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Capítulo 49. Freud não explica, mas se implica

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FREUD NÃO EXPLICA,

MAS SE IMPLICA

A psicanálise nasce com a descoberta do inconsciente e tem nela um de seus pilares, talvez o maior. Relacioná-la à “explicação” faz o maior sentido e gera incômodo. Em defesa de certo mistério (essência da vida e da arte), muita gente boa criticou e ainda critica a psicanálise. O escritor

Elias Canetti via nela algo de pretensioso, não só por ele apostar mais fichas no social, mas por ter ojeriza ao fechamento de uma ideia. Outros intelectuais o acompanharam mundo afora e adentro. Julien Green amava e odiava a psicanálise e, por aqui, Paulo Hecker Filho não a via com bons olhos em sua prosa. Já Mario Quintana não perdia a oportunidade de zoá-la poeticamente.

A transformação do inconsciente em consciente a partir de uma interpretação (explicação) aparece nos primeiros trabalhos de Freud e, de certa forma, nunca desapareceu. A propósito, a expressão “Freud explica” pode ter nascido ali. A respeito disso, Sérgio Paulo Rouanet me contou uma história engraçada. Ao contrário de Canetti, Quintana e Hecker, ele sempre admirou a obra de Freud, em especial no aspecto literário. Quando foi dar um curso sobre ela, houve excesso de inscrições, e o filósofo precisou fazer uma peneira. Entre os candidatos, entrevistou uma senhora “muito perua” que, ao ser questionada sobre o seu interesse, disse apenas que adorava Freud. “O que, especificamente?” – Rouanet perguntou. “Não

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Capítulo 40. Um scott para freud

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UM SCOTT PARA FREUD

Sou da turma que arrisca ao acreditar que a verdade faz bem.

Do autor

Carlito avisou que Paulo Scott estava lançando um livro de poemas chamado Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Mesmo sem poder ir, o encomendei. Chegou no mesmo dia outra obra que eu havia pedido:

Freud – uma biografia ilustrada, de Octave Mannoni. Era maio. Fim de semana. Os poemas e a biografia adentraram o sábado.

Sempre gostei de leituras simultâneas, especialmente a mistura de poesia e prosa. Complementam-se, e eu descanso de uma na outra. Maravilhar-me com o poético e achar a prosa para contá-lo parece aproximar-se da completude. Já venho acasalando outros autores ao longo da vida de leitor: Bandeira e Nietzsche; Manoel de Barros e Jung; Edmund Wilson e Ferreira Gullar. Ninguém é completo, nem na arte.

Há horas não rolava tanta liga entre dois gêneros. A poesia de Scott

é daquelas sem concessões e encontra uma verdade psíquica desde os primeiros versos:

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Capítulo 79. O milagre de salvador celia

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O MILAGRE DE

SALVADOR CELIA

O psiquiatra Salvador Celia sempre me impressionou pela sua falta de noção do impossível. Certa vez, ele estava organizando a Semana do Bebê, em Canela, e me disse:

– Vou trazer a Luíza Brunet para ser madrinha da festa. Ela vai trazer alegria para os adultos. Adultos alegres alegram crianças.

Ela estava no auge, mas ele também, e a trouxe. Como trouxe Renato

Aragão, Regina Duarte, seu Francisco, pai de Zezé de Camargo e Luciano – que só não vieram porque, no fundo, o Salvador não quis. Mais comovente era quando duvidava da noção do impossível nas crianças. Elas vinham com várias deficiências, mas ele já tinha decidido:

– Serão cidadãs felizes.

Para quem via de fora, nem pensar. Mas Salvador era daqueles que não via de fora. Olhava por dentro, sentindo junto, e não se deixava contaminar pela opinião alheia ou pelo preconceito (vindos de fora). Era uma de suas armas. Lembro-me de outras duas. Uma, jamais fazia o trabalho sozinho.

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Capítulo 9. A psicanálise e o nada - a clínica do vazio revisitada

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A PSICANÁLISE

E O NADA – A CLÍNICA

DO VAZIO REVISITADA

À época, eu acompanhava duas situações muito difíceis. Não que as outras não fossem, mas aquelas pareciam especialmente complicadas, uma delas mais ainda, conforme eu pensava no início e confirmou-se ao longo das respectivas tramas.

Na primeira, depois de anos de embate e muito gramar de vazio em vazio, meu interlocutor tornou-se capaz de encontrar um amor. Como era de hábito no seu sentimento de culpa, em vez de contar o romance com prazer, gastava a energia em tentar discutir comigo. Ele me atacava, eu o acolhia, cada um em seu papel no drama que agora vinha dando certo. Ele utilizava a imagem de ferros no interior de uma coluna (era engenheiro, embora não o exercesse por causa de “discussões”) para dizer que havíamos inventado completamente “aquela coluna” (de amor), já que nada tinha em seu passado que pudesse prepará-la, fosse mãe, pai ou as suas próprias tentativas anteriores. Ele sabia o quanto eu discordava dessa hipótese, o que era claro em minha permanente proposição de procurarmos algum fio solto e positivo do seu passado para compreender a parte boa do presente.

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Capítulo 36. Psicanálise: um negócio de amor e intersubjetividade

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PSICANÁLISE: UM

NEGÓCIO DE AMOR E

INTERSUBJETIVIDADE

Je sais que la douleur est la noblesse unique.*

Charles Baudelaire

Dei pelo menos duas opiniões durante a semana. A primeira foi sobre as companhias telefônicas. Elas me mandaram uma “oferta” para o celular.

Não valia a pena e não aceitei. Em seguida, me parabenizaram, como se eu tivesse aceitado, e depois me cobraram, como se eu fosse pagar. Liguei suspendendo, e passei horas entre ramais até conseguir. Acho que consegui.

Já a conta telefônica do consultório veio triplicada. Liguei novamente, e disseram que estavam apenas oferecendo mais rapidez na internet. Ainda bem que conferi e voltei à eternidade dos lentos ramais para sustar. Veio disso a primeira opinião, que repito agora. Eu penso que as companhias telefônicas perderam a ética, impingem serviços, contam com a distração dos clientes em olhar as contas ou a falta de tempo de questioná-las.

E concluí: há uma selvageria em busca do lucro sem a menor consideração pelo outro.

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