Filosofia Contemporanea Em Acao

Autor(es): Havi Carel
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1. A Filosofia como Política: Algumas conjeturas sobre o futuro da filosofia política

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1

A FILOSOFIA

COMO POLÍTICA

Algumas conjeturas sobre o futuro da filosofia política

1

Matt Matravers

Parece haver algo no ar atualmente. Talvez seja uma consciência do novo milênio, que agora chega ao tempo da filosofia (isto é, alguns anos atrasada). O que quer que seja, parece haver em filosofia um interesse súbito por questões como “o que é filosofia?”, “que utilidade a filosofia tem?”, “para onde ela vai?”, e assim por diante. No interior da filosofia política, o ânimo é o mesmo, e a morte de John Rawls em novembro de

2002 deu um impulso adicional ao sentimento de que a filosofia política precisa parar para refletir sobre si mesma e considerar seu propósito e sua direção futura.

Isso dito, se pensarmos na filosofia política como endereçando-se a questões políticas, então as coisas adquirem um matiz diferente. Apesar dos muitos obituários respeitosos dedicados a Rawls na imprensa dos

EUA e do Reino Unido, sua morte não ensejou comentário algum da parte do primeiro-ministro do Reino Unido (como aconteceu com a morte de

 

2. A Filosofia como Logo: O pensamento rotulador e a rotulação do pensamento

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2

A FILOSOFIA

COMO LOGO*

O pensamento rotulador e a rotulação do pensamento

Julie Kuhlken

Provavelmente existem poucas coisas que conseguem deflacionar a nossa busca séria da filosofia de modo tão efetivo quanto a descoberta de que o armazém da esquina já tem uma filosofia. Tenho em mente aqui a visão de Marks and Spencer** de “ser o standard com relação ao qual todos os outros são medidos”. 1 Agora com certeza Protágoras pode descançar em paz no seu túmulo. O fabricante das galinhas Korma, que podem ser assadas em forno de microondas, não está prestes a ofuscar o sucesso da noção grega antiga segundo a qual “o homem é a medida de todas as coisas”. No entanto, podemos escutar uma alusão a essa antiga sabedoria na visão corporativa da Marks and Spencer. Podemos escutar a aspiração a ser mais do que apenas promoções de cafeteria e calcinhas de boa qualidade. Marks and Spencer esforça-se por ser uma luz orientadora – ou mesmo a luz orientadora – de nossa busca de uma vida boa.

 

3. A Filosofia como Biologia: Explicações evolucionista sem filosofia

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A FILOSOFIA

COMO BIOLOGIA

Explicações evolucionistas em filosofia

Bence Nanay

Introdução

A assim chamada abordagem evolucionista está se tornando cada vez mais popular em vários ramos da filosofia. Explicações evolucionistas são com freqüência usadas não apenas na filosofia da mente (conteúdo mental, consciência), na ética (altruísmo, responsabilidade) e na epistemologia

(epistemologia evolucionista), mas também em estética e filosofia política

(teoria dos memes). A proposta geral é que, já que os seres humanos evoluíram da mesma maneira que outros animais, a mente humana, a linguagem, o conhecimento, a sociedade, a arte e a moralidade deveriam ser todas examinadas como fenômenos biológicos. Uma vez que a evolução desempenha um papel crucial na explicação dos fenômenos biológicos, há boas razões para supor que isso também seja verdadeiro para as faculdades humanas supramencionadas.

Se queremos avaliar os méritos dessa abordagem já bem difundida, há uma forte necessidade de uma análise filosófica da natureza das explicações evolucionistas usadas nesses argumentos filosóficos. Na primeira parte deste capítulo, começo analisando a estrutura geral das explicações evolucionistas: nelas não há restrições quanto ao explanandum (o que está sendo explicado), mas o explanans (por meio do qual o explanandum

 

4. A Filosofia como Ciência Intensiva

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A FILOSOFIA COMO

CIÊNCIA INTENSIVA

Manuel DeLanda

A ontologia de uma filosofia é o conjunto de entidades com as quais ela se compromete a afirmar que realmente existem, ou os tipos de entidades que, segundo aquela filosofia, compõem a realidade. Apesar de historicamente ter havido uma grande variedade de compromissos ontológicos, podemos classificá-los em três grupos principais. Primeiramente, há os filósofos para os quais a realidade não tem existência independente da mente humana que a percebe, portanto sua ontologia consiste principalmente em entidades mentais, quer estas sejam pensadas como conceitos transcendentais, ou, ao contrário, como representações lingüísticas ou convenções sociais.

Essa posição ontológica é usualmente rotulada de “idealismo” . Em seguida, há os filósofos que talvez aceitem conceder aos objetos da experiência cotidiana uma existência independente de nossas mentes, mas que permanecem céticos sobre se entidades teóricas (tanto relações não-observáveis, como causas físicas, quanto entidades não-observáveis, como elétrons) possuem essa independência de nossas mentes. Pragmatistas, positivistas e instrumentalistas de diferentes matizes, todos subscrevem a uma ou outra versão dessa posição ontológica.

 

5. A Filosofia como Razão Dinâmica: A idéia de uma filosofia científica

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ESTADO DA ARTE

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5

A FILOSOFIA COMO

RAZÃO DINÂMICA

A idéia de uma filosofia científica

Michael Friedman

A filosofia científica – no sentido de uma tentativa de revolucionar a filosofia como um todo e como uma disciplina sob a orientação dessa idéia – é um fenômeno característico do século XX, mas, como tantos outros aspectos da cultura do século XX, tem raízes profundas no século

XIX. Em particular, a idéia de uma filosofia científica surgiu na segunda metade do século XIX, como uma reação intelectual autoconsciente contra o que era então percebido como os excessos “especulativos” e

“metafísicos” do idealismo alemão pós-kantiano . Nesse contexto, vários cientistas naturais e matemáticos do final do século XIX, defrontados com problemas radicalmente novos no interior dos fundamentos intelectuais em mutação de suas próprias disciplinas, voltaram-se à filosofia em busca de recursos conceituais. Repelindo a metafísica especulativa do idealismo pós-kantiano, olharam para o que acreditavam ser direções filosoficamente mais sadias – parcialmente em direção ao filosofar mais sóbrio e orientado cientificamente do próprio Kant, e parcialmente em direção a um retorno paralelo à posição antimetafísica outrora representada pelo empirismo britânico. Mas os pensadores científicos em questão, do final do século XIX – principalmente Hermann von Helmholtz, Ernst Mach e

 

6. A Filosofia como se o Lugar Importasse: A situação da filosofia africana

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106

CAREL, GAMEZ & COLS.

2. Qual é o lugar da filosofia entre as disciplinas?

Lugar refere-se não apenas à geografia, mas à relação. Falamos (talvez ironicamente) daqueles treinados em uma disciplina tal como a filosofia como tendo um

“lar”. Mas trata-se de nosso lugar, e tem relações com outras disciplinas “adjacentes”

(um termo espacializante que indica proximidade intelectual), como aquelas que fazem parte das humanidades. Houve um tempo em que a filosofia era a rainha das ciências, e dava seu nome a todas as disciplinas (filosofia “natural” e “moral”), mas seu lugar tornou-se menos claro em tempos recentes, com a ascenção das ciências sociais e de inter/antidisciplinas tais como os estudos culturais.

3. Será que os comprometimentos étnicos, raciais e nacionais (ou ainda, no que lhes dizem respeito, os religiosos, políticos e ideológicos) dos praticantes da filosofia afetam a filosofia que é feita?

O lugar da filosofia está preso ou é influenciado pela identidade e pelas lealdades de seus praticantes? Quando falamos da filosofia “alemã” ou “africana” ou

 

7. A Filosofia como um Problema na América Latina

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A FILOSOFIA COMO UM PROBLEMA

NA AMÉRICA LATINA

Juan Cristóbal Cruz Revueltas

Uma das principais motivações do pensamento latino-americano tem sido a de emergir da “caverna” ou, pode-se dizer, sair da quietude da torre de marfim e entrar como iguais nos tempos irregulares do mundo, recuperar o tempo perdido após “nossa chegada tardia ao banquete da civilização européia”, como o escritor mexicano Alfonso Reyes disse.1 Tornarse contemporâneo aos países que “produzem” filosofia poderia ser o mote que define esse tipo de busca. Assim é expresso o desejo de parar de ser uma mera realidade geográfica para se tornar, por fim, uma realidade cultural ou uma realidade “espiritual” com plenos direitos. No entanto, esse desejo de adquirir uma cidadania universal tem sido periodicamente oposto, na América Latina, pelo que pode ser caracterizado como uma vontade de “independência filosófica” ou “autenticidade filosófica”. Nessa maneira de pensar, um dos temores é o de tornar-se uma cópia empobrecida e submergir naquelas atitudes meramente imitadoras descritas pelo filósofo mexicano Carlos Pereda como “fervor pelo mercado” e

 

8. A Filosofia como Bricolagem

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A FILOSOFIA COMO

BRICOLAGEM

Ed Brandon

O interesse acadêmico por bricolagem e por bricoleurs deve-se a LéviStrauss, que os usou para caracterizar o processo de criação de mitos em sociedades pré-industriais. Seu tradutor para o inglês comenta que os termos não têm um equivalente preciso – um bricoleur “é um homem que faz serviços avulsos e é um verdadeiro faz-tudo”,1 mas para Lévi-Strauss o termo carrega conotações de arte ingênua* que estão ausentes no inglês.

Isso pode ter sido relevante no contexto das elaborações bizarras dos mitos que estava estudando, mas para os meus propósitos “faz-tudo”** é perfeitamente suficiente – bricoleur está aí mais pelo prestígio do pensamento parisiense outrora chique.2 Trata-se por ora da idéia do faz-tudo, servindo-se do que tem à mão, em vez de esperar por respostas finais ou ferramentas e materiais feitos sob medida. Esse servir-se do que há pode muito bem vir conjugado a uma tendência de ignorar o senso comum e encontrar soluções que o rejeitem. Outro elemento importante que invocarei é a habilidade de inventar as próprias ferramentas em vez de depender apenas das que são produzidas em série.

 

9. A Filosofia como Juízo

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A FILOSOFIA

COMO JUÍZO

Julian Baggini

A filosofia anglo-americana orgulha-se de aderir à lógica e ao rigor argumentativo. Entretanto, a maioria dos filósofos concordaria que a filosofia realmente boa requer algo mais, algo que poderíamos chamar de insight ou juízo. O problema é que, embora esse fato seja reconhecido, pouco se diz a esse respeito, e suas conseqüências para como percebemos o projeto da filosofia com muita freqüência não são extraídas. Não se trata de algum “fator X” adicional que, aliado à boa lógica, produz boa filosofia; o juízo ou o insight é uma parte inerente do processo filosófico.

Além disso, trata-se de algo que traz consigo juízos de valor.

Meu propósito neste capítulo é o de colocar em foco algumas características da filosofia e da racionalidade que, espero, serão reconhecidas como familiares. Ao chamar nossa atenção a elas de modo sistemático, espero contribuir para uma maior autoconsciência na filosofia sobre o papel do juízo. Concluirei esboçando algumas maneiras pelas quais penso que a imagem que retrato pode ajudar a explicar algumas das características desconcertantes da filosofia.

 

10. A Filosofia como Nomadismo

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ESTADO DA ARTE

A FILOSOFIA

COMO NOMADISMO

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Simon Glendinning

Aporia cotidiana

Karl Popper detestava a idéia, que associava de perto com Wittgenstein , segundo a qual a filosofia poderia ocupar-se apenas de puzzles*.1 Pode-se certamente simpatizar com Popper. O modo como Wittgenstein chega a um acordo ou ao menos sua maneira de às vezes encontrar em inglês uma expressão para seu entendimento da natureza dos problemas filosóficos parece apenas trivializálos, reduzindo-os a dificuldades com a linguagem, dificuldades a serem resolvidas simplesmente olhando-se para os usos ordinários de palavras.

Quando problemas filosóficos são meros puzzles lingüísticos, a filosofia torna-se pouco mais do que um passatempo para adultos que receberam educação demais. Parece não haver nada de grande importância aí, nada de realmente notável.

Talvez alguns rapazes e moças que cresceram com uma fascinação apenas levemente modificada por puzzles e enigmas possam achar apropriada essa imagem das dificuldades filosóficas. Entretanto, embora

 

11. A Filosofia como um “Como”

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ESTADO DA ARTE

A FILOSOFIA

COMO UM “COMO”

Eran Dorfman

A filosofia como... A mera formulação do tópico implica a insuficiência da filosofia. Ela tem de ser considerada, apresentada e elaborada como algo. Esse algo poderia ser a própria filosofia e, no entanto, de certo modo, ele teria de transcender à filosofia. De outro modo, seria supérfluo mencioná-lo. Ou será que não? Talvez trate-se apenas de nossa necessidade de falar sobre filosofia que causa esse aspecto “transcendente” ou “supérfluo”. Talvez a práxis da filosofia não precise de qualquer nome adicional. É apenas filosofia, e se queremos falar sobre ela e explicá-la como algo, então isso seria nosso próprio problema, não da filosofia. Mas onde, então, deveríamos localizar o “falar sobre a filosofia”? Isso é ou não é parte da própria práxis filosófica?

Dar um passo para trás, olhar as coisas a partir de diferentes ângulos de modo que possam ser melhor vistas, esclarecidas e explicadas é uma característica não-controversa da filosofia. Olhamos para algo como algo, fazendo o melhor que podemos para garantir que dessa vez estamos olhando para ele como realmente é. Assim, mesmo se a filosofia pode tomar conta de si mesma sem nossos esforços tediosos para explicá-la como algo, parece que é como se esse “como...” estivesse sempre de volta ali, no coração do trabalho filosófico. Nossa tentativa de caracterizar a filosofia não é parasitária e sem sentido, mas o núcleo da práxis filosófica. Não estamos apenas falando sobre filosofia. Estamos fazendo filosofia.

 

12. A Filosofia como Poesia: As intricadas evasões do como

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A FILOSOFIA

COMO POESIA

As intricadas evasões do como1

Simon Critchley

1. A poesia é a descrição de uma coisa particular – um prato de latão, um pão sobre ele, o vinho que bebi, água límpida em uma tigela brilhante, uma pedrinha na palma de minha mão, a árvore robusta e sem folhas que vejo da janela de minha cozinha, a lua no céu de uma noite clara de inverno.

2. O poeta descreve essas coisas na atmosfera radiante produzida pela imaginação. Atos poéticos são assim atos da mente, que descrevem coisas reconhecíveis, coisas reais, coisas realmente reais, mas que variam a aparência daquelas coisas, mudando o aspecto sob o qual são vistas. A poesia faz surgir variações sentidas na aparência das coisas. O que

é mais milagroso é que a poesia faz isso simplesmente pelo som das palavras:

Esta cidade agora veste, como uma roupa,

A beleza da manhã, silenciosa, despida... *

3. A poesia transfigura imaginativamente uma realidade comum, um passeio matinal em

Londres, por exemplo. Mas essa realidade comum pode imprimir-se ao sujeito, a cidade tornar-se opressiva, e o sujeito, depressivo. O mundo tornar-se um lugar ensurdecedor, violento, dominado por uma incoerência cada vez maior de informações e pela constante presença da guerra. Pode-se argumentar que esse é o nosso presente. Esta é uma

 

13. A Filosofia como Narrativa Colateral: O filosófico, o literário e o fantástico

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A FILOSOFIA COMO

NARRATIVA COLATERAL

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O filosófico, o literário e o fantástico

Evgenia V. Cherkasova

Julgam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica.

(Jorge Luis Borges, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius)1

Filosofia como/e/da literatura tem sido um tema popular entre filósofos e teóricos da literatura há bastante tempo.2 Este capítulo deixa de lado as questões muito importantes da intertextualidade, da “morte do autor” ou da reinterpretação da filosofia como um empreendimento literário. Em vez disso, tomando como guia a provocativa concepção de Borges da metafísica como um ramo da literatura fantástica, gostaria de explorar o que a reflexão filosófica, a ficção e o exercício de imaginação podem ter em comum.

Gostaria de me concentrar na literatura fantástica e nas possibilidades filosóficas que ela cria; ao mesmo tempo, argumento que criar, cogitar e multiplicar possibilidades formam o núcleo da prática filosófica, quer ela tome a forma de um tratado ou de uma história. É esse jogo criativo com as possibilidades – e impossibilidades, como mostrarei – que proponho chamar de uma “atividade de narrativa colateral**”.

 

14. A Filosofia como Terapia

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A FILOSOFIA

COMO TERAPIA1

David J. Rosner

Introdução

A idéia da filosofia como terapia será o assunto deste capítulo. Essa concepção de filosofia originou-se com os gregos, mais fundamentalmente com as escolas helênicas de filosofia (por exemplo, os estóicos e os epicuristas ). Esses pensadores consideravam que o propósito fundamental da filosofia era o de sustentar a paz interior e a tranqüilidade em um mundo que nos confunde e é com freqüência caótico. Essa não é a concepção predominante de filosofia na América do Norte ou na Grã-Bretanha de hoje, que têm sido em geral dominadas pelo movimento “analítico” .

A filosofia analítica tem estado fundamentalmente preocupada com o estudo da lógica e da linguagem (e, assim, com freqüência é técnica e afastada das preocupações das pessoas comuns). Mas nos últimos tempos surgiu uma tradição nova (embora na verdade seja antiga), chamada aconselhamento filosófico clínico, por meio da qual a filosofia está novamente sendo definida como um empreendimento terapêutico. Será que a filosofia pode ser explorada como uma fonte de insight com os quais se possa tratar pessoas que estão confusas ou infelizes? Este ensaio argumentará que, dadas certas definições e condições, a filosofia certamente tem o potencial para ser efetivamente usada em um ambiente terapêutico.

 

15. A Filosofia como Escuta: As lições da psicanálise

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A FILOSOFIA

COMO ESCUTA

As lições da psicanálise

Havi Carel

O que busco na fala é a resposta ao outro. O que me constitui como um sujeito é a minha questão.

(Jacques Lacan , Écrits)1

Quando pensamos sobre como a filosofia é comunicada, usualmente pensamos em leitura, escrita e fala. Uma atividade filosófica que não tem recebido muita reflexão é a da escuta, e menos ainda a de ser escutado. A escuta é usualmente percebida como uma posição passiva, submissa, mas em contraste com essa concepção gostaria de entendê-la como uma atividade desejante, absorvente, que é a condição do discurso. A escuta aceita, rejeita e altera as idéias; é a condição de sua expressão.

Não podemos falar ou, mais precisamente, comunicar se ninguém está escutando. Este artigo começa com a idéia de que o conhecimento é intersubjetivo e de que o aprendizado está baseado na comunicação. Com isso em mente, farei três sugestões para estratégias de escuta que facilitam a comunicação dentro do discurso filosófico e, portanto, permitem que o aprendizado e o desenvolvimento do pensamento tenham lugar. A primeira é escutar com sensibilidade especial ao som rangente daquelas partes de um argumento filosófico que não funcionam. A segunda é a de continuar falando mesmo quando alcançamos um beco sem saída filosófico, de modo a escutar o que é difícil, às vezes impossível, de se escutar.

 

16. A Filosofia como Profissão

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A FILOSOFIA

COMO PROFISSÃO

Patricia Sayre

Introdução

Escolhi “filosofia como profissão” como meu título não porque penso que ele seja auto-suficiente como uma caracterização particularmente iluminadora da filosofia, mas porque quero ver se colocar em prática as ambigüidades que se encontram no termo “profissão” é útil na resolução de ambigüidades em minha própria atitude em relação ao empreendimento filosófico. A seguir eu considero três diferentes concepções de filosofia como profissão, que podem ser construídas a partir de três significados diferentes atribuídos à palavra “profissão”. Depois exploro varias tensões que podem surgir entre essas três concepções e sugiro uma estratégia geral para lidar com elas. Essa estratégia tem o objetivo de abrir espaço para um significativo pluralismo em filosofia, enquanto, ao mesmo tempo, proporciona um ponto vantajoso para separar o trigo filosófico do joio. Meu objetivo é oferecer um meio de pensar sobre filosofia que nos estimule a persistir como amantes da sabedoria, não obstante as dúvidas que às vezes temos quanto à empreitada filosófica e ao lugar que nela ocupamos.

 

17. A Filosofia como Sabedoria Profunda e Rasa

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A FILOSOFIA COMO SABEDORIA

PROFUNDA E RASA

David Gamez

O Ser está em um estado de perfeição sob todos os pontos de vista, como o volume de uma bola esférica, e igualmente posicionado em todas as direções a partir de seu centro. Pois ele deve não ser de forma alguma maior nem de forma alguma menor sob um aspecto do que sob outro. Pois o Não-Ser não tem algum ser que pudesse impedir o surgimento do Ser, tampouco é o Ser capaz de ser mais do que o Ser sob um aspecto e menos sob outro, uma vez que ele é inteiramente inviolável. Pois ele é igual a si mesmo sob todos os pontos de vista e encontra todas as determinações semelhantes. (Parmênides, Fragmento 8)1

A conferência moderna se parece com a peregrinação da cristandade medieval, no sentido de que permite que os participantes deliciem-se em todos os prazeres e diversões da viagem, enquanto aparentam estar austeramente voltados ao aprimoramento próprio. Certamente, há certos exercícios de penitência a serem feitos – a apresentação de um texto, talvez, e certamente escutar os trabalhos dos outros. No entanto, com essa desculpa você viaja para novos lugares interessantes, encontra pessoas novas e interessantes e forma novos e interessantes relacionamentos com elas; troca de mexericos e confidências (pois suas histórias batidas são frescas para elas, e vice-versa); come, bebe e diverte-se na companhia delas, todas as noites; e, não obstante, ao final de tudo, retorna para casa com uma reputação ampliada de seriedade de mente. (David Lodge, Small World*)2

 

18. A Filosofia como Dizer o Indizível

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A FILOSOFIA COMO

DIZER O INDIZÍVEL

Hilary Lawson

Começar é sempre um negócio enganoso. Como começar a dizer aquilo que ainda não se sabe como dizer? Nesta ocasião o começo é mais enganoso do que o usual. Pois aquilo que desejo dizer é algo que não pode ser dito, algo que não pode ser transmitido; algo que está além de nossas histórias usuais, além de nossos fechamentos usuais. E, no entanto, não estou engajado aqui em algum misticismo vazio, ou em um romantismo emocional a respeito de um outro que não pode ser obtido.

Não, eu sou impulsionado por um poderoso racionalismo , um desejo de ser absolutamente preciso. Além disso, é justamente aquele desejo de ser preciso, de levar a efeito as implicações do meu próprio pensamento, que me leva a me engajar neste aparentemente esotérico gesto.

Argumentarei que a filosofia, desde os seus primórdios, consistiu em uma tentativa de dizer o indizível. Ela tem assim feito não por um engano, mas porque essa é a natureza da filosofia. Ela é o produto da incômoda situação em que nos encontramos. Prosseguirei defendendo que o que tem caracterizado a filosofia durante o século passado aproximadamente foi a percepção explícita dessa situação incômoda. Por sua vez, essa percepção gerou uma variedade de estratégias que têm por objetivo escapar desta situação, porque ela foi percebida como algo que não pode ser tolerado ou prolongado. Não obstante a sofisticação e sutilezas dessas estratégias, concluirei por meio do argumento de que não se trata de uma situação incômoda da qual podemos escapar, e, em vez disso, apresentarei um esboço de um quadro que nos permite render-nos à situação incômoda e endossar a noção de filosofia como o dizer do indizível.

 

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