Marcos Silva (50)
  Título Autor Editora Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta
Medium 9786586618037

“ VOCÊ É JUDEU?” (POBRE, MULHER, ANÃO…): O PIOR JÁ COMEÇARA

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

“VOCÊ É JUDEU?” (POBRE, MULHER, ANÃO…):

O PIOR JÁ COMEÇARA

(O ovo da serpente, de Ingmar Bergman, 1977)

As primeiras cenas desse filme são em branco e preto, foco incerto, possível evocação de multidões no clássico Metropolis, de Fritz Lang

(1927) 1, e noutros exemplos do Expressionismo cinematográfico alemão — fragmentos da mesma natureza reaparecem perto de seu desfecho, como se o tempo narrativo não tivesse se passado. E uma das primeiras legendas situa aquele tempo: “(…) quase todos perderam a fé no futuro e no presente”.

O ovo da serpente foi produzido na Alemanha, durante período em que Ingmar Bergman preferiu viver fora de seu país de origem (Suécia), onde chegara a ser preso, em 1976, acusado de sonegar impostos, experiência humilhante que o fez sofrer um colapso nervoso.

Ambientada em Berlim, durante a República de Weimar (1919/1933), nos dias de alucinada inflação, miséria, violência generalizada e medo que antecederam a tentativa hitlerista de golpe em 1923, a obra apresenta o trapezista circense Abel Rosenberg, judeu norte-americano residente naquela Alemanha, sem domínio da língua local, pobre, desempregado. Há um desenraizamento do personagem no país em grave crise, que preservava diferenças e privilégios sociais — quando chega ao prédio onde mora com o irmão, Max, uma espécie de pensão,

Ver todos os capítulos
Medium 9786586618037

O CINEMA EM PATCHWORK

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

O CINEMA EM PATCHWORK

(Para Wong Foo — Obrigada por Tudo! Julie Newmar, de Biban Kidron, 1995)

Uma tradição folclórica estadunidense é o patchwork, costura com retalhos, empregada para confecção de roupa de cama e mesa e outras peças artesanais. No mundo da indústria cultural, esse procedimento foi reapropriado, com maior ou menor sucesso, tanto para fins de moda como, noutras linguagens artísticas, na dinâmica de mesclar diferentes elementos narrativos e poéticos em repertórios já conhecidos do público.

O filme Para Wong Foo — Obrigada por Tudo! Julie Newmar, que tem drag queens como personagens centrais,adota essa estratégia, a partir de várias fontes: retoma a tradição dos road movies (O Selvagem da Motocicleta, Easy Rider, Encurralado, Thelma & Louise etc.), importante gênero do cinema norte-americano, já atualizado por personagens drag queens na comédia dramática australiana Priscila, A Rainha do

Deserto, dirigida por Stephan Elliot, passa por perto de fantasias de formação, parábolas ou quase contos de fadas, como O Mágico de Oz, de Victor Fleming, Richard Thorpe e King Vidor, e Bagdá Café, de Percy

Ver todos os capítulos
Medium 9786586618037

A ALMA DO NEGÓCIO SEM ALMA

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

A ALMA DO NEGÓCIO SEM ALMA

(O triunfo da vontade, de Leni Rifehnstahl, 1935)

A diretora Leni Riefenstahl representa um desafio para a visão crítica de filmes: ela se constitui num evidente talento, é dotada de cultura cinematográfica, capacidade inventiva e inovadora em seu campo de linguagem… a serviço do Nazismo. Sobrevivendo longamente ao regime (nasceu em 1902 e morreu em 2003!), a cineasta sempre negou ter sido nazista, alegando que não se filiou ao partido e também que, se vivesse na URSS ou nos EEUU, faria filmes nesses outros regimes políticos, porque Cinema era sua profissão. Supunha, portanto, certa indiferença da produção artística em relação ao campo político da experiência humana.

Jamais saberemos com exatidão sobre convicções íntimas de

Riefenstahl nem de ninguém. Seu trabalho concreto de direção no documentário O triunfo da vontade, que apresenta o Quarto Congresso do Partido Nazista (1934), contudo, é mais que coerente com a ideologia filmada, é um exemplo privilegiado dela, que Leni Riefenstahl assumiu enquanto convicção pública, em elegante estilo cinematográfico.

Ver todos os capítulos
Medium 9786586618037

RIR DA TRÁGICA CIDADE

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

RIR DA TRÁGICA CIDADE

(A beleza e a verdade de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, 1971)

A abertura visual do filme Morte em Veneza traz um enigma: o que

é mesmo que se vê, ao som do Adagietto da Sinfonia n° 5, de Gustav

Mahler?

A mancha de cor, aos poucos, se deixa identificar — a imensidão do mar, a fumaça que sai de um barco em pleno curso, talvez uma metáfora visual da frágil vida humana, longe de qualquer porto seguro e se desfazendo no ar, retomando barcos fundadores dos imaginários grego, judaico e cristão: a nave de Ulisses, o bote dos argonautas, a arca de Noé, os barcos de Pedro e seus companheiros 1. O século XIX tratou de apresentar outros barcos muito intensos (Hermann Melville e Arthur Rimbaud), que invadiram o século XX (Fernando Pessoa), até chegarmos a um Ulysses sem nau (James Joyce) e a um astronauta com destino incerto (Stanley Kubrick)2.

1  Cf.:AUERBACH, Erich. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental.

Ver todos os capítulos
Medium 9788562938399

NÃO HÁ PARAÍSO (O céu de Suely, de Karim Aïnouz, 2006)

Marcos Silva Editora Almedina PDF Criptografado

NÃO HÁ PARAÍSO

(O céu de Suely, de Karim Aïnouz, 2006)

A abertura de O céu de Suely é quase uma colagem, cenas filmadas com recursos técnicos deliberadamente frágeis, próprios a amadores, para lembrar um tempo de descobertas e esperanças da personagem

Hermila: amor pelo namorado (Mateus); primeira experiência sexual plena com ele — primeira na vida dela —, sobre um pano azul, simbólico céu; engravidar e fugir para a cidade grande com aquele homem.

Mas o que se segue imediatamente na narração, agora nas condições de linguagem que o filme assume como suas, é o retorno da moça para a cidade natal (Iguatu), sem Mateus, com o filho e a pesada mala, cenário de estrada esburacada, insegurança.

O filme traz o interior do Brasil, um nordeste semi-identificado

(Iguatu fica no Ceará, mas o filme não indica explicitamente esse

Estado): urbano, pobre e difícil. E a cidade grande (São Paulo, onde

Hermila morou durante algum tempo com o pai de seu filho) é outra dificuldade, evocada pela carestia: “Não dava para ficar”. Estamos diante de uma saída frustrada, de um retorno para o lugar de onde se fugiu, enfrentando olhares hostis, que questionam e cobram. É como se todo lugar fosse incômodo e perspectiva perdida, espaço que não se consegue ocupar. A imagem de nordeste como única região-problema do Brasil não sobrevive, tal qual na canção “Alfômega”, de Gilberto Gil

Ver todos os capítulos

Ver Todos