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IV. A VIDA NOVA

Gabriele Editora Almedina PDF Criptografado

ivA VIDA NOVA1Estava mau tempo. O céu encoberto, nevoento, quase branco como leite. Pairava na atmosfera um calor húmido e imóvel.O mar, perdido todo o movimento e toda a materialidade, confundia-se com os vapores vagos da distância, palidíssimo, sem palpitação.Uma vela branca, uma única vela branca – coisa raríssima noAdriático – erguia-se ao longe, para as bandas das ilhas de ­Diomedias, sem mudar de sítio, indefinidamente prolongada pelo espelho daságuas, centro visível desse mundo inerte que se dissolvia a pouco e pouco.Sentada no muro da loggia, numa posição de cansaço, Ippolita fixava na vela os olhos magnetizados pela brancura. Um tanto inclinada, num abandono de toda a sua pessoa, tinha um ar de espanto e quase de imbecilidade que denunciava o eclipse momentâneo da vida interior.Esta falta de energia expressiva acentuava o que de vulgar e irregular havia nos seus traços, tornando carregada a parte inferior do rosto. A própria boca, essa boca elástica e sinuosa, cujo contacto tantas vezes comunicara a Giorgio um terror instintivo e indizível, parecia agora despojada dos seus encantos, reduzida ao aspeto físico de um órgão vulgar, que leva a pensar nas carícias apenas como um ato maquinal, sem nenhuma beleza.

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I. O PASSADO

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iO PASSADO1Ippolita parou de repente quando viu um grupo de homens debruçados no parapeito a olhar para a rua.– Que terá acontecido? – perguntou, esboçando um pequeno gesto de receio ao pousar involuntariamente a mão no braço de­Giorgio, como que para o segurar.– Certamente foi alguém que se atirou do terraço – disse ele, observando a atitude dos homens. – Queres voltar para trás?Ela hesitou por um momento, suspensa entre a curiosidade e o temor, mas acabou por responder:– Não. Vamos.Avançaram ao longo do parapeito, até ao extremo da alameda.Ippolita acelerava instintivamente o passo em direção ao grupo de curiosos. Naquela tarde de março, o Píncio estava quase deserto e naquela atmosfera pesada e entorpecida vagos rumores desfaleciam.– Como previ – confirmou Giorgio. – Matou-se alguém.Pararam perto do ajuntamento. Todos os espectadores fitavam, com olhares atentos, a calçada lá em baixo. Era gente do povo, sem nada para fazer, com fisionomias muito distintas, sem um reflexo de compaixão ou tristeza; a imobilidade do olhar refletida nos olhos como uma espécie de espanto bestial.

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V. TEMPVS DESTRVENDI

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vTEMPVS DESTRVENDI1Na loggia, a mesa tinha um ar alegre, com as porcelanas claras, os cristais azulinos, os cravos vermelhos, à luz doirada de um grande candeeiro fixo que atraía as borboletas noturnas errando no crepúsculo.– Olha, Giorgio, olha! Uma borboleta infernal! Tem olhos de diabo. Vê-los a luzir?Ippolita apontava para uma borboleta, maior que as outras, de aspeto estranho, coberta com uma espessa penugem loira, de olhos salientes que, contra a luz, brilhavam como dois carbúnculos.– Dirige-se para ti! Dirige-se para ti! Acautela-te! Riu estrepitosamente, divertindo-se com a atrapalhação instintiva que Giorgio costumava ter, quando um desses insetos queria tocá-lo.– Preciso de o agarrar! – exclamou ela com o entusiasmo de um capricho infantil.Preparou-se para apanhar a borboleta infernal, que, sem pousar, voejava à volta do candeeiro.– Que fúria! – disse Giorgio para a entusiasmar. – Mas não a agarras.– Hei de agarrá-la – replicou a teimosa, olhando-o no fundo dos olhos.

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III. O ERMO

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iiiO ERMO1Em carta de 10 de maio, Ippolita dizia:Finalmente, posso dispor de uma hora livre para te escrever com vagar. Há dez dias que o meu cunhado vai arrastando a sua dor, de hotel em hotel, à beira do lago, e ambas o acompanhamos como duas almas penadas. Não calculas a tristeza desta peregrinação. Eu  não posso mais, e espero a primeira oportunidade para me ir embora.Já encontraste o Ermo? As tuas cartas aumentam extraordinariamente a minha tortura. Sei o que sofres e adivinho que sofres mais do que podes exprimir. Daria metade do meu sangue só para ver se te convencia de que sou só tua, tua, tua, para sempre até à morte. Penso em ti, só em ti, constantemente, em todos os instantes da minha vida.Longe de ti, não encontro um minuto de bem-estar e de sossego. Tudo me indispõe e irrita. Quando terei a felicidade de estar junto de ti dias inteiros, de viver a tua vida? Verás que não serei a mesma. Serei boa, carinhosa, meiga. Farei por ser sempre igual, sempre discreta. Dir-te-ei todos os meus pensamentos, e tu dir-me-ás os teus. Hei de ser a tua amante, a tua amiga, a tua irmã, e, se me julgares digna disso, também a tua conselheira. Porque eu tenho uma intuição clara das coisas e nunca me enganei, um cento de vezes em que experimentei essa intuição. O meu cuidado único será agradar-te sempre, nunca ser um peso na tua vida. Em mim só hás de encontrar ternura e ­sossego…

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II. A CASA PATERNA

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iiA CASA PATERNA1Nos fins de abril, Ippolita partiu para Milão, chamada por sua irmã cuja sogra acabava de morrer. Giorgio devia também partir à procura da terra desconhecida. E pelos meados de maio tornar-se-iam a encontrar.Mas, justamente nessa época, Giorgio recebeu uma carta de sua mãe, cheia de coisas tristes, quase desesperadas. E agora não podia retardar mais o seu regresso à casa paterna.Quando compreendeu que, sem mais demora, o seu dever o mandava seguir para o lugar onde estava a verdadeira dor, ­invadiu-o uma angústia, e o primeiro movimento de amor filial foi pouco a pouco vencido por uma irritação crescente cuja aspereza aumentava à medida que surgiam na sua consciência, mais nítidas e numerosas, as imagens do conflito próximo. E essa irritação tornou-se em pouco tempo tão acerba que o dominou completamente, insistente, misturada com os aborrecimentos materiais da partida e pela tristeza das despedidas.A separação foi mais cruel que nunca. Giorgio atravessava um período de sensibilidade hiperaguda. A excitação de todos os seus nervos mantinha-o num contínuo estado de inquietação. Parecia descrer da felicidade prometida, da paz futura. Quando Ippolita lhe disse adeus, ele perguntou:

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VI. A INVENCÍVEL

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viA INVENCÍVEL1Escolhido por um amigo e alugado em Ancona, expedido paraS.  Vito e transportado com grande trabalho para o Ermo, o piano foi recebido por Ippolita com uma alegria infantil. Colocaram-no na sala a que Giorgio chamava biblioteca, a maior e melhor da casa, onde estava o divã com os seus almofadões, as grandes cadeiras de vime, a rede de dormir, as esteiras, os tapetes, todos os objetos favoráveis à vida horizontal e ao sonho. De Roma, veio-lhes também uma caixa com músicas.Durante muitos dias, foi um novo delírio. Ambos, invadidos por uma sobrexcitação quase louca, renunciaram a todos os seus hábitos, esqueceram tudo e abismaram-se completamente naquela volúpia.Não os incomodava já a sufocação das longas tardes; não tinham as pesadas e irresistíveis sonolências, podiam prolongar os serões quase até à madrugada; podiam estar muito tempo sem comer, que nada sofriam, nem davam conta de nada, como se a sua vida corporal se purificasse, como se a sua substância se sublimasse e se despojasse de todas as vis necessidades. Julgavam sentir crescer a sua paixão, quimericamente, para além de todos os limites, e o palpitar do seu coração atingiu um poder prodigioso. Às vezes, parecia-lhes terem encontrado aquele minuto de supremo esquecimento, aquele minuto único que passou por eles no primeiro crepúsculo, e a sensação inexprimível de sentir indefinidamente dispersar-se no espaço

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IV A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IV

A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

“Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ Fui mau, mas fui castigado:/ Assim que, só para mim,/ Anda o mundo concertado.”

Vinte de setembro de 1940. Fui dar uma conferência no jornal

A Gazeta, em São Paulo. Quem me convidou foi Cásper Líbero.

Lotte e eu chegamos pela manhã; fomos de avião e do aeroporto seguimos para o Hotel Esplanada. O almoço foi no Automóvel

Clube, no vale do Anhangabaú — demorei a pronunciar direito essa palavra, ainda que, por incrível que pareça, de algum modo soe alemã. Não comemos direito, foi difícil saborear os pratos quando sabíamos que estavam todos nos observando, pois o almoço era em minha homenagem.

À noite, com auditório lotado, falei em francês. Não tive tempo de preparar nova palestra. Então repeti aquela que eu fiz no Instituto Nacional de Música, em 1936. Meu tema foi A

Unidade Espiritual do Mundo. Meu cachê foi de 5.000$000.

É um número gigantesco, como tudo no Brasil. Lê-se “cinco milhões de réis”, mas o povo reduz para cinco contos. De todos

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I QUANDO O CAOS TRIUNFA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

I

QUANDO O CAOS TRIUNFA

“Além disso, o que a tudo enfim me obriga,/

É não poder mentir no que disser,/ Porque de feitos tais, por mais que diga,/ Mais me há-de ficar inda por dizer.”1

A ordem fracassou. Nem todos sabem, mas fracassou! Não apenas aqui. Fracassou no mundo inteiro. Eu sou um dos poucos que sabem dessa verdade fatal. Eis meu desespero.

É preferível a injustiça à desordem, como dizia Goethe em momentos de grande lucidez, nele tão frequentes e em mim tão raros. Por isso, levanto-me cedo, por volta de 5h da manhã e, depois de ordeiras abluções, aprendidas ainda na infância, arrumo a mesa, ponho a pequena xícara à direita, sobre o pires, os dois ao lado do pratinho maior, ladeio o conjunto com a faca,

1

  Essa e as epígrafes de cada capítulo são todas de Luís Vaz de Camões, poeta que Stefan Zweig muito admirava e de quem traduziu para o alemão os versos de que mais gostava. Menos uma, a ele atribuída por outrem, porém apócrifa.

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XV ESTRANHO SILÊNCIO

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

XV

ESTRANHO SILÊNCIO

“Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram;/ Os erros e a fortuna sobejaram,/ Que para mim bastava amor somente.”

Rua Gonçalves Dias, 34, Petrópolis. A empregada chega ao meio-dia. Abre a casa e começa a arrumação pela cozinha. Mas antes, pé ante pé, ainda com a vassoura na mão, sabe-se lá por que, vai até a porta do quarto. Parece ouvir sonos profundos, alguém ressonando. Seus sentidos a enganam. Ninguém mais respira ali, mas ela não sabe de nada.

O telefone toca. A empregada demora a ouvir a campainha.

Enfim, atende. Ela responde que o casal está dormindo.

— Os dois?

— Os dois!

A voz é masculina:

— A senhora tem certeza?

— Ué, ninguém se levantou. A única em pé aqui sou eu, que estou limpando a casa. E o cachorro, claro.

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A empregada termina a limpeza da cozinha e da sala e esquenta a marmita que trouxe. Depois recomeça o trabalho.

De tardezinha, o marido da empregada volta do trabalho e, como de costume, passa para buscar a patroa. Acha estranho que o casal não tenha se levantado ainda e diz para a mulher que vai subir no telhado para se certificar se, afinal, dormem ou não dormem.

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VII NO ANO DA BORBOLETA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

VII

NO ANO DA BORBOLETA

“E, quando caso for que eu, impedido/ Por quem das cousas é última linha/ Não for convosco ao prazo instituído,/ Pouca falta vos faz a falta minha:”

Joseph olhou pela janela. Lá fora viu bruma e névoa. Não estava frio em Petrópolis naquela noite. Ao longe vislumbrou quem queria. Os agentes por ele convocados caminhavam alegremente pela rua e em grupo. Nem taciturnos para não despertar suspeitas, nem alvoroçados para não parecerem provocadores. Acendeu a luz, como combinado, quando eles estavam muito próximos da casa e abriu a porta, voltando para o quarto que mandara blindar para que nada ali proferido fosse jamais escutado. Se era normal falar em alemão pelas ruas ou, mais raramente, francês, inglês e espanhol, era preciso ainda mais cuidado quando alguém não queria ser entendido por ninguém. A esse tempo Petrópolis era ainda mais culta do que hoje e ali viviam ou passavam os verões destacadas personalidades.

Um a um eles entraram na casa. O último passou a tranca na porta. Joseph os saudou e ordenou-lhes que se sentassem

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XIV LOTTE: PEDAÇOS DE UM DIÁRIO

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XIV

LOTTE: PEDAÇOS DE UM DIÁRIO

“Continuamente vemos novidades,/ Diferentes em tudo da esperança;/ Do mal ficam as mágoas na lembrança,/ E do bem (se algum houve) as saudades.”

O que vão dizer de meu querido Stefan quando souberem do que houve? Os nazistas controlam até a memória dos mortos!

Que dirá Klaus Mann, filho de Thomas Mann, quando souber? Que Stefan amava demais a vida para se suicidar. Depois, que será dele? Alguém prestará atenção ao que ele disser? Pode ser fofoca, mas me disseram que Thomas não gosta muito desse filho, não!

Romain Rolland, que dirá? Que Stefan sempre lhe pareceu forte e seguro para matar-se, deixando entredito que suicídio é gesto de fracos e inseguros?

E Jules Romain, exilado no México, lerá com remorso e tristeza a notícia da tragédia e haverá de procurar detalhes em todos os jornais.

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Emil Ludwig, Paul Stefan, Heinrich Mann, Berthold Viertel, que dirão? O pintor belga Frans Masereel fará vezes de crítico literário e dirá que, apesar do suicídio, a obra de meu querido

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IX A NOITE DAS BRUMAS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IX

A NOITE DAS BRUMAS

“Jazia-se o minotauro/ Preso num labirinto/ Mas eu mais preso me sinto”.

Joseph reúne seu grupo. Frida chegou atrasada. Hoje está de vestido, o que causa certo desconforto em Joseph e nos outros.

Vestida de homem, as formas se diluem um pouco, a calça não

é apertada, a blusa é larga, o boné esconde os cabelos, e ela raramente usa batom.

Mas hoje está dentro de um vestido estampado que, embora largo e solto, revela as suas benemerências. O sutiã parece pequeno para esconder tanto seio, e, quando ela se senta, os panos, dispostos em abas, revelam alguns indicadores de sua beleza.

Frida não tem barriga, a cintura é fina, e os pés são pequenos, o que não se pode perceber quando ela está de botas. Hoje está de salto alto. São saltos quadrados, pequenos, mas altos.

— Frida — diz Joseph —, qual foi o motivo do atraso? Você sabe que na operação qualquer demora pode ser fatal.

Gustav e Helmut não gostam da repreensão a Frida, mas engolem seco, o chefe é o outro. Frida se explica:

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II PERDIDOS EM PETRÓPOLIS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

II

PERDIDOS EM PETRÓPOLIS

“Os bons vi sempre passar/ No mundo graves tormentos;/ E para mais me espantar,/ Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos.”

Faz mais de 30 anos. O tempo passou, e demorei a notar que os dias me roíam por dentro, obrigando-me a trocas nas quais quem sempre ficava em desvantagem era eu.

O destino da gente pode mudar pela palavra de um amigo que, justamente porque vinda de um amigo, não a questionamos. Em certo dia de 1911, Walter Rathenau me disse:

“É preciso conhecer o mundo antes de escrever sobre ele”.

Aquilo que me pareceu um bom conselho eram palavras sensatas, razoáveis. Deveria ser isso mesmo? Deveria, mas não era. A ferramenta intelectual mais importante de um escritor é sua imaginação, jamais a pesquisa. Pesquisa, coleta de dados, olho sobre a realidade? Nada disso importa. Não é à toa que Homero era cego. Um escritor só precisa ouvir. E quanto mais contraditório o que ouve, mais fascinante será o desafio para escrever sobre o tema escolhido. Mas não, eu segui a

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XII RUA GONÇALVES DIAS, 34, PETRÓPOLIS

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XII

RUA GONÇALVES DIAS, 34, PETRÓPOLIS

“Tão linda que o mundo espanta!/ chove nela graça tanta/ Que dá graça à formosura;/ Vai formosa, e não segura.”

Frida entrou no bangalô com muito mais facilidade do que na noite anterior. Na sala, Stefan lê. Concentrado na leitura e nas anotações, ele não percebeu a entrada da mulher. Quando enfim dá de cara com ela de arma em punho, seu olhar é de quem acabou de ver uma assombração. Os primeiros momentos são de grande tensão, ela não entrou ali para não fazer nada. Fala em alemão com ele.

— O senhor está sozinho na casa?

— Não.

— Quem mais?

— Ela.

— Onde?

— No quarto. Dorme.

— Falemos baixo, então, não é preciso acordá-la.

— Nossa conversa jamais a acordará. Tomou pesado sonífero.

E baixe a arma. Não ameaço a vida de ninguém.

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— Sabemos disso. Mas preciso revistá-lo.

Frida aproxima-se cautelosa, pede que ele se levante e o revista dos pés à cabeça. Stefan poderia desferir-lhe um murro na cabeça quando ela, acocorada ao pé dele, revista as meias dos sapatos, fazendo-lhe cócegas, mas ele é de paz e semelha a um animal que está sendo levado ao matadouro, com a diferença de que sabe o que lhe advém.

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X SE AINDA HÁ VIDA AINDA NÃO É FINDA

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X

SE AINDA HÁ VIDA AINDA NÃO É FINDA

“Da cintura pra cima estava pelada/ E da cintura pra baixo também/ Aquela que era o meu bem./

Ia sozinha à fonte a senhora/ Ia sozinha e nuinha/

E jamais se soube a hora/ Em que voltou sozinha/

Mas outro com ela vinha.” (Mistério! Esses versos não são de Camões. Só o autor deste livro sabe de quem são).

Jeremias aproxima-se da casa do professor a quem o delegado mandou que procurasse e trouxesse à presença dele.

O mestre mora num bairro bem arborizado, tendo as montanhas de guardiãs. Um pouco abaixo da casa corre um regato de

águas claras. Passarinhos cantam no quintal. Dois gatos estão sentados sobre uma espécie de mourão que serve de apoio à cancela. Um cachorro quieto apenas levanta as orelhas e abana o rabo à chegada de Jeremias. Na garagem, um fordeco de uns 15 anos de uso, ao lado do qual está uma bicicleta.

Jeremias bate palmas à entrada. Ninguém atende. Resolve abrir a cancela. O cachorro não se importa. Os gatos, menos

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