Woody Allen, amplamente elogiado pela crítica.

O filme trata de duas irmãs adotivas que seguem caminhos diferentes:

Jasmine (Cate Blanchet) casa-se com um milionário e vive no luxo em

Nova York, enquanto Ginger (Sally Hawkins) só se envolve com operários e tem uma vida apenas remediada em São Francisco. A história começa com a ida de Jasmine para a casa de Ginger, após perder tudo quando o marido é preso por ser um golpista. Mesmo falida, ela vai de primeira classe, carregando bagagem Louis Vuitton, recusando-se a admitir sua nova condição. Ao longo dos flashbacks, utilizados para contar a história ao mesmo tempo em que constroem o contraponto entre as situações – entre a história delas e também entre o passado e o presente –, vemos que a vida toda Jasmine “olhou para o outro lado”. Desviava os olhos dos esquemas ilegais do marido, das suas incontáveis amantes e da superficialidade da sua relação. O que Allen retrata acontecendo com ela depois da queda,

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Capítulo 66. Vou contar uma história – jornalismo, ciência e empatia

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VOU CONTAR UMA HISTÓRIA –

JORNALISMO, CIÊNCIA E EMPATIA

O homem é um animal que conta histórias. Das narrativas mitológicas à história como ciência, dos contos de fada na hora de dormir às complexas tramas nos seriados políticos, vivemos cercados delas. As notícias de jornal, os processos legais, os prontuários médicos, a conversa no jantar, os posts nas mídias sociais, tudo só faz sentido quando é contado como uma história.

Especula-se muito quais seriam as razões para tanto – provavelmente a característica sequencial dos eventos que nos cercam e a incrível habilidade do cérebro em identificar (e criar) padrões estão por trás disso. No entanto, seja qual for a causa, a verdade é que, quando existe uma estrutu­ ra dramatúrgica, um arco narrativo, nossa atenção é captada com mais facilidade, memorizamos melhor e somos mais afetados pelo que vemos.

Uma pesquisa mostrou que, quando voluntários assistiam a animações mostrando dois personagens (um pai e um filho pequeno) ou passeando num zoológico (sem uma história) ou num enredo emocional (com estru­ tura narrativa), eles reagiam de forma muito diferente, psicológica e biolo­ gi­camente. Quando eram envolvidos pela trama, os voluntários exibiam mais empatia, aumentavam o nível de ocitocina (neurotransmissor ligado

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Capítulo 127. Perseguição a Dilma Rousseff

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PERSEGUIÇÃO A

DILMA ROUSSEFF

Muito antes da história de impeachment ou golpe, Dilma Rousseff já era perseguida. Não por seus pares políticos, mas por uma mulher chamada

Edmeire Celestino da Silva. Depois de uma tentativa um tanto aparvalhada de invadir o Palácio do Planalto e declarar seu amor pela presidente, a segurança presidencial notou novamente sua presença nas cercanias do

Palácio da Alvorada, residência oficial da presidente, e acionou a polícia militar. Abordada, ela disse que só sairia dali depois de pedir Dilma em casamento, mas acabou dissuadida de insistir.

O caso de Edmeire não é isolado e remete a um fenômeno conhecido pelo termo inglês stalking, algo entre o assédio e a perseguição. Atores, cantores e políticos, dada a sua proeminência e visibilidade, são especial­ mente vulneráveis a essa situação. No Canadá, por exemplo, estudos mostram que quase um terço dos políticos já foi vítima de algum tipo de perseguidor.

Como na maioria dos casos de stalking a celebridades, Edmeire sofre de um transtorno mental. Segundo sua mãe, assim que Dilma Rousseff saiu candidata, a filha se apaixonou, cobrindo o quarto com fotos e pôsteres, mas só veio a se tratar justamente após uma crise envolvendo sua paixão.

Em 2010, ela foi detida degolando pombos no centro de Campinas, onde

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Capítulo 86. Mentes corrompidas – por que se rouba tanto?

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MENTES CORROMPIDAS –

POR QUE SE ROUBA TANTO?

Será que o brasileiro se cansou realmente da corrupção? Ou a Lava-jato e seus desdobramentos serão, assim como o Michel Teló e as paleterias, um fenômeno que mobiliza o Brasil inteiro, mas acaba em dois verões?

Numa tentativa de alimentar minha esperança (que ainda luta contra minha desconfiança) de que a indignação perdure, resolvi contribuir para o debate ao longo de cinco artigos. É evidente que não é possível esgotar o assunto, mas introduzindo variáveis como a personalidade do corrupto, o impacto emocional do dinheiro, as relações entre o cérebro e a desonestidade; mais do que reduzir o problema da corrupção ao cérebro ou

à mente das pessoas, meu anseio é ampliar o debate público, colocando em cena esses elementos que pouco são discutidos.

Um dos primeiros pontos que chamam a atenção de quem olha para os escândalos nacionais é: será que os políticos corruptos não sentem nem uma pontinha de culpa? Onde foi parar a consciência deles? Conseguiriam dormir em paz?

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Capítulo 104. As doenças da moda

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AS DOENÇAS DA MODA

É muito interessante perceber que existem diagnósticos que estão na moda e aqueles que estão fora de moda. Entre eles, há os diagnósticos com charme e os sem charme. Quando dou palestras e explico os critérios para determinar se alguém tem déficit de atenção, todo mundo leva as mãos à cabeça e pensa: “Meu Deus, eu tenho isso”; a mesma coisa acontece com ansiedade e até mesmo depressão. Já quando explico o que é psicopatia e o que é histeria, novamente tudo mundo se desespera, mas dessa vez pensando: “Meu Deus, meu chefe é um psicopata” ou “Minha chefe é histérica” – ser deprimido ou desatento vá lá, mas psicopata ou histérico são só os outros.

Uma busca no acervo on-line do jornal Estadão mostra um fenômeno curioso: da década de 1980 para cá, o termo “histérica” aparece mais ou menos 15 vezes por ano, numa taxa estável. Já o termo “psicopata” subiu das mesmas 15 vezes por ano nos anos 1980 para 45 vezes/ano nos anos

1990 e chegou a quase 70 vezes/ano nos anos 2000. Só em 2010, a palavra

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Capítulo 110. Por que falta de atenção pode ser doença

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POR QUE FALTA DE ATENÇÃO

PODE SER DOENÇA

Polêmicas sempre vêm da ignorância. Por uma questão lógica, se existe um conhecimento claro e certo, não há espaço para polemizar. Se há debate,

é porque uma das partes (ou as duas) não sabe do que está falando.

No caso das acaloradas discussões sobre os diagnósticos psiquiátricos, elas ocorrem também por ignorância. Tanto dos médicos como dos críticos.

Essa discussão normalmente tem o seguinte desenho: de um lado, um grupo diz que os transtornos mentais são construções sociais, criadas pelos médicos e, por isso, não teriam validade; na outra ponta, os profissionais da saúde dizem que isso é um absurdo, que há diversas provas de que essas doenças “existem” de verdade, são biologicamente identificáveis, e o diálogo descamba para bate-boca. O mais divertido é que os dois lados conseguem estar errados, mesmo invocando argumentos verdadeiros.

A ignorância que gera o debate aqui não é técnica, é filosófica.

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