O Novo Inconsciente

Autor(es): Marco Callegaro
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Este texto paradigmático concilia o modelo do inconsciente freudiano com as neurociências e as TCC, originando uma nova e necessária compreensão do processamento mental. Escrito com rigor científico e clareza didática, trata-se de leitura obrigatória para estudantes e profissionais de saúde mental.

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1. A mente como um iceberg

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A mente como um iceberg

A história do inconsciente

A noção de que o comportamento humano e o pensamento consciente sofrem influência de qualidades internas da mente tem longa história, remontando na tradição ocidental a Hipócrates e Galeno. Hipócrates propôs a hipótese, desenvolvida mais extensamente por Galeno, de que quatro temperamentos básicos (melancólico, sanguíneo, fleumático e colérico), baseados em humores corporais, moldariam o comportamento em conjunção com o pensamento consciente. A mesma divisão entre influências inconscientes biologicamente baseadas e o pensamento consciente é descrita por Kant 2 mil anos mais tarde, em sua distinção entre o temperamento e o caráter moral, instância que permitiria o controle consciente do comportamento.

A visão sobre o inconsciente durante esses dois milênios sofreu alterações em detalhes de acordo com as mudanças nas metáforas sobre a mente, mas esteve sempre presente no pensamento humano. Como aponta Robinson

(1995) em sua revisão sobre a história das ideias em psicologia, independentemente do sistema teórico utilizado, observadores do comportamento humano sempre acharam necessário distinguir as influências internas que são ocultas e precisam ser inferidas (sejam chamadas de destino, temperamento ou alma) e aquelas que são transparentes, experimentadas diretamente pelo sujeito e abertas à introspecção. Embora as crenA percepção essencial de

 

2. A baixo da superfície consciente

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Abaixo da superfície consciente

Surge o Inconsciente Cognitivo

Até o final da década de 1980, nenhuma teoria científica significativa tinha sido formulada para explicar o funcionamento mental inconsciente, e a hipótese freudiana era o único referencial abrangente disponível. A revolução cognitiva na psicologia estava atingindo seu ápice, e a metáfora favorita para a mente era o computador. A menção ao inconsciente pela associação desse conceito com a psicanálise é evitada na literatura das ciências cognitivas, preferindo­‑se o uso do termo “processos automáticos” ou “memória implícita”.

Neste contexto, surge pela primeira vez a proposta de uma visão ampla sobre a mente inconsciente baseada nas ciências cognitivas, um modelo que foi chamado de “inconsciente cognitivo”, o antecedente científico direto do novo inconsciente. Tal expressão foi cunhada pelo psicólogo John Kihlstrom

(Kihlstrom, 1987) em um artigo publicado na revista Science. Nesse ensaio influente, Kihlstrom propõe que mesmo o processamento complexo não requer consciência da informação que está sendo transformada e que o funcionamento psicológico superior pode ocorrer sem acesso consciente. A teoria computacional, a psicologia cognitiva e as ciências cognitivas forneceram o substrato teórico para entender o funcionamento consciente e inconsciente, fundando­‑se no conceito de mente como mecanismo de processamento de informação. Os conteúdos conscientes provêm do processamento de informações, mas não estamos conscientes do processamento em si, somente do resultado final.

 

3. Níveis de regulação da vida

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Níveis de regulação da vida

Exército neural

Para ilustrar a visão atual do funcionamento do cérebro nas atividades conscientes e inconscientes, podemos usar a metáfora de um exército em combate. A consciência pode ser vista como o General, que toma decisões ­baseadas no resumo de informações que chegam a seu conhecimento. Os oficiais de alto escalão e os assessores imediatos recolhem e sintetizam a parte relevante das informações que coletam dos níveis hierárquicos inferiores. Estes, por sua vez, exercem o mesmo processo de depuração da informação recebida até chegar ao nível mais elementar. Nesse caso, as unidades básicas são os soldados; no cérebro, são os neurônios. Milhares de soldados formam uma rede enorme que se espalha cobrindo um vasto território, em uma malha que reconhece o ambiente e suas modificações e que executa as ordens recebidas.

Seria impossível o General estar sempre ciente de cada manobra, de cada adversidade ou situação encontrada por todo esse exército – o volume de dados esgotaria sua capacidade mental. Da mesma forma, nossa consciência não conseguiria gerenciar os dados sensoriais, realizar as operações associativas e efetuar os comandos motores necessários para sustentar a vida e a interação complexa do organismo com o meio. Bilhões de mensagens circulam a cada instante no sistema nervoso periférico e central, e não podemos tomar conhecimento de mais do que uma pequena fração disso.

 

4. Síndromes neuropsicológicas e o novo inconsciente

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Síndromes neuropsicológicas e o novo inconsciente

Evidências neuropsicológicas

Existem numerosas síndromes e condições dentro da neuropsicologia que ilustram as influências dos processos automáticos na mente e no comportamento. O fenômeno da paralisia histérica, por exemplo, segundo a psicanálise, está relacionado a uma incapacidade de se mover sem uma causa

“física” evidente (o uso desse termo denota uma posição implícita dualista, pressupondo dois mundos, um físico e outro mental). A paralisia histérica foi objeto de investigação de Freud e fonte de algumas de suas hipóteses sobre o inconsciente dinâmico. Aparentemente, ocorre paralisia mesmo que as partes afetadas e as respectivas conexões com o cérebro estejam intactas.

No entanto, contrariando o que se costuma pensar, o fenômeno não fornece evidência para o modelo dinâmico do inconsciente, mas se revela uma interessante ilustração do processamento do novo inconsciente a partir do estudo do neuropsicólogo Peter Halligan com tomografia por emissão de pósitrons

 

5. Modularidade cerebral

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Modularidade cerebral

Maquinaria neural especializada

É importante notar que, no modelo do novo inconsciente, nossa mente consciente lida com representações parciais das atividades inconscientes, assim como o General lida com um resumo editado da situação de combate. Essa síntese de informações sobre o que está acontecendo no meio interno e externo é representada por meio de imagens ou padrões neurais (Damásio, 1999) que podem tornar­‑se conscientes – mas esse processo implica desconhecimento, por parte do sujeito, da operação de milhares

Como operários silencio‑ de mecanismos neurais especializados. Como sos, os sistemas neurais operários silenciosos, os sistemas neurais envolenvolvidos no proces‑ vidos no processamento automático executam a samento automático maior parte do trabalho pesado com perfeição, executam a maior parte de forma que o resultado final flui com presteza do trabalho pesado com e naturalidade. Tamanha fluidez afigura­‑se ao perfeição, de forma que o resultado final flui com sujeito como ausência de esforço, como se fosse presteza e naturalidade. fácil e simples completar de modo eficaz funções como a visão, por exemplo.

 

6. Mentira

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Mentira

As vantagens de enganar os outros

Esconder nossas verdadeiras intenções e mentir é um comporta­mento muito mais corriqueiro do que imaginamos. Da mesma forma, existem mecanismos de autoengano que filtram, distorcem e escondem informações, privando a mente consciente de acesso aos fatos. A psicanálise descreveu alguns desses mecanismos, mas explicou seu funcionamento com a teoria do inconsciente dinâmico. Investigaremos agora os mecanismos da mentira e do autoengano com uma visão mais ampla, baseada na teoria de evolução e nas neurociências, usando o modelo do novo inconsciente como sistema teórico.

O filósofo e psicólogo evolucionista David L. Smith publicou, em 2004, o livro Why we lie: The evolutionary roots of deception and the unconscious mind, no qual argumenta que tanto a mentira como o autoengano (a mentira para si mesmo) estão profundamente arraigados na mente humana. Como observa

Smith (2006, p. 6), de acordo com o folclore do engano, pessoas comuns, decentes, mentem de forma apenas ocasional e irrelevante, a não ser em circunstâncias extremas, moralmente justificáveis. Qualquer coisa além de uma ocasional mentira ingênua é considerada um sintoma de loucura ou de maldade: a inclinação dos doentes mentais, criminosos, advogados e políticos. Existe o mito de que os bons mentirosos sempre sabem o que estão fazendo: eles são calculistas e têm consciência de seus enganos. As pessoas que mentem sem saber que estão mentindo são consideradas, na melhor das hipóteses, confusas e, na pior, insanas. A psicologia evolutiva opõe­‑se a essa reconfortante mitologia. Mentir não é um ato excepcional – é normal, um ato mais espontâneo e inconsciente do que cínico e friamente analítico. Nossas mentes e nossos corpos segregam engano.

 

7. A utoengano

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Autoengano

Autoengano: as vantagens de enganar a si mesmo

Há um modo de descobrir se um homem é honesto: pergunte a ele; se ele responder sim, você sabe que é desonesto.

Mark Twain

O modelo do novo inconsciente encontra um suporte importante no estudo da evolução e da neurobiologia do conjunto de dispositivos mentais que tem como meta principal editar a narrativa consciente autobiográfica, manipulando a versão que o sujeito tem de sua trajetória de vida e dos acontecimentos. Esse conjunto de dispositivos é denominado de autoengano e ainda é pouco conhecido em seus detalhes. O autoengano foi definido por

Smith (2006, p. 12) como “qualquer processo ou comportamento mental cuja função é ocultar informações da mente consciente de uma pessoa”. Proponho uma ampliação desse conceito, visto que tal definição ainda é restrita diante da abrangência dos fenômenos envolvidos.

Uma definição mais compatível com o modelo do novo inconsciente abarcaria dentro dos mecanismos de autoengano qualquer processo ou comportamento mental cuja função seja distorcer informações e interpretações usadas na construção de uma narrativa autobiográfica consciente não corroborada pelas evidências objetivas da realidade. Nessa definição que proponho, o conceito passa a contemplar não somente a ocultação, como também o acréscimo de informação e qualquer tipo de distorção em sua interpretação.

 

8. E volução da moralidade

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Evolução da moralidade

O gene egoísta

Darwin não desenvolveu muito a noção de seleção de grupo, con­cen­ trando­‑se mais na seleção do indivíduo. Inicialmente, a ideia de seleção de grupo foi usada de forma ingênua, gerando explicações pouco verossímeis sobre o comportamento. Na primeira metade do século passado, o conhecimento sobre genética foi unificado com a teoria da seleção natural, dando origem ao que os biólogos chamaram de teoria sintética da evolução. A seleção de grupo como mecanismo da evolução foi pouco a pouco perdendo sua credibilidade, sobretudo a partir dos anos de 1960, com o trabalho de cientistas como Edward O. Wilson, Richard Dawkins, Willian Hamilton, George

Williams e Robert Trivers. Cada um desses teóricos contribuiu para elucidar aspectos importantes da evolução do comportamento cooperativo, enfatizando a seleção no plano da genética e do indivíduo.

Edward O. Wilson, em seu livro Sociobiology: The New Synthesis (1975) apresenta a proposta de fundir a ecologia e a etologia, fundando a disciplina­ da sociobiologia, uma tentativa de explicar o comportamento social de animais e humanos com base na biologia evolutiva, mais especificamente no neo­darwinismo. Um dos principais focos da sociobiologia foi explicar a evolução do comportamento altruísta. Wilson calculou que a seleção natural havia formado a sociedade humana, e, como consequência, os comportamentos sociais dos homens sofrem forte influência genética.

 

9. Ilusões morais

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Ilusões morais

As ilusões morais e o Novo Inconsciente

O psicólogo Jonathan Haidt (2002) sistematizou as emoções que integram o senso moral humano, utilizando a teoria do altruísmo recíproco como suporte. Emoções como raiva, desprezo e repulsa evoluíram para impulsionar o sujeito a punir os trapaceiros. A gratidão e a reverência moral reforçam o comportamento altruísta. A solidariedade, a compaixão e a simpatia impelem ao altruísmo, enquanto a culpa, a vergonha ou o embaraço pressionam para evitar trapacear ou corrigir os resultados da trapaça. Podemos agrupar essas emoções em duas categorias básicas: as reforçadoras do altruísmo em si (solidariedade, compaixão, simpatia) e nos outros (gratidão) e as punidoras da trapaça em si

(culpa, vergonha) e nos outros (raiva, desprezo, repulsa). Esse processamento emocional inconsciente ajudou a conduzir o comportamento de nossos ancestrais em uma direção que foi adaptativa no contexto social primitivo.

Podemos tomar consciência dos resultados das emoções que são

 

10. A mente dividida

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A mente dividida

Especialização cerebral: o cérebro dividido (split brain)

O psicólogo Roger Sperry, vencedor do Prêmio Nobel, foi um dos mais importantes impulsionadores da pesquisa na especialização dos hemisférios cerebrais, demonstrando que cada hemisfério é, na verdade, um cérebro em separado. Sperry (1964) cortou o corpo caloso do cérebro de gatos e, posteriormente, de primatas, demonstrando que a informação apresentada visualmente a um hemisfério não era reconhecida pelo outro.

Na década de 1970, descobertas contundentes obtidas com humanos levaram a revolucionários insights sobre a organização do cérebro e da consciência. A equipe de Sperry (que incluía nomes como J. Bogen, P. J. Vogel e

J. Levy) estudou pacientes que foram submetidos à cirurgia, seccionando a super­‑rodovia inter­‑hemisférica de neurônios, o corpo caloso. Os pacientes procuravam alívio para a severa e incapacitante epilepsia, uma vez que a separação dessa ponte neurológica impedia, antes dos avanços de controle farmacológico, que os ataques epiléticos se propagassem de um hemisfério para outro, reduzindo bastante sua gravidade.

 

11. A construção do significado consciente

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A construção do significado consciente

O “Intérprete” e as distorções da memória

Como vimos anteriormente, o mecanismo descrito como “intérprete” por

Gazzaniga pode estar na origem dos fenômenos de distorções da memória. Para o neurocientista, no esforço para tentar criar ordem e impor coerência em nosso mundo psicológico, o intérprete do hemisfério esquerdo pode criar distorções utilizando o conhecimento geral e as experiências passadas como matéria­‑prima.

Examinaremos agora o papel do intérprete do hemisfério esquerdo na produção de distorções de memória e como esse mecanismo interpretativo pode estar na origem de uma percepção consciente distorcida, que edifica um modelo do self e do mundo muitas vezes distante da realidade objetiva. Os novos insights derivados da teoria do novo inconsciente permitem o avanço do conhecimento sobre vários fenômenos descritos de forma pioneira pelos psicanalistas, como negação, racionalização e outras formas de representação consciente distorcida. Tais fenômenos revelam um traço fundamental do modelo do novo inconsciente: a disparidade entre o sistema de crenças conscientes do sujeito e seu comportamento.

 

12. A mente iludida

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A mente iludida

Implantando falsas memórias

As memórias que estão dentro de nós não são gravadas em pedra; não só elas tendem a se apagar com a passagem dos anos, mas também muitas vezes mudam ou mesmo aumentam ao incorporar características estranhas.

Primo Levi, escritor Italiano (1919­‑1987).

Em 1992, um conselheiro de igreja no Estado do Missouri, nos Estados

Unidos, ajudou sua paciente Beth Rutherford, na época com 22 anos, a lembrar­‑se, durante a terapia, de que seu pai, um clérigo, a violentara regularmente entre a idade de 7 e 14 anos, e que sua mãe teria colaborado ocasionalmente, segurando­‑a durante o estupro bárbaro (Loftus, 1997, p. 51). Seu pai a engravidou duas vezes, forçando­‑a a abortar sozinha, com uma agulha de tricô – durante a psicoterapia, essas memórias reprimidas foram estimuladas a vir à tona, e os fatos inaceitáveis e doloridos foram conscientizados, com o estímulo do terapeuta. O pai de Beth abdicou do posto que ocupava quando as acusações foram tornadas públicas e teve a reputação e a vida destruídas, passando a fechar­‑se em casa para não ser agredido ou linchado.

 

13. A descoberta da memória inconsciente

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A descoberta da memória inconsciente

Uma breve história da memória

A memória humana não é um processo unitário, como se pensou até a metade do século XX. Devemos aos estudos de Karl Lashley, um dos mais influentes pesquisadores da psicologia fisiológica, a noção inicialmente difundida de que a memória estaria distribuída por todo o córtex cerebral. Lashley, apesar de brilhante, extraiu conclusões errôneas (Lashley, 1950) de uma cuidadosa série de experimentos com ratos, na qual usou várias tarefas de aprendizagem em labirinto para avaliar o efeito de lesões em áreas cerebrais específicas. Se o animal apresentar um desempenho fraco em uma tarefa já aprendida como resultado da lesão, raciocinou Lashley, é sinal de que a área danificada está envolvida na memória. No entanto, os ratos sempre achavam o caminho correto no labirinto, demonstrando estar com a memória perfeita mesmo após a retirada cirúrgica de várias porções corticais. Parecia clara a evidência de que a memória estaria distribuída em todo o córtex, não sendo função de nenhum sistema em particular.

 

14. Behaviorismo e processamento inconsciente

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Behaviorismo e processamento inconsciente

Pavlov e o condicionamento clássico

O grande fisiologista Ivan Petrovich Pavlov nasceu na Rússia central, em 1849, e trabalhou ativamente até sua morte, aos 87 anos. Durante sua carreira científica, esteve interessado na regulação nervosa das funções cardiovasculares e digestivas, desenvolvendo técnicas inovadoras para estudar de modo integrado os processos fisiológicos em condições biológicas o mais proximamente possível das naturais. Seus estudos sobre o funcionamento do sistema digestivo foram amplamente reconhecidos e o consagraram com o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia.

Em 1903, no Congresso Internacional de Medicina, em Madri, com a conferência “A psicologia e a psicopatologia experimental nos animais”, o cientista fez sua primeira exposição do conceito de reflexo condicionado. Com a descoberta do reflexo condicionado, Pavlov ultrapassou a fisiologia, penetrando no terreno dos fenômenos psíquicos e possibilitando a ascensão do movimento behaviorista e de uma análise experimental do comportamento (Piñero, 2004).

 

15. Behaviorismo, revolução cognitiva e neurociências

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Behaviorismo, revolução cognitiva e neurociências

Revolução cognitiva e biológica

Uma vez que a mente era vista como inacessível, os behavioristas procuraram oferecer, em sua estrutura teórica, construtos “não mentalistas” para explicar as funções cognitivas, como o pensamento, entendido como com­ portamento encoberto. Para Skinner (1953, 1969), o comportamento é essencialmente controlado por estímulos, modelado e mantido por consequências punitivas ou reforçadoras. Uma forma especial de consequências são regras, estímulos verbais discriminativos que indicam instruções, relações entre comportamentos e suas consequências, como “plantou, colheu” ou “se você fizer

X, acontecerá Y”. Para explicar aspectos do que chamamos de pensamento, raciocínio, formulação de ideias ou criatividade, Skinner (1969) criou o conceito de comportamento precorrente, aquele que produz os estímulos que o controlam. Esse comportamento funcionaria como uma autoinstrução, privada e vocal, do tipo “se eu fizer X, acontecerá Y”. O diálogo interno que chamamos de pensamento pode ser considerado, para Skinner, como comportamento verbal no qual ocupamos os papéis de falante e ouvinte ao mesmo tempo, instruindo­‑nos sobre regras (autoinstruções).

 

16. A investigação científica do inconsciente

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A investigação científica do inconsciente

A psicologia cognitiva estuda o inconsciente

A revolução cognitiva e biológica aumentou consideravelmente a amplitude dos objetivos e métodos disponíveis para abrir a caixa­‑preta e começar a construir modelos e testar hipóteses sobre o funcionamento mental, inclusive sobre o processamento inconsciente de informações, abrindo portas para o desenvolvimento do novo inconsciente. A teoria de Freud sobre o inconsciente dinâmico influenciou alguns pesquisadores de orientação cognitiva, que procuravam inspiração nas ideias freudianas para avançar no estudo do inconsciente e produzir uma nova teoria, mais ampla e cientificamente satisfatória, que assimilasse as contribuições da psicanálise àquelas advindas da revolução cognitiva e biológica – um novo modelo neurocognitivo do inconsciente, ainda em seus primórdios.

Os pesquisadores desta orientação procuravam assimilar sugestões da psicanálise sobre o processamento inconsciente. Uma das hipóteses mais influentes de Freud (1914/1956) prevê que o material inconsciente que não pode ser expresso diretamente é, muitas vezes, expresso por meios indiretos no comportamento da pessoa. Podemos predizer, a partir disso, que a memória implícita de estímulos antes percebidos pode influenciar indiretamente vários julgamentos, mesmo que os estímulos não sejam reconhecidos de forma consciente pelos sujeitos. Os psicólogos cognitivistas têm realizado, a partir da revolução cognitiva, experimentos fascinantes sobre memórias inconscien­ tes, examinando seus efeitos na percepção, na cognição, na emoção, na motivação e no comportamento. Os resultados obtidos sustentam empiricamente essa predição derivada da hipótese de Freud, que passa a ser incorporada à nova teoria sobre o inconsciente.

 

17. R aízes das estruturas inconscientes

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17

Raízes das estruturas inconscientes

Os pais são importantes?

As conexões causais entre nossa infância e a personalidade que desenvolvemos no futuro não são tão claras como pressupõe a teoria psicanalítica.

A noção de que nosso comportamento atual deriva da forma como fomos criados por nossos pais, tão intuitiva que é profundamente arraigada tanto no pensamento popular como no meio acadêmico da psicologia, enfrenta sérios questionamentos quando submetida ao escrutínio da metodologia da genética comportamental (Plomin e McClearn, 1993; Bouchard e McGue, 1990;

Seligman, 1995; Harris, 1998; Dunn e Plomin, 1990; Plomin, 1990; Plomin e Bergeman, 1991; Heath, Eaves e Martin, 1988) e não tem sustentação em evidências controladas.

A chamada “hipótese da criação” (nurture assuption) é a visão mais tradicional sobre o desenvolvimento psicológico da personalidade. Essa popularidade repousa no caráter intuitivo da noção que basicamente credita aos pais e a seu estilo de criação a responsabilidade pelas características de personalidade apresentadas pelo indivíduo na idade adulta. A psicóloga Judith

 

18. R epressão

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Repressão

Os repressores

Existirão pessoas que têm maior probabilidade de usar o mecanismo da repressão em suas vidas? Alguns estudos indicam que de fato existem diferenças individuais importantes no uso da repressão, delimitando um subgrupo de indivíduos que se caracteriza por uma grande distância entre sua percepção subjetiva (o que declaram ter consciência) e aquilo que é obje­tivamente denunciado por seus indicadores biológicos de reações emocionais. Uma pessoa incluída nesse subgrupo pode, por exemplo, negar ativamente estar envergonhada ou constrangida em uma situação, mas ao mesmo tempo apresentar o rosto claramente ruborizado. Tais sujeitos foram chamados de “repressores” pelos estudiosos, pois manifestam e relatam baixos níveis de ­ansiedade e tensão, mesmo quando as medições fisiológicas objetivas indicam intensas reações emocionais a pessoas ou a situações. Uma

Os repressores têm uma série de pesquisas realizadas apontaram que os forte tendência a esque‑ repressores têm uma forte tendência a esquecer cer os acontecimentos os acontecimentos dolorosos ou humilhantes de dolorosos ou humilhantes suas vidas (Schacter, 2003). de suas vidas.

 

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