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A proibição

Deonísio da Silva Editora Manole PDF Criptografado

A proibição

Os bastidores da censura

O

caso Rubem Fonseca começa, para a censura, em 1976, com a proibição de Feliz Ano Novo, publicado no ano anterior pela Editora Artenova. Seu autor, “bem-sucedido executivo

(diretor da Light), realiza o que os profissionais da marginália não conseguem com suas caspas e incompetência ante o sistema e a literatura”, declara Affonso Romano de Sant’Anna em comentário para a revista Veja de 05 de novembro de 1975. Na mesma resenha, o poeta de Que país é este? parece antever a condenação do livro ao afirmar: “Uma leitura superficial desta obra pode tachá-la de erótica e pornográfica.”

Não foi outra a leitura da censura. E, em 15 de dezembro de

1976, a tesoura do ministro da Justiça do governo Geisel aparava

Feliz Ano Novo, depois de 30.000 exemplares e de várias semanas na lista dos dez mais vendidos da Veja. O despacho de Armando

Falcão dizia:

Nos termos do parágrafo 8º do artigo 153 da Constituição Federal e artigo 3º do Decreto-Lei nº 1.077, de 26 de janeiro de 1970, proíbo a publicação e circulação, em todo o território nacional, do livro

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Anexos

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Anexos

Relação dos livros proibidos

Abajur lilás: teatro — Plínio Marcos, Global Ed.

Abbey opens up — Andrew Laird

ABC do comunismo — Alexeyevich Evgeni Preobrazhensky

Actas tupamares: uma experiência de guerrilha urbana no

Uruguai

Adelaide, uma enfermeira sensual — Marilyn Monray, Cristal

Ed. (RJ)

Adoráveis gatinhas — René Clair

Ahnnn... — Camille La Femme

Aldeia da China Popular, Uma — Jan Myrdal

Aliciadora feliz, A — Xaviera Hollander

All juiced up — Veronica Ming

Alô sim... — Madame Claude

Amada amante — Ivonit Karystyse

Amado amante negro — June Warren, Publicações Sucessos

Literários

Amante amada — R. Barnes, Mek Ed. (SP)

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Anexos

Amante de Kung Fu, A — Lee van Lee

Amante insaciável, O — James Garan

Amantes e exorcistas — Wesley Simon York

América Latina: ensaios de interpretação econômica — José Serra e outros

Amor a três — Brigitte Bijou

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Documentos

Deonísio da Silva Editora Manole PDF Criptografado

Documentos

Ação movida pelo Autor contra a União

Petição inicial, deflagradora da ação movida por

Rubem Fonseca1

Exmo. Sr. Dr. Juiz Federal da Vara

Rubem Fonseca, que também se assina José Rubem Fonseca, brasileiro, escritor e advogado, residente à rua ..., vem propor

Processo Ordinário contra a União Federal, com base nos fatos e razões de direito que expõe a seguir.

Requer a citação da Ré na pessoa do Sr. Procurador da República, com apoio na Constituição da República, art. 153 § 8º.

Requer prova testemunhal e pericial.

Dá à causa, para efeito de custas, o valor de Cr$ 100.000,00.

Rio de Janeiro, 28 de abril de 1977

Clovis Ramalhete

1

Os documentos aqui transcritos foram obtidos junto ao Ministério da Justiça,

1ª vara Federal do Rio de Janeiro e Tribunal Federal de Recursos.

Por apresentarem erros de ortografia e pontuação, alguns deles foram revisados, a fim de facilitar sua leitura e compreensão.

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I. O PASSADO

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

iO PASSADO1Ippolita parou de repente quando viu um grupo de homens debruçados no parapeito a olhar para a rua.– Que terá acontecido? – perguntou, esboçando um pequeno gesto de receio ao pousar involuntariamente a mão no braço de­Giorgio, como que para o segurar.– Certamente foi alguém que se atirou do terraço – disse ele, observando a atitude dos homens. – Queres voltar para trás?Ela hesitou por um momento, suspensa entre a curiosidade e o temor, mas acabou por responder:– Não. Vamos.Avançaram ao longo do parapeito, até ao extremo da alameda.Ippolita acelerava instintivamente o passo em direção ao grupo de curiosos. Naquela tarde de março, o Píncio estava quase deserto e naquela atmosfera pesada e entorpecida vagos rumores desfaleciam.– Como previ – confirmou Giorgio. – Matou-se alguém.Pararam perto do ajuntamento. Todos os espectadores fitavam, com olhares atentos, a calçada lá em baixo. Era gente do povo, sem nada para fazer, com fisionomias muito distintas, sem um reflexo de compaixão ou tristeza; a imobilidade do olhar refletida nos olhos como uma espécie de espanto bestial.

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I QUANDO O CAOS TRIUNFA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

I

QUANDO O CAOS TRIUNFA

“Além disso, o que a tudo enfim me obriga,/

É não poder mentir no que disser,/ Porque de feitos tais, por mais que diga,/ Mais me há-de ficar inda por dizer.”1

A ordem fracassou. Nem todos sabem, mas fracassou! Não apenas aqui. Fracassou no mundo inteiro. Eu sou um dos poucos que sabem dessa verdade fatal. Eis meu desespero.

É preferível a injustiça à desordem, como dizia Goethe em momentos de grande lucidez, nele tão frequentes e em mim tão raros. Por isso, levanto-me cedo, por volta de 5h da manhã e, depois de ordeiras abluções, aprendidas ainda na infância, arrumo a mesa, ponho a pequena xícara à direita, sobre o pires, os dois ao lado do pratinho maior, ladeio o conjunto com a faca,

1

  Essa e as epígrafes de cada capítulo são todas de Luís Vaz de Camões, poeta que Stefan Zweig muito admirava e de quem traduziu para o alemão os versos de que mais gostava. Menos uma, a ele atribuída por outrem, porém apócrifa.

deonísio da silva

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II. A CASA PATERNA

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

iiA CASA PATERNA1Nos fins de abril, Ippolita partiu para Milão, chamada por sua irmã cuja sogra acabava de morrer. Giorgio devia também partir à procura da terra desconhecida. E pelos meados de maio tornar-se-iam a encontrar.Mas, justamente nessa época, Giorgio recebeu uma carta de sua mãe, cheia de coisas tristes, quase desesperadas. E agora não podia retardar mais o seu regresso à casa paterna.Quando compreendeu que, sem mais demora, o seu dever o mandava seguir para o lugar onde estava a verdadeira dor, ­invadiu-o uma angústia, e o primeiro movimento de amor filial foi pouco a pouco vencido por uma irritação crescente cuja aspereza aumentava à medida que surgiam na sua consciência, mais nítidas e numerosas, as imagens do conflito próximo. E essa irritação tornou-se em pouco tempo tão acerba que o dominou completamente, insistente, misturada com os aborrecimentos materiais da partida e pela tristeza das despedidas.A separação foi mais cruel que nunca. Giorgio atravessava um período de sensibilidade hiperaguda. A excitação de todos os seus nervos mantinha-o num contínuo estado de inquietação. Parecia descrer da felicidade prometida, da paz futura. Quando Ippolita lhe disse adeus, ele perguntou:

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II PERDIDOS EM PETRÓPOLIS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

II

PERDIDOS EM PETRÓPOLIS

“Os bons vi sempre passar/ No mundo graves tormentos;/ E para mais me espantar,/ Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos.”

Faz mais de 30 anos. O tempo passou, e demorei a notar que os dias me roíam por dentro, obrigando-me a trocas nas quais quem sempre ficava em desvantagem era eu.

O destino da gente pode mudar pela palavra de um amigo que, justamente porque vinda de um amigo, não a questionamos. Em certo dia de 1911, Walter Rathenau me disse:

“É preciso conhecer o mundo antes de escrever sobre ele”.

Aquilo que me pareceu um bom conselho eram palavras sensatas, razoáveis. Deveria ser isso mesmo? Deveria, mas não era. A ferramenta intelectual mais importante de um escritor é sua imaginação, jamais a pesquisa. Pesquisa, coleta de dados, olho sobre a realidade? Nada disso importa. Não é à toa que Homero era cego. Um escritor só precisa ouvir. E quanto mais contraditório o que ouve, mais fascinante será o desafio para escrever sobre o tema escolhido. Mas não, eu segui a

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III. O ERMO

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

iiiO ERMO1Em carta de 10 de maio, Ippolita dizia:Finalmente, posso dispor de uma hora livre para te escrever com vagar. Há dez dias que o meu cunhado vai arrastando a sua dor, de hotel em hotel, à beira do lago, e ambas o acompanhamos como duas almas penadas. Não calculas a tristeza desta peregrinação. Eu  não posso mais, e espero a primeira oportunidade para me ir embora.Já encontraste o Ermo? As tuas cartas aumentam extraordinariamente a minha tortura. Sei o que sofres e adivinho que sofres mais do que podes exprimir. Daria metade do meu sangue só para ver se te convencia de que sou só tua, tua, tua, para sempre até à morte. Penso em ti, só em ti, constantemente, em todos os instantes da minha vida.Longe de ti, não encontro um minuto de bem-estar e de sossego. Tudo me indispõe e irrita. Quando terei a felicidade de estar junto de ti dias inteiros, de viver a tua vida? Verás que não serei a mesma. Serei boa, carinhosa, meiga. Farei por ser sempre igual, sempre discreta. Dir-te-ei todos os meus pensamentos, e tu dir-me-ás os teus. Hei de ser a tua amante, a tua amiga, a tua irmã, e, se me julgares digna disso, também a tua conselheira. Porque eu tenho uma intuição clara das coisas e nunca me enganei, um cento de vezes em que experimentei essa intuição. O meu cuidado único será agradar-te sempre, nunca ser um peso na tua vida. Em mim só hás de encontrar ternura e ­sossego…

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III O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

III

O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA

“Transforma-se o amador na coisa amada,/ Por virtude de muito imaginar;/ Não tenho, logo, mais que desejar,/ Pois em mim tenho a parte desejada.”

É muito bom esse sistema de o leitor receber em domicílio o livro que não pediu. Nem todos os leitores sabem o que precisam ler, ficam indecisos, assim o Clube do Livro da Editora

Guanabara Koogan vai entregando os títulos que o editor ou os leitores escolheram. Não há risco de distribuir encalhes de livros imprestáveis, já que o senhor Koogan é muito criterioso na escolha dos originais a publicar.

Escritor é viciado em livros. Não apenas os escreve, mas os lê, ama, convive com eles como se fossem amigos. O melhor amigo do ser humano não é o cachorro, é o livro. O cachorro é submisso; o livro, não! O ex-amigo te ofendeu ou te traiu, o livro, não! Você pode abandoná-lo na estante, mas ele será sempre o mesmo e só mudará se você mudar antes de o ler, já que cada livro é outro a cada leitura. Escritor é assim: vai morrer hoje, mas morre pensando no seu vício.

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IV A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

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IV

A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

“Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ Fui mau, mas fui castigado:/ Assim que, só para mim,/ Anda o mundo concertado.”

Vinte de setembro de 1940. Fui dar uma conferência no jornal

A Gazeta, em São Paulo. Quem me convidou foi Cásper Líbero.

Lotte e eu chegamos pela manhã; fomos de avião e do aeroporto seguimos para o Hotel Esplanada. O almoço foi no Automóvel

Clube, no vale do Anhangabaú — demorei a pronunciar direito essa palavra, ainda que, por incrível que pareça, de algum modo soe alemã. Não comemos direito, foi difícil saborear os pratos quando sabíamos que estavam todos nos observando, pois o almoço era em minha homenagem.

À noite, com auditório lotado, falei em francês. Não tive tempo de preparar nova palestra. Então repeti aquela que eu fiz no Instituto Nacional de Música, em 1936. Meu tema foi A

Unidade Espiritual do Mundo. Meu cachê foi de 5.000$000.

É um número gigantesco, como tudo no Brasil. Lê-se “cinco milhões de réis”, mas o povo reduz para cinco contos. De todos

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IV. A VIDA NOVA

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ivA VIDA NOVA1Estava mau tempo. O céu encoberto, nevoento, quase branco como leite. Pairava na atmosfera um calor húmido e imóvel.O mar, perdido todo o movimento e toda a materialidade, confundia-se com os vapores vagos da distância, palidíssimo, sem palpitação.Uma vela branca, uma única vela branca – coisa raríssima noAdriático – erguia-se ao longe, para as bandas das ilhas de ­Diomedias, sem mudar de sítio, indefinidamente prolongada pelo espelho daságuas, centro visível desse mundo inerte que se dissolvia a pouco e pouco.Sentada no muro da loggia, numa posição de cansaço, Ippolita fixava na vela os olhos magnetizados pela brancura. Um tanto inclinada, num abandono de toda a sua pessoa, tinha um ar de espanto e quase de imbecilidade que denunciava o eclipse momentâneo da vida interior.Esta falta de energia expressiva acentuava o que de vulgar e irregular havia nos seus traços, tornando carregada a parte inferior do rosto. A própria boca, essa boca elástica e sinuosa, cujo contacto tantas vezes comunicara a Giorgio um terror instintivo e indizível, parecia agora despojada dos seus encantos, reduzida ao aspeto físico de um órgão vulgar, que leva a pensar nas carícias apenas como um ato maquinal, sem nenhuma beleza.

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IX A NOITE DAS BRUMAS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IX

A NOITE DAS BRUMAS

“Jazia-se o minotauro/ Preso num labirinto/ Mas eu mais preso me sinto”.

Joseph reúne seu grupo. Frida chegou atrasada. Hoje está de vestido, o que causa certo desconforto em Joseph e nos outros.

Vestida de homem, as formas se diluem um pouco, a calça não

é apertada, a blusa é larga, o boné esconde os cabelos, e ela raramente usa batom.

Mas hoje está dentro de um vestido estampado que, embora largo e solto, revela as suas benemerências. O sutiã parece pequeno para esconder tanto seio, e, quando ela se senta, os panos, dispostos em abas, revelam alguns indicadores de sua beleza.

Frida não tem barriga, a cintura é fina, e os pés são pequenos, o que não se pode perceber quando ela está de botas. Hoje está de salto alto. São saltos quadrados, pequenos, mas altos.

— Frida — diz Joseph —, qual foi o motivo do atraso? Você sabe que na operação qualquer demora pode ser fatal.

Gustav e Helmut não gostam da repreensão a Frida, mas engolem seco, o chefe é o outro. Frida se explica:

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Literatura e poder

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Literatura e poder

A luta entre o Escritor e o

Estado nos tribunais

A

parecem resumidas no processo as alegações da ré, no caso a

União, que, obrigada em juízo, teve de dar as razões da censura, feita com uma simples canetada do Sr. Armando Falcão, ministro da Justiça. São quatro as alegações consideradas pelo juiz: a) “que o livro em apreço fere, de modo brutal, preceitos éticos de qualquer sociedade estruturada, pois a linguagem vulgar adotada e os próprios temas dos contos procuram demonstrar a perversão e a maldade que se obtêm pelo estudo de diversas camadas sociais, e que chega a causar repugnância ao leitor mais aberto a ideias”. b) que, pior ainda do que o linguajar indecoroso, é a mensagem apresentada e transmitida, em cujo contexto se faz “a apologia do crime e do criminoso”. c) que o direito de emissão de pensamento está condicionado ao respeito à moral e aos bons costumes e que “ao órgão estatal encarregado da censura compete, com exclusividade, interpretar aquilo que em cada momento histórico constitui a moral do homem médio” e que esse ato da censura seria imune ao controle judicial.

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O manuscrito e o palimpsesto

Deonísio da Silva Editora Manole PDF Criptografado

O manuscrito e o palimpsesto

A arte de matar, amar e escrever

E

stas são palavras de Sheringford Holmes na novela Um estudo em vermelho, livro de estreia de Conan Doyle, publicado originalmente nas páginas de Strand Magazine, nos finais do século XIX: “Na meada incolor da vida, corre o fio vermelho do crime, e o nosso dever consiste em desenredá-lo, isolá-lo e expô-lo em toda a sua extensão.”

Com o nome logo mudado para Sherlock Holmes, o personagem ficou tão conhecido que hoje a criatura é muito mais célebre que o criador. Sir Arthur Conan Doyle considerava o romance policial um gênero menor, e muitas das histórias envolvendo Sherlock

Holmes e o Dr. Watson foram escritas a contragosto para atender aos desejos do público. Doyle dava importância a outros projetos literários, considerados mais refinados, e por isso dedicou-se a obras como A companhia branca, As aventuras de Miquéias

Clarke, Escudeiro heroico etc.

Passou a impor preços altíssimos para as narrativas onde brilhavam a inteligência e a capacidade descomunal de fazer deduções de Sherlock Holmes. De nada adiantou. Os editores cobriam as exigências do autor. Irritado, Doyle matou o personagem em

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Relatar ou descrever

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Relatar ou descrever

A opção narrativa de um herói problemático

T

al como ocorreu algum tempo depois em A grande arte, o narrador em relevo na coletânea de narrativas curtas, que veio a tornar-se tão polêmica por causa da proibição, defende as ideias do Autor, travestido numa espécie de alter ego. Frequente na ficção de Rubem Fonseca, a figura desse narrador já aparecera em seu livro de estreia, Os prisioneiros, muito embora tenha sido possível tipificá-lo apenas depois de considerado seu périplo até A grande arte.

A opção por uma narrativa na primeira pessoa do singular — predominância absoluta na ficção do Autor — revela um recurso estratégico de extraordinário vigor para a ficção documental e testemunhal de Rubem Fonseca, além de cindir, vertical e profundamente, a ficção de cunho social, levando aquele que narra a ser um dos rebelados que se junta aos personagens, personagem ele também, ao mesmo tempo em que conduz a narrativa. É exatamente essa tomada de poder no interior da narrativa que possibilita ao personagem dar sua própria versão dos acontecimentos do enredo, opinar sobre a condição dos outros personagens, extravasar seus sentimentos mais fundos, dominar a crítica, notadamente aquela

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