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b a cegueira ao Ensaio sobre a lucidez, Saramago não faz outra coisa que não seja nos lembrar a tragédia edipiana, que nos fala daqueles que, tendo olhos, não veem, e de cegos que conseguem ver. Em “Vermelho como o céu”, somente quando alcançam a saída da caverna platônica é que a menina reassume a missão de conduzir.

Visitei uma escola que me diziam ser “inclusiva”. Numa turma de 4a série, encontrei um aluno “incluído”. Copiava frases escritas no quadro tão lentamente que, no fim da cópia, a folha foi para o lixo – estava encharcada de saliva, que escorria sem que ele conseguisse conter.

No fundo da sala, o “incluído” tornou-se invisível. A professora explicou por que razão o “incluído” estava ali:

Que quer que eu faça? Ele continua com o livro da 1a série. Com mais de 30 alunos já é difícil ensinar os normais. Agora, põem um deficiente na sala. Eu nunca tive formação para isso. Não dá!

À impotência e frustração de professores junto o desespero dos pais: Na hora de matricular é aquele abraço – “Nós vamos dar conta da sua filha” – mas, depois, a minha filha passa o tempo todo passeando pela escola, ou no fundo da sala.

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u va da organização do trabalho escolar centrada em aulas dadas para um (inexistente) “aluno médio”, em tempos iguais para todos. Preocupava-se com a imposição de ritmo único a alunos que denotavam diferentes ritmos. Interrogava-se.

Nem será necessário voltarmos à França da primeira metade do século XX. Já em 1898, Augusto Coelho afirmava:

“Em Portugal, a escola é ainda, em geral, formalista, é indispensável transformá-la num centro de vida e movimento”. Há mais de um século. E em Portugal! Em nossos dias, essa conversa ainda pode ser considerado “ficção científica”…

Há muitos anos, o Ministério “descobriu” que a maioria das escolas atribuía o fracasso dos alunos à sua origem sociocultural e à falta de formação dos professores. No estudo a que me reporto, confirmou-se o óbvio. Isto é, que predomina nas nossas escolas o método expositivo, a disposição dos alunos em filas, voltados para o quadro, e que “não é visível a existência de estratégias específicas para potencializar a aprendizagem dos alunos com ritmos mais lentos” (dito em linguagem dura e pura, quem não acompanhar o ritmo do professor, que se vive, que pague a um professor particular ou ponha as crianças em escolas especiais). Concluiu o ministério que as práticas de ensino vigentes beneficiam “alunos que acompanham, sem grandes dificuldades, ritmos intensos de ensinamento” e que a preocupação maior é a de preparar os alunos para fazer exames. Era assim, há muitos anos...

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Como sindicalista, senti-me traído. Como professor, envergonhado. Não é fugindo que se conseguirá valorizar a imagem social da nossa profissão – é encarando os desafios.

A Resolução 946 vem fora de hora, é mera distração de políticos, mas os professores não devem jogar fora o menino com a água do banho... deve-se aproveitar a oportunidade para abrir um debate sério sobre o assunto.

A taxa de repetência na 1a série do ensino fundamental no Brasil não anda longe dos 40%. Muitos alunos chegam à 4a série sem terem aprendido a ler. E logo se aponta a “progressão continuada” (prefiro o espírito e a letra desta designação) como responsável, esquecendo que os estados com maior taxa de repetência não adotam o sistema de ciclos nem a chamada

“aprovação automática”.

No mesmo jornal, mas há mais de três anos, também li:

”A organização pedagógica consagrada é baseada na avaliação constante e não em notas e repetência. Mas a implantação é falha. É mais uma história da boa ideia que foi mal-aplicada e mal-entendida. A falta de discussão e preparação para a organização pedagógica em ciclos e a progressão continuada manchou o nome de uma concepção de educação consagrada. Muitos pais, professores e até o presidente da República ainda não entendem a proposta.” A memória é curta. E, talvez por isso, ouvi uma professora exclamar: “Que bom que ainda há aluno repetindo o ano! Isso prova que ainda há escolas sérias que

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“Não sonhe com uma obra acabada. Momentos de extrema elevação se alternam com horas de desordem, de desgostos e de preocupações”, avisava Pestalozzi. Qualquer professor que arrisque fazer diferente será alvo de calúnias dos acomodados, irá ser tentado pela desilusão perante a traição dos seus pares.

O conhecimento das experiências vividas na Escola da Ponte poderá ajudá-los a compreender e a superar decepções.

Como diria Lorraine Moureau, um terço dos professores

é muito bom, um terço pode ficar bom, um terço deve mudar de profissão. Chamemos os primeiros por aquilo que são: professores. Designemos os segundos por quase-professores. Os outros serão… “os outros”.

Um professor contou-me o que aconteceu em uma reunião de Conselho Pedagógico da sua escola. Apresentou um projeto do seu departamento para colher a opinião do conselho. O terço dos professores apoiou. O terço dos quaseprofessores ficou em um silêncio observador. Os “outros” pronunciaram-se: “Isso até pode dar resultado, mas, se der bons resultados, você poderá ter de se estender com o resto da escola.

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Chegou às minhas mãos uma obra publicada no Brasil, no ano de 1983. Nela se pode ler: O nosso objetivo no presente trabalho é fazer uma análise detalhada e acurada do uso da vara, do ponto de vista de Deus.

Assim, tal e qual! Ainda pensei se tratar de uma referência ao pedagogo João de Deus, mas, continuando a leitura, vi que não era – era mesmo ao Deus de Abraão que o autor da obra se referia. E acrescentava: É Deus mesmo quem dá grande importância à vara. Vamos examinar algumas passagens das

Escrituras nas quais ele ordena aos pais que a utilizem como instrumento na criação dos filhos.

Decorridos 20 séculos sobre o Sermão da Montanha, eis mais um triste exemplo da barbárie fundamentalista, que mantém o mesmo tom, ao longo de 67 páginas de instruções aos pais. Se o leitor souber conter a náusea, poderá continuar a leitura: Um dos obstáculos à disciplina é o pensamento humanista. A vara veio de Deus. Foi ele quem ordenou que os pais batessem nos filhos como uma expressão do seu amor por eles. A aplicação da vara tem por objetivo corrigir na criança os elementos que podem impedi-la de obedecer ao Senhor com alegria. Em última análise, bater é uma forma de preparar o coração das crianças para buscar o que de melhor Deus tem para ela. Vemos a importância da obediência completa no caso da obediência parcial do rei Saul. Deus havia ordenado que ele destruísse todos os amalequitas, inclusive o gado deles.

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