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SEM DEUS — A IMPOSSÍVEL FELICIDADE (Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, 2002)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

SEM DEUS — A IMPOSSÍVEL FELICIDADE

(Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, 2002)

Cidade de Deus é um filme que evidencia preciosismos de virtuose em muitas passagens narrativas.

O personagem Cabeleira (o ator Jonathan Haagensen) e seus dois companheiros de pequena contravenção — Alicate (o ator Jefechander

Suplino) e Marreco (o ator Renato de Souza) — formavam o “Trio

Ternura”. Eles roubavam caminhões de gás, para distribuir o produto do assalto entre os moradores do bairro, por exemplo. Fugitivos da polícia, no início do filme, ficam escondidos em árvore muito alta. Uma grande gota de orvalho escorre de uma folha, sugerindo citação visual enviesada da clássica canção “A felicidade”, de 1959, de Tom Jobim e

Vinícius de Morais:

A felicidade é como a gota

De orvalho numa pétala de flor:

Brilha tranquila,

Depois, de leve, oscila

E cai como uma lágrima de amor.

Essa brilhante canção, com uma preciosa melodia, desdobrada em harmonias e metáforas verbais igualmente requintadas, integrou a trilha sonora de Orfeu negro (também conhecido como Orfeu de carnaval), de Marcel Camus (1959), e nos lembra uma tradição temática do cinema brasileiro ou feito no Brasil por estrangeiros: imagens da favela e da pobreza urbana. Embora o filme desse diretor francês seja uma produção franco-ítalo-brasileira, a repercussão internacional da obra e o peso de sua excepcional trilha sonora (além das magistrais peças de Jobim e Morais, outras canções igualmente magníficas de

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ENFIM UMA PRINCESA DE CARNE (Carlota Joaquina, princesa do Brasil, de Carla Camurati, 1995)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

ENFIM UMA PRINCESA DE CARNE

(Carlota Joaquina, princesa do Brasil, de Carla Camurati, 1995)

Quem assistiu às primeiras entrevistas de Carla Camurati para a televisão, durante as filmagens de Carlota Joaquina, princesa do Brasil

(programas “Jô Soares” e “Hebe Camargo”, dentre outros), tinha motivos para ficar um pouco desanimado. Carla falava com entusiasmo sobre lances tediosamente pitorescos da vida de Carlota e seus parentes (João VI, marido e rei de Portugal; Maria, enlouquecida sogra e ex-rainha lusitana; Pedro de Alcântara, filho, futuro proclamador da Independência do Brasil, imperador desse novo estado nacional e, posteriormente, rei de Portugal), fazendo temer por um resultado que não fosse, em termos artísticos, além de uma razoável aula de telecurso, quando muito.

Concluído e lançado o filme, descobriu-se, com alívio, que Camurati era meio fraca de entrevista e muito boa de câmera: Carlota Joaquina, princesa do Brasil é interessante, ágil, quase sempre bem realizado artisticamente e, em muitos momentos, aproximou-se da melhor tradição carnavalizadora do cinema brasileiro visto como histórico — Terra em

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LONGE DA POLTRONA (Lamarca, de Sérgio Rezende, 1994)

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LONGE DA POLTRONA

(Lamarca, de Sérgio Rezende, 1994)

O cartaz de divulgação desse filme inclui um logotipo muito sugestivo, também usado na apresentação (título que antecede os créditos na abertura) da obra: o nome de Lamarca recortado sobre uma bandeira do Brasil. A imagem evoca a bandeira nacional ao vento, bandeira estraçalhada, uma identificação entre Brasil e Lamarca.

Um documentário fake que abre, numa tensa reunião de militares, a narração, com uma sequência de slides em preto e branco sobre o personagem, com o rosto do ator Paulo Betti, aponta uma pretensão de realismo e didatismo. Mas Lamarca mescla a isso cargas simbólicas muito intensas, dramatizando o que já é dramático: o trajeto do guerrilheiro rumo à morte que, já sabemos, ocorrerá tristemente, como um sacrifício; a coragem e a ousadia do personagem sem futuro pessoal imediato, diante de inimigos muito mais fortes; um futuro que existe, sim, na superação da ditadura, futuro que reabilitará Lamarca como figura humana e política de peso — e o filme é um exemplo de tal recuperação, que foi realizado em 1994.

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NÃO HÁ PARAÍSO (O céu de Suely, de Karim Aïnouz, 2006)

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NÃO HÁ PARAÍSO

(O céu de Suely, de Karim Aïnouz, 2006)

A abertura de O céu de Suely é quase uma colagem, cenas filmadas com recursos técnicos deliberadamente frágeis, próprios a amadores, para lembrar um tempo de descobertas e esperanças da personagem

Hermila: amor pelo namorado (Mateus); primeira experiência sexual plena com ele — primeira na vida dela —, sobre um pano azul, simbólico céu; engravidar e fugir para a cidade grande com aquele homem.

Mas o que se segue imediatamente na narração, agora nas condições de linguagem que o filme assume como suas, é o retorno da moça para a cidade natal (Iguatu), sem Mateus, com o filho e a pesada mala, cenário de estrada esburacada, insegurança.

O filme traz o interior do Brasil, um nordeste semi-identificado

(Iguatu fica no Ceará, mas o filme não indica explicitamente esse

Estado): urbano, pobre e difícil. E a cidade grande (São Paulo, onde

Hermila morou durante algum tempo com o pai de seu filho) é outra dificuldade, evocada pela carestia: “Não dava para ficar”. Estamos diante de uma saída frustrada, de um retorno para o lugar de onde se fugiu, enfrentando olhares hostis, que questionam e cobram. É como se todo lugar fosse incômodo e perspectiva perdida, espaço que não se consegue ocupar. A imagem de nordeste como única região-problema do Brasil não sobrevive, tal qual na canção “Alfômega”, de Gilberto Gil

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O CINEMA EM PATCHWORK

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O CINEMA EM PATCHWORK

(Para Wong Foo — Obrigada por Tudo! Julie Newmar, de Biban Kidron, 1995)

Uma tradição folclórica estadunidense é o patchwork, costura com retalhos, empregada para confecção de roupa de cama e mesa e outras peças artesanais. No mundo da indústria cultural, esse procedimento foi reapropriado, com maior ou menor sucesso, tanto para fins de moda como, noutras linguagens artísticas, na dinâmica de mesclar diferentes elementos narrativos e poéticos em repertórios já conhecidos do público.

O filme Para Wong Foo — Obrigada por Tudo! Julie Newmar, que tem drag queens como personagens centrais,adota essa estratégia, a partir de várias fontes: retoma a tradição dos road movies (O Selvagem da Motocicleta, Easy Rider, Encurralado, Thelma & Louise etc.), importante gênero do cinema norte-americano, já atualizado por personagens drag queens na comédia dramática australiana Priscila, A Rainha do

Deserto, dirigida por Stephan Elliot, passa por perto de fantasias de formação, parábolas ou quase contos de fadas, como O Mágico de Oz, de Victor Fleming, Richard Thorpe e King Vidor, e Bagdá Café, de Percy

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