Qualidade na Pesquisa Qualitativa

Autor(es): Uwe Flick
Visualizações: 903
Classificação: (0)

Este livro apresenta estratégias concretas para a sua gestão e tenta não reduzir esse problema a uma questão vinculada ao uso de um método ou passo do processo de pesquisa. O foco deste livro é tomar o processo de pesquisa como ponto de partida para tratar de questões de qualidade e ampliar a forma comum de conceituar o processo de pesquisa, através de estratégias para a avaliação da diversidade e estratégias de triangulação.

FORMATOS DISPONíVEIS

10 capítulos

Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

1. COMO ABORDAR A QUALIDADE DA PESQUISA

PDF Criptografado

16

n

Uwe Flick

A relevânciA dAs questões de quAlidAde nA pesquisA quAlitAtivA

A pesquisa qualitativa chegou à idade adulta. O número crescente de livros-texto, publicações acadêmicas e outras, junto com a ampliação da prática de pesquisa em várias disciplinas, demonstra isso. Talvez um outro indicador desse desenvolvimento ou uma necessidade resultante dele seja a atual relevância da questão de como avaliar a pesquisa qualitativa, os planos, os métodos e os resultados obtidos com ela. A fase de desenvolvimento na qual os pesquisadores simplesmente acreditam em seus métodos segundo o que Glaser sugere – “acreditem na teoria fundamentada, ela funciona pois: simplesmente a apliquem, usem e publiquem!” (1998, p. 254) – parece ter chegado ao final. Em vez desse otimismo (talvez um pouco ingênuo), encontramos agora muitos artigos que tratam de critérios, listas de itens relevantes, padrões, qualidade, rigor e avaliação da pesquisa qualitativa.

Em contraste com as etapas iniciais do desenvolvimento da pesquisa qualitativa, as questões relativas à qualidade não são mais levantadas simplesmente para demonstrar (de fora) que há uma falta de qualidade científica nessa pesquisa.

 

2. PADRÕES, CRITÉRIOS, LISTAS DE ITENS E DIRETRIZES

PDF Criptografado

28

n

Uwe Flick

introdução

A questão de como garantir a qualidade da pesquisa qualitativa tem sido levantada desde o início desse tipo de pesquisa e atrai atenção contínua e repetida. Porém, não foram encontradas respostas a essa pergunta, pelo menos de uma forma unânime. As contribuições para essa discussão incluem sugestões para formular critérios de qualidade (ver Seale, 1999; Steinke,

2004), ou solicitá-los, como no recente documento dos programas de pesquisa do ESRC ou nas declarações mais ou menos lacônicas de que ainda não se encontraram respostas a essas perguntas (ver Lüders, 2004a, 2006a). O fato de que, apesar das várias tentativas de resolver o problema, essa estimativa ainda seja correta, tem sua razão na natureza das coisas: a situação específica em que se encontra a pesquisa qualitativa atualmente.

o que é pesquisA quAlitAtivA e de que estAmos FAlAndo?

Antes de entrar na discussão de nosso tema, são necessárias algumas observações em relação a qual deveria ser o ponto de referência. A pesquisa qualitativa se desenvolveu em diferentes contextos. Podemos distinguir, por um lado, escolas teóricas e metodológicas, cada uma caracterizada por certos pressupostos, interesses de pesquisa básicos, além de normalmente, mas nem sempre resultante disso, métodos e preferências metodológicas.

 

3. ESTRATÉGIAS PARA LIDAR COM A DIVERSIDADE

PDF Criptografado

46

n

Uwe Flick

introdução

Como já deve ter ficado claro, não é tão fácil responder à questão da qualidade na pesquisa qualitativa da forma como estamos acostumados na pesquisa quantitativa. Nem foi fácil formular e definir critérios para a pesquisa qualitativa que sejam amplamente aceitos e próximos de se tornarem padrões para as diferentes abordagens da pesquisa qualitativa. Nem foi possível definir padrões de pesquisa qualitativa que sejam convincentes e possam ser aplicados a diferentes formas de pesquisa (qualitativa). O caminho mais comum na pesquisa qualitativa para abordar e administrar questões de qualidade é padronizar a situação de pesquisa e depender de parâmetros abstratos em vez de concretos – como usar uma amostra aleatória em vez da amostragem intencional ou por julgamento, fazer uma aplicação de métodos independentemente da pessoa que os aplica, etc. Essas estratégias não podem simplesmente ser aplicadas à pesquisa qualitativa sem abrir mão de seus pontos fortes: a padronização é contraproducente para situações de pesquisa que estejam vivendo de um uso relativamente flexível dos métodos. Em geral, os pesquisadores qualitativos estão mais interessados em casos específicos (pessoas, situações, etc.) e não em uma seleção aleatória de material. O pesquisador, como pessoa, torna-se uma parte importante de qualquer situação na pesquisa qualitativa. Embora os temas recorrentes da promoção de qualidade na pesquisa quantitativa sejam a padronização e, em alguns aspectos, a abstração, na pesquisa qualitativa, eles são mais a diversidade, a flexibilidade e a concretude, para ampliar o potencial concreto dos ambientes de pesquisa em vez de reduzir os vieses e as influências. No restante deste livro, o foco estará em diferentes estratégias para administrar e produzir diversidade nos dados e análises.

 

4. CONCEITOS DE TRIANGULAÇÃO

PDF Criptografado

58

n

Uwe Flick

A triAngulAção nA históriA dA pesquisA quAlitAtivA

A triangulação é um conceito a que muito se recorre na pesquisa qualitativa quando se discutem questões de qualidade. O principal vínculo entre triangulação e qualidade da pesquisa qualitativa é que a primeira significa ampliar as atividades do pesquisador no processo para além do que se faz

“normalmente”, por exemplo, usando mais de um método. As diferentes formas de ampliar as atividades de pesquisa visando à promoção da qualidade serão desdobradas neste e nos próximos capítulos de forma detalhada.

Para isso, trataremos da base teórica e conceitual da triangulação neste capítulo antes de discutir o uso das diferentes formas de triangulação nos seguintes.

Diferentes metas e, por vezes, mitos e reservas estão ligados à triangulação.

Às vezes, discute-se quando a pesquisa qualitativa se combina com abordagens quantitativas para dar mais fundamentação a seus resultados. De forma geral, as discussões sobre triangulação tiveram início na década de 1970, quando

 

5. TRIANGULAÇÃO METODOLÓGICA NA PESQUISA QUALITATIVA

PDF Criptografado

78

n

Uwe Flick

Quando se discute a triangulação no contexto das questões de qualidade na pesquisa qualitativa, a maioria dos autores se refere à triangulação metodológica. A ideia básica nesse caso é que usar mais de um método abrirá várias perspectivas para promover a qualidade na pesquisa qualitativa comparada ao estudo de um único método. Mais uma vez, encontramos diferentes sugestões de como combinar distintos métodos e quais tipos devem ser combinados. Em seu conceito, Denzin já fazia uma diferenciação entre triangulação “dentro de métodos” e “entre métodos”, e esta significava a triangulação de vários métodos autônomos. A seguir, a primeira estratégia será descrita um pouco mais usando vários exemplos, antes de se discutir a triangulação de vários métodos (qualitativos). Denzin (1970) menciona o uso de diferentes subescalas em um questionário como exemplo de triangulação dentro de métodos.

triAngulAção dentro de métodos: o cAso dA entrevistA episódicA

Aplicar essa ideia à pesquisa qualitativa significa combinar diferentes abordagens metodológicas em um método qualitativo. Essas abordagens incluem diferentes quadros teóricos, mas não vão além do alcance de um método (ver Figura 5.1).

 

6. TRIANGULAÇÃO NA ETNOGRAFIA

PDF Criptografado

102

n

Uwe Flick

Enquanto o capítulo anterior tratou da triangulação dentro ou entre métodos (como entrevistar), passamos agora a um campo em que a triangulação implícita de métodos tem sido considerada como uma característica da boa pesquisa por algum tempo, nem sempre deixando a ligação com a promoção da qualidade na pesquisa qualitativa suficientemente clara. A seguir, trataremos do uso de triangulação na etnografia do ângulo da promoção de qualidade.

dA observAção pArticipAnte à etnogrAFiA

A etnografia como estratégia de pesquisa (ver Angrosino, 2007; Atkinson et al., 2001) tem cada vez mais substituído a observação participante (ver

Lüders, 2004b, p. 222) – pelo menos no que diz respeito à discussão metodológica. Para a observação participante, Denzin (1989, p. 157-158) já mencionou a triangulação de diferentes métodos como uma característica: “a observação participante será definida como uma estratégia de campo que combina simultaneamente análise de documentos, entrevistas de respondentes e informantes, participação e observação diretas e introspecção”. Portanto, encontramos uma série de obras na literatura sobre pesquisa qualitativa nos anos de 1960 e 1970 que são dedicadas à combinação, diferenças e pontos fortes e fracos relativos à observação participante e entrevistas como parte dela; ver, por exemplo, Becker e Geer (1960), mas também as sugestões de

 

7. TRIANGULAÇÃO DE PESQUISA QUALITATIVA E QUANTITATIVA

PDF Criptografado

120

n

Uwe Flick

A ideia de que a pesquisa quantitativa pode ser usada para avançar a qualidade da pesquisa qualitativa está ainda, e mais uma vez, no ar. Ela ganhou destaque de novo, especialmente no contexto de discussões sobre metodologias mistas (Tashakkori e Tedlie, 2003a) e sobre todos os tipos de práticas baseadas em evidências (ver também Morse et al., 2001, ou Denzin e Lincoln, 2005). Ambas as discussões têm um potencial importante para a pesquisa qualitativa, já que tendem a questionar a independência e o valor dessa pesquisa em si. Apesar disso, um uso refletido de abordagens quantitativas pode contribuir para a qualidade da pesquisa, principalmente ou em parte, com base na pesquisa qualitativa. Para aceitar essa sugestão, parece necessário apontar como essa combinação pode ser realizada, quais armadilhas e estratégias devem ser consideradas nela. As discussões metodológicas foram marcadas, durante muito tempo, por argumentações de distinção clara, que destacam as diferenças nos pontos de partida práticos em termos teóricos, epistemológicos e da pesquisa, na qualitativa e na quantitativa.

 

8. COMO USAR A TRIANGULAÇÃO PARA A AVALIAÇÃO DA QUALIDADE: QUESTÕES PRÁTICAS

PDF Criptografado

140

n

Uwe Flick

Nos capítulos anteriores, usei diversos exemplos de estudos nos quais se aplicou uma ou outra variante da triangulação para contribuir à qualidade da pesquisa qualitativa em termos de combinar diferentes abordagens e resultados. A seguir, trataremos de novo de alguns dos problemas práticos conhecidos dessas aplicações. Dessa vez, o foco estará em como planejar e usar a triangulação para a gestão da qualidade na pesquisa qualitativa.

problemAs especiAis de Acesso

Wolff (2004) descreve os problemas que surgem quando se entra em um campo de investigação e discute o que se pode aprender deles e das possíveis soluções. O autor deixa claro que a pesquisa social em geral e a pesquisa qualitativa em particular trazem imposições ao campo em estudo e a seus membros.

Entre os exemplos dessas imposições estão:

providenciar tempo disponível para conversações; abrir mão parcialmente de controle do espaço físico; suportar o constrangimento; enfrentar pressões comunicativas (como as que surgem em entrevistas narrativas);

 

9. QUALIDADE, CRIATIVIDADE E ÉTICA: DIFERENTES FORMAS DE QUESTIONAR

PDF Criptografado

156

n

Uwe Flick

A ética está se tornando relevante no contexto da pesquisa. A maior parte da ética tem que ser aprovada por comissões institucionais. Na medida em que a pesquisa qualitativa é quase sempre feita com seres humanos de uma forma ou de outra, ela tem que ser submetida a análises institucionais com bastante regularidade. A aprovação por parte de comitês de ética ou comissões institucionais está vinculada a avaliar a qualidade da pesquisa

(planejada) de uma forma específica, ou a avaliar aspectos específicos da qualidade da pesquisa. A maioria das organizações profissionais de pesquisadores, como a British Sociological Association, formulou e publicou seus códigos de ética (ver Flick, 2006a, cap. 4, para uma visão geral). Esses códigos de ética são mais uma forma de institucionalizar uma verificação da qualidade da pesquisa (planejada) em suas dimensões éticas. Essas breves observações já mostram que há uma relação específica entre a ética de pesquisa, que é o propósito concreto dessa avaliação ou regulamentações institucionalizadas, e a qualidade da pesquisa em suas diferentes facetas.

 

10. GESTÃO E QUALIDADE EM PESQUISA QUALITATIVA: FOCO EM PROCESSO E TRANSPARÊNCIA

PDF Criptografado

166

n

Uwe Flick

Nos capítulos anteriores deste livro, tratei da questão da qualidade de diferentes ângulos: definindo e aplicando critérios, usando estratégias de gestão ou aumento da diversidade no processo de pesquisa, fazendo referência a questões éticas. Um aspecto em comum entre essas abordagens é que elas partem de um determinado ponto no processo de pesquisa, como usar métodos para analisar dados ou avaliar a qualidade das relações com o campo em estudo, para responder às questões de qualidade. No que segue, assumirei uma perspectiva que está mais orientada ao processo de pesquisa como um todo. Ela começa com o “porquê” de usar métodos específicos e continua com o “como” chegar a um acordo sobre questões de qualidade antes de terminar em “até onde” se pode tornar esse processo transparente para os consumidores de nossas pesquisas.

indicAção de métodos e plAnejAmentos

Por que usamos um método específico de pesquisa qualitativa para estudar uma determinada questão? É sempre a adequação de métodos às questões que nos faz decidir por um método em detrimento de outros? Essa relação de adequação é tão claramente definida que torna as decisões fáceis, claras e óbvias? Ou muitos de nossos colegas simplesmente fazem o que sempre fizeram: eles não continuam simplesmente usando métodos que já usavam antes, quando começam um projeto? Talvez uma olhada no histórico de vida de pesquisadores qualitativos e os métodos que eles usaram no decorrer dos anos mostre pouca variação na aplicação dos métodos em muitos casos. Essas questões nos trazem a uma forma de como tornar mais explícita a decisão em favor de um determinado método e/ou planejamento de pesquisa. Nas discussões de metodologia, principalmente em livros-texto, os métodos de pesquisa são tratados, em sua maioria, como questões colaterais, para descrever suas características, vantagens e problemas. Uma perspectiva comparativa, que daria ao leitor uma fundamentação para decidir quando usar esse método ou planejamento e quando não usar raramente é assumida.

 

Detalhes do Produto

Livro Impresso
Book
Capítulos

Formato
PDF
Criptografado
Sim
SKU
B000000042472
ISBN
9788536321363
Tamanho do arquivo
1,5 MB
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
Formato
PDF
Criptografado
Sim
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
SKU
Em metadados
ISBN
Em metadados
Tamanho do arquivo
Em metadados