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Como era usual nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os oficiais da censura. Na capa do livro estava escrito A caça aos coelhos. E foram milhares os caçadores que o compraram…

Em Portugal, jornais publicaram rankings de escolas, na cretina atitude de pretender comparar escolas com diferentes características, públicos diversos e situadas em regiões diferentes. Publiquei um artigo, num jornal diário de grande tiragem, denunciando a farsa dos rankings. A minha intenção era a de defender a dignidade das escolas que tinham ficado situadas nos últimos lugares da lista. Quando o meu artigo foi publicado, recebi cartas de elogio e incentivo de muitos professores.

Fiz publicar o mesmo artigo no jornal da minha terra como gesto de solidariedade para com uma escola que conheço e que estava situada nos últimos lugares do ranking. Decorridos alguns dias, alguns professores dessa escola passavam por mim e nem sequer um bom-dia me davam. Estranhei. Semanas depois, compreendi o que se passava: a diretora dessa escola dizia que eu tinha publicado um artigo atacando a sua escola.

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Como sindicalista, senti-me traído. Como professor, envergonhado. Não é fugindo que se conseguirá valorizar a imagem social da nossa profissão – é encarando os desafios.

A Resolução 946 vem fora de hora, é mera distração de políticos, mas os professores não devem jogar fora o menino com a água do banho... deve-se aproveitar a oportunidade para abrir um debate sério sobre o assunto.

A taxa de repetência na 1a série do ensino fundamental no Brasil não anda longe dos 40%. Muitos alunos chegam à 4a série sem terem aprendido a ler. E logo se aponta a “progressão continuada” (prefiro o espírito e a letra desta designação) como responsável, esquecendo que os estados com maior taxa de repetência não adotam o sistema de ciclos nem a chamada

“aprovação automática”.

No mesmo jornal, mas há mais de três anos, também li:

”A organização pedagógica consagrada é baseada na avaliação constante e não em notas e repetência. Mas a implantação é falha. É mais uma história da boa ideia que foi mal-aplicada e mal-entendida. A falta de discussão e preparação para a organização pedagógica em ciclos e a progressão continuada manchou o nome de uma concepção de educação consagrada. Muitos pais, professores e até o presidente da República ainda não entendem a proposta.” A memória é curta. E, talvez por isso, ouvi uma professora exclamar: “Que bom que ainda há aluno repetindo o ano! Isso prova que ainda há escolas sérias que

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Talvez revendo-se em um outro lado de um espelho freudiano – eu sei lá! –, o certo é que Alice me respondia numa lógica implacável e repressora de ortodoxias gramaticais.

– O que é isto? – eu perguntava, apontando as mãozinhas do irmão Marcos.

– Ito é as mões do minino!

Reaprendi a gramática do bom senso, compassivamente anotando os absurdos que Alice, sem saber, denunciava, os mesmos absurdos que os adultos de então não conseguiam identificar. Reaprendi com os sábios rabiscos linguísticos da minha neta muito daquilo que tive de desaprender quando, um dia, quis ser professor. E vieram à memória episódios que ouvi contar, quando ainda exercia essa maravilhosa pro­fissão.

Parece que foi ontem, e lá se vão tantos anos! Era no tempo do hegemônico método analítico-sintético por alguns chamado de fônico. Um tempo distante, em que o “p” e o “t” eram aprendidos por meio da repetição soletrada de frases de alto gabarito intelectual do tipo: “a tia tapa o pote”, “a tia é tua”, “é a tua pua”.

Naquele tempo, como atualmente, algum pai, em seu perfeito juízo, se lembraria de repreender o filho, no momento em que este balbuciasse a primeira palavra? Estou vendo o pequeno exclamando “papá!”, e o zeloso genitor corrigindo-o de imediato:

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f mente o porquê de os facilitistas instituírem exames como mito redentor dos erros do sistema. Quem nunca experimentou a deprimente paisagem de um espaço abarrotado de examinandos amontoados ao fundo, mesas da frente desertas, pastas, livros, malas e carteiras de senhora amontoados no fundo da sala? Edificante, não é?

Um inocente candidato a professor confidenciou-me sua perplexidade: “Então, quer saber se as minhas colegas de curso copiam nos exames. E, quando perguntei se achavam correto o seu comportamento, encolheram os ombros e riram na minha cara. Mas o mais incrível é que, quando perguntei se, quando viessem a ser professoras, permitiriam que os seus alunos também copiassem nos exames, responderam: ‘Era só o que faltava!’ Eu não queria acreditar…”. Nem eu! Mas, reconheçamos

(adeptos, ou críticos dos exames) que é assim mesmo. E esses tristes “filhos” dos exames são apenas a ponta de um iceberg, que esconde o facilitismo de tirar cursos parasitando trabalhos de grupo e copiando… em exames.

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“Não sonhe com uma obra acabada. Momentos de extrema elevação se alternam com horas de desordem, de desgostos e de preocupações”, avisava Pestalozzi. Qualquer professor que arrisque fazer diferente será alvo de calúnias dos acomodados, irá ser tentado pela desilusão perante a traição dos seus pares.

O conhecimento das experiências vividas na Escola da Ponte poderá ajudá-los a compreender e a superar decepções.

Como diria Lorraine Moureau, um terço dos professores

é muito bom, um terço pode ficar bom, um terço deve mudar de profissão. Chamemos os primeiros por aquilo que são: professores. Designemos os segundos por quase-professores. Os outros serão… “os outros”.

Um professor contou-me o que aconteceu em uma reunião de Conselho Pedagógico da sua escola. Apresentou um projeto do seu departamento para colher a opinião do conselho. O terço dos professores apoiou. O terço dos quaseprofessores ficou em um silêncio observador. Os “outros” pronunciaram-se: “Isso até pode dar resultado, mas, se der bons resultados, você poderá ter de se estender com o resto da escola.

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