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IV A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IV

A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

“Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ Fui mau, mas fui castigado:/ Assim que, só para mim,/ Anda o mundo concertado.”

Vinte de setembro de 1940. Fui dar uma conferência no jornal

A Gazeta, em São Paulo. Quem me convidou foi Cásper Líbero.

Lotte e eu chegamos pela manhã; fomos de avião e do aeroporto seguimos para o Hotel Esplanada. O almoço foi no Automóvel

Clube, no vale do Anhangabaú — demorei a pronunciar direito essa palavra, ainda que, por incrível que pareça, de algum modo soe alemã. Não comemos direito, foi difícil saborear os pratos quando sabíamos que estavam todos nos observando, pois o almoço era em minha homenagem.

À noite, com auditório lotado, falei em francês. Não tive tempo de preparar nova palestra. Então repeti aquela que eu fiz no Instituto Nacional de Música, em 1936. Meu tema foi A

Unidade Espiritual do Mundo. Meu cachê foi de 5.000$000.

É um número gigantesco, como tudo no Brasil. Lê-se “cinco milhões de réis”, mas o povo reduz para cinco contos. De todos

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I QUANDO O CAOS TRIUNFA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

I

QUANDO O CAOS TRIUNFA

“Além disso, o que a tudo enfim me obriga,/

É não poder mentir no que disser,/ Porque de feitos tais, por mais que diga,/ Mais me há-de ficar inda por dizer.”1

A ordem fracassou. Nem todos sabem, mas fracassou! Não apenas aqui. Fracassou no mundo inteiro. Eu sou um dos poucos que sabem dessa verdade fatal. Eis meu desespero.

É preferível a injustiça à desordem, como dizia Goethe em momentos de grande lucidez, nele tão frequentes e em mim tão raros. Por isso, levanto-me cedo, por volta de 5h da manhã e, depois de ordeiras abluções, aprendidas ainda na infância, arrumo a mesa, ponho a pequena xícara à direita, sobre o pires, os dois ao lado do pratinho maior, ladeio o conjunto com a faca,

1

  Essa e as epígrafes de cada capítulo são todas de Luís Vaz de Camões, poeta que Stefan Zweig muito admirava e de quem traduziu para o alemão os versos de que mais gostava. Menos uma, a ele atribuída por outrem, porém apócrifa.

deonísio da silva

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XV ESTRANHO SILÊNCIO

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

XV

ESTRANHO SILÊNCIO

“Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram;/ Os erros e a fortuna sobejaram,/ Que para mim bastava amor somente.”

Rua Gonçalves Dias, 34, Petrópolis. A empregada chega ao meio-dia. Abre a casa e começa a arrumação pela cozinha. Mas antes, pé ante pé, ainda com a vassoura na mão, sabe-se lá por que, vai até a porta do quarto. Parece ouvir sonos profundos, alguém ressonando. Seus sentidos a enganam. Ninguém mais respira ali, mas ela não sabe de nada.

O telefone toca. A empregada demora a ouvir a campainha.

Enfim, atende. Ela responde que o casal está dormindo.

— Os dois?

— Os dois!

A voz é masculina:

— A senhora tem certeza?

— Ué, ninguém se levantou. A única em pé aqui sou eu, que estou limpando a casa. E o cachorro, claro.

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deonísio da silva

A empregada termina a limpeza da cozinha e da sala e esquenta a marmita que trouxe. Depois recomeça o trabalho.

De tardezinha, o marido da empregada volta do trabalho e, como de costume, passa para buscar a patroa. Acha estranho que o casal não tenha se levantado ainda e diz para a mulher que vai subir no telhado para se certificar se, afinal, dormem ou não dormem.

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VII NO ANO DA BORBOLETA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

VII

NO ANO DA BORBOLETA

“E, quando caso for que eu, impedido/ Por quem das cousas é última linha/ Não for convosco ao prazo instituído,/ Pouca falta vos faz a falta minha:”

Joseph olhou pela janela. Lá fora viu bruma e névoa. Não estava frio em Petrópolis naquela noite. Ao longe vislumbrou quem queria. Os agentes por ele convocados caminhavam alegremente pela rua e em grupo. Nem taciturnos para não despertar suspeitas, nem alvoroçados para não parecerem provocadores. Acendeu a luz, como combinado, quando eles estavam muito próximos da casa e abriu a porta, voltando para o quarto que mandara blindar para que nada ali proferido fosse jamais escutado. Se era normal falar em alemão pelas ruas ou, mais raramente, francês, inglês e espanhol, era preciso ainda mais cuidado quando alguém não queria ser entendido por ninguém. A esse tempo Petrópolis era ainda mais culta do que hoje e ali viviam ou passavam os verões destacadas personalidades.

Um a um eles entraram na casa. O último passou a tranca na porta. Joseph os saudou e ordenou-lhes que se sentassem

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IV. A VIDA NOVA

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

ivA VIDA NOVA1Estava mau tempo. O céu encoberto, nevoento, quase branco como leite. Pairava na atmosfera um calor húmido e imóvel.O mar, perdido todo o movimento e toda a materialidade, confundia-se com os vapores vagos da distância, palidíssimo, sem palpitação.Uma vela branca, uma única vela branca – coisa raríssima noAdriático – erguia-se ao longe, para as bandas das ilhas de ­Diomedias, sem mudar de sítio, indefinidamente prolongada pelo espelho daságuas, centro visível desse mundo inerte que se dissolvia a pouco e pouco.Sentada no muro da loggia, numa posição de cansaço, Ippolita fixava na vela os olhos magnetizados pela brancura. Um tanto inclinada, num abandono de toda a sua pessoa, tinha um ar de espanto e quase de imbecilidade que denunciava o eclipse momentâneo da vida interior.Esta falta de energia expressiva acentuava o que de vulgar e irregular havia nos seus traços, tornando carregada a parte inferior do rosto. A própria boca, essa boca elástica e sinuosa, cujo contacto tantas vezes comunicara a Giorgio um terror instintivo e indizível, parecia agora despojada dos seus encantos, reduzida ao aspeto físico de um órgão vulgar, que leva a pensar nas carícias apenas como um ato maquinal, sem nenhuma beleza.

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I. O PASSADO

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

iO PASSADO1Ippolita parou de repente quando viu um grupo de homens debruçados no parapeito a olhar para a rua.– Que terá acontecido? – perguntou, esboçando um pequeno gesto de receio ao pousar involuntariamente a mão no braço de­Giorgio, como que para o segurar.– Certamente foi alguém que se atirou do terraço – disse ele, observando a atitude dos homens. – Queres voltar para trás?Ela hesitou por um momento, suspensa entre a curiosidade e o temor, mas acabou por responder:– Não. Vamos.Avançaram ao longo do parapeito, até ao extremo da alameda.Ippolita acelerava instintivamente o passo em direção ao grupo de curiosos. Naquela tarde de março, o Píncio estava quase deserto e naquela atmosfera pesada e entorpecida vagos rumores desfaleciam.– Como previ – confirmou Giorgio. – Matou-se alguém.Pararam perto do ajuntamento. Todos os espectadores fitavam, com olhares atentos, a calçada lá em baixo. Era gente do povo, sem nada para fazer, com fisionomias muito distintas, sem um reflexo de compaixão ou tristeza; a imobilidade do olhar refletida nos olhos como uma espécie de espanto bestial.

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Medium 9786587017099

00:60 00:00

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

voltar lá, perguntar, averiguar, descobrir se, acaso, a mulher não dez dias da visita feita à relojoaria, nada aconteceu. Pensei em maior se manifestasse. Só que, para a minha decepção, após

Em casa, sozinho, passei dias esperando que, de fato, o sentido

Um sentido com nome, corpo e alma: Anne. têm – mas minha vida, desde o acidente, ganhara novo rumo. agarrar as lembranças de volta – um tesouro para quem não as recordar coisas tristes, estava? Claro que era maravilhoso marcou muito, eu sabia. Mas eu não estava em casa para relógio de pulso do meu pai. Foi um dia triste, um tempo que me envolto em tique-taques tantos, lembrei de quando peguei o o sorriso grudado no rosto. Fechei a porta e fui me sentar. Ali, aos montes? A gente tem cada mania! Vendo-os, continuei com tinha a lembrança de ter tantos relógios. E por que eu os queria nas paredes da minha sala, alguns relógios pendurados. Eu não um sorriso. Silencioso, mas muito significativo. À minha frente, engraçado. A primeira coisa que fiz ao abrir a porta, foi soltar

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Medium 9786587017099

00:58 00:02

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

Quantas? Será que minhas lembranças eram apenas as lembrança, que Anne fora minha mulher em outras vidas.

Minha mulher. Parecia-me, por conta da nebulosidade da o nome, e também lembrei-me do mais importante: Anne. meus pais, com uma senhora negra que não me vinha ao certo

é verdade. Mas lembrei-me com felicidade de ter falado com os existiam, de jeito nenhum. Nem tudo vinha-me com clareza, após o acidente. Passei a lembrar-me de fatos que antes não adequada. Todavia, eu era, sem dúvida, um homem diferente

Minha memória, fraca, confusa, não encontrava resposta

rosto significava. O que guardavam elas? vidrados, as pupilas tentavam decifrar o que cada ruga do meu

Depois do banho, fitei-me no espelho. Parado, olhos caídos mas de 70 anos tem quando está sozinho num banheiro de hospital. fiz as coisas com cuidado. Um cuidado normal que toda pessoa

Claro que mesmo sem o soro, sem nada para me preocupar, ridícula de hospital e tomar um banho.

No banheiro, mijei. E aproveitei para livrar-me daquela roupa manhã, já não carregava nada, estava bem. o soro, tomar cuidado com a agulha espetada na veia. Nesta ao banheiro. Bom andar sem ter que arrastar pedestais, segurar da cama, não antes de me sentar por alguns instantes, e fui porém seguro para um homem da minha idade. Levantei-me

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Medium 9786587017099

00:28 00:32

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

vez de avançar?” regredindo? Como explica você estar voltando no tempo em

“Tem certeza mesmo? E como explica os anos estarem imaginação. Só uma imagem, pensamento ilusório.”

“Não, não faz o menor sentido. Você... já sei, é minha frívola

“Mas matou. E era você naquela época, garanto.” mataria a pessoa que amo, de jeito nenhum.” toda a minha vida, pensei em matar alguém. Segundo: eu não

“Não. Primeiro: sou um homem bom, sempre fui. Nunca, em

“Não?”, reforçou a Anne.

Olhei os relógios de novo. que tal seja verdade.”

“Não, não, de jeito nenhum. Não existe a remota possibilidade

“Isso mesmo, Ataíde.” a matei, sendo, portanto, um assassino?”

1800, que era e é a minha mulher e que, não bastasse, eu

“Então quer que eu acredite que você veio dos anos de olhos duros, acho que esbugalhados ao fitar a moça: tanto as olhei. Como o tique-taque nada dizia, retruquei – os estivesse nos relógios pendurados, nas fotografias grudadas, possível? Achei, por um momento, que a provável resposta inquieto, irracível. Então toda a história absurda de Anne seria descadenciado, trancei as pernas dum lado ao outro na sala,

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00:37 00:23

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

idade avançada. Achei bonito, a dona Rosi. Cheguei a esboçar lá. A gente aprende a ser mais sensível com o passar do tempo, de 23 anos. Se eu ainda tivesse os meus quarenta, sessenta, vá pessoa chorando não era coisa normal para mim, um rapazote sensibilidade, a dona Rosi, devia ter. Chorar só por ver outra lágrima escorrer pelo seu rosto escuro. Devia ter muita também pareceu emocionada. Tentou disfarçar, mas vi uma

Encostada no batente da porta, nos observando, dona Rosi por tê-la feito chorar.

“Desculpa”. E disse, não por me ver culpado pela marca, sim enquanto ela chorava. A única coisa que consegui dizer foi: não conteram as lágrimas. Eu, confuso, fiquei tocando a cicatriz

No momento em que meu dedo deslizava por ela, seus olhos indicador, toquei a cicatriz. Fiquei contemplando a marca.

Com cuidado, levei minha mão até seu pescoço e, usando o

Veio. Sentou-se. Voltou a me olhar com olhos de estátua.

“Vem, senta aqui”, pedi, generoso. Voz carregada na ternura. cama até a janela. ainda dando pequenas voltas, girando os calcanhares, indo da

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Medium 9786587017099

00:39 00:21

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

vagarosamente, voz baixa:

Diante da cena um pouco gótica, meio filme de terror, falei

Na sala, só eu, a Anne e a criança morta. Tentei parecer calmo. eu andr um pouco.” negra velha. Depois saiu. Foi para a rua. Avisou: “O melhor é

“Acho melhor deixar vocês sozinhos”, respondeu a

E, como, como alguém ia viver sem pulmões?”, insisti. também acha que a criança está morta, não acha, dona Rosi?

“Não consigo ver? E a dona Rosi, o que me diz, hein? Ela ele vive. Mas vai ver. me mandou ele assim. Você que não consegue ver que

Ele vive, só não respira porque não tem os pulmões. Deus não respira?”

“Como não? Não vê que esse bebê não se move, não chora,

Não é loucura nenhuma.

“Que loucura é essa?” balbuciei:

Anne. Controlando meus sentimentos, ou tentando controlar, fez expressão de espanto, éramos qual estátuas ao fitar aquela

Fiquei quieto, olhos esbugalhados. Eu e dona Rosi, que também

Esse bebê é o nosso filho. E não está morto! pondo-me incrédulo, praticamente perdido, revolto. escritas de forma trêmula, quais garranchos, me atordoaram,

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00:23 00:38

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

E bonito também era seu rosto. Forte. Nariz perfilado. Olhos

Fui atingido pela surpresa da suavidade de sua voz. Bonita.

“As imagens na sala também não se parecem com você.”

“Nenhuma delas se parece com você.” justificativa: percebi. E, exatamente por perceber, expliquei, meio em

Ficou surpresa ao descobrir tantas fotos de mulheres coladas, passando pelo corredor, indo em direção ao quarto.

O olhar dela foi seguindo foto por foto. Logo ela estava fitando minhas imagens grudadas nas paredes.

De pé, sempre agarrada ao álbum, passou tempo longo a mudeza. Não expressou fala qualquer. Acabou por levantar-se.

Lançou-me um olhar oblíquo, a estranha. Sustentou o olhar e

“É minha mulher?” fiquei intrigado. E fiquei impaciente. E, de novo, intrigado. caminhar e sentar, fechei a porta. E permaneci parado. E quieto,

Andou vagarosa até o sofá da sala. Entre olhá-la nos gestos do as lembranças de um outro? valiosas lembranças daquela mulher? Pode, alguém, roubar protegesse suas lembranças de mim. Mas poderia eu roubar as

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00:38 00:22

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

Sem entender os motivos, sem nada saber, permaneci envolto criança nos braços e chorar. Me olhava e chorava, a coitada.

Tudo o que a tal moça fazia era andar pelos cômodos com a alma penada que, de fato, dava pena. Estranha. Muito estranha.

mulher andar sem parar pelo apartamento feito um fantasma, dominado pela curiosidade, apenas fiquei observando aquela perguntei nada para a moça. Quieto, embora completamente

Esperamos. Dei ao tempo, o tempo que ele precisa. Não

E foi o que fiz. Pelo resto do dia e parte do dia seguinte, esperei.

“Esperar. Só esperar.”

“O que vamos fazer? O que vou fazer?” achando que dona Rosi tinha a obrigação de saber tudo: sala. Acompanhei-a, só com os olhos, no vai-e-vem. Perguntei, num gesto de carinho e foi sentar-se na cadeira de balanço da sorriso, desses acolhedores. Veio, passou a mão em meu rosto

“Só ela pode explicar, némesmo?”, dona Rosi deu um leve

Como se explica isso?”

“E aquele vestido de noiva todo surrado, dona Rosi? O bebê?

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00:59 00:01

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

para a mulher do balcão, que me recebeu com sorriso. Quanto

foto. Emocionado, um pouquinho trêmulo, estendi a imagem fazer exatamente o que eu iria fazer agora: entregar a minha a certeza, lembrança viva, de já ter estado ali antes para

Cheguei. Ao entrar na relojoaria – o coração aos pulos – tive ser a lembrança mais importante do momento. claro que não me importei. Afinal, aquela relojoaria me parecia relojoaria e não me recordava tão claramente de outras. Mas é

Não sei ao certo porque lembrava tão claramente dessa

“Me leva na relojoaria da Barata Ribeiro.” digitais. Agradeci. Voltei para o táxi e pedi: bem contrastada. Resultado, sem dúvida, das novas maravilhas

Eu estava bonito na foto. Velho, mas bonito. Imagem nítida, o táxi e qualquer outra repentina eventualidade. carregava na carteira. Me certifiquei de deixar notas para pagar

Paguei com um pouco do dinheiro amassado e velho que eu feias, 3x4. Valia a pena. Foto boa. Tamanho grande.

Tiravam. Paguei trinta reais por uma foto. Mas não era dessas

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Medium 9786587017068

OTAVIO

José Mattos Editora Almedina PDF Criptografado

OTAVIO

T

rês horas da manhã. Manolo queria fechar o bar, mas eu teimava ali na mesa sem querer ir para casa ou para outro lugar. Eu não ligava para o que o Manolo desejava. O copo de whisky estava no meio ainda, eu esfriava a bebida mexendo os cubos de gelo com a ponta do dedo indicador. Eu sabia que o Manolo queria fechar o caixa e ir para casa, sabia que ele ainda estava ali somente por minha causa. Aquilo me dava prazer, eu me sentia importante, homenageado, pelo menos no bar que frequento. O bar continuava aberto por minha causa somente. Não é pouco.

O bar do Manolo tem história, é citado nos jornais como um dos melhores botecos da cidade, frequentado por gente famosa. É um espaço pequeno, tem umas quinze mesas e um bar bonito onde ninguém se senta. Mesmo com as mesas do salão cheias é difícil alguém beber sentado no bar. Deviam sentar. O Manolo é um papo excelente, sabe alegrar os tristes, conter os alegres, torce por todos. Eu já pensei que o

Manolo fosse um anjo mandado para tomar conta dos bêbados da vizinhança. Sei lá, um dia Deus preocupado com o estado dos bêbados de

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