23 capítulos
Medium 9788536319926

o

Pacheco, José Grupo A PDF Criptografado

o

Fiquei feliz pelas crianças”. Professores como Carlos (são tantos os que conheço) vão gravitando em torno do desastre. As suas palavras contrastam com as de outros professores, que me falam de sofrimento, de esforço compensado, de desânimo que, não raras vezes, conduzem à frustração.

Não é fácil a vida nas escolas que temos. O professor está sozinho na sua sala. Esse absurdo – um dos absurdos que sustentam a tradicional e hegemônica organização das escolas – reforça um sentimento mortal de autossuficiência, expõe professores a situações de constrangimento e, por vezes, de violência expressa. Sei de professores que salvaram, in extremis, colegas em risco de serem agredidas dentro das suas salas. Sei de professores que foram ameaçados, humilhados, espancados.

Se isto se deve a uma organização das escolas pautada pelo isolamento e pouco propícia ao exercício da solidariedade, não é menos certo que não cabe às escolas toda a responsabilidade. Não pretendo afagar o ego dos professores, que nunca é minha intenção agradar a quem quer que seja.

Ver todos os capítulos
Medium 9788536319926

n

Pacheco, José Grupo A PDF Criptografado

n obviamente, para o ensino profissional”. O artigo é omisso em relação ao modo como um professor, dando aula a “turmas de nível”, poderá contemplar “o ritmo de aprendizagem e as necessidades de cada aluno”. Talvez num próximo artigo, o articulista nos esclareça.

Desse exercício de senso comum nenhum mal viria ao mundo. Porém, o articulista não está sozinho na sua cruzada.

A unanimidade dos comentários de apoio apenas foi beliscada por um leitor, que sabe que artefatos escolásticos como as

“turmas de nível” já deram provas da sua inutilidade. Como refere no seu comentário, esse leitor aplicou o “ensino tutorial e o ensino cooperativo”, com bons resultados. Mas é compreensível que aqueles que não tenham aplicado ensino tutorial, ensino cooperativo (ou outro qualquer modo de trabalho escolar diferente da mesmice da aula tradicional), produzam comentários favoráveis ao artigo.

Talvez porque a nossa pátria seja a língua portuguesa, ecos da prosa atravessaram o oceano. Afinando pelo mesmo diapasão, uma secretária estadual anunciou que irá criar classes apenas para alunos repetentes, “turmas especiais de alunos que repetiram a 4ª série do ensino fundamental”. Se verdadeira a notícia publicada na Folha de São Paulo, a secretária teria dito: “o aluno com dificuldades é aquele que não

Ver todos os capítulos
Medium 9788536319926

a

Pacheco, José Grupo A PDF Criptografado

a

Talvez revendo-se em um outro lado de um espelho freudiano – eu sei lá! –, o certo é que Alice me respondia numa lógica implacável e repressora de ortodoxias gramaticais.

– O que é isto? – eu perguntava, apontando as mãozinhas do irmão Marcos.

– Ito é as mões do minino!

Reaprendi a gramática do bom senso, compassivamente anotando os absurdos que Alice, sem saber, denunciava, os mesmos absurdos que os adultos de então não conseguiam identificar. Reaprendi com os sábios rabiscos linguísticos da minha neta muito daquilo que tive de desaprender quando, um dia, quis ser professor. E vieram à memória episódios que ouvi contar, quando ainda exercia essa maravilhosa pro­fissão.

Parece que foi ontem, e lá se vão tantos anos! Era no tempo do hegemônico método analítico-sintético por alguns chamado de fônico. Um tempo distante, em que o “p” e o “t” eram aprendidos por meio da repetição soletrada de frases de alto gabarito intelectual do tipo: “a tia tapa o pote”, “a tia é tua”, “é a tua pua”.

Naquele tempo, como atualmente, algum pai, em seu perfeito juízo, se lembraria de repreender o filho, no momento em que este balbuciasse a primeira palavra? Estou vendo o pequeno exclamando “papá!”, e o zeloso genitor corrigindo-o de imediato:

Ver todos os capítulos
Medium 9788536319926

l

Pacheco, José Grupo A PDF Criptografado

l

Como era usual nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os oficiais da censura. Na capa do livro estava escrito A caça aos coelhos. E foram milhares os caçadores que o compraram…

Em Portugal, jornais publicaram rankings de escolas, na cretina atitude de pretender comparar escolas com diferentes características, públicos diversos e situadas em regiões diferentes. Publiquei um artigo, num jornal diário de grande tiragem, denunciando a farsa dos rankings. A minha intenção era a de defender a dignidade das escolas que tinham ficado situadas nos últimos lugares da lista. Quando o meu artigo foi publicado, recebi cartas de elogio e incentivo de muitos professores.

Fiz publicar o mesmo artigo no jornal da minha terra como gesto de solidariedade para com uma escola que conheço e que estava situada nos últimos lugares do ranking. Decorridos alguns dias, alguns professores dessa escola passavam por mim e nem sequer um bom-dia me davam. Estranhei. Semanas depois, compreendi o que se passava: a diretora dessa escola dizia que eu tinha publicado um artigo atacando a sua escola.

Ver todos os capítulos
Medium 9788536319926

g

Pacheco, José Grupo A PDF Criptografado

g te desprevenido. O enquadramento na paisagem é perfeito.

Tudo em harmonia: o canto da cigarra e o silêncio da terra, o voo do tordo refletido na água de uma piscina, o murmúrio do vento que nos embala no cheiro da terra molhada, a sombra da nuvem que se funde na sombra da árvore, o contraste entre a pressa das formigas e a descuidada agitação da criança nua na pedra molhada...

Dentro e fora das casas que compõem o complexo, sente-se o equilíbrio entre dentro e fora: o aroma do eucalipto e a renda da cortina; o encosto da cama com o verniz do soalho e as vigas do telhado, a mesinha de cabeceira embutida em uma parede embutida na paisagem... Melhor dizer que não existe o dentro e o fora. E, em cada recanto, um piano, lembrando que, no princípio... era a música.

A música que chegou ao cair da tarde. O canto dos pássaros recolhidos juntou-se às vozes de muitas crianças do coro de Belgais. Entramos no auditório como se em uma igreja entrássemos. Participamos em uma liturgia de sons, que penetraram o mais profundo dos corpos e acariciaram os nossos sentidos, antes doentes de ruído e de pressa. Uma divina fragrância de flores silvestres insinuou-se entre as frestas do granito, fundiu-se com o perfume das flores da laranjeira, cujos ramos chegavam até a porta, impelidos pelo sopro suave do vento do sul. Indescritível!...

Ver todos os capítulos

Visualizar todos os capítulos