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VI BREVIÁRIO DE NOSSA PEQUENEZ

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

VI

BREVIÁRIO DE NOSSA PEQUENEZ

“Quem faz injúria vil e sem razão,/ Com forças e poder em que está posto,/ Não vence, que a vitória verdadeira/ É saber ter justiça nua e inteira.”

Vou me matar hoje. Aguardo apenas a noite chegar. A escuridão será a ponte entre o dia e a longa e misteriosa treva da qual tão pouco sabemos por evitar estudá-la, ainda que estudemos assuntos dos quais jamais trataremos.

A morte é mais certa do que o nascimento. Os seres vagam potencialmente no universo, mas muitos não chegam a nascer.

Os que nascem, porém, morrem!

Sou um judeu austríaco que, vagando pelo mundo como folha ao vento ou nave ao léu, veio parar no Brasil, onde espera que enterrem seus ossos. A linda e jovem judia polonesa, minha segunda esposa, que dorme aqui no outro cômodo de nosso bangalô petropolitano, vai morrer também. Ela tem poucos amigos, de sua existência quase ninguém sabe nada. Por enquanto. Meu nome é Stefan Zweig. Faz dois anos que moro no Brasil, depois deter vivido em muitos lugares. O último deles foi Nova York,

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pode levar. Mas devolve, no máximo, até às 5, tá certo?”

“O do 205 ainda não pegou. Ele só chega à noite. Se quiser,

“Não. Não é isso. Bom... tem um jornal aí?”

“O senhor fez aniversário?”

“77? Então... estou com 39 anos!”

“1977.”

“Que ano estamos?”

“Não. Nunca vi”, falei. E fiquei vendo por um curto tempo.

“O senhor nunca viu?” simpática. Esboçou sorriso. Continuou:

“Sítio do Pica-pau amarelo. É bom”, ele respondeu com voz

“Que programa é esse?”, perguntei. matutino na tv pequena sobre a mesa velha. não fazia ideia de quem fosse, assistia a um programa um jornal na portaria. Devolveria logo. O porteiro, outro que eu fazer o que sempre faço quando me deparo mais novo: apanhar

Silêncio. Dona Clotilde não estava. Decidi seguir a lógica e

“Dona Clotilde!”, chamei de novo. anos, meu Deus!, como o tempo estava voltando rápido.

O homem no reflexo deveria ter quarenta, não mais. Quarenta em frente ao espelho. Quantos anos eu havia perdido? todas as vezes era um susto me ver outro, homem mais novo a plenos pulmões. Embora eu soubesse o que iria me acontecer,

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NONATO, RICARDO E OTAVIO

José Mattos Editora Almedina PDF Criptografado

NONATO, RICARDO E OTAVIO

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esde sua chegada, Nonato insistia que Ricardo e eu fôssemos com ele para umas termas no centro da cidade. Eu não estava com muita vontade, mas podia ser engraçado. A conversa com Dom Geraldo me deixara completamente desanimado e decidi que precisava me distrair.

Liguei para o Ricardo, ele topou. Disquei para o Nonato e confirmei o programa para a noite.

De nós três, quem mais gosta de puta é o Nonato. Sempre foi assim, desde que a gente começou a se preocupar com mulher, o Nonato foi o mais putanheiro. Ele foi quem demorou mais a arrumar namorada, ele não achava graça em ficar de conversa com menina, ficar de bobeira horas até conseguir um sarrinho decente. Nonato preferia ir a um puteiro e se divertir com as garotas de lá.

Bonito, de corpo bem feito e com uma aparência que não escondia o berço de ouro, Nonato era o sucesso da zona e a turma fazia fila para subir com ele para os quartos. Logo conheceu uns dois serviços de call girls e nem mais à zona ia. Por telefone mesmo, encomendava as meninas para a suruba que ocorria ou na enorme casa de seus pais no Leblon ou na casa da Praia da Armação em Búzios. Eu e o Ricardo íamos na onda e nos divertíamos muito. Mas o motor do bacanal sempre foi o

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V

isto termos já saboreado em imaginação a melhor parte do prazer, provando sensações e sentimentos da mais rara delicadeza, acho que devíamos renunciar à experiência da realidade. Não iremos a Orvieto. E escolheu outro lugar: Albano Laziale.

Ele não conhecia Albano, nem a Aricia, nem o lago de Nemi.

Ippolita estivera em Albano em pequena, na casa de uma tia já falecida. Para ele, essa viagem teria, portanto, o encanto do desconhecido, e, para ela, a miragem das recordações remotas. Um novo espetáculo de beleza basta para renovar e purificar o amor. As recordações da idade virginal inebriam a alma com um perfume sempre fresco e confortante.

Resolveram partir no dia 2 de abril, no comboio do meio-dia.

Encontraram-se na estação à hora combinada, no meio da turba, sentindo ambos instalar-se-lhes no coração uma ansiosa alegria.

– Não irão ver-nos? Olha lá: não nos verão? – perguntava

­Ippolita, meia sorridente e meia trémula, imaginando que todos os olhos estavam fitos nela. – Quantos dias faltam ainda para a partida?

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ais fatigada agora, quase exausta pelas furiosas carícias,

Ippolita deixou-se cair pouco a pouco, o sorriso foi-se-lhe tornando inconsciente até desaparecer. Por um momento, os lábios tocaram-se; depois, com infinita lentidão, reabriram-se e mostraram, dentro, uma brancura de jasmim. De novo, um momento se lhe cerraram os lábios. E outra vez, lentamente, se reabriram, deixando ver lá dentro a brancura húmida dos dentes.

Recostado sobre o cotovelo, Giorgio fitava-a. Via-a bela, bela, e semelhante à mulher que ele vira pela primeira vez na capela misteriosa, diante da orquestra do filósofo Alessandro Memmi, entre o perfume evolado do incenso e das violetas. Estava pálida, pálida, como nesse dia.

Pálida, mas de uma palidez singular que Giorgio jamais encontrara em mulher alguma; quase mortal, profunda e mate, que se tornava lívida quando se enchia de sombras! As pestanas emanavam no cimo das faces uma grande sombra, e velava-lhe o lábio superior uma sombra masculina quase impercetível. A boca, aberta agora, tinha uma linha sinuosa, bastante vaga mas triste, que, no silêncio absoluto, era intensamente expressiva.

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À

s dez horas da manhã, Giorgio dormia ainda um desses sonos profundos e reparadores que, na mocidade, se seguem a uma noite de volúpia, quando o criado entrou para o acordar. De muito mau humor, gritou-lhe, voltando-se na cama:

– Não estou para ninguém. Deixem-me sossegado. Mas ouviu a voz de um importuno que, do compartimento vizinho, lhe dirigia uma súplica:

– Desculpa, Giorgio, ter insistido. Mas necessito absolutamente de falar contigo.

Giorgio reconheceu a voz de Alfonso Exili e ficou ainda mais aborrecido. Este Exili era um antigo companheiro de colégio, rapaz de inteligência medíocre que, arruinado pelo jogo e pela devassidão, se tornara uma espécie de aventureiro à caça de coroas. Conservava ainda todas as aparências de um belo rapaz, apesar da sua cara devastada pelo vício; mas havia na sua pessoa e no seu estar esse não sei quê de manhoso e ignóbil que adquirem as pessoas reduzidas a viver de expedientes e de humilhações.

Entrou e esperou que o criado saísse, tomou um ar transtornado, e disse, comendo metade das palavras:

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Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

E bonito também era seu rosto. Forte. Nariz perfilado. Olhos

Fui atingido pela surpresa da suavidade de sua voz. Bonita.

“As imagens na sala também não se parecem com você.”

“Nenhuma delas se parece com você.” justificativa: percebi. E, exatamente por perceber, expliquei, meio em

Ficou surpresa ao descobrir tantas fotos de mulheres coladas, passando pelo corredor, indo em direção ao quarto.

O olhar dela foi seguindo foto por foto. Logo ela estava fitando minhas imagens grudadas nas paredes.

De pé, sempre agarrada ao álbum, passou tempo longo a mudeza. Não expressou fala qualquer. Acabou por levantar-se.

Lançou-me um olhar oblíquo, a estranha. Sustentou o olhar e

“É minha mulher?” fiquei intrigado. E fiquei impaciente. E, de novo, intrigado. caminhar e sentar, fechei a porta. E permaneci parado. E quieto,

Andou vagarosa até o sofá da sala. Entre olhá-la nos gestos do as lembranças de um outro? valiosas lembranças daquela mulher? Pode, alguém, roubar protegesse suas lembranças de mim. Mas poderia eu roubar as

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OTAVIO

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OTAVIO

E

stávamos o Waldir, eu e o Vasco preparando a reunião com o pessoal do PDCS. Era um partido cheio de dinheiro fruto de venda ao governo dos votos de seus poucos deputados. Tinham conseguido também amealhar uma pequena fortuna sendo diretores financeiros de uma estatal de energia e de um fundo de pensão do governo. Dinheiro bom, grosso, que enriquecera o presidente do partido e seus cupinchas e ainda sobrara para pagar uma boa campanha eleitoral neste ano.

Apesar do mau humor dos dois eu tentava manter a reunião produtiva. A conta era minha, a agência abrira uma subsidiária para tratar só de política sem misturar seus clientes privados com essa confusão e me convidara para tocar o negócio. A verdade é que todos nós tínhamos um certo pudor de trabalhar em campanhas políticas. Por outro lado, elas rendem bem, garantem boas contas se o nosso candidato vence ou pelo menos sai fortalecido e é possível trabalhar nisso sem virar criminoso.

Agora, vá convencer o Vasco que criar anúncios para candidatos é tão bom quanto vender sabonete. Ele não aceita. Para ele é um sacrifício perder seu tempo examinando as peças criadas pela dupla que nós contratamos só para o marketing político. Ler e analisar as pesquisas de voto era outro parto, mas disso eu me desincumbia e ia passando as informações já filtradas para a turma.

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V. TEMPVS DESTRVENDI

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vTEMPVS DESTRVENDI1Na loggia, a mesa tinha um ar alegre, com as porcelanas claras, os cristais azulinos, os cravos vermelhos, à luz doirada de um grande candeeiro fixo que atraía as borboletas noturnas errando no crepúsculo.– Olha, Giorgio, olha! Uma borboleta infernal! Tem olhos de diabo. Vê-los a luzir?Ippolita apontava para uma borboleta, maior que as outras, de aspeto estranho, coberta com uma espessa penugem loira, de olhos salientes que, contra a luz, brilhavam como dois carbúnculos.– Dirige-se para ti! Dirige-se para ti! Acautela-te! Riu estrepitosamente, divertindo-se com a atrapalhação instintiva que Giorgio costumava ter, quando um desses insetos queria tocá-lo.– Preciso de o agarrar! – exclamou ela com o entusiasmo de um capricho infantil.Preparou-se para apanhar a borboleta infernal, que, sem pousar, voejava à volta do candeeiro.– Que fúria! – disse Giorgio para a entusiasmar. – Mas não a agarras.– Hei de agarrá-la – replicou a teimosa, olhando-o no fundo dos olhos.

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a manhã seguinte (era um domingo) Giorgio, sentado debaixo de um carvalho, ouvia o velho Cola contar como alguns dias antes, em Tocco Casauria, o Messias Novo fora preso pela polícia e levado para a prisão de S. Valentino com alguns dos seus discípulos.

– Nosso Senhor Jesus Cristo também sofreu o ódio dos fariseus

– dizia o velho, abanando a cabeça. – A um, que veio trazer a paz e a abundância aos campos, também o encarceraram!

– Oh pai! – exclamou Cândia. – Não se aflija, o Messias há de sair da prisão quando ele quiser, e ainda o havemos de ver pelos nossos sítios. Espere!

Estava encostada ao umbral da porta, suportando sem fadiga a sua plácida gravidez; e nos seus grandes olhos escuros brilhava uma infinita serenidade.

De repente, Albadora, a Cybele setuagenária que dera à luz vinte e dois filhos, subiu ao pátio, pelo atalho; e, apontando a costa vizinha do promontório da esquerda, anunciou muito comovida:

– Afogou-se além um menino.

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XVI OUTROS MISTÉRIOS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

XVI

OUTROS MISTÉRIOS

“Doce contentamento já passado,/ em que todo o meu bem já consistia,/ quem vos levou de minha companhia/ e me deixou de vós tão apartado?”

Março de 1942. A equipe liderada por Joseph vai deixar o

Brasil. Encontram-se no Hotel Paysandu, no Rio. A reunião é num dos quartos vizinhos àquele onde morou o escritor. Joseph abre os trabalhos:

— Frida, você trouxe os registros?

— Trouxe — diz Frida.

E começam os destaques. Os outros apenas acompanham e vão conferindo em volumosas cadernetas.

— Olha, dentro da casa deixamos ao todo 34 itens.

— Sim. Vamos conferir — diz Joseph. — Quatro malas vazias, uma máquina de escrever, marca Royal, portátil.

— E o rádio portátil, que marca?

— Philco. E o jogo de xadrez. Os livros de Afonso Arinos trouxemos ou deixamos?

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— Deixamos. Estão empacotados para serem devolvidos ao proprietário. Dentro dos livros colocamos os avisos?

— Sim, como planejado. Só os lerá quem abrir os livros.

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idade avançada. Achei bonito, a dona Rosi. Cheguei a esboçar lá. A gente aprende a ser mais sensível com o passar do tempo, de 23 anos. Se eu ainda tivesse os meus quarenta, sessenta, vá pessoa chorando não era coisa normal para mim, um rapazote sensibilidade, a dona Rosi, devia ter. Chorar só por ver outra lágrima escorrer pelo seu rosto escuro. Devia ter muita também pareceu emocionada. Tentou disfarçar, mas vi uma

Encostada no batente da porta, nos observando, dona Rosi por tê-la feito chorar.

“Desculpa”. E disse, não por me ver culpado pela marca, sim enquanto ela chorava. A única coisa que consegui dizer foi: não conteram as lágrimas. Eu, confuso, fiquei tocando a cicatriz

No momento em que meu dedo deslizava por ela, seus olhos indicador, toquei a cicatriz. Fiquei contemplando a marca.

Com cuidado, levei minha mão até seu pescoço e, usando o

Veio. Sentou-se. Voltou a me olhar com olhos de estátua.

“Vem, senta aqui”, pedi, generoso. Voz carregada na ternura. cama até a janela. ainda dando pequenas voltas, girando os calcanhares, indo da

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esquartejado. Os olhos, sim, esses sim podiam ser os daquela

Não se parecia com a minha mulher, a Anne que eu havia escorria-lhe pela face, balançou a cabeça em concordância.

Ela, quieta, esperou e, depois, enquanto uma lágrima poeirenta

“Você é Anne?” coisa que me ocorreu foi perguntar, gaguejando: faltasse experiência para lidar com este insólito fato. A única fiquei sem saber o que dizer. Com apenas 23 anos, talvez me mas enrolado em uma manta imunda. Tão estático quanto ela,

Esquelética. Nos braços, um bebê recém-nascido protegido, petrificados. Um tanto pálida, parecia uma mulher bem sofrida. noiva rasgado, amarrotado, sujo, me olhava com olhos

Fui para o quarto. Na cama, uma mulher com vestido de

“Deve ser, a moça não disse nada até agora.”

“É Anne, minha mulher?” repleto de energia. sofá num movimento rápido, ágil, típico de um corpo jovem e

Arregalei os olhos. Meu coração deu pulos. Também pulei do

“Tem uma mulher no seu quarto. É bom ir dar uma olhada.”

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Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

vagarosamente, voz baixa:

Diante da cena um pouco gótica, meio filme de terror, falei

Na sala, só eu, a Anne e a criança morta. Tentei parecer calmo. eu andr um pouco.” negra velha. Depois saiu. Foi para a rua. Avisou: “O melhor é

“Acho melhor deixar vocês sozinhos”, respondeu a

E, como, como alguém ia viver sem pulmões?”, insisti. também acha que a criança está morta, não acha, dona Rosi?

“Não consigo ver? E a dona Rosi, o que me diz, hein? Ela ele vive. Mas vai ver. me mandou ele assim. Você que não consegue ver que

Ele vive, só não respira porque não tem os pulmões. Deus não respira?”

“Como não? Não vê que esse bebê não se move, não chora,

Não é loucura nenhuma.

“Que loucura é essa?” balbuciei:

Anne. Controlando meus sentimentos, ou tentando controlar, fez expressão de espanto, éramos qual estátuas ao fitar aquela

Fiquei quieto, olhos esbugalhados. Eu e dona Rosi, que também

Esse bebê é o nosso filho. E não está morto! pondo-me incrédulo, praticamente perdido, revolto. escritas de forma trêmula, quais garranchos, me atordoaram,

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cão ainda ladrava no meio do olival quando Ippolita e Giorgio voltaram pelo atalho a caminho da casa de Cândia. Quando o animal reconheceu os hóspedes da casa, calou-se e veio ao seu encontro saltitando.

– Olha, é o Giardino! – gritou Ippolita; e baixou-se para acariciar o pobre animal a quem ela já se tinha dedicado – Chama-nos.

É tarde.

A Lua subia no silêncio do céu, lenta, precedida de uma onda luminosa que enchia gradualmente o firmamento. Todas as vozes do campo adormeciam sob essa claridade pacífica. E a paragem imprevista daqueles ruídos parecia como que sobrenatural a ­Giorgio, a quem um pavor inexplicável mantinha em sobressalto.

– Para um instante – disse ele, segurando Ippolita. E aplicou o ouvido.

– Que estás a ouvir?

– Parecia-me…

E ambos olharam para trás, na direção do eirado que as oliveiras encobriam à vista. Mas não se ouvia senão a cadência igual e embaladora do mar na curva do pequeno golfo. Sobre as suas cabeças, um inseto cortou o ar com um ruído análogo ao do diamante sobre uma lâmina de vidro.

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