Newton Bignotto (12)
Título Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

1.3. A HISTÓRIA E OS HISTORIADORES

PDF Criptografado

1.3. A HISTÓRIA E OS HISTORIADORES

As reformas levadas a cabo por Sólon resolveram de forma parcial os problemas de Atenas. Ainda que não tenhamos informações detalhadas sobre o período, o certo é que o desenlace das lutas internas, alguns anos depois, nos leva a acreditar que, após a partida do legislador para o estrangeiro, os diversos partidos continuaram a se bater, agora dentro de um quadro institucional diferente, que, num certo sentido, dava ainda maior liberdade para as disputas. Trinta e um anos depois da partida de Sólon e com ele já de retorno à casa, Atenas teve sua primeira experiência com a tirania, em 561 a.C.

Pisístrato passava então por ser um grande defensor da causa democrática, nas palavras talvez um pouco anacrônicas de Aristóteles. Aproveitando-se de algumas confusões e utilizando-se do velho método de se ferir para acusar os adversários, ele pediu ao povo que lhe concedesse uma guarda pessoal, o que foi aceito

(Aristóteles 1952, XIV). Para compreender a situação, é preciso lembrar que Pisístrato pertencia ele mesmo aos meios aristocráticos, mas isso não implicava sua adesão aos partidários da velha aristocracia. No seu caso particular, ocorria exatamente o contrário, pois sua força vinha do apoio popular e de sua reputação militar. É claro que não podemos dar aos termos significados precisos, sobretudo porque nossas principais fontes de informação, datando de períodos posteriores, utilizaram termos que serviam para os leitores de seu tempo, mas que hoje podem estar na origem de confusões e desentendimentos. Seja como for, o que nos interessa é seguir de perto o aparecimento da tirania em Atenas e suas repercussões nos diversos discursos que nos falam da época.

Ver todos os capítulos

2.4. ÉDIPO TIRANO

PDF Criptografado

só pelos motivos religiosos, mas também por algo que não pertence ao campo do direito divino. Creonte é uma ameaça para todos, porque expõe o corpo político à ira divina, ao mesmo tempo em que revela aos cidadãos os limites de sua condição de inventores de lei. O tirano é assim o outro da democracia, o negativo de um regime que exige a associação entre liberdade e igualdade. Mas é precisamente enquanto faz parte do político, enquanto é uma possibilidade sempre inscrita na democracia, que ele é temido. Para a cidade livre do século V a.C., talvez o mais terrível de um personagem como Creonte estivesse no fato de que ele não era o estrangeiro invasor, não era nem mesmo o usurpador banal do trono. Seu comportamento, sua tentativa de enganar, seu pretenso apego à coisa pública, eram traços do comportamento de muitos dos líderes democráticos do tempo. Mesmo sem buscar identificações históricas precisas (Meier

1991: 245), estamos em condição de dizer que a tirania era o grande inimigo da democracia nascente, na medida em que encontrava em suas instituições o terreno fértil para se desenvolver. O que os atenienses temiam é que a procura de novos caminhos, a descoberta de novas leis, pudesse se transformar no inverso da liberdade. O tirano fracassa, mas não foi nem o apelo à razão nem mesmo a profecia que o detiveram, mas a punição dos deuses, que escapa ao alcance da ação humana. A democracia encontra na tirania seu limite e seus medos, um companheiro terrível do qual não pode se separar, para continuar a existir enquanto regime que cria algo diferente da tradição. O risco, inerente à condição humana, permanece na medida em que os personagens de Sófocles nos confrontam com a incapacidade dos homens de prever os acontecimentos e, assim, desvelar a lógica da ação dos deuses.

Ver todos os capítulos

2.2. ÉSQUILO

PDF Criptografado

anteriores. Surge, assim, no século V a.C. o que chamaremos de tirano trágico, figura diferente da imagem que a poesia forjara no século VI a.C., e da que a filosofia forjará, pelas mãos de seus grandes mestres, nos séculos seguintes. Procuraremos, a partir de agora, mostrar quais foram suas principais características e de que maneira trouxeram uma contribuição decisiva para a elaboração do pensamento político grego no século de Péricles.

2.2. ÉSQUILO

Os deuses e a justiça dos homens

Ésquilo pertenceu à geração que viu a potência de Atenas ser multiplicada após a vitória sobre os persas; acompanhou de perto as transformações, que terminaram por instaurar a democracia, e se viu confrontado com todos os desafios que impunha a nova situação. Ao mesmo tempo que viam com apreensão a expansão dos limites da vida na cidade, os vencedores de Maratona e Salamina tinham sido educados por homens que conheceram a tirania dos Pisístratos e temiam o desregramento dos governantes. A obra do poeta revela toda a angústia de seu tempo, a busca desesperada de um conjunto coerente de valores, capaz de expressar o mundo que surgia, mas também capaz de conduzir os homens a agir com justiça e respeito aos deuses. Por isso suas peças são povoadas pelos deuses e pela ideia da justiça divina; por isso os personagens entregues à “hybris” do mundo encontram sempre seus limites na vontade dos imortais (Romilly 1982: 51-79). O mundo de Ésquilo é violento, caótico, misterioso, mas deseja a ordem. Os deuses possuem, ao agir, uma lógica que não conseguimos penetrar com nossos olhos mortais. No fluxo de suas ações, no entanto, uma direção termina por se impor: a justiça. É, assim, com a vitória da justiça que terminam as peças que nos restaram, mesmo o Prometeu, que põe os próprios deuses em cena, e não os homens. É

59

Ver todos os capítulos

2.1. TRAGÉDIA: UMA ARTE POLÍTICA

PDF Criptografado

mos apreender em uma primeira leitura. Se para nós, que conhecemos apenas um número limitado de textos, parece evidente que não podemos acusar os poetas trágicos de terem sido os arautos da tirania, também não nos parece razoável supor que Platão não os conhecesse a ponto de se equivocar de maneira tão grosseira.

Talvez, se retornássemos à velha disputa entre a filosofia e a tragédia, tivéssemos uma percepção mais aguda das diferenças que separam duas concepções diferentes da vida política; mas, ainda assim, teríamos deixado de lado o problema específico da tirania, para reter apenas o que nele faz parte da história da constituição do discurso filosófico na Grécia. Aqui, interessa-nos a tirania e como foi compreendida pelos gregos. Nesse sentido, o texto platônico é eloquente. Ele sugere que entre o discurso filosófico sobre a tirania e a poesia trágica havia uma distância, que talvez não fosse perceptível para o espectador comum das representações. Ele nos convida a estudar a tirania a partir do ponto de vista novo da filosofia e, portanto, a recusar a visão dos trágicos.

Ver todos os capítulos

2.3. A ANTÍGONA

PDF Criptografado

esse não foi um problema central em sua obra. Ao confrontar a cidade com os impasses provocados pela ação dos homens e com as exigências da justiça divina, ele expõe de forma inequívoca a falência do velho código de valores aristocráticos, que permitiram aos homens compreender o significado do tirano no século precedente. Com o aparecimento do tirano trágico, tornou-se necessário buscar uma nova compreensão da tirania, no interior do quadro de valores que se impunha na jovem democracia. As tragédias foram o meio privilegiado de que se serviram os atenienses para dar plena expressão às dúvidas e conflitos que os atemorizavam e estimulavam na busca de uma nova compreensão dos limites da extraordinária experiência política que viviam. Em Sófocles e Eurípedes o tirano virá ocupar o centro do palco. Por intermédio de personagens instigantes e terríveis, a tirania se transformou num tema importante das festas, que celebravam a grandeza da cidade.

2.3. A ANTÍGONA

São de Sófocles duas das peças mais populares do teatro grego:

Ver todos os capítulos

Ver Todos

Jackson Robert S Rensen Georg (1)
Título Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

11. Questões-chave em RI contemporâneas

PDF Criptografado

11

Questões-chave em RI contemporâneas

Introdução �

382

Conclusão �

416

Terrorismo internacional�

382

Pontos-chave�

417

Religião nas RI: um choque de civilizações? �

Questões�

418

390

O meio ambiente �

398

Orientação para leitura complementar�

418

Links�

419

Novos padrões de guerra e paz: mudanças na condição do Estado�

406

Resumo

Este capítulo discute quatro das mais importantes questões contemporâneas em RI: terrorismo internacional, religião, meio ambiente e novos padrões de guerra e paz. Alguns desses temas já eram evidentes anteriormente, mas por muitas razões ganharam proeminência apenas na agenda atual. O capítulo discute ainda as diferentes maneiras pelas quais esses assuntos são analisados pelas várias teorias apresentadas neste livro.

382 Política e questões

Introdução

Este capítulo discute quatro das mais importantes questões levantadas por acontecimentos atuais. Poderíamos ter optado por outras questões, mas nossas escolhas são suficientes para ilustrar como diferentes temas podem surgir na disciplina e mudar seu enfoque teórico. Um tema de RI surge quando uma questão é considerada importante em termos de valor e de teoria. Os valores são relevantes porque a decisão do que é ou não importante é sempre tomada com base em valores. Ao mesmo tempo, é preciso trazer a teoria à discussão porque para se argumentar em favor de um novo tema é necessária uma ideia da importância deste para o estudo das RI. Por essas razões, as novas questões frequentemente estão associadas a novas abordagens de RI.

Ver todos os capítulos
Helena Esser Dos Reis (9)
Título Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

Miséria, violação da democracia

PDF Criptografado

Miséria, violação da democracia

Helena Esser dos Reis

No verso dos papéis em que Tocqueville preparava um discurso em novembro de 1841, entre outras ideias, encontramos uma afirmação taxativa: “A liberdade é a primeira de minhas paixões.

Eis o que é verdade” (Tocqueville, 1985b: 87). A forma assertiva e direta desta confissão oferece aos seus leitores uma chave interpretativa de seu pensamento. Tocqueville está longe de ser um autor que desenvolve seus conceitos fundamentais sistematicamente; pelo contrário, seu pensamento é forjado no confronto com os problemas que vive e busca compreender. Por isso mesmo não se deixa apreender facilmente nos rótulos que seus intérpretes insistem atribuir-lhe. Educado no seio de uma família aristocrática, encanta-se com as novas possibilidades da democracia.

Afasta-se do radicalismo dos monarquistas, repudia a ilusão de uma volta ao passado, toma parte nos debates políticos travados entre liberais e socialistas, apoia instituições sociais e políticas favoráveis à liberdade, mas exige algo além das meras garantias formais que satisfazem a burguesia liberal que ascende ao poder após 1830. Se a indocilidade de seu pensamento traz dificuldades aos seus intérpretes, também lhe confere vivacidade e abertura.

Ver todos os capítulos

1835-1840 ou como a economia influencia o segundo volume de A Democracia na América

PDF Criptografado

1835-1840 ou como a economia influencia o segundo volume de A Democracia na

América1

Eric Keslassy

A Democracia na América é uma obra publicada em dois tomos: o primeiro em 1835, o segundo em 1840. Os comentadores da obra de Tocqueville geralmente se esforçam para mostrar a coerência do conjunto. Contudo, ocultam a dimensão tomada pela economia no pensamento de Alexis de Tocqueville (1805-1859) entre 1835 e 1840. Sem levar em conta o fato que Tocqueville está muito interessado em economia neste período, é difícil entender a importância dada à aparição de certas temáticas no segundo tomo de A Democracia na América (1840), em particular o avanço irremediável do capitalismo industrial nos tempos democráticos. É especialmente a segunda viagem à Inglaterra, que Tocqueville realiza em 1835 após o lançamento da primeira parte de A Democracia na América, que torna o pauperismo incontornável no pensamento do autor: entrando nas fábricas inglesas, o que ele não tinha feito na América nem quando de sua primeira viagem à Inglaterra em

Ver todos os capítulos

A questão do pauperismo no pensamento de Tocqueville

PDF Criptografado

A questão do pauperismo no pensamento de

Tocqueville1

Juan Manuel Ross

Introdução

Desde seu redescobrimento na década de sessenta do século passado, o pensamento de Alexis de Tocqueville vem recebendo numerosos reconhecimentos por parte dos estudiosos da ciência social e, mais recentemente, dos da filosofia política. A este respeito, se destacam, entre outros aspectos de interesse, sua contribuição ao desenvolvimento da teoria sociológica2, a originalidade de sua metodologia investigadora3, sua desmistificadora interpretação histórica da Revolução francesa4, sua lúcida reflexão política sobre a democracia moderna através do exemplo estadunidense5, seu trabalho pioneiro sobre a questão penitenciaria6 e seu valor

1 Tradução de Helena Esser dos Reis.

2 Assim, por exemplo, R. Aron. Les étapes de la pensée sociologique. Paris : Gallimard, 1967.

3 Sobre esta questão versa o pormenorizado estudo de J.M. SAUCA. La ciencia de la asociación de Tocqueville. Presupuestos metodológicos para una teoría liberal de la vertebración social. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, 1995.

Ver todos os capítulos

Observar a miséria: a atalaia metodológica de Alexis de Tocqueville

PDF Criptografado

Observar a miséria: a atalaia metodológica de Alexis de Tocqueville1

Julián Sauqillo

“Em 1833 recorri à Grã-Bretanha. Outros estavam interessados pela prosperidade no interior do país, eu pensava na secreta inquietude que agitava visivelmente o espírito de todos seus habitantes. Acreditava que misérias importantes deviam ocultar-se debaixo deste brilhante manto que a Europa admira. Essa ideia me leva a examinar com uma atenção muito especial o pauperismo, essa praga horrível e imensa que se acha unida a um corpo cheio de força e saúde.”

Alexis de Tocqueville, Primeiro Ensaio sobre o Pauperismo (1835)

“(...) Amemo-nos sempre igual; é um consolo a todos os males da vida.”

Carta de Louis de Kergolay a Alexis de Tocqueville (Paris, 2 de abril de 1830)

1. Observar o irremediável

A proposta reformadora de Tocqueville é mais própria de um higienista público do século XIX que de um estrito teórico da política dos séculos XVII e XVIII. O estilo especulativo do primeiro

Ver todos os capítulos

ENSAIO SOBRE O PAUPERISMO

PDF Criptografado

ENSAIO SOBRE O PAUPERISMO1

Alexis de Tocqueville

Primeira parte

Do desenvolvimento progressivo do pauperismo nos modernos e dos meios empregados para combatê-lo

Quando percorremos os diversos países da Europa, nos surpreendemos com um espetáculo extraordinário e aparentemente inexplicável. Os países que parecem os mais miseráveis são aqueles que, na realidade, contam com o menor número de indigentes, e nos povos cuja opulência se admira, uma parte da população é obrigada, para viver, a recorrer aos donativos da outra.

Que se atravessem os campos da Inglaterra, acreditar-nos-emos transportados ao Éden da civilização moderna. As estradas magnificamente conservadas, residências frescas e limpas, gordos rebanhos errantes nas ricas pradarias, agricultores plenos de força e de saúde, a riqueza mais ofuscante do que em qualquer país do mundo, a simples comodidade mais ornada e mais aprimorada que em outros lugares; em toda parte o aspecto do cuidado, do bem-estar e de ociosidade; um ar de prosperidade universal que acreditamos respirar na própria atmosfera e que faz estremecer o coração a cada passo: assim aparece a Inglaterra aos primeiros olhares do viajante.

Ver todos os capítulos

Ver Todos

Fabio Giambiagi Sergio Guimar Es Ferreira Ambr Zio Ant Nio Marcos Hoelz Orgs (23)
Título Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

20. O Estado e o processo de destruição criadora no século XXI: salvando o capitalismo dos capitalistas (Paulo Guilherme Farah Correa e Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt)

ePub Criptografado

A ideia de que o capitalismo precisa ser salvo dos capitalistas é antiga. O trecho da Riqueza das nações em que Adam Smith afirma que “pessoas de uma mesma profissão raramente se reúnem, [...] mas quando o fazem as conversações terminam em conspiração contra o interesse público ou em algum aumento de preços” é frequentemente entendido como alusão ao risco de formação de cartéis.1 Essa interpretação, todavia, pode ser estendida ao lobbying e a outras atividades de rent-seeking adotadas por empresários para aumentar o retorno de seus investimentos. Cartéis, lobbies e outras atividades igualmente improdutivas são, do ponto de vista do empresário, alternativas ao empreendedorismo produtivo. Qual dessas estratégias será preponderante depende dos retornos relativos a cada uma delas, o que, por vez, deriva das instituições econômicas existentes em cada sociedade.2Fazer com que essas instituições funcionem corretamente, criando os incentivos adequados para o investimento em atividades produtivas, é essencial para sociedades em que o empreendedorismo [produtivo] e não o rent-seeking prevalecerá.”3

Ver todos os capítulos

6. Eficiência na aquisição de bens e serviços (Eduardo Pedral Sampaio Fiuza e Daniel Matos Caldeira)

ePub Criptografado

A compra de bens e serviços em geral pelo Estado representa uma parcela considerável do PIB. Nos países da OCDE, esse percentual era, em média, 12% em 2016. No Brasil, as primeiras estimativas dão conta de que essa parcela era, entre 2006 e 2012, em média 13,8%.1 Já estendendo o período até 2016, essa média cai para 12,5%.2

A Constituição Federal de 1988 (CF/1988), em seu artigo 22, inciso XXVII, atribuiu privativamente à União a competência de legislar sobre as normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como para as empresas públicas e sociedades de economia mista. Isso inclui tanto as aquisições de bens e serviços como as de obras civis. A provisão de infraestrutura e serviços públicos pela União, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, está prevista na CF/1988, artigos 21 e 177, com redação dada pelas Emendas Constitucionais 8 e 9, de 1995. Aos Estados compete explorar diretamente ou mediante concessão os serviços locais de gás canalizado.

Ver todos os capítulos

17. Etapas da desestatização no Brasil: 30 anos de história (Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho)

ePub Criptografado

O Brasil vem realizando diversas desestatizações há mais de 30 anos, incluindo-se modelos de venda de controle, vendas de participação minoritária, concessões públicas e parcerias público-privadas (administrativas ou patrocinadas), presentes em todos os entes da federação. O primeiro formato mais organizado se iniciou no governo Sarney, perpassado pelos sete presidentes posteriores, com diversos matizes ideológicos, até a atual administração.

Entretanto, as primeiras abordagens sobre os temas surgiram ainda no governo militar, na gestão do presidente João Baptista Figueiredo, quando da criação do Programa Nacional de Desburocratização (Decreto 83.740/1979) e da Secretaria Especial de Controle das Empresas Estatais (SEST). Foi a primeira manifestação concreta de uma preocupação com o gigantismo estatal, com o claro objetivo de introduzir uma primeira agenda de reforma do Estado.1 A primeira “ Comissão de Especial de Desestatização” criada em 1981 (Decreto Presidencial 86.215/1981), fixou normas para transferência e desinvestimentos das empresas controladas, identificando na ocasião 140 prontas para serem vendidas.2

Ver todos os capítulos

13. Presidencialismo sem coalizão: incentivos à atuação parlamentar após o choque de 2018 (Christopher Garman e Silvio Cascione)

ePub Criptografado

As eleições de 2018 foram um marco na política brasileira, com a vitória do presidente Jair Bolsonaro sem nenhum apoio partidário relevante, pouquíssimos recursos de campanha e quase nenhum tempo de televisão. Ao assumir a Presidência da República, Bolsonaro também quebrou o padrão tradicional de governança, ao se recusar a distribuir cargos de primeiro e segundo escalão com vistas a construir uma aliança majoritária no Congresso — rompendo um paradigma do presidencialismo de coalizão.

O que veio a seguir também foi surpreendente. Mesmo na ausência de uma coalizão presidencial, o Legislativo aprovou uma reforma da Previdência mais profunda do que a proposta por Michel Temer. Olhando para frente, a Câmara de Deputados e o Senado contemplam uma série de propostas ambiciosas, que incluem reforma tributária, administrativa e várias reformas regulatórias em setores como petróleo e crédito. Contra os prognósticos iniciais, o Congresso mostrou disposição para promover reformas econômicas, apesar da falta de benesses do Poder Executivo.1

Ver todos os capítulos

15. Como a Lei processual penal pode dissuadir práticas corruptas e incentivar governos honestos (João Trindade Cavalcante Filho e Juliana Magalhães F. Oliveira)

ePub Criptografado

Existe no mundo jurídico uma tensão relevante entre práticas processuais penais ditas “eficientistas” e “não eficientistas” Os eficientistas se preocupariam mais com as consequências das Leis (ou pelo menos atribuiriam um peso relevante a essas consequências), nelas baseando sua construção jurídica, inclusive no que se refere à sua validade. Já os não eficientistas operariam na lógica contrária: partindo do pressuposto de que há um ordenamento previamente construído, tendo como base a interpretação da Constituição, Leis seriam válidas ou inválidas, independentemente de suas consequências.1

Essa divisão traz problemas muito práticos e parece ser uma das principais disputas jurídicas em curso hoje no Brasil, como exemplifica o tema da execução provisória da pena ou da prisão após sentença condenatória, confirmada em segundo grau de jurisdição. Explicando de forma muito sumária, há, de um lado, aqueles que defendem que a Constituição veda qualquer cumprimento de pena antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória – assim, antes do julgamento final, seriam admitidas apenas prisões com motivos cautelares (ex.: para evitar a fuga ou desaparecimento de provas). E, de outro lado, há quem defenda que semelhante raciocínio leva a consequências sociais nefastas, em especial no que se refere à macrocriminalidade ou criminalidade econômica, sendo a prisão em segunda instância verdadeiramente eficiente para combatê-la.

Ver todos os capítulos

Ver Todos

Diocl Cio Campos J Nior (9)
Título Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

A ordem e o progresso

PDF Criptografado

O conceito de progresso difundido na democracia capitalista está intrinsecamente relacionado ao da ordem em todas as dimensões consideradas. Não concebe a possibilidade de progresso sem que as normas em vigor sejam respeitadas, assim como não se pode imaginar o avanço da sociedade no amplo contexto do progresso sem que as instâncias de controle comportamental da cidadania funcionem com determinação.

A palavra em causa é muito utilizada pelas elites governantes. Trata-se, porém, de expressão vaga a definir conteúdo discutível, para não dizer polêmico. Há correntes de pensamento que não admitem sua existência e outras que a aceitam parcialmente. A maioria, sem dúvida, acredita no progresso. Quando se analisa, no entanto, sob o ângulo da história, a relatividade conceitual do tema aparece com evidência. De fato, a variável do tempo decorrido entre a existência de uma civilização e outra precisa ser abstraída do processo para que a comparação entre civilizações distintas, que existiram em eras diferentes, permita avaliar se o conceito de progresso, como se define na atualidade, pode ser afirmado.

Ver todos os capítulos

Ética e subversão da ordem

PDF Criptografado

Nada sustenta mais fortemente a subversão pacífica da ordem do que a evolução e o enraizamento da ética no âmago da sociedade. Quanto mais esse componente axiológico se incorpora à mente coletiva, menos se aceita o universo de desigualdades que formam o estofo da sociedade humana.

À luz de tal instrumento perceptivo, nenhuma razão válida justifica o cenário classista, segregacionista, impositivo, escravista e humilhante que faz o pano de fundo da ordem opressora. São perversos estigmas absolutamente incompatíveis com as condições de vida igualitárias, seguras e gratificantes em que merecem viver todos os indivíduos da espécie humana.

Não se fala apenas de direito, mas essencialmente de ética, o valor que, sem limites religiosos ou outros, há de perpassar normas, regras, leis e artifícios condicionantes concebidos para controlar o comportamento das pessoas, fazendo-as submissas ao que o poder da elite dominante entende como estratégia de manutenção da ordem. Assim deveria ser, mas não o é. Na verdade, os preceitos éticos que se universalizam com o passar do tempo são repelidos ardilosamente pela maioria dos legisladores, educadores, dirigentes e demais condutores das políticas públicas e privadas em nome de uma justiça social que não é justa, muito menos social. Fazem-no com calculada desenvoltura, multiplicada pelo imenso contingente dos inocentes úteis, que, frágeis na capacidade perceptiva, disseminam práticas e jargões afinados com os espúrios interesses dos detentores do poder. Daí a estrutura educacional desqualificada na maioria dos países, estratégia sub-reptícia concebida para manter privilégios por meio do cerceamento da conscientização humana, dificilmente atingível sem acesso à educação livre e qualificada.

Ver todos os capítulos

A ordem e o atraso social

PDF Criptografado

Atraso social tem sido o contraponto do progresso gerado pela ordem, contrastando, por meio de quadros desoladores, com a euforia delirante do avanço tecnológico alcançado pela espécie humana. Está presente em todas as sociedades em graus variáveis, mas sempre facilmente identificável. Representa a imagem da miséria insanável a poluir a fotografia da realidade com manchas desbotadas que nem mesmo o Photoshop é capaz de ocultar.

A fase civilizatória vivida pela humanidade é marcada pela tecnologia deslumbrante que lhe dá a aparência de avanço antes inimaginável. O fenômeno inunda o cotidiano e traz o fascínio da robotização plena, base de uma ficção que defende a delegação ilimitada das competências humanas a engenhos criados para substituir o homem na maioria de suas atividades originais. Já não se dorme nem se desperta, não se come nem se pensa, não se fala nem se ouve sem o auxílio de apetrechos criados para aumentar o conforto de uma espécie animal que quer renegar, a qualquer preço, sua condição de integrante da natureza. Ganha-se alcance e precisão nas ações. Perde-se liberdade e privacidade na existência.

Ver todos os capítulos

O poder e a ordem

PDF Criptografado

Com versões diferentes, o princípio conceitual definido nas peças constitucionais das democracias capitalistas resume-se ao conteúdo da frase: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. De concepção utópica, se não ingênua, esse postulado democrático já tão corroído não traduz a realidade. Presta-se a ocultar, da opinião pública, o embuste que representa. Com efeito, nenhum poder emana verdadeiramente do povo. Para tanto, o livre pensar seria requisito insubstituível, condição que não ocorre em nenhuma sociedade. Até porque, segundo o filósofo alemão Ernst Bloch conceitua em seu livro The principle of hope (O princípio esperança), pensar é, antes de tudo, transgredir, postura que o regramento impositivo jamais aceitaria como prática difundida entre as pessoas. Ademais, a estrutura de poder é criada habitualmente em função dos interesses da minoria endinheirada, da classe rica, jamais das necessidades da maioria espoliada, mantida inculta e dependente. Logo, o poder emana diretamente dos grupos privilegiados da sociedade, das instâncias que controlam a economia e detêm, em suas mãos, a maior parte da riqueza dos países a que pertencem.

Ver todos os capítulos

Conceito de ordem

PDF Criptografado

A ordem pode ser definida como um conjunto de configurações estruturais de natureza física, química e biológica, regulares e reprodutíveis, presentes no mundo material como regras naturalmente estabelecidas, ou de natureza sociológica, antropológica, cultural, ética e moral, presentes na sociedade criada pelo homem como princípios limitantes ou norteadores de comportamentos aceitáveis, estereotipados pela necessidade de exercer controle sobre as pessoas.

As primeiras configurações estruturais que permitiram a delimitação desse conceito resultaram de evidências do universo objetivo. Consubstanciaram-se como consequência dos conhecimentos que a ciência passou a produzir mediante a metodologia da experimentação difundida no mundo. Explicitada a lógica cientificamente descoberta na dinâmica dos processos da natureza, o homem não resistiu à tentação de aplicá-la à forma e aos conteúdos das relações humanas nascidas espontaneamente desde os tempos das cavernas.

Um marco filosófico importante que contribuiu para estender tal conceito ao domínio das concepções sociais encontra-se na obra de Augusto Comte (1798-1857). O pensador francês do século XIX esboçou a “lei dos três estados” como uma espécie de metamorfose da sociedade humana. Teve início no estado divino, produto da abstração teísta não científica; evoluiu para o estado teológico, em que a fé passa a ter expressão gramatical; e chegou finalmente ao estado positivo, no qual a percepção científica de atos e fatos supera o subjetivismo para alcançar a concretude da realidade objetiva. É, em síntese, a visão do positivismo, corrente filosófica de referência para muitos pensadores da época. A densidade do conteúdo de sua obra fortaleceu a crença de que a sociedade humana é regida por normas que lhe conferem o estatuto de categoria científica. Exsurge paulatinamente a definição da ordem como verdade científica irrecusável. Expressa-se como elemento estruturador da sociedade, sobre o qual se organizam todos os movimentos que

Ver todos os capítulos

Ver Todos

Carregar mais