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Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

estivesse nalgum lugar da cidade, precisaria me ver. A história nas casas de relógios, mas pelas ruas. Se minha mulher

O certo, sem dúvida, seria espalhar fotos minhas não apenas sobrepondo-se às outras. Ao fazer novas fotos, a idéia apareceu. do meu rosto iriam estampar as paredes da sala e do corredor, olhando sem de fato reconhecê-los. Agora, as novas fotos em todas as paredes, fotos de mulheres. Rostos que eu ficava diferente, meio disforme. Velho. No meu quarto, telefônica. Relógios. No corredor, mais fotos. Um outro Ataíde, minhas, muitas. Além disso, as páginas amarelas da lista nas paredes. Já contei: as paredes da sala sustentavam fotos cozinha não estavam com fotos, relógios e endereços grudados

Ele tirou. Foi ali na cozinha mesmo. Na casa, só o banheiro e a

“Faça novas fotos. Meu rosto de ontem já não serve mais.” a máquina de retratos para o Kaká.

Olhando-os, sem saber ao certo o que dizer, acabei por esticar

Não achei bom. Quanto mais novo, menos tempo.

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idade avançada. Achei bonito, a dona Rosi. Cheguei a esboçar lá. A gente aprende a ser mais sensível com o passar do tempo, de 23 anos. Se eu ainda tivesse os meus quarenta, sessenta, vá pessoa chorando não era coisa normal para mim, um rapazote sensibilidade, a dona Rosi, devia ter. Chorar só por ver outra lágrima escorrer pelo seu rosto escuro. Devia ter muita também pareceu emocionada. Tentou disfarçar, mas vi uma

Encostada no batente da porta, nos observando, dona Rosi por tê-la feito chorar.

“Desculpa”. E disse, não por me ver culpado pela marca, sim enquanto ela chorava. A única coisa que consegui dizer foi: não conteram as lágrimas. Eu, confuso, fiquei tocando a cicatriz

No momento em que meu dedo deslizava por ela, seus olhos indicador, toquei a cicatriz. Fiquei contemplando a marca.

Com cuidado, levei minha mão até seu pescoço e, usando o

Veio. Sentou-se. Voltou a me olhar com olhos de estátua.

“Vem, senta aqui”, pedi, generoso. Voz carregada na ternura. cama até a janela. ainda dando pequenas voltas, girando os calcanhares, indo da

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00:49 00:11

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curta, o short, e, na maioria das vezes, a sandália nos pés do relato. Embora eu quisesse me fazer de homem, a camisa

“A quem eu queria enganar?”, perguntou dona Rosi, no meio que eu já me fazia de moço, honrando meus quinze anos. da deliciosa companhia dela. Bastava alguém nos observar observados por ninguém, eu não me intimidava, não desgrudava amizade. O que acontecia era que, enquanto não éramos me encontrar querendo ignorá-la, a despeito do carinho e intensa achava a menina Anne muito, muito criança. Então, era natural inseparáveis amigos, embora, segundo conta a dona Rosi, eu aconteceram. Não demorou para que Anne e eu nos tornássemos

Depois daquela agradável primeira visita, muitas outras miúda Anne, que só fazia brincar e sorrir em meio aos relógios. deveria saber o que era o amor naquela idade. Muito menos a menina. Talvez pela beleza que ela estampava, já que eu não relojoaria, viu o meu olhar um tanto admirado para a pequena explicou dona Rosi, que também me acompanhava na encaracolados, parecia uma boneca, não gente. Naquele dia, onde meu pai trabalhava. Olhos claros, cabelos cheios, na relojoaria acompanhada do pai, o dono do estabelecimento

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Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

Puxei o menino. Levantei. Ele, sem entender, me parou.

em todas as casas de relógios. Tenho que ir. Vamos!”

E... e lembrei o que tenho que fazer. Tenho, tenho que ir

“Da casa de relógios. Lembrei que estive lá, está ouvindo?

“O senhor se lembrou do quê?” demorou para falar.

Sorri. Ele ficou contemplando meus dentes, eu acho, pois

“Menino, me lembrei. Me lembrei!” velho, mas bom. Eufórico, disse, sem atropelar as palavras: nos olhos, puxei o menino para perto. Sentamos os dois. Sofá estado na casa de relógios. Trêmulo, com lágrima inesperada na mente me pôs eufórico pela lembrança. Há pouco eu havia

De repente, foi como ter sido atingido por um raio. Um clarão

ter sentido esse tipo de fascinação antes, lá na casa de relógios. indicador aquelas máquinas maravilhosas. Engraçado eu não

Olhei-o. Não falei. Para tentar resposta digna, apontei com o

“O senhor tá bem, seu Ataíde?”

O garoto apareceu, vindo da cozinha. provável, carregava uma lembrança que eu não me lembrava. vida na sala. Certamente cada um tinha seu porquê. Bem vendo aquilo. Atento. Igual retratos, os relógios representavam para uns, mas bem sonoros para mim. Perplexo, continuei mudo

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RICARDO

José Mattos Editora Almedina PDF Criptografado

RICARDO

P

orra Otavio, a Gildinha presa, essa nunca tinha me passado pela cabeça. A minha filha em uma cela de prisão. Gildinha presa com

10 quilos de cocaína dentro de casa, meu Deus do céu, como as coisas chegaram a esse estado? Cara, há três anos eu não vejo minha filha.

A última vez ela estava vivendo com um cantor de rock metido a rebelde, um tipo meio perdido. Eu quase falei sobre ele com a Gilda, mas achei melhor não me meter em nada. Escutei um tape de músicas dele e não entendi nada, mas, mais uma vez, quem tinha de estar feliz não era eu... Otavio você fez bem, é claro que fez bem, eu vou fazer uma mala e volto com você para o Rio.

O helicóptero balançou um pouco e levantou do gramado em frente

à minha casa. Eu prefiro carro, mas o Otavio é homem que não tem tempo a perder. Daí, lá fomos nós levantando voo, assombrando a vila, ensurdecendo as pessoas, encantando as crianças, rumo ao Rio, cidade dos meus problemas, dos meus ex-amores e ódios de sempre. O vôo de helicóptero até o Rio é um dos deslumbramentos que há no mundo.

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