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Todas as manhãs, Arnaldo já chega cansado de duas horas de trabalho. Antes de ir para a escola, Rui foi ao agricultor buscar o leite, levou os irmãos menores à creche, deu os recados da Dona Alice, arrumou a casa toda. Carlos falta quase todas as tardes. O pai o manda distribuir por toda a vila as folhas que dão notícia dos falecimentos da véspera, ou tem que carregar os enfeites dos funerais.

O tempo amarelou as folhas dos cadernos onde as crianças deixaram ficar pedaços de vida. Aos 9 anos, Fernando disse o que queria ser quando fosse grande, escreveu os projetos do seu futuro para sempre destruídos num estúpido acidente na moto que ele comprou com os primeiros salários de tecelão. Outros não chegaram a se tornar adultos por se deixarem envolver nas teias que a droga tece. Houve também quem abandonasse a escola e optasse pelas lições que a escola da vida oferece. Outros ainda dizem agora “querer mudar de vida”.

E os pais:

O senhor professor, que me diz? Eu acho que Jorge já tem idade para ir com o tio para as feiras. Se o coloco no ciclo, só ganha vícios e más companhias.

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Algo me feriu o ouvido... O que seria uma “criança adventista”? Por acaso há “crianças socialistas”? Ou há apenas

“crianças”?

Comentei o caso com professores. Todos se denominavam

“católicos não-praticantes”. Todos haviam batizado os filhos e feito a festa da comunhão solene. Todos inscreveram os filhos na disciplina de Religião, nas escolas públicas que frequentavam. Quis saber o porquê da incoerência de católicos que “não praticavam”. Todos sorriram e só um se pronunciou:

– Quero que meu filho seja uma criança “católica”. E, se a catequese não faz bem, também não faz mal!.

Faz mal, muito mal, sei por experiência própria. Fui aluno numa escola do Portugal de Salazar. Na minha sala de aula, ao lado da fotografia do ditador, havia um crucifixo. O meu colega de classe era “protestante”, mas fingia ser católico. Descoberto, foi rudemente segregado pelos fundamentalistas da época.

“Fazer parte ou não do corpo de Cristo não é uma questão de rótulo, mas de comportamento”, escreveu Jean-Yves

Leloup. Se não for assim, além do poder castrador psicológico e sexual, a sociedade exercerá sobre as crianças um pavloviano condicionamento espiritual.

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f mente o porquê de os facilitistas instituírem exames como mito redentor dos erros do sistema. Quem nunca experimentou a deprimente paisagem de um espaço abarrotado de examinandos amontoados ao fundo, mesas da frente desertas, pastas, livros, malas e carteiras de senhora amontoados no fundo da sala? Edificante, não é?

Um inocente candidato a professor confidenciou-me sua perplexidade: “Então, quer saber se as minhas colegas de curso copiam nos exames. E, quando perguntei se achavam correto o seu comportamento, encolheram os ombros e riram na minha cara. Mas o mais incrível é que, quando perguntei se, quando viessem a ser professoras, permitiriam que os seus alunos também copiassem nos exames, responderam: ‘Era só o que faltava!’ Eu não queria acreditar…”. Nem eu! Mas, reconheçamos

(adeptos, ou críticos dos exames) que é assim mesmo. E esses tristes “filhos” dos exames são apenas a ponta de um iceberg, que esconde o facilitismo de tirar cursos parasitando trabalhos de grupo e copiando… em exames.

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Numa espécie de viagem ao passado, sente-se transportado até ao ano de 1958, menino de tenra idade sentado lado a lado com outros meninos em velhas carteiras com buracos para tinteiro e pena, num coro de cantigas sem sentido, repetindo até à exaustão, cada um voltado para o seu único livro:

“a de águia, e de égua, i de igreja, o de ovos, u de uvas...”

Concluída a análise dos “manuais aprovados” para a 1a série, extraí algumas frases de elevado gabarito intelectual, que as suas criancinhas deverão repetir até a exaustão. “A tia tapa o pote” é a frase campeã das citações, quase empatada com a célebre “a vaca dá leite”. E se sente regressado ao país rural da sua salazarista infância perante frases como: “O Vilela leva a vaca à vila”, “O Vilela veio da vila a cavalo”, “Vovô vai

à vila a pé”. Por meio dos manuais fica também conhecendo o que preenche o cotidiano dos alunos das outras escolas: “É dia de aula e Adélia pula” (o texto não nos informa se durante a educação físico-motora ou se o pulo é dado no recreio).

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Como era usual nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os oficiais da censura. Na capa do livro estava escrito A caça aos coelhos. E foram milhares os caçadores que o compraram…

Em Portugal, jornais publicaram rankings de escolas, na cretina atitude de pretender comparar escolas com diferentes características, públicos diversos e situadas em regiões diferentes. Publiquei um artigo, num jornal diário de grande tiragem, denunciando a farsa dos rankings. A minha intenção era a de defender a dignidade das escolas que tinham ficado situadas nos últimos lugares da lista. Quando o meu artigo foi publicado, recebi cartas de elogio e incentivo de muitos professores.

Fiz publicar o mesmo artigo no jornal da minha terra como gesto de solidariedade para com uma escola que conheço e que estava situada nos últimos lugares do ranking. Decorridos alguns dias, alguns professores dessa escola passavam por mim e nem sequer um bom-dia me davam. Estranhei. Semanas depois, compreendi o que se passava: a diretora dessa escola dizia que eu tinha publicado um artigo atacando a sua escola.

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