Teoria e Clínica da Psicose, 5ª edição

Autor(es): QUINET, Antonio
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Teoria e Clínica da Psicose é o resultado de um trabalho realizado a partir de reflexões sobre a prática clínica tanto em consultório quanto em diferentes serviços de psiquiatria por onde o autor, Dr. Antonio Quinet, passou.A obra é dividida em quatro partes, que vão desde os conceitos fundamentais da psicanálise até tipos de tratamentos, histórias clínicas de pacientes e análise de obras de arte, como, por exemplo, Dom Casmurro, na visão da psicanálise.

 

18 capítulos

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I. Psicose: uma Estrutura Clínica

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I

PSICOSE: UMA ESTRUTURA CLÍNICA

Não é louco quem quer

Lacan era psiquiatra de formação e jamais deixou de se interessar pela psicose desde sua tese de doutorado de 1932, intitulada

“Da psicose paranoica e suas relações com a personalidade”. Esse interesse manifesta-se tanto no Seminário sobre as psicoses, em 1955, onde retoma as memórias do presidente Schreber, como no Seminário sobre “Joyce, o Sintoma”, realizado em 1975/76. Além disso, sempre recebeu psicóticos em seu consultório e fez durante toda a vida apresentações de pacientes no hospital Saint-Anne, em Paris.

Nesse mesmo hospital, ainda como residente, Lacan escreveu na sala de plantão uma frase que ficou na história: “Não é louco quem quer”. Este enunciado, que pode ser lido como “Só é louco quem pode”, já prenuncia o que será a sua postura – eminentemente freudiana – diante da loucura: abordar a psicose como algo específico e determinado, que tem sua lógica e seu rigor, e não como um estado de espírito que qualquer um pode apresentar. Trata-se de considerar a psicose como uma estrutura clínica diferente da neurose. É justamente a referência ao Édipo o divisor de águas entre o campo das neuroses e o campo das psicoses.

 

II. O Outro de Schreber

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II

O OUTRO DE SCHREBER

A particularidade de o psicótico revelar, embora de forma distorcida, aquilo que o neurótico conserva em segredo1 é o que permitiu a

Freud no caso Schreber analisar o escrito de um indivíduo que jamais vira. Na psicose é a própria estrutura da linguagem do inconsciente que é revelada, e o Outro do sujeito aparece desvelado, consistente e absoluto. Tal é o caso do Outro de Schreber – esse Deus feito de linguagem e gozo.

O Nome-do-Pai no lugar do Outro

Para todo e qualquer sujeito o Outro é o tesouro de significantes, e como tal é prévio, já é dado antes mesmo do advento do sujeito.

Para a criança este lugar do Outro é inicialmente ocupado pela mãe.

Para que o indivíduo possa apropriar-se dos significantes e exercer uma função de sujeito na ordem simbólica é necessário haver inclusão do significante da lei (o Nome-do-Pai) no Outro. Lacan resume o

Édipo freudiano através da fórmula paterna em que o Nome-do-Pai substitui o Desejo da Mãe com o qual a criança se identifica como sendo o seu objeto. Trata-se da simbolização da presença-ausência da mãe representada pelo jogo do fort-da descrito por Freud em “Além do princípio do prazer”. O resultado é a inclusão do Nome-do-Pai no

 

III. Que Realidade para o Louco?

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III

QUE REALIDADE PARA O LOUCO?

Estaria o louco fora da realidade? Só o neurótico teria o privilégio da realidade? Quem percebe e como percebe a realidade?

A abordagem da psicose a partir da questão do sujeito nos obriga a redefinir a própria noção da realidade percebida. O imaginário dá a forma, o molde, à nossa realidade, mas esta não se reduz a ele.1 A realidade para o homem é modelada à sua imagem, assim como o eu

é o reflexo do sujeito nos objetos do mundo. É por isso que o conhecimento a que tem acesso o eu, a partir do que percebe do mundo, é sempre paranoico, pois é a partir do eu, como se desvela na paranoia, que o sujeito concebe e conhece o mundo. Assim como o eu, o conhecimento é também paranoico, pois aí no ato de conhecer o mundo a forma do eu se reflete sem que no entanto o sujeito disso se dê conta.

É o caso do alienista Simão Bacamarte:2 a paixão taxinômica que tinha pelos doentes mentais revela-se como paixão pelo eu, que é, por definição, prenhe de delírio. Após afirmar que todos são alienados, o alienista inverte a situação e se afirma como o único alienado. O amor por si mesmo, que Freud denominou narcisismo, é equivalente ao amor pelo delírio, pois o delírio é o mundo reconstruído onde se projeta o eu do sujeito: os psicóticos, diz Freud, amam seus delírios como a si mesmos.

 

IV. O Gozo na Psicose

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IV

O GOZO NA PSICOSE

Para além de uma questão preliminar

A psicose desvela “a origem sórdida do nosso ser”.1

A questão preliminar a todo tratamento possível da psicose é a questão que “nos é colocada”, diz Lacan, “pela existência do louco”. E que será por ele respondida com a foraclusão do Nome-do-Pai no lugar do Outro como condição essencial da psicose, e que tem como efeito, quando do desencadeamento, a regressão tópica ao estádio do espelho.

Trata-se, então, nesse texto de Lacan, daquilo que, no registro simbólico, vai corresponder à estrutura da psicose e seus efeitos no registro imaginário. Mas logo após o trecho em que estabelece a foraclusão Lacan afirma: “o que acabo de trazer aqui como questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, prossegue sua dialética para além. (...)”.2

Quais são as coordenadas que existem nesse texto mesmo e que nos permitem ir além? As que estão em conexão com o aforisma correspondente à foraclusão do Nome-do-Pai: “o que está foracluído no simbólico retorna no real”.

 

V. Foraclusão e Descrença

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V

FORACLUSÃO E DESCRENÇA

Em seu seminário “A ética da psicanálise” Lacan propõe para a psicose o termo descrença (incroyance, Unglauben) a partir da expressão Versagen des Glaubens, empregada por Freud para designar o caráter do que ocorre com o psicótico no seu primeiro encontro com o sexo. E identifica a descrença com a foraclusão: “Quanto à descrença, há aí, na nossa perspectiva, uma posição de discurso que se concebe muito precisamente em relação à Coisa – a Coisa aí é rejeitada no sentido próprio da Verwerfung”.1 E adiante ele define o mecanismo próprio do discurso da ciência em termos de Verwerfung da Coisa.

Deve-se notar que no discurso da ciência se trata de “posição de discurso” e não de “posição de sujeito”, expressão esta que Lacan utiliza para evocar a posição da histérica, do obsessivo e do paranoico em relação à Coisa, ou das Ding.

Se há foraclusão da Coisa no discurso da ciência é na medida em que (...) em sua perspectiva, “se delineia o ideal do saber absoluto”, ou seja, o ideal de uma rede significante global, onde não há lugar para o que está fora do significante – a Coisa. Trata-se do ideal de tudo dizer sobre o real – o que é uma loucura, mas é o que é visado no discurso da ciência. Entretanto, no que se refere à posição do sujeito psicótico, o Unglauben, em sua equivalência com a foraclusão, não se incide na Coisa, mas na realidade psíquica.2 Essa descrença do

 

VI. As Teorias Medievais do Amor e a Erotomania

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VI

AS TEORIAS MEDIEVAIS DO AMOR E A

EROTOMANIA

“Pode parecer-lhes que recorrer a uma teoria medieval do amor para introduzir a questão da psicose seja um curioso e singular desvio.

Entretanto, é impossível conceber, sem isso, a natureza da loucura.”

É o que Lacan nos indica em seu seminário sobre As psicoses, sem, no entanto, desenvolver mais do que o pequeno fragmento que se encontra na lição do dia 31 de maio de 1956, quando está descrevendo a relação do sujeito na psicose com o grande Outro que se apresenta como Outro absoluto. Ei-lo:

“A relação extá ca com o Outro é uma questão que não vem de ontem, mas, por ter sido deixada na sombra durante séculos, ela merece de nossa parte, nós analistas, que lidamos o tempo todo com isso, que a retomemos.

Fazia-se na Idade Média a diferença entre o que se chamava a teoria sica e a teoria extá ca do amor. Colocava-se assim a questão da relação do sujeito com o Outro absoluto. Digamos que, para compreender as psicoses, devemos fazer com que se recubra, em nosso esquema, a relação amorosa com o Outro como radicalmente Outro com a situação em espelho, ou seja, de tudo o que é da ordem imaginária, do animus e da anima, que se situa, segundo os sexos, em um lugar ou em outro.

 

VII. Curável e Incurável

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VII

CURÁVEL E INCURÁVEL

1

“Se o enfermo”, diz Freud em `O início do tratamento’, “não padece de uma histeria nem de uma neurose obsessiva, mas de uma parafrenia, o médico não poderá manter sua promessa de cura e portanto deverá dispor, de sua parte, de todo o possível para evitar um erro de diagnóstico.” Freud atrela, portanto, a promessa de cura do psicanalista à precisão diagnóstica, reservando-a à neurose em detrimento da psicose. De que cura se trata em psicanálise? E com qual incurável o analista tem de lidar? Questão fundamental para sabermos o que nos

é impossível prometer como cura na psicose e o que nos é permitido esperar em seu tratamento pelo discurso analítico.

A promessa e a demanda

O entusiasmo terapêutico de Freud é registrado desde seus Estudos sobre a Histeria e durante toda a primeira tópica e a metapsicologia, como podemos constatar nas “Conferências introdutórias”

27 e 28: “Obtemos, em condições favoráveis, sucessos terapêuticos não menores do que os mais belos resultados que se obtêm no âmbito da medicina interna e posso acrescentar que os sucessos obtidos pela psicanálise não podem ser obtidos por nenhum outro procedimento de tratamento.” Essa comparação da psicanálise com a medicina, no que

 

VIII. Da Esquizofrenia à Paranoia

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VIII

DA ESQUIZOFRENIA À PARANOIA

Para abordarmos o tratamento psicanalítico na clínica da psicose, vamos nos orientar por uma indicação de Lacan no momento em que foi lançado na França o texto de Schreber. Em sua “Apresentação da tradução francesa das Memórias do presidente Schreber”, publicada nos Cahiers pour l’Analyse, de novembro-dezembro de 1966 pelo

Círculo de Epistomologia da École Normale Supérieure, Lacan propõe uma polaridade “(...) do sujeito do gozo ao sujeito que o significante representa para um significante sempre outro (...)” e um conceito: “(...) não será mesmo isso que vai nos permitir uma definição mais precisa da paranóia como identificando o gozo nesse lugar do Outro enquanto tal”.1 A partir dessas indicações abordaremos dois tipos clínicos encontrados no campo da psicose: a paranóia e a esquizofrenia.

A polaridade do sujeito

Essa polaridade contém uma orientação tal como indica a construção da frase onde se encontra. Pode-se escrevê-la:

 

IX. Tratamento Psicanalítico da Psicose

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IX

TRATAMENTO PSICANALÍTICO DA PSICOSE

Que significa tratamento? Na linguagem psicanalítica significa tratamento por um intermédio de um discurso. É possível o tratamento da psicose pelo discurso do analista? Antes de chegarmos ao discurso do analista, vejamos por quais discursos o louco tem sido tratado.1

O louco nos quatro discursos

O louco é tratado pela psiquiatria, pela polícia, ou ainda, pela assistência social. A repressão trata o louco com a injunção à adaptação à norma para que ele produza trabalho. Aqui tem-se a estrutura do discurso do mestre:

S1

S/

S2 a

O agente da polícia, por exemplo, atua sobre o louco: (S1  S2) para que este produza o objeto (a) com o qual aquele poderá gozar: seja objeto de divertimento, sejam objetos de consumo produzidos pelo trabalho forçado dito terapêutico.

A psiquiatria universitária trata o louco não como sujeito, mas como objeto – de estudo, exames, cuidados, farmacopeia. Pode-se depreender da prática da psiquiatria a estrutura do discurso universitário:

 

X. A Melancolia nos Clássicos

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X

A MELANCOLIA NOS CLÁSSICOS

1

Em seu texto “Luto e Melancolia”, Freud o inicia observando que “a melancolia, cuja definição varia inclusive na psiquiatria descritiva, assume várias formas clínicas, cujo agrupamento numa única unidade não parece ter sido estabelecido com certeza”.2 Freud não se detém sequer um instante nas múltiplas querelas nosológicas que envolveram a melancolia durante todo o século XIX e começo do XX nesse terreno vizinho da psicanálise que é o terreno da psiquiatria, onde eram recolhidas as flores do mal melancólico no jardim classificatório das espécies.

Freud tampouco se detém na querela diagnóstica ao fornecer-nos uma descrição simples, densa e não problematizada da melancolia.

Ele a caracteriza por uma “depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda atividade e a diminuição do sentimento de

1

2

Este trabalho é o primeiro resultado de uma pesquisa em curso que está sendo efetuada no Rio de Janeiro pelo Núcleo de Pesquisa sobre a Psicose, vinculado

 

XI. Apresentação de Pacientes

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XI

APRESENTAÇÃO DE PACIENTES

Por uma é ca da psiquiatria

A entrevista psiquiátrica, a apresentação de pacientes e o tratamento psiquiátrico não podem ser os mesmos antes e depois do surgimento da psicanálise. Freud dizia que não é a psiquiatria que se opõe à psicanálise e sim o psiquiatra. A relação por ele proposta é tal que a psicanálise está para a psiquiatria assim como a histologia para a anatomia – a primeira estuda os tecidos e sua trama, a segunda, as formas exteriores. Em outros termos, a estrutura é apreendida pela psicanálise e os fenômenos pela psiquiatria. A clínica psicanalítica, inclusive, deve muito à clínica da psiquiatria clássica, sobretudo no que concerne à psicose, na descrição de delírios e alucinações.

Freud, em “As novas vias da terapêutica psicanalítica” (1919), faz o voto de que “no futuro sejam criadas instituições e clínicas que tenham na direção médicos psicanalistas qualificados e que aí seja realizado, com a ajuda da psicanálise, o esforço de conservar a resistência e a atividade daqueles homens que sem isso se entregariam à bebida, mulheres que sucumbiriam sob o peso das frustrações e crianças que não teriam senão a escolha entre a neurose e a depravação”. Freud propõe assim a intervenção do analista nas instituições psiquiátricas.

 

XII. Um Problema de Herança

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XII

UM PROBLEMA DE HERANÇA

Prontuário clínico

Nome: J. V. S. Idade: 37 anos

Profissão: Aposentada

(“musicista”)

Escolaridade: 1 º grau completo

Sexo: feminino

Cor: Branca

Naturalidade: Recife

(Pernambuco)

Residência: Recife (?)

Internada neste estabelecimento em 23.07.1987

QP: “Problema de herança”

HMA: (Relato do plantão de urgência no momento da internação)

Veio trazida pela polícia com “um relatório muito vago”.

Segundo o relato da pc. veio de Pernambuco para Belo Horizonte para resolver um “problema de herança” no Fórum

Lafayete, mas “todos os juízes estavam de férias”. Estava hospedada em uma casa de estudantes. A pc. se nega a fornecer informações sobre seus familiares: “se tivesse alguém estaria resolvendo esse problema”.

Nega uso de drogas.

ID: Psicose não especificada.

– Haldol (5mg ) 1+ 0 + 1

HP: (Colhida durante a internação)

Pc. relata internação anterior em uma “ Clínica Particular” em

 

XIII. Hélène, Elle N

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XIII

HÉLÈNE, ELLE N.

“Hélène faleceu. Ela se jogou debaixo do R. E. R.”1 – anunciaram-me ao chegar no ambulatório. Hélène, que há seis meses tinha deixado de vir contar-me suas desgraças, colocava assim um ponto final em sua existência. A equipe psiquiátrica que a atendia não pudera avaliar a iminência do suicídio: entre duas consultas, ela partiu ao encontro da morte.

É deste ponto fatal que a história de Hélène adquire retroativamente seu trágico sentido. Seus encontros comigo permitiram-me depreender e articular os significantes primordiais da lógica de sua psicose, pois a atendi durante um ano em encontros irregulares devido à sua pouca assiduidade.

A “telepa a”

Hélène, aos 22 anos, é-me enviada por seu psiquiatra que a atendia desde o desencadeamento de sua psicose, aos 19 anos. Veio ver-me, portanto, para responder à demanda de seu psiquiatra. Muito rapidamente, põe-me a par do que a perturba: ela não sabe o que fazer com sua “telepatia”. As pessoas leem seus pensamentos e os repetem em voz alta, e ela se diz capaz de saber de antemão o que vai ser falado no rádio e na televisão.

 

XIV. Incorporação do Significante

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XIV

INCORPORAÇÃO DO SIGNIFICANTE

“Comer o livro”, eis a imagem extraída do Apocalipse que Lacan emprega na “Ética da psicanálise” para evocar a incorporação do significante. No caso Robert, o menino do lobo, podemos dizer que isso equivale a “beber o lobo”, tal como se pode extrair do relato dessa cura realizada de dezembro de 1951 a novembro de 1952 por Rosine Lefort e de seu comentário escrito em colaboração com Robert Lefort em Les

Structures de la Psychose, l’Enfant au Loup et le Président.1 O livro de Rosine e Robert Lefort vem avalizar o que Lacan dizia nessa época sobre o caso do menino do lobo2 – trata-se de um caso de demonstração.

Este livro é, em primeiro lugar, uma demonstração da perspectiva criacionista do significante como criação ex nihilo, ou seja, coextensiva da introdução de um furo, de uma hiância no real: trata-se do advento desse novo significante “o lobo”. Em segundo, é uma demonstração da incorporação do significante por meio do tratamento analítico. E em terceiro lugar é uma demonstração da constituição de um eu que, segundo Freud, é antes de tudo um eu corporal, projeção da superfície do corpo, um “eu-corpo”.3 Em 1954, Lacan designava,

 

XV. A Psicose do Homem dos Lobos

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XV

A PSICOSE DO HOMEM DOS LOBOS

Um caso como o do homem dos lobos “poderia servir de pretexto para se discutir todos os resultados e todos os problemas da psicanálise”.1 Esse enunciado de Freud não cessou de ser confirmado ao longo da história da psicanálise, tendo o diagnóstico desse paciente constituído fonte de polêmica entre os psicanalistas, que evocaram todas as possibilidades para dar conta do caso de Serguei Constantinovich Pankejeff. Pretendemos nesse trabalho demonstrar como a estrutura psicótica do homem dos lobos se desvela a partir das indicações de Lacan sobre o mecanismo essencial da psicose: a foraclusão do Nome-do-Pai.2

Selecionamos como referência inicial o episódio paranoico3 de

1926, assim relatado e diagnosticado por Ruth Mac Brünswick. É a partir dele que Lacan faz a releitura do caso de Freud para ressaltar o mecanismo da psicose, a Verwerfung.

Antes de abordar esse episódio, qualificado por Lacan de “o acidente tardio da psicose” do homem dos lobos, gostaríamos de assinalar três pontos no relato feito por Freud em 1915. Esses pontos foram

 

XVI. O Caso “Dom Casmurro” – As Mordidas do Ciúme

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XVI

O CASO “DOM CASMURRO”

AS MORDIDAS DO CIÚME

Em que o romance Dom Casmurro associa o nome de seu autor,

Machado de Assis, com o inventor da psicanálise, Sigmund Freud?

Dom Casmurro foi publicado em 1899 – mesmo ano da publicação de A Interpretação dos Sonhos, que marca o início da psicanálise propriamente dita. Não podemos afirmar que Machado tenha sido influenciado por Freud, mas o ciúme em Dom Casmurro mostra o quanto Machado é freudiano avant la lettre.

Assim como a experiência analítica é uma prática de significação, neste romance o narrador pretende ressignificar retroativamente toda a sua vida a partir do presente em que ele, Bento Santiago, responde pela alcunha de Dom Casmurro, dada por seus vizinhos devido a seus hábitos reclusos e calados.

Já idoso, Bento mora só com um criado numa casa construída que é a réplica fiel de sua casa da infância. Tal esquisitice tinha por fim “atar as duas pontas da vida e restaurar na velhice a adolescência”.

 

XVII. Arte Virgem – A Função da Pintura na Psicose

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XVII

ARTE VIRGEM

A FUNÇÃO DA PINTURA NA PSICOSE

Em 1946, no Engenho de Dentro, no Centro Psiquiátrico Pedro

II, no Rio de Janeiro, uma jovem doutora, Nise da Silveira, cansada do arsenal terapêutico dos eletrochoques, comas insulínicos e psicocirurgias, decide abrir um ateliê de pintura para os internos, sustentando então a aposta de que lá onde eram jogados os rebotalhos da sociedade utilitarista havia sujeitos – sujeitos do inconsciente.

Os usuários, a maior parte esquizofrênicos, como ela mesma os nomeia, começam a produzir livremente desenhos, quadros, esculturas. Pintores, curiosos e interessados passam então a frequentar esse ateliê e, em maio de 1952, Nise da Silveira inaugura o famoso Museu do Inconsciente. Por mais que nossa doutora considere, como ela mesma diz em seu livro Imagens do Inconsciente, essa experiência como um fracasso,1 devido ao fato de ela ter permanecido até hoje totalmente marginal à instituição, é fato que esse Museu de arte bruta no Rio conta hoje com mais de 250.000 peças produzidas pelos ditos loucos.

 

XVIII. Bispo, o Entalhador de Letras – Criação e Sintoma

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XVIII

BISPO, O ENTALHADOR DE LETRAS1

CRIAÇÃO E SINTOMA

A associação da psicose com a arte, com exceção de alguns nomes como, por exemplo, Artaud, Holderlin, Rousseau e até mesmo

Joyce, é frequentemente encontrada no que diz respeito às artes plásticas sob a rubrica da Arte bruta, tal como a designou Jean Dubuffet, ou de Arte virgem, assim chamada por Mário Pedrosa. Dentre essas obras, geralmente produzidas em recônditos exilados da sociedade, sem receber, propriamente falando, a influência das correntes artísticas da época, encontram-se as produções de sujeitos psicóticos, como

é o caso de Artur Bispo do Rosário, internado por meio século na

Colônia Juliano Moreira, onde produziu uma obra imensa composta principalmente de esculturas ditas “mumificadas”, assemblages de objetos recolhidos dentre os dejetos no dia a dia do hospital e panôs escritos e desenhados com bordados a mão.

1

Trabalho escrito a par r de pesquisa realizada em conjunto com Graça Pamplona, Maria Anita Carneiro Ribeiro, Ronaldo Fabião e Sonia Alber cujos resultados foram apresentados no IX Congresso Mundial de Psiquiatria (Rio de Janeiro, junho de 1993). Nossos agradecimentos a Denise Corrêa, então Diretora do

 

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