Newton Cesar (62)
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Então, lembro-me de ter fechado os olhos. Do peito ficar ainda

“O senhor estava sozinho!”, alguém disse.

“Minha mulher?”, perguntei.

“É melhor o senhor não se mexer. Foi atropelado.” acontecido. Tentei me levantar. Dor.

Calmo eu estava. Só não entendia muito bem o que havia

“Não sei. Acho que o carro. Senhor, fique calmo.”

“O que aconteceu?”

“O Senhor está bem?”, outra voz. Fraca, preocupada.

“Chamem um médico”, alguém disse. verdade é que todos à volta me devoravam com os olhos. humanos. Que pensamento! O que fosse, realidade ou não, pedaço de carne. Eu, pedaço humano a ser devorado por outros como se bichos fossem. Animais esperando para devorar um meu corpo. Não sei porque, mas imaginei as faces humanas subia e descia pesado. Pessoas aglomeravam-se em volta do chão, mas vivo. A respiração me faltava. O peito, qual chumbo, menos, estava vivo. Tonto. Vista turva. Corpo mole esticado no ponteiros fundiram-se com o fraco som do meu coração. Ao inércia,voltou a correr. Tique-taque, tique-taque. Os sons dos possibilidade de resposta. O tempo, que prendeu-se na

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causado surpresa ao ser jogado para o ar, tombar e me levantar outra realidade que não aquela? Será que eu, velho, fraco, havia olharam para mim. Ficaram tempo fixas, imóveis. Será que viam

à frente. Pessoas se juntavam. Olhavam o motorista, a rua. Duas instante seguinte, já de pé, fiquei a observar o carro parado mais bobo, mole, foi atirado para cima. Tombei no asfalto mas, no

O carro passou por mim. Meu corpo, incontrolável, meio que corpo. Ouvi a buzina. Som alto. Freios. Um grito não meu. vinha feroz com sua lataria prestes a chocar-se com o meu

Tampouco foi possível ver que carro era aquele que, ameaçador, cidade movimentada. Não sei em qual cidade estava. percebi me encontrar parado exatamente no meio da rua de uma delirava, pois ao ver o carro próximo, em velocidade alta, vislumbrava um caminho de terra, flores e rio. Óbvio que eu

as rugas, eu pensava na fraqueza mas, ao mesmo tempo,

Minha mente vagava pelos caminhos das minhas rugas e, vendo que movimento não havia. Não via o carro. Nem os carros. para mim que estava atravessando a rua movimentada achando próprio de gente velha. 70 anos pesam. Pesaram de tal forma flácida e enquanto eu atravessava a rua com vagar mundano, se deu enquanto meus olhos percorriam as rugas da minha pele que definham, imergem em abismo sem volta. – Essa constatação

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relógio aberto em suas mãos.

Não prestou atenção em mim. Só tinha olhos para aquele

Sentado, o homem que consertava relógio não fez nada. ombros, guiou-me até uma cadeira. Sentei. Ela sentou.

A moça sorriu outra vez. Apoiando uma das mãos em meus

“Você me conhece? É minha mulher?”

“Há tempos não o vemos.”

“Vou?”, repeti, mecânico. Daí, falei direito: “Vou bem.”

“Como vai o senhor?” de apertar as mãos. E o gesto, acompanhado de uma pergunta: aproximou. Sorriu. E o sorriso foi acompanhado com o gesto

Então, vindo de algum lugar de dentro da loja, uma moça se dentro de outro tique-taque, e de outro, e de outro. Outro. e agigantava-se em minha alma, era o som de um tique-taque

Mudo estava. E mudo ele permaneceu. O som que se ampliava

“Senhor! Senhor!” nenhuma notou. Não propenso a derrotas, insisti:

O senhor sequer moveu o rosto. Não me olhou. Presença

“Senhor! Senhor!” mas o próprio tempo? Cheguei perto. Chamei. nas mãos. Ou será que a lente aumentaria não só a máquina aumentar aquela pequena máquina do tempo que ele prendia senhor examinava um relógio. Num dos olhos, uma lente para

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Puxei o menino. Levantei. Ele, sem entender, me parou.

em todas as casas de relógios. Tenho que ir. Vamos!”

E... e lembrei o que tenho que fazer. Tenho, tenho que ir

“Da casa de relógios. Lembrei que estive lá, está ouvindo?

“O senhor se lembrou do quê?” demorou para falar.

Sorri. Ele ficou contemplando meus dentes, eu acho, pois

“Menino, me lembrei. Me lembrei!” velho, mas bom. Eufórico, disse, sem atropelar as palavras: nos olhos, puxei o menino para perto. Sentamos os dois. Sofá estado na casa de relógios. Trêmulo, com lágrima inesperada na mente me pôs eufórico pela lembrança. Há pouco eu havia

De repente, foi como ter sido atingido por um raio. Um clarão

ter sentido esse tipo de fascinação antes, lá na casa de relógios. indicador aquelas máquinas maravilhosas. Engraçado eu não

Olhei-o. Não falei. Para tentar resposta digna, apontei com o

“O senhor tá bem, seu Ataíde?”

O garoto apareceu, vindo da cozinha. provável, carregava uma lembrança que eu não me lembrava. vida na sala. Certamente cada um tinha seu porquê. Bem vendo aquilo. Atento. Igual retratos, os relógios representavam para uns, mas bem sonoros para mim. Perplexo, continuei mudo

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Por outro lado, me lembrei com satisfação sobre o conselho havia sugerido começar pelas casas de relógios mais próximas.

Escolhi uma das folhas, a esmo. Não me lembrei que o menino deveria amarrar os sapatos.

precisos. Vitória para mim que, antes, não entendia mais como um outro velho, forte, mais consciente, com movimentos e páginas amarelas da lista telefônica. E eu parecia mesmo parede. Minha sala era tão-somente paredes vivas de relógios olhar os relógios e, misturado a eles, as folhas grudadas na tempo impreciso para mim, deparei-me no centro da sala a durex, fita adesiva, qualquer coisa assim. Encontrei. Após um sobre o sofá e comecei a vascular potes e gavetas à busca de debaixo dos braços, cambaleei até a sala. Larguei as páginas folhas espalhadas, uma a uma. Mantendo o maço de papel de incerteza foi embora. Com isso, me agachei e catei as compreender o que fazer em seguida. Mas o instante carregado meus pensamentos e, por um instante, não fui capaz de

Essa imagem insólita logo se foi. E quando ela sumiu, levou gente. O engraçado é que só vi um corpo, não um rosto. daquelas folhas. A vi claramente, sorrindo, como se fosse

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Jos Mattos (14)
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ÂNGELA

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ÂNGELA

É

ramos quatro no carro indo para Mauá, na Serra do Mar, entre o

Rio e São Paulo.

O carro era um Volkswagen, um Fusca verde escuro, motor 1200, bateria de 6 volts, com os faróis mais parecendo duas lamparinas de

óleo. O rádio tocava uma música barulhenta, a recepção em AM piorava ou melhorava conforme a curva da estrada, o ruído era quase insuportável quando passávamos por um fio elétrico. A rádio era a da cidade mais perto. Ricardo no banco de trás bebia conhaque Dreher no gargalo, Raquel acompanhava mais fingindo que bebendo. O clima era alegre, Mauá não importava tanto, o destino não importava tanto, a viagem estava ótima, o motor do fusquinha respondia, a serra tinha acabado, o frio já se anunciava no vento fresco entrando pela janela do carro.

Mauá e suas montanhas, seus pequenos caminhos de terra, suas vilas de casas modestas, suas pequenas pousadas, era uma opção diferente de viver. Contracultura era a expressão da época. Muita teoria, muito papel jornal era gasto para explicar por que as pessoas estavam querendo ir para o campo, longe do barulho da cidade. Nós quatro estávamos muito distantes de todos esses pensamentos. Nós estávamos apenas subindo a serra em uma horrível estrada de terra que fazia o fusca parecer uma carruagem do velho oeste, saltando buracos e mais buracos no caminho da Califórnia.

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BRASÍLIA

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BRASÍLIA

A

h... Brasília, tão injustiçada Brasília, tão mal falada, difamada

Brasília. Eu gosto das ruas retas, dessas esquinas vazias, desses restaurantes escondidos em superquadras, em setores isso, setores aquilo. Gosto de estar sentado em uma mesa e na mesa ao lado estar o líder do governo jantando com dois ou três deputados da oposição.

E mais adiante o colunista que tão furiosamente escreve contra o governo sentado feliz ao lado de um ministro. Enquanto isso eu, humilde publicitário, aqui na minha mesa vou cuidando da minha vida junto com o diretor de marketing ou comunicação social de algum ministério, fundação, agência, autarquia, viva!!

Depois, o número de garrafas de whisky e vinho bom por mesa em

Brasília é muito superior ao do Rio ou mesmo de São Paulo. Por quê?

Ora, em Brasília quem paga a conta é sempre uma pessoa jurídica e isso dá uma sede... E tem sempre um charutinho Cohiba ou similar para fustigar as tripas e então para acalmá-las nada melhor que um conhaquinho... Ou seja, não há nenhuma razão para não se trabalhar direito em Brasília.

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JOAQUIM

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JOAQUIM

J

oaquim estava pronto para viajar ao Rio de Janeiro e resolver o assassinato de Sonia. Ele já estava com o caso fechado. Ele descobrira quem a matara poucas horas depois do crime. Ele precisara apenas certificar-se de que não fora Nonato, essa tinha sido sua única dúvida.

Nonato sempre seria o menino mimado, o filho único despreparado para escutar um não do mundo. Sonia fora o seu maior não e a possibilidade de ter sido ele havia que ser levada em conta. Dois ou três telefonemas eliminaram a possibilidade de Nonato ser o assassino. Sonia conseguira realmente sumir da vida dele, Nonato não tinha o menor contato com ela. Sobrava então o outro caminho e era esse que levava Joaquim de volta ao Rio de Janeiro.

Joaquim decidiu-se por uma viagem de ônibus. Ele tinha preguiça de dirigir por tantas horas e mais preguiça ainda de ir até São

Paulo pegar um avião da ponte aérea. Descobriu que havia um horário noturno, sairia 10 horas da noite e chegaria no início da manhã ao Rio.

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NONATO

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NONATO

S

entado à beira do lago, Nonato observava as águas. Jogava pedras pequenas que repicavam n`água uma, duas, três vezes até afundarem. Técnica adquirida há décadas, quando menino passava férias ali.

Seus olhos perdidos no horizonte procuravam não olhar para o corpo de Sonia. Todo mordido por peixes o corpo de Sonia era macabro.

Nonato aguardava a chegada da polícia, do fim de seu sossego. Sonia era um corpo agora. A mulher com quem vivera estava morta. Nonato não sentia a dor que deveria sentir, não sentia a solidão que deveria estar agora tomando conta de sua mente. O corpo deixara de ser de sua mulher, agora eram apenas alguns quilos de carne comida por peixes.

Sonia saíra da fazenda há cinco anos. Fugira. Não deixara uma carta, um bilhete decente, uma explicação. Deixara apenas a ausência, a falta.

Há poucas horas Sonia reaparecera dessa forma. Uma volta surpreendente para quem se acreditava estar longe, distante, nunca mais fora vista. O cadáver de Sonia não trazia de volta a mulher que habitara a fazenda por tantos anos. Olhando o corpo deformado pela água, Nonato não encontrava relação com a Sonia da lembrança, a Sonia capaz de transformar tédio em alegria, capaz de despertar com sua risada as energias encerradas nas paredes da casa-grande. A Sônia que enraivecia os esnobes da família com a sua espontaneidade, a Sonia que não se incomodava de ser vista como interesseira, não ligava para os convites que não recebia, os cumprimentos negados e todas as tentativas de

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NONATO, RICARDO E OTAVIO

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NONATO, RICARDO E OTAVIO

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esde sua chegada, Nonato insistia que Ricardo e eu fôssemos com ele para umas termas no centro da cidade. Eu não estava com muita vontade, mas podia ser engraçado. A conversa com Dom Geraldo me deixara completamente desanimado e decidi que precisava me distrair.

Liguei para o Ricardo, ele topou. Disquei para o Nonato e confirmei o programa para a noite.

De nós três, quem mais gosta de puta é o Nonato. Sempre foi assim, desde que a gente começou a se preocupar com mulher, o Nonato foi o mais putanheiro. Ele foi quem demorou mais a arrumar namorada, ele não achava graça em ficar de conversa com menina, ficar de bobeira horas até conseguir um sarrinho decente. Nonato preferia ir a um puteiro e se divertir com as garotas de lá.

Bonito, de corpo bem feito e com uma aparência que não escondia o berço de ouro, Nonato era o sucesso da zona e a turma fazia fila para subir com ele para os quartos. Logo conheceu uns dois serviços de call girls e nem mais à zona ia. Por telefone mesmo, encomendava as meninas para a suruba que ocorria ou na enorme casa de seus pais no Leblon ou na casa da Praia da Armação em Búzios. Eu e o Ricardo íamos na onda e nos divertíamos muito. Mas o motor do bacanal sempre foi o

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Gabriele D Annunzio (6)
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I. O PASSADO

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iO PASSADO1Ippolita parou de repente quando viu um grupo de homens debruçados no parapeito a olhar para a rua.– Que terá acontecido? – perguntou, esboçando um pequeno gesto de receio ao pousar involuntariamente a mão no braço de­Giorgio, como que para o segurar.– Certamente foi alguém que se atirou do terraço – disse ele, observando a atitude dos homens. – Queres voltar para trás?Ela hesitou por um momento, suspensa entre a curiosidade e o temor, mas acabou por responder:– Não. Vamos.Avançaram ao longo do parapeito, até ao extremo da alameda.Ippolita acelerava instintivamente o passo em direção ao grupo de curiosos. Naquela tarde de março, o Píncio estava quase deserto e naquela atmosfera pesada e entorpecida vagos rumores desfaleciam.– Como previ – confirmou Giorgio. – Matou-se alguém.Pararam perto do ajuntamento. Todos os espectadores fitavam, com olhares atentos, a calçada lá em baixo. Era gente do povo, sem nada para fazer, com fisionomias muito distintas, sem um reflexo de compaixão ou tristeza; a imobilidade do olhar refletida nos olhos como uma espécie de espanto bestial.

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II. A CASA PATERNA

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iiA CASA PATERNA1Nos fins de abril, Ippolita partiu para Milão, chamada por sua irmã cuja sogra acabava de morrer. Giorgio devia também partir à procura da terra desconhecida. E pelos meados de maio tornar-se-iam a encontrar.Mas, justamente nessa época, Giorgio recebeu uma carta de sua mãe, cheia de coisas tristes, quase desesperadas. E agora não podia retardar mais o seu regresso à casa paterna.Quando compreendeu que, sem mais demora, o seu dever o mandava seguir para o lugar onde estava a verdadeira dor, ­invadiu-o uma angústia, e o primeiro movimento de amor filial foi pouco a pouco vencido por uma irritação crescente cuja aspereza aumentava à medida que surgiam na sua consciência, mais nítidas e numerosas, as imagens do conflito próximo. E essa irritação tornou-se em pouco tempo tão acerba que o dominou completamente, insistente, misturada com os aborrecimentos materiais da partida e pela tristeza das despedidas.A separação foi mais cruel que nunca. Giorgio atravessava um período de sensibilidade hiperaguda. A excitação de todos os seus nervos mantinha-o num contínuo estado de inquietação. Parecia descrer da felicidade prometida, da paz futura. Quando Ippolita lhe disse adeus, ele perguntou:

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III. O ERMO

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iiiO ERMO1Em carta de 10 de maio, Ippolita dizia:Finalmente, posso dispor de uma hora livre para te escrever com vagar. Há dez dias que o meu cunhado vai arrastando a sua dor, de hotel em hotel, à beira do lago, e ambas o acompanhamos como duas almas penadas. Não calculas a tristeza desta peregrinação. Eu  não posso mais, e espero a primeira oportunidade para me ir embora.Já encontraste o Ermo? As tuas cartas aumentam extraordinariamente a minha tortura. Sei o que sofres e adivinho que sofres mais do que podes exprimir. Daria metade do meu sangue só para ver se te convencia de que sou só tua, tua, tua, para sempre até à morte. Penso em ti, só em ti, constantemente, em todos os instantes da minha vida.Longe de ti, não encontro um minuto de bem-estar e de sossego. Tudo me indispõe e irrita. Quando terei a felicidade de estar junto de ti dias inteiros, de viver a tua vida? Verás que não serei a mesma. Serei boa, carinhosa, meiga. Farei por ser sempre igual, sempre discreta. Dir-te-ei todos os meus pensamentos, e tu dir-me-ás os teus. Hei de ser a tua amante, a tua amiga, a tua irmã, e, se me julgares digna disso, também a tua conselheira. Porque eu tenho uma intuição clara das coisas e nunca me enganei, um cento de vezes em que experimentei essa intuição. O meu cuidado único será agradar-te sempre, nunca ser um peso na tua vida. Em mim só hás de encontrar ternura e ­sossego…

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IV. A VIDA NOVA

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ivA VIDA NOVA1Estava mau tempo. O céu encoberto, nevoento, quase branco como leite. Pairava na atmosfera um calor húmido e imóvel.O mar, perdido todo o movimento e toda a materialidade, confundia-se com os vapores vagos da distância, palidíssimo, sem palpitação.Uma vela branca, uma única vela branca – coisa raríssima noAdriático – erguia-se ao longe, para as bandas das ilhas de ­Diomedias, sem mudar de sítio, indefinidamente prolongada pelo espelho daságuas, centro visível desse mundo inerte que se dissolvia a pouco e pouco.Sentada no muro da loggia, numa posição de cansaço, Ippolita fixava na vela os olhos magnetizados pela brancura. Um tanto inclinada, num abandono de toda a sua pessoa, tinha um ar de espanto e quase de imbecilidade que denunciava o eclipse momentâneo da vida interior.Esta falta de energia expressiva acentuava o que de vulgar e irregular havia nos seus traços, tornando carregada a parte inferior do rosto. A própria boca, essa boca elástica e sinuosa, cujo contacto tantas vezes comunicara a Giorgio um terror instintivo e indizível, parecia agora despojada dos seus encantos, reduzida ao aspeto físico de um órgão vulgar, que leva a pensar nas carícias apenas como um ato maquinal, sem nenhuma beleza.

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V. TEMPVS DESTRVENDI

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vTEMPVS DESTRVENDI1Na loggia, a mesa tinha um ar alegre, com as porcelanas claras, os cristais azulinos, os cravos vermelhos, à luz doirada de um grande candeeiro fixo que atraía as borboletas noturnas errando no crepúsculo.– Olha, Giorgio, olha! Uma borboleta infernal! Tem olhos de diabo. Vê-los a luzir?Ippolita apontava para uma borboleta, maior que as outras, de aspeto estranho, coberta com uma espessa penugem loira, de olhos salientes que, contra a luz, brilhavam como dois carbúnculos.– Dirige-se para ti! Dirige-se para ti! Acautela-te! Riu estrepitosamente, divertindo-se com a atrapalhação instintiva que Giorgio costumava ter, quando um desses insetos queria tocá-lo.– Preciso de o agarrar! – exclamou ela com o entusiasmo de um capricho infantil.Preparou-se para apanhar a borboleta infernal, que, sem pousar, voejava à volta do candeeiro.– Que fúria! – disse Giorgio para a entusiasmar. – Mas não a agarras.– Hei de agarrá-la – replicou a teimosa, olhando-o no fundo dos olhos.

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Deon Sio Da Silva (17)
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I QUANDO O CAOS TRIUNFA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

I

QUANDO O CAOS TRIUNFA

“Além disso, o que a tudo enfim me obriga,/

É não poder mentir no que disser,/ Porque de feitos tais, por mais que diga,/ Mais me há-de ficar inda por dizer.”1

A ordem fracassou. Nem todos sabem, mas fracassou! Não apenas aqui. Fracassou no mundo inteiro. Eu sou um dos poucos que sabem dessa verdade fatal. Eis meu desespero.

É preferível a injustiça à desordem, como dizia Goethe em momentos de grande lucidez, nele tão frequentes e em mim tão raros. Por isso, levanto-me cedo, por volta de 5h da manhã e, depois de ordeiras abluções, aprendidas ainda na infância, arrumo a mesa, ponho a pequena xícara à direita, sobre o pires, os dois ao lado do pratinho maior, ladeio o conjunto com a faca,

1

  Essa e as epígrafes de cada capítulo são todas de Luís Vaz de Camões, poeta que Stefan Zweig muito admirava e de quem traduziu para o alemão os versos de que mais gostava. Menos uma, a ele atribuída por outrem, porém apócrifa.

deonísio da silva

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II PERDIDOS EM PETRÓPOLIS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

II

PERDIDOS EM PETRÓPOLIS

“Os bons vi sempre passar/ No mundo graves tormentos;/ E para mais me espantar,/ Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos.”

Faz mais de 30 anos. O tempo passou, e demorei a notar que os dias me roíam por dentro, obrigando-me a trocas nas quais quem sempre ficava em desvantagem era eu.

O destino da gente pode mudar pela palavra de um amigo que, justamente porque vinda de um amigo, não a questionamos. Em certo dia de 1911, Walter Rathenau me disse:

“É preciso conhecer o mundo antes de escrever sobre ele”.

Aquilo que me pareceu um bom conselho eram palavras sensatas, razoáveis. Deveria ser isso mesmo? Deveria, mas não era. A ferramenta intelectual mais importante de um escritor é sua imaginação, jamais a pesquisa. Pesquisa, coleta de dados, olho sobre a realidade? Nada disso importa. Não é à toa que Homero era cego. Um escritor só precisa ouvir. E quanto mais contraditório o que ouve, mais fascinante será o desafio para escrever sobre o tema escolhido. Mas não, eu segui a

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III O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

III

O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA

“Transforma-se o amador na coisa amada,/ Por virtude de muito imaginar;/ Não tenho, logo, mais que desejar,/ Pois em mim tenho a parte desejada.”

É muito bom esse sistema de o leitor receber em domicílio o livro que não pediu. Nem todos os leitores sabem o que precisam ler, ficam indecisos, assim o Clube do Livro da Editora

Guanabara Koogan vai entregando os títulos que o editor ou os leitores escolheram. Não há risco de distribuir encalhes de livros imprestáveis, já que o senhor Koogan é muito criterioso na escolha dos originais a publicar.

Escritor é viciado em livros. Não apenas os escreve, mas os lê, ama, convive com eles como se fossem amigos. O melhor amigo do ser humano não é o cachorro, é o livro. O cachorro é submisso; o livro, não! O ex-amigo te ofendeu ou te traiu, o livro, não! Você pode abandoná-lo na estante, mas ele será sempre o mesmo e só mudará se você mudar antes de o ler, já que cada livro é outro a cada leitura. Escritor é assim: vai morrer hoje, mas morre pensando no seu vício.

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IV A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IV

A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

“Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ Fui mau, mas fui castigado:/ Assim que, só para mim,/ Anda o mundo concertado.”

Vinte de setembro de 1940. Fui dar uma conferência no jornal

A Gazeta, em São Paulo. Quem me convidou foi Cásper Líbero.

Lotte e eu chegamos pela manhã; fomos de avião e do aeroporto seguimos para o Hotel Esplanada. O almoço foi no Automóvel

Clube, no vale do Anhangabaú — demorei a pronunciar direito essa palavra, ainda que, por incrível que pareça, de algum modo soe alemã. Não comemos direito, foi difícil saborear os pratos quando sabíamos que estavam todos nos observando, pois o almoço era em minha homenagem.

À noite, com auditório lotado, falei em francês. Não tive tempo de preparar nova palestra. Então repeti aquela que eu fiz no Instituto Nacional de Música, em 1936. Meu tema foi A

Unidade Espiritual do Mundo. Meu cachê foi de 5.000$000.

É um número gigantesco, como tudo no Brasil. Lê-se “cinco milhões de réis”, mas o povo reduz para cinco contos. De todos

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IX A NOITE DAS BRUMAS

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IX

A NOITE DAS BRUMAS

“Jazia-se o minotauro/ Preso num labirinto/ Mas eu mais preso me sinto”.

Joseph reúne seu grupo. Frida chegou atrasada. Hoje está de vestido, o que causa certo desconforto em Joseph e nos outros.

Vestida de homem, as formas se diluem um pouco, a calça não

é apertada, a blusa é larga, o boné esconde os cabelos, e ela raramente usa batom.

Mas hoje está dentro de um vestido estampado que, embora largo e solto, revela as suas benemerências. O sutiã parece pequeno para esconder tanto seio, e, quando ela se senta, os panos, dispostos em abas, revelam alguns indicadores de sua beleza.

Frida não tem barriga, a cintura é fina, e os pés são pequenos, o que não se pode perceber quando ela está de botas. Hoje está de salto alto. São saltos quadrados, pequenos, mas altos.

— Frida — diz Joseph —, qual foi o motivo do atraso? Você sabe que na operação qualquer demora pode ser fatal.

Gustav e Helmut não gostam da repreensão a Frida, mas engolem seco, o chefe é o outro. Frida se explica:

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