Dalgalarrondo Paulo (11)
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Capítulo 8 - REFLEXÕES SOBRE ESTUDOS EMPÍRICOS

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REFLEXÕES SOBRE

ESTUDOS EMPÍRICOS

Neste capítulo, serão feitas, inicialmente, reflexões sobre trabalhos empíricos realizados pelo grupo de pesquisa coordenado por mim, na UNICAMP, grupo esse que investigou, nos últimos 15 anos, diversas relações entre saúde, transtorno mental e religião. Alguns trabalhos empíricos desse grupo estão disponíveis no endereço eletrônico: www.artmed.com.br. Posteriormente (Capítulos 9, 10 e 11), busco refletir de forma um pouco mais ampla sobre o campo de investigação “religião e saúde mental”, tanto a partir de alguns autores já apresentados na Parte I deste livro como em relação ao panorama sociocultural contemporâneo.

LIMITAÇÕES DE ESTUDOS EMPÍRICOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE MENTAL

Cabe aqui assinalar algumas das principais limitações dos estudos científicos empreendidos na linha de pesquisa “religião e saúde mental”, particularmente dos nossos próprios estudos. Assim como em outras pesquisas nessa área, em nossas investigações buscamos identificar algumas relações específicas entre religião, saúde e transtornos mentais, porém, ao executar os recortes que constituíram os objetos empíricos, estabeleceu-se determinado contorno para a religião e para o sofrimento mental, assim como se definiram amostras e instrumentos de coleta de dados. Todo esse processo, deve-se reconhecer, estabelece limites, determina um alcance específico e reduz necessariamente a abrangência dos resultados e das interpretações.

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Capítulo 1 - INTRODUÇÃO

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INTRODUÇÃO

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!

Por exemplo, por aquele manipanso

Que havia em casa, lá nessa, trazido de África,

Era feiíssimo, era grotesco,

Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.

Se eu pudesse crer em um manipanso qualquer –

Júpiter, Jeová, a Humanidade –

Qualquer serviria,

Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Fernando Pessoa (In: Poesias de Álvaro de Campos)

A primeira parte deste livro visa revisar criticamente a literatura sobre religião na sua interface com disciplinas como psicopatologia, psicologia e antropologia. Isso servirá de moldura teórica a uma reflexão sobre investigações empíricas desenvolvida na segunda parte do livro. Assim, praticamente toda a análise e reflexão deste livro tem em comum o tema da religião, articulada com distintos aspectos da saúde mental e de diferentes transtornos mentais.

Procede, portanto, indagar logo de início o que é, enfim, esta invenção humana1 chamada religião. Como se deve conceber hoje e em nosso meio a experiência religiosa? E, afinal, por que relacionar religião e psicopatologia? Que conexões existiriam entre a religião e os transtornos mentais? Existiriam relações necessárias ou, se não necessárias, importantes entre a religião e o campo da saúde mental?

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Capítulo 9 - DOIS ENTREATOS: A COMPLEXIDADE DOS CONTEXTOS E A RELIGIÃO COMO OBJETO DE ESTUDO CIENTÍFICO

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Paulo Dalgalarrondo

Se Deus está morto,142 afirma Dostoievski, através de seu personagem Ivan

Karamazov,143 então tudo é permitido. Para o homem moderno, sobretudo os “mais modernos”, eruditos, cientistas, não só tudo é permitido, mas, pior, a morte, limite maior de nossa existência, não tem mais qualquer sentido. Jacques Lacan (2005), entretanto, acrescenta, novamente, um paradoxo a esse debate. Ele confronta Ivan

Karamazov evocando outra vez o Édipo freudiano: se “Deus está morto, [aí então é que] nada mais é permitido”. O luto do pai produz esta seqüela duradoura, esta identificação que se chama supereu. Ou seja, o assassinato do pai cometido pelos homens do mercado de Nietzsche não torna tudo permitido, mas talvez faça com que eles se identifiquem uma vez mais com o pai não amado. De toda forma, Deus vivo ou morto, o paradigma da modernidade parece que não mais vige, pelo menos completamente. Vislumbram-se novos tempos.

Como entender, então, o religioso e as formas de sofrimento nesta contemporaneidade intensamente fugidia, na qual as formas de sociabilidade, os valores, os modos de organização do trabalho, os símbolos culturais, a subjetividade, tudo enfim, muda muito rápida e radicalmente? O desafio é acertar o foco em um cenário que parece resistir a ele.

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Capítulo 2 - FORMADORES DO CAMPO TEÓRICO

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Religião, psicopatologia e saúde mental

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FORMADORES DO

CAMPO TEÓRICO

Quem morre vai descansar na paz de Deus.

Quem vive é arrastado pela guerra de Deus.

Deus é assim: cruel, misericordioso, duplo.

Seus prêmios chegam tarde, em forma imperceptível.

Deus, como entendê-lo?

Ele também não entende suas criaturas,

Condenadas previamente sem apelação a sofrimento e morte.

Carlos Drummond de Andrade,

“Deus e suas criaturas” (In: Corpo)

OLHANDO PARA A SOCIEDADE E PARA A CULTURA

Em um passado longínquo

Nas várias sociedades humanas, a visão dominante sobre a religião e suas conseqüências para a vida dos homens tendeu, ao longo da história, a ser aquela adotada pelas hierarquias, sejam elas religiosas, políticas ou sociais. As versões oficiais e dominantes tenderam a ser quase sempre apologéticas. Os sacerdotes, teólogos e pensadores afirmam os dogmas, a certeza da existência e centralidade dos deuses e suas leis inexoráveis; a salvação e a felicidade (sejam elas terrenas ou celestiais) só sendo possíveis pela adoção das crenças e pela obediência às leis. Em particular, nas tradições cristã, islâmica e judaica, desde o final da Antigüidade, vários pensadores sutis e profundos, como Santo Agostinho, Anselmo, Abelardo,

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Capítulo 5 - PSICOPATOLOGIA E RELIGIÃO

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Religião, psicopatologia e saúde mental

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PSICOPATOLOGIA E RELIGIÃO

LOUCURA E RELIGIÃO: UMA ANTIGA E ÍNTIMA RELAÇÃO

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma...

Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas.

Ackerknecht (1985) afirma, em sua breve história da psiquiatria, que a noção de transtorno, doença mental ou “loucura” que o Ocidente hoje admite difere muito das noções dos povos indígenas, seja da atualidade ou do passado remoto. Nesses povos, quase todas as doenças e, sobretudo, as formas de alteração mental e comportamental que designamos “transtorno mental grave” são concebidas como produtos de forças sobrenaturais: maus espíritos, deuses, roubos espirituais, possessões, obra de bruxas ou de feiticeiros. Descontada a grande variação em termos do que se considera “anormal” entre povos não-ocidentais, quando a “loucura” ocorre e é reconhecida nesses povos, quase sempre são acionadas percepções e representações que a localizam no âmbito do sagrado, do demoníaco, da possessão, enfim, ela ganha uma acepção plenamente religiosa.

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