Deon Sio Da Silva (17)
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IV A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

IV

A ÚLTIMA VIAGEM É SEM PASSAPORTE

“Cuidando alcançar assim/ o bem tão mal ordenado,/ Fui mau, mas fui castigado:/ Assim que, só para mim,/ Anda o mundo concertado.”

Vinte de setembro de 1940. Fui dar uma conferência no jornal

A Gazeta, em São Paulo. Quem me convidou foi Cásper Líbero.

Lotte e eu chegamos pela manhã; fomos de avião e do aeroporto seguimos para o Hotel Esplanada. O almoço foi no Automóvel

Clube, no vale do Anhangabaú — demorei a pronunciar direito essa palavra, ainda que, por incrível que pareça, de algum modo soe alemã. Não comemos direito, foi difícil saborear os pratos quando sabíamos que estavam todos nos observando, pois o almoço era em minha homenagem.

À noite, com auditório lotado, falei em francês. Não tive tempo de preparar nova palestra. Então repeti aquela que eu fiz no Instituto Nacional de Música, em 1936. Meu tema foi A

Unidade Espiritual do Mundo. Meu cachê foi de 5.000$000.

É um número gigantesco, como tudo no Brasil. Lê-se “cinco milhões de réis”, mas o povo reduz para cinco contos. De todos

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I QUANDO O CAOS TRIUNFA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

I

QUANDO O CAOS TRIUNFA

“Além disso, o que a tudo enfim me obriga,/

É não poder mentir no que disser,/ Porque de feitos tais, por mais que diga,/ Mais me há-de ficar inda por dizer.”1

A ordem fracassou. Nem todos sabem, mas fracassou! Não apenas aqui. Fracassou no mundo inteiro. Eu sou um dos poucos que sabem dessa verdade fatal. Eis meu desespero.

É preferível a injustiça à desordem, como dizia Goethe em momentos de grande lucidez, nele tão frequentes e em mim tão raros. Por isso, levanto-me cedo, por volta de 5h da manhã e, depois de ordeiras abluções, aprendidas ainda na infância, arrumo a mesa, ponho a pequena xícara à direita, sobre o pires, os dois ao lado do pratinho maior, ladeio o conjunto com a faca,

1

  Essa e as epígrafes de cada capítulo são todas de Luís Vaz de Camões, poeta que Stefan Zweig muito admirava e de quem traduziu para o alemão os versos de que mais gostava. Menos uma, a ele atribuída por outrem, porém apócrifa.

deonísio da silva

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XV ESTRANHO SILÊNCIO

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

XV

ESTRANHO SILÊNCIO

“Erros meus, má fortuna, amor ardente/ Em minha perdição se conjuraram;/ Os erros e a fortuna sobejaram,/ Que para mim bastava amor somente.”

Rua Gonçalves Dias, 34, Petrópolis. A empregada chega ao meio-dia. Abre a casa e começa a arrumação pela cozinha. Mas antes, pé ante pé, ainda com a vassoura na mão, sabe-se lá por que, vai até a porta do quarto. Parece ouvir sonos profundos, alguém ressonando. Seus sentidos a enganam. Ninguém mais respira ali, mas ela não sabe de nada.

O telefone toca. A empregada demora a ouvir a campainha.

Enfim, atende. Ela responde que o casal está dormindo.

— Os dois?

— Os dois!

A voz é masculina:

— A senhora tem certeza?

— Ué, ninguém se levantou. A única em pé aqui sou eu, que estou limpando a casa. E o cachorro, claro.

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deonísio da silva

A empregada termina a limpeza da cozinha e da sala e esquenta a marmita que trouxe. Depois recomeça o trabalho.

De tardezinha, o marido da empregada volta do trabalho e, como de costume, passa para buscar a patroa. Acha estranho que o casal não tenha se levantado ainda e diz para a mulher que vai subir no telhado para se certificar se, afinal, dormem ou não dormem.

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VII NO ANO DA BORBOLETA

Deonísio Da Silva Editora Almedina PDF Criptografado

VII

NO ANO DA BORBOLETA

“E, quando caso for que eu, impedido/ Por quem das cousas é última linha/ Não for convosco ao prazo instituído,/ Pouca falta vos faz a falta minha:”

Joseph olhou pela janela. Lá fora viu bruma e névoa. Não estava frio em Petrópolis naquela noite. Ao longe vislumbrou quem queria. Os agentes por ele convocados caminhavam alegremente pela rua e em grupo. Nem taciturnos para não despertar suspeitas, nem alvoroçados para não parecerem provocadores. Acendeu a luz, como combinado, quando eles estavam muito próximos da casa e abriu a porta, voltando para o quarto que mandara blindar para que nada ali proferido fosse jamais escutado. Se era normal falar em alemão pelas ruas ou, mais raramente, francês, inglês e espanhol, era preciso ainda mais cuidado quando alguém não queria ser entendido por ninguém. A esse tempo Petrópolis era ainda mais culta do que hoje e ali viviam ou passavam os verões destacadas personalidades.

Um a um eles entraram na casa. O último passou a tranca na porta. Joseph os saudou e ordenou-lhes que se sentassem

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XIV LOTTE: PEDAÇOS DE UM DIÁRIO

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XIV

LOTTE: PEDAÇOS DE UM DIÁRIO

“Continuamente vemos novidades,/ Diferentes em tudo da esperança;/ Do mal ficam as mágoas na lembrança,/ E do bem (se algum houve) as saudades.”

O que vão dizer de meu querido Stefan quando souberem do que houve? Os nazistas controlam até a memória dos mortos!

Que dirá Klaus Mann, filho de Thomas Mann, quando souber? Que Stefan amava demais a vida para se suicidar. Depois, que será dele? Alguém prestará atenção ao que ele disser? Pode ser fofoca, mas me disseram que Thomas não gosta muito desse filho, não!

Romain Rolland, que dirá? Que Stefan sempre lhe pareceu forte e seguro para matar-se, deixando entredito que suicídio é gesto de fracos e inseguros?

E Jules Romain, exilado no México, lerá com remorso e tristeza a notícia da tragédia e haverá de procurar detalhes em todos os jornais.

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deonísio da silva

Emil Ludwig, Paul Stefan, Heinrich Mann, Berthold Viertel, que dirão? O pintor belga Frans Masereel fará vezes de crítico literário e dirá que, apesar do suicídio, a obra de meu querido

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Gabriele D Annunzio (6)
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Medium 9789898866349

IV. A VIDA NOVA

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

ivA VIDA NOVA1Estava mau tempo. O céu encoberto, nevoento, quase branco como leite. Pairava na atmosfera um calor húmido e imóvel.O mar, perdido todo o movimento e toda a materialidade, confundia-se com os vapores vagos da distância, palidíssimo, sem palpitação.Uma vela branca, uma única vela branca – coisa raríssima noAdriático – erguia-se ao longe, para as bandas das ilhas de ­Diomedias, sem mudar de sítio, indefinidamente prolongada pelo espelho daságuas, centro visível desse mundo inerte que se dissolvia a pouco e pouco.Sentada no muro da loggia, numa posição de cansaço, Ippolita fixava na vela os olhos magnetizados pela brancura. Um tanto inclinada, num abandono de toda a sua pessoa, tinha um ar de espanto e quase de imbecilidade que denunciava o eclipse momentâneo da vida interior.Esta falta de energia expressiva acentuava o que de vulgar e irregular havia nos seus traços, tornando carregada a parte inferior do rosto. A própria boca, essa boca elástica e sinuosa, cujo contacto tantas vezes comunicara a Giorgio um terror instintivo e indizível, parecia agora despojada dos seus encantos, reduzida ao aspeto físico de um órgão vulgar, que leva a pensar nas carícias apenas como um ato maquinal, sem nenhuma beleza.

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I. O PASSADO

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iO PASSADO1Ippolita parou de repente quando viu um grupo de homens debruçados no parapeito a olhar para a rua.– Que terá acontecido? – perguntou, esboçando um pequeno gesto de receio ao pousar involuntariamente a mão no braço de­Giorgio, como que para o segurar.– Certamente foi alguém que se atirou do terraço – disse ele, observando a atitude dos homens. – Queres voltar para trás?Ela hesitou por um momento, suspensa entre a curiosidade e o temor, mas acabou por responder:– Não. Vamos.Avançaram ao longo do parapeito, até ao extremo da alameda.Ippolita acelerava instintivamente o passo em direção ao grupo de curiosos. Naquela tarde de março, o Píncio estava quase deserto e naquela atmosfera pesada e entorpecida vagos rumores desfaleciam.– Como previ – confirmou Giorgio. – Matou-se alguém.Pararam perto do ajuntamento. Todos os espectadores fitavam, com olhares atentos, a calçada lá em baixo. Era gente do povo, sem nada para fazer, com fisionomias muito distintas, sem um reflexo de compaixão ou tristeza; a imobilidade do olhar refletida nos olhos como uma espécie de espanto bestial.

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III. O ERMO

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iiiO ERMO1Em carta de 10 de maio, Ippolita dizia:Finalmente, posso dispor de uma hora livre para te escrever com vagar. Há dez dias que o meu cunhado vai arrastando a sua dor, de hotel em hotel, à beira do lago, e ambas o acompanhamos como duas almas penadas. Não calculas a tristeza desta peregrinação. Eu  não posso mais, e espero a primeira oportunidade para me ir embora.Já encontraste o Ermo? As tuas cartas aumentam extraordinariamente a minha tortura. Sei o que sofres e adivinho que sofres mais do que podes exprimir. Daria metade do meu sangue só para ver se te convencia de que sou só tua, tua, tua, para sempre até à morte. Penso em ti, só em ti, constantemente, em todos os instantes da minha vida.Longe de ti, não encontro um minuto de bem-estar e de sossego. Tudo me indispõe e irrita. Quando terei a felicidade de estar junto de ti dias inteiros, de viver a tua vida? Verás que não serei a mesma. Serei boa, carinhosa, meiga. Farei por ser sempre igual, sempre discreta. Dir-te-ei todos os meus pensamentos, e tu dir-me-ás os teus. Hei de ser a tua amante, a tua amiga, a tua irmã, e, se me julgares digna disso, também a tua conselheira. Porque eu tenho uma intuição clara das coisas e nunca me enganei, um cento de vezes em que experimentei essa intuição. O meu cuidado único será agradar-te sempre, nunca ser um peso na tua vida. Em mim só hás de encontrar ternura e ­sossego…

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V. TEMPVS DESTRVENDI

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vTEMPVS DESTRVENDI1Na loggia, a mesa tinha um ar alegre, com as porcelanas claras, os cristais azulinos, os cravos vermelhos, à luz doirada de um grande candeeiro fixo que atraía as borboletas noturnas errando no crepúsculo.– Olha, Giorgio, olha! Uma borboleta infernal! Tem olhos de diabo. Vê-los a luzir?Ippolita apontava para uma borboleta, maior que as outras, de aspeto estranho, coberta com uma espessa penugem loira, de olhos salientes que, contra a luz, brilhavam como dois carbúnculos.– Dirige-se para ti! Dirige-se para ti! Acautela-te! Riu estrepitosamente, divertindo-se com a atrapalhação instintiva que Giorgio costumava ter, quando um desses insetos queria tocá-lo.– Preciso de o agarrar! – exclamou ela com o entusiasmo de um capricho infantil.Preparou-se para apanhar a borboleta infernal, que, sem pousar, voejava à volta do candeeiro.– Que fúria! – disse Giorgio para a entusiasmar. – Mas não a agarras.– Hei de agarrá-la – replicou a teimosa, olhando-o no fundo dos olhos.

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II. A CASA PATERNA

Gabriele D'Annunzio Grupo Almedina PDF Criptografado

iiA CASA PATERNA1Nos fins de abril, Ippolita partiu para Milão, chamada por sua irmã cuja sogra acabava de morrer. Giorgio devia também partir à procura da terra desconhecida. E pelos meados de maio tornar-se-iam a encontrar.Mas, justamente nessa época, Giorgio recebeu uma carta de sua mãe, cheia de coisas tristes, quase desesperadas. E agora não podia retardar mais o seu regresso à casa paterna.Quando compreendeu que, sem mais demora, o seu dever o mandava seguir para o lugar onde estava a verdadeira dor, ­invadiu-o uma angústia, e o primeiro movimento de amor filial foi pouco a pouco vencido por uma irritação crescente cuja aspereza aumentava à medida que surgiam na sua consciência, mais nítidas e numerosas, as imagens do conflito próximo. E essa irritação tornou-se em pouco tempo tão acerba que o dominou completamente, insistente, misturada com os aborrecimentos materiais da partida e pela tristeza das despedidas.A separação foi mais cruel que nunca. Giorgio atravessava um período de sensibilidade hiperaguda. A excitação de todos os seus nervos mantinha-o num contínuo estado de inquietação. Parecia descrer da felicidade prometida, da paz futura. Quando Ippolita lhe disse adeus, ele perguntou:

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Jos Mattos (14)
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OTAVIO

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OTAVIO

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rês horas da manhã. Manolo queria fechar o bar, mas eu teimava ali na mesa sem querer ir para casa ou para outro lugar. Eu não ligava para o que o Manolo desejava. O copo de whisky estava no meio ainda, eu esfriava a bebida mexendo os cubos de gelo com a ponta do dedo indicador. Eu sabia que o Manolo queria fechar o caixa e ir para casa, sabia que ele ainda estava ali somente por minha causa. Aquilo me dava prazer, eu me sentia importante, homenageado, pelo menos no bar que frequento. O bar continuava aberto por minha causa somente. Não é pouco.

O bar do Manolo tem história, é citado nos jornais como um dos melhores botecos da cidade, frequentado por gente famosa. É um espaço pequeno, tem umas quinze mesas e um bar bonito onde ninguém se senta. Mesmo com as mesas do salão cheias é difícil alguém beber sentado no bar. Deviam sentar. O Manolo é um papo excelente, sabe alegrar os tristes, conter os alegres, torce por todos. Eu já pensei que o

Manolo fosse um anjo mandado para tomar conta dos bêbados da vizinhança. Sei lá, um dia Deus preocupado com o estado dos bêbados de

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OTAVIO

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OTAVIO

D

on Geraldo deve ter pouco mais de um metro e sessenta de altura.

Tem a cabeça raspada como todo beneditino. Foi meu professor de religião, cuidou de minha alma quando eu era jovem e hoje é meu conselheiro espiritual por assim dizer. Por assim dizer porque eu não falo muito com ele. Fico mais de ano sem procurá-lo. Às vezes, no entanto, a vida pesa e não há outro jeito. Apesar dos anos de convívio eu continuo o tratando por Dom e por senhor.

Pois é, Dom Geraldo, eu estou com isso há meses. Eu nem sei se

é pecado ou o que é. Mas eu sei que ninguém pode, deve viver assim.

Eu todos os dias quando rezo peço para Deus levar-me daqui logo. Eu estou muito cansado disso tudo, eu já fiz tudo que era para fazer, eu não acho mais graça em nada. E nem há tanto assim para me queixar. Eu sei que sou um privilegiado, tive escola, família, mãe, pai, tudo certinho.

Eu tenho um bom emprego, sou querido, tenho filhos, tenho mulher que me ama, mas é isso, na hora de rezar eu, quando percebo, estou pedindo para Deus me levar, acabar com isso logo.

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NORMA

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NORMA

N

orma, como é que vai o maridão? Continua firme na chefia da sucursal?

— Sim, está tudo certo, por quê?

— Ele continua com aquele ciúme todo?

— Continua, ele vai morrer desse jeito. Por quê? Por que você está interessado nisso? Nem vem com ideia que não vai rolar nada. A gente já era, passado, décadas.

— Eu sei...

— Olhe, foram anos até você deixar de ser assunto em casa. Deus me livre de começar novamente. Nem eu sou tão boa, nem você vale a pena.

— Pô Norminha, também não precisa falar assim. Eu tenho uma boa saudade da gente. Mas, não é isso, embora você seja muito boa e eu valha a pena. É outra coisa. Eu estou precisando colocar um negócio no jornal.

— Esquece. O Jorge não vai te fazer favor nunca. Também é pedir demais, não acha?

— Norminha, ele não precisa saber que está me fazendo um favor.

— Otavio o que você está querendo... Você anda mesmo meio esquisito, o que que é?

— Norminha, a gente está ferrado, fudido mesmo. Quer dizer, eu estou ferrado e você como minha fiel escudeira vai junto. O negócio

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NONATO

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NONATO

S

entado à beira do lago, Nonato observava as águas. Jogava pedras pequenas que repicavam n`água uma, duas, três vezes até afundarem. Técnica adquirida há décadas, quando menino passava férias ali.

Seus olhos perdidos no horizonte procuravam não olhar para o corpo de Sonia. Todo mordido por peixes o corpo de Sonia era macabro.

Nonato aguardava a chegada da polícia, do fim de seu sossego. Sonia era um corpo agora. A mulher com quem vivera estava morta. Nonato não sentia a dor que deveria sentir, não sentia a solidão que deveria estar agora tomando conta de sua mente. O corpo deixara de ser de sua mulher, agora eram apenas alguns quilos de carne comida por peixes.

Sonia saíra da fazenda há cinco anos. Fugira. Não deixara uma carta, um bilhete decente, uma explicação. Deixara apenas a ausência, a falta.

Há poucas horas Sonia reaparecera dessa forma. Uma volta surpreendente para quem se acreditava estar longe, distante, nunca mais fora vista. O cadáver de Sonia não trazia de volta a mulher que habitara a fazenda por tantos anos. Olhando o corpo deformado pela água, Nonato não encontrava relação com a Sonia da lembrança, a Sonia capaz de transformar tédio em alegria, capaz de despertar com sua risada as energias encerradas nas paredes da casa-grande. A Sônia que enraivecia os esnobes da família com a sua espontaneidade, a Sonia que não se incomodava de ser vista como interesseira, não ligava para os convites que não recebia, os cumprimentos negados e todas as tentativas de

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NONATO, RICARDO E OTAVIO

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NONATO, RICARDO E OTAVIO

D

esde sua chegada, Nonato insistia que Ricardo e eu fôssemos com ele para umas termas no centro da cidade. Eu não estava com muita vontade, mas podia ser engraçado. A conversa com Dom Geraldo me deixara completamente desanimado e decidi que precisava me distrair.

Liguei para o Ricardo, ele topou. Disquei para o Nonato e confirmei o programa para a noite.

De nós três, quem mais gosta de puta é o Nonato. Sempre foi assim, desde que a gente começou a se preocupar com mulher, o Nonato foi o mais putanheiro. Ele foi quem demorou mais a arrumar namorada, ele não achava graça em ficar de conversa com menina, ficar de bobeira horas até conseguir um sarrinho decente. Nonato preferia ir a um puteiro e se divertir com as garotas de lá.

Bonito, de corpo bem feito e com uma aparência que não escondia o berço de ouro, Nonato era o sucesso da zona e a turma fazia fila para subir com ele para os quartos. Logo conheceu uns dois serviços de call girls e nem mais à zona ia. Por telefone mesmo, encomendava as meninas para a suruba que ocorria ou na enorme casa de seus pais no Leblon ou na casa da Praia da Armação em Búzios. Eu e o Ricardo íamos na onda e nos divertíamos muito. Mas o motor do bacanal sempre foi o

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Newton Cesar (62)
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Medium 9786587017099

00:60 00:00

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voltar lá, perguntar, averiguar, descobrir se, acaso, a mulher não dez dias da visita feita à relojoaria, nada aconteceu. Pensei em maior se manifestasse. Só que, para a minha decepção, após

Em casa, sozinho, passei dias esperando que, de fato, o sentido

Um sentido com nome, corpo e alma: Anne. têm – mas minha vida, desde o acidente, ganhara novo rumo. agarrar as lembranças de volta – um tesouro para quem não as recordar coisas tristes, estava? Claro que era maravilhoso marcou muito, eu sabia. Mas eu não estava em casa para relógio de pulso do meu pai. Foi um dia triste, um tempo que me envolto em tique-taques tantos, lembrei de quando peguei o o sorriso grudado no rosto. Fechei a porta e fui me sentar. Ali, aos montes? A gente tem cada mania! Vendo-os, continuei com tinha a lembrança de ter tantos relógios. E por que eu os queria nas paredes da minha sala, alguns relógios pendurados. Eu não um sorriso. Silencioso, mas muito significativo. À minha frente, engraçado. A primeira coisa que fiz ao abrir a porta, foi soltar

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00:58 00:02

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Quantas? Será que minhas lembranças eram apenas as lembrança, que Anne fora minha mulher em outras vidas.

Minha mulher. Parecia-me, por conta da nebulosidade da o nome, e também lembrei-me do mais importante: Anne. meus pais, com uma senhora negra que não me vinha ao certo

é verdade. Mas lembrei-me com felicidade de ter falado com os existiam, de jeito nenhum. Nem tudo vinha-me com clareza, após o acidente. Passei a lembrar-me de fatos que antes não adequada. Todavia, eu era, sem dúvida, um homem diferente

Minha memória, fraca, confusa, não encontrava resposta

rosto significava. O que guardavam elas? vidrados, as pupilas tentavam decifrar o que cada ruga do meu

Depois do banho, fitei-me no espelho. Parado, olhos caídos mas de 70 anos tem quando está sozinho num banheiro de hospital. fiz as coisas com cuidado. Um cuidado normal que toda pessoa

Claro que mesmo sem o soro, sem nada para me preocupar, ridícula de hospital e tomar um banho.

No banheiro, mijei. E aproveitei para livrar-me daquela roupa manhã, já não carregava nada, estava bem. o soro, tomar cuidado com a agulha espetada na veia. Nesta ao banheiro. Bom andar sem ter que arrastar pedestais, segurar da cama, não antes de me sentar por alguns instantes, e fui porém seguro para um homem da minha idade. Levantei-me

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Medium 9786587017099

00:28 00:32

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vez de avançar?” regredindo? Como explica você estar voltando no tempo em

“Tem certeza mesmo? E como explica os anos estarem imaginação. Só uma imagem, pensamento ilusório.”

“Não, não faz o menor sentido. Você... já sei, é minha frívola

“Mas matou. E era você naquela época, garanto.” mataria a pessoa que amo, de jeito nenhum.” toda a minha vida, pensei em matar alguém. Segundo: eu não

“Não. Primeiro: sou um homem bom, sempre fui. Nunca, em

“Não?”, reforçou a Anne.

Olhei os relógios de novo. que tal seja verdade.”

“Não, não, de jeito nenhum. Não existe a remota possibilidade

“Isso mesmo, Ataíde.” a matei, sendo, portanto, um assassino?”

1800, que era e é a minha mulher e que, não bastasse, eu

“Então quer que eu acredite que você veio dos anos de olhos duros, acho que esbugalhados ao fitar a moça: tanto as olhei. Como o tique-taque nada dizia, retruquei – os estivesse nos relógios pendurados, nas fotografias grudadas, possível? Achei, por um momento, que a provável resposta inquieto, irracível. Então toda a história absurda de Anne seria descadenciado, trancei as pernas dum lado ao outro na sala,

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00:37 00:23

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idade avançada. Achei bonito, a dona Rosi. Cheguei a esboçar lá. A gente aprende a ser mais sensível com o passar do tempo, de 23 anos. Se eu ainda tivesse os meus quarenta, sessenta, vá pessoa chorando não era coisa normal para mim, um rapazote sensibilidade, a dona Rosi, devia ter. Chorar só por ver outra lágrima escorrer pelo seu rosto escuro. Devia ter muita também pareceu emocionada. Tentou disfarçar, mas vi uma

Encostada no batente da porta, nos observando, dona Rosi por tê-la feito chorar.

“Desculpa”. E disse, não por me ver culpado pela marca, sim enquanto ela chorava. A única coisa que consegui dizer foi: não conteram as lágrimas. Eu, confuso, fiquei tocando a cicatriz

No momento em que meu dedo deslizava por ela, seus olhos indicador, toquei a cicatriz. Fiquei contemplando a marca.

Com cuidado, levei minha mão até seu pescoço e, usando o

Veio. Sentou-se. Voltou a me olhar com olhos de estátua.

“Vem, senta aqui”, pedi, generoso. Voz carregada na ternura. cama até a janela. ainda dando pequenas voltas, girando os calcanhares, indo da

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00:39 00:21

Newton Cesar Editora Almedina PDF Criptografado

vagarosamente, voz baixa:

Diante da cena um pouco gótica, meio filme de terror, falei

Na sala, só eu, a Anne e a criança morta. Tentei parecer calmo. eu andr um pouco.” negra velha. Depois saiu. Foi para a rua. Avisou: “O melhor é

“Acho melhor deixar vocês sozinhos”, respondeu a

E, como, como alguém ia viver sem pulmões?”, insisti. também acha que a criança está morta, não acha, dona Rosi?

“Não consigo ver? E a dona Rosi, o que me diz, hein? Ela ele vive. Mas vai ver. me mandou ele assim. Você que não consegue ver que

Ele vive, só não respira porque não tem os pulmões. Deus não respira?”

“Como não? Não vê que esse bebê não se move, não chora,

Não é loucura nenhuma.

“Que loucura é essa?” balbuciei:

Anne. Controlando meus sentimentos, ou tentando controlar, fez expressão de espanto, éramos qual estátuas ao fitar aquela

Fiquei quieto, olhos esbugalhados. Eu e dona Rosi, que também

Esse bebê é o nosso filho. E não está morto! pondo-me incrédulo, praticamente perdido, revolto. escritas de forma trêmula, quais garranchos, me atordoaram,

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