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III. O ERMO

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iiiO ERMO1Em carta de 10 de maio, Ippolita dizia:Finalmente, posso dispor de uma hora livre para te escrever com vagar. Há dez dias que o meu cunhado vai arrastando a sua dor, de hotel em hotel, à beira do lago, e ambas o acompanhamos como duas almas penadas. Não calculas a tristeza desta peregrinação. Eu  não posso mais, e espero a primeira oportunidade para me ir embora.Já encontraste o Ermo? As tuas cartas aumentam extraordinariamente a minha tortura. Sei o que sofres e adivinho que sofres mais do que podes exprimir. Daria metade do meu sangue só para ver se te convencia de que sou só tua, tua, tua, para sempre até à morte. Penso em ti, só em ti, constantemente, em todos os instantes da minha vida.Longe de ti, não encontro um minuto de bem-estar e de sossego. Tudo me indispõe e irrita. Quando terei a felicidade de estar junto de ti dias inteiros, de viver a tua vida? Verás que não serei a mesma. Serei boa, carinhosa, meiga. Farei por ser sempre igual, sempre discreta. Dir-te-ei todos os meus pensamentos, e tu dir-me-ás os teus. Hei de ser a tua amante, a tua amiga, a tua irmã, e, se me julgares digna disso, também a tua conselheira. Porque eu tenho uma intuição clara das coisas e nunca me enganei, um cento de vezes em que experimentei essa intuição. O meu cuidado único será agradar-te sempre, nunca ser um peso na tua vida. Em mim só hás de encontrar ternura e ­sossego…

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I. O PASSADO

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iO PASSADO1Ippolita parou de repente quando viu um grupo de homens debruçados no parapeito a olhar para a rua.– Que terá acontecido? – perguntou, esboçando um pequeno gesto de receio ao pousar involuntariamente a mão no braço de­Giorgio, como que para o segurar.– Certamente foi alguém que se atirou do terraço – disse ele, observando a atitude dos homens. – Queres voltar para trás?Ela hesitou por um momento, suspensa entre a curiosidade e o temor, mas acabou por responder:– Não. Vamos.Avançaram ao longo do parapeito, até ao extremo da alameda.Ippolita acelerava instintivamente o passo em direção ao grupo de curiosos. Naquela tarde de março, o Píncio estava quase deserto e naquela atmosfera pesada e entorpecida vagos rumores desfaleciam.– Como previ – confirmou Giorgio. – Matou-se alguém.Pararam perto do ajuntamento. Todos os espectadores fitavam, com olhares atentos, a calçada lá em baixo. Era gente do povo, sem nada para fazer, com fisionomias muito distintas, sem um reflexo de compaixão ou tristeza; a imobilidade do olhar refletida nos olhos como uma espécie de espanto bestial.

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V. TEMPVS DESTRVENDI

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vTEMPVS DESTRVENDI1Na loggia, a mesa tinha um ar alegre, com as porcelanas claras, os cristais azulinos, os cravos vermelhos, à luz doirada de um grande candeeiro fixo que atraía as borboletas noturnas errando no crepúsculo.– Olha, Giorgio, olha! Uma borboleta infernal! Tem olhos de diabo. Vê-los a luzir?Ippolita apontava para uma borboleta, maior que as outras, de aspeto estranho, coberta com uma espessa penugem loira, de olhos salientes que, contra a luz, brilhavam como dois carbúnculos.– Dirige-se para ti! Dirige-se para ti! Acautela-te! Riu estrepitosamente, divertindo-se com a atrapalhação instintiva que Giorgio costumava ter, quando um desses insetos queria tocá-lo.– Preciso de o agarrar! – exclamou ela com o entusiasmo de um capricho infantil.Preparou-se para apanhar a borboleta infernal, que, sem pousar, voejava à volta do candeeiro.– Que fúria! – disse Giorgio para a entusiasmar. – Mas não a agarras.– Hei de agarrá-la – replicou a teimosa, olhando-o no fundo dos olhos.

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IV. A VIDA NOVA

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ivA VIDA NOVA1Estava mau tempo. O céu encoberto, nevoento, quase branco como leite. Pairava na atmosfera um calor húmido e imóvel.O mar, perdido todo o movimento e toda a materialidade, confundia-se com os vapores vagos da distância, palidíssimo, sem palpitação.Uma vela branca, uma única vela branca – coisa raríssima noAdriático – erguia-se ao longe, para as bandas das ilhas de ­Diomedias, sem mudar de sítio, indefinidamente prolongada pelo espelho daságuas, centro visível desse mundo inerte que se dissolvia a pouco e pouco.Sentada no muro da loggia, numa posição de cansaço, Ippolita fixava na vela os olhos magnetizados pela brancura. Um tanto inclinada, num abandono de toda a sua pessoa, tinha um ar de espanto e quase de imbecilidade que denunciava o eclipse momentâneo da vida interior.Esta falta de energia expressiva acentuava o que de vulgar e irregular havia nos seus traços, tornando carregada a parte inferior do rosto. A própria boca, essa boca elástica e sinuosa, cujo contacto tantas vezes comunicara a Giorgio um terror instintivo e indizível, parecia agora despojada dos seus encantos, reduzida ao aspeto físico de um órgão vulgar, que leva a pensar nas carícias apenas como um ato maquinal, sem nenhuma beleza.

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II. A CASA PATERNA

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iiA CASA PATERNA1Nos fins de abril, Ippolita partiu para Milão, chamada por sua irmã cuja sogra acabava de morrer. Giorgio devia também partir à procura da terra desconhecida. E pelos meados de maio tornar-se-iam a encontrar.Mas, justamente nessa época, Giorgio recebeu uma carta de sua mãe, cheia de coisas tristes, quase desesperadas. E agora não podia retardar mais o seu regresso à casa paterna.Quando compreendeu que, sem mais demora, o seu dever o mandava seguir para o lugar onde estava a verdadeira dor, ­invadiu-o uma angústia, e o primeiro movimento de amor filial foi pouco a pouco vencido por uma irritação crescente cuja aspereza aumentava à medida que surgiam na sua consciência, mais nítidas e numerosas, as imagens do conflito próximo. E essa irritação tornou-se em pouco tempo tão acerba que o dominou completamente, insistente, misturada com os aborrecimentos materiais da partida e pela tristeza das despedidas.A separação foi mais cruel que nunca. Giorgio atravessava um período de sensibilidade hiperaguda. A excitação de todos os seus nervos mantinha-o num contínuo estado de inquietação. Parecia descrer da felicidade prometida, da paz futura. Quando Ippolita lhe disse adeus, ele perguntou:

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VI. A INVENCÍVEL

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viA INVENCÍVEL1Escolhido por um amigo e alugado em Ancona, expedido paraS.  Vito e transportado com grande trabalho para o Ermo, o piano foi recebido por Ippolita com uma alegria infantil. Colocaram-no na sala a que Giorgio chamava biblioteca, a maior e melhor da casa, onde estava o divã com os seus almofadões, as grandes cadeiras de vime, a rede de dormir, as esteiras, os tapetes, todos os objetos favoráveis à vida horizontal e ao sonho. De Roma, veio-lhes também uma caixa com músicas.Durante muitos dias, foi um novo delírio. Ambos, invadidos por uma sobrexcitação quase louca, renunciaram a todos os seus hábitos, esqueceram tudo e abismaram-se completamente naquela volúpia.Não os incomodava já a sufocação das longas tardes; não tinham as pesadas e irresistíveis sonolências, podiam prolongar os serões quase até à madrugada; podiam estar muito tempo sem comer, que nada sofriam, nem davam conta de nada, como se a sua vida corporal se purificasse, como se a sua substância se sublimasse e se despojasse de todas as vis necessidades. Julgavam sentir crescer a sua paixão, quimericamente, para além de todos os limites, e o palpitar do seu coração atingiu um poder prodigioso. Às vezes, parecia-lhes terem encontrado aquele minuto de supremo esquecimento, aquele minuto único que passou por eles no primeiro crepúsculo, e a sensação inexprimível de sentir indefinidamente dispersar-se no espaço

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Literatura e poder

Deonísio da Silva Editora Manole PDF Criptografado

Literatura e poder

A luta entre o Escritor e o

Estado nos tribunais

A

parecem resumidas no processo as alegações da ré, no caso a

União, que, obrigada em juízo, teve de dar as razões da censura, feita com uma simples canetada do Sr. Armando Falcão, ministro da Justiça. São quatro as alegações consideradas pelo juiz: a) “que o livro em apreço fere, de modo brutal, preceitos éticos de qualquer sociedade estruturada, pois a linguagem vulgar adotada e os próprios temas dos contos procuram demonstrar a perversão e a maldade que se obtêm pelo estudo de diversas camadas sociais, e que chega a causar repugnância ao leitor mais aberto a ideias”. b) que, pior ainda do que o linguajar indecoroso, é a mensagem apresentada e transmitida, em cujo contexto se faz “a apologia do crime e do criminoso”. c) que o direito de emissão de pensamento está condicionado ao respeito à moral e aos bons costumes e que “ao órgão estatal encarregado da censura compete, com exclusividade, interpretar aquilo que em cada momento histórico constitui a moral do homem médio” e que esse ato da censura seria imune ao controle judicial.

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A proibição

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A proibição

Os bastidores da censura

O

caso Rubem Fonseca começa, para a censura, em 1976, com a proibição de Feliz Ano Novo, publicado no ano anterior pela Editora Artenova. Seu autor, “bem-sucedido executivo

(diretor da Light), realiza o que os profissionais da marginália não conseguem com suas caspas e incompetência ante o sistema e a literatura”, declara Affonso Romano de Sant’Anna em comentário para a revista Veja de 05 de novembro de 1975. Na mesma resenha, o poeta de Que país é este? parece antever a condenação do livro ao afirmar: “Uma leitura superficial desta obra pode tachá-la de erótica e pornográfica.”

Não foi outra a leitura da censura. E, em 15 de dezembro de

1976, a tesoura do ministro da Justiça do governo Geisel aparava

Feliz Ano Novo, depois de 30.000 exemplares e de várias semanas na lista dos dez mais vendidos da Veja. O despacho de Armando

Falcão dizia:

Nos termos do parágrafo 8º do artigo 153 da Constituição Federal e artigo 3º do Decreto-Lei nº 1.077, de 26 de janeiro de 1970, proíbo a publicação e circulação, em todo o território nacional, do livro

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Anexos

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Anexos

Relação dos livros proibidos

Abajur lilás: teatro — Plínio Marcos, Global Ed.

Abbey opens up — Andrew Laird

ABC do comunismo — Alexeyevich Evgeni Preobrazhensky

Actas tupamares: uma experiência de guerrilha urbana no

Uruguai

Adelaide, uma enfermeira sensual — Marilyn Monray, Cristal

Ed. (RJ)

Adoráveis gatinhas — René Clair

Ahnnn... — Camille La Femme

Aldeia da China Popular, Uma — Jan Myrdal

Aliciadora feliz, A — Xaviera Hollander

All juiced up — Veronica Ming

Alô sim... — Madame Claude

Amada amante — Ivonit Karystyse

Amado amante negro — June Warren, Publicações Sucessos

Literários

Amante amada — R. Barnes, Mek Ed. (SP)

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Anexos

Amante de Kung Fu, A — Lee van Lee

Amante insaciável, O — James Garan

Amantes e exorcistas — Wesley Simon York

América Latina: ensaios de interpretação econômica — José Serra e outros

Amor a três — Brigitte Bijou

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O manuscrito e o palimpsesto

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O manuscrito e o palimpsesto

A arte de matar, amar e escrever

E

stas são palavras de Sheringford Holmes na novela Um estudo em vermelho, livro de estreia de Conan Doyle, publicado originalmente nas páginas de Strand Magazine, nos finais do século XIX: “Na meada incolor da vida, corre o fio vermelho do crime, e o nosso dever consiste em desenredá-lo, isolá-lo e expô-lo em toda a sua extensão.”

Com o nome logo mudado para Sherlock Holmes, o personagem ficou tão conhecido que hoje a criatura é muito mais célebre que o criador. Sir Arthur Conan Doyle considerava o romance policial um gênero menor, e muitas das histórias envolvendo Sherlock

Holmes e o Dr. Watson foram escritas a contragosto para atender aos desejos do público. Doyle dava importância a outros projetos literários, considerados mais refinados, e por isso dedicou-se a obras como A companhia branca, As aventuras de Miquéias

Clarke, Escudeiro heroico etc.

Passou a impor preços altíssimos para as narrativas onde brilhavam a inteligência e a capacidade descomunal de fazer deduções de Sherlock Holmes. De nada adiantou. Os editores cobriam as exigências do autor. Irritado, Doyle matou o personagem em

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Documentos

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Documentos

Ação movida pelo Autor contra a União

Petição inicial, deflagradora da ação movida por

Rubem Fonseca1

Exmo. Sr. Dr. Juiz Federal da Vara

Rubem Fonseca, que também se assina José Rubem Fonseca, brasileiro, escritor e advogado, residente à rua ..., vem propor

Processo Ordinário contra a União Federal, com base nos fatos e razões de direito que expõe a seguir.

Requer a citação da Ré na pessoa do Sr. Procurador da República, com apoio na Constituição da República, art. 153 § 8º.

Requer prova testemunhal e pericial.

Dá à causa, para efeito de custas, o valor de Cr$ 100.000,00.

Rio de Janeiro, 28 de abril de 1977

Clovis Ramalhete

1

Os documentos aqui transcritos foram obtidos junto ao Ministério da Justiça,

1ª vara Federal do Rio de Janeiro e Tribunal Federal de Recursos.

Por apresentarem erros de ortografia e pontuação, alguns deles foram revisados, a fim de facilitar sua leitura e compreensão.

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Torre de papel

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Torre de papel

Origens e formação de um caso-síntese

A

ditadura militar, que marcou o período histórico entendido como Velha República, começa no dia 1º de abril de 1964, mas, por motivos vinculados ao folclore da pátria e seus usos e costumes, esta data foi recuada para 31 de março.

Alterações semânticas foram processadas em seguida, e o golpe de Estado, ocorrido no “dia da mentira”, passou a ser conhecido como Revolução de Março, Revolução de 64 etc. Seu término dá-se vinte anos depois, em 1984, com a eleição indireta, realizada pelo Congresso Nacional, de Tancredo Neves para a Presidência da República. Tendo o eleito morrido antes da posse, coube ao vice-presidente, José Sarney, ex-presidente do partido que dava sustentação parlamentar ao antigo regime, substituir o general

João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente do chamado ciclo autoritário.

As relações entre a nova ordem, imposta a partir de 64, e os intelectuais foram marcadas por tensões e conflitos, acentuados em dois períodos distintos: após a edição do Ato Institucional nº 5, em dezembro de 1968, e durante o governo do general Ernesto

Geisel.

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Relatar ou descrever

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Relatar ou descrever

A opção narrativa de um herói problemático

T

al como ocorreu algum tempo depois em A grande arte, o narrador em relevo na coletânea de narrativas curtas, que veio a tornar-se tão polêmica por causa da proibição, defende as ideias do Autor, travestido numa espécie de alter ego. Frequente na ficção de Rubem Fonseca, a figura desse narrador já aparecera em seu livro de estreia, Os prisioneiros, muito embora tenha sido possível tipificá-lo apenas depois de considerado seu périplo até A grande arte.

A opção por uma narrativa na primeira pessoa do singular — predominância absoluta na ficção do Autor — revela um recurso estratégico de extraordinário vigor para a ficção documental e testemunhal de Rubem Fonseca, além de cindir, vertical e profundamente, a ficção de cunho social, levando aquele que narra a ser um dos rebelados que se junta aos personagens, personagem ele também, ao mesmo tempo em que conduz a narrativa. É exatamente essa tomada de poder no interior da narrativa que possibilita ao personagem dar sua própria versão dos acontecimentos do enredo, opinar sobre a condição dos outros personagens, extravasar seus sentimentos mais fundos, dominar a crítica, notadamente aquela

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