Ciência

Autor(es): Steven French
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A coleção Conceitos-Chave em Filosofia é uma série de introduções concisas, acessíveis e interessantes às idéias centrais e aos temas encontrados no estudo da filosofia. Traduzidos por especialistas, estes livros, escritos especialmente para atender às necessidades dos leitores em formação, expõem idéias fascinantes, embora algumas vezes difíceis. A série é feita para fornecer uma base sólida em filosofia e cada livro é também o companheiro ideal para estudos ulteriores.

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10 capítulos

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1. Introdução

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Introdução

É sempre bom começar um livro como este com uma declaração com a qual certamente todos concordarão: como um fenômeno cultural, a ciência tem tido um impacto nas nossas vidas maior do que qualquer outro. Poderíamos simplesmente listar somente os derivativos tecnológicos: a engenharia genética, as armas nucleares, a cura para o câncer de ovário, o laptop no qual estou escrevendo este texto, o forno de micro-ondas no qual preparo meu jantar, o iPod no qual escuto minhas músicas (fora de moda)... E, é claro, o modo como essas tecnologias derivaram da ciência é um tópico interessante por si mesmo, o qual não teremos tempo de tratar aqui. Contudo, para além dos benefícios práticos, há o modo profundo como a ciência formou e mudou nossa visão do mundo e do nosso lugar nele: pense na teoria da evolução e na maneira como ela transformou a compreensão que temos das nossas origens. Considere o posterior – e relacionado – desenvolvimento da teoria da genética e como isso transformou não só nossa compreensão de uma gama de doenças e de distúrbios, mas também a nossa visão do nosso comportamento, das nossas atitudes e de nós mesmos. Ou pense na física quântica e na afirmação de que a realidade é fundamentalmente aleatória; ou na teoria da relatividade de

 

2. Descoberta

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Descoberta

Quando as pessoas pensam nos cientistas, elas normalmente pensam em um homem (tipicamente) vestido com um jaleco branco; e quando pensam no que os cientistas fazem, elas geralmente os imaginam fazendo grandes descobertas, pelas quais poderiam receber o Prêmio Nobel. A descoberta – de algum fato, de alguma explicação para um fenômeno, de alguma teoria ou hipótese – é vista como estando no centro da prática científica. Desse modo, a questão fundamental que procuraremos responder neste capítulo é: como são descobertas as teorias, as hipóteses, enfim, os modelos científicos? Comecemos com uma resposta bastante comum e bem-conhecida.

A VISÃO COMUM: O MOMENTO EURECA

Nos quadrinhos, a criatividade é muitas vezes representada por uma lâmpada sobre a cabeça do herói. Supõe-se que represente o lampejo da inspiração. De modo semelhante, as descobertas científicas são geralmente caracterizadas como algo que ocorre de repente, em um dramático momento criativo da imaginação, um lampejo de visão ou uma experiência do tipo “aha!”.

 

3. Heurística

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Heurística

Até aqui apresentamos duas visões da descoberta. Uma enfatiza o chamado momento eureca e tanto se combina com a visão “romântica” da criatividade quanto dá apoio ao que se conhece como a visão hipotético-dedutivista da ciência, de acordo com a qual a ciência funciona apresentando hipóteses – de que modo nós não sabemos, e de fato, como filósofos, isso não nos interessa – e a dedução de consequências experimentais decorrentes delas que são então submetidas ao teste experimental. A outra visão dá ênfase à observação e alimenta o que chamamos de explicação “indutiva”, segundo a qual reunimos uma grande quantidade de observações, coletadas em uma variedade de circunstâncias, e de alguma maneira “induzimos” uma teoria disso. Ambas as visões são inadequadas.

Ora, aqui está uma terceira alternativa, a qual reconhece que a descoberta científica não é só uma questão de se ter um pico criativo, ou de alguma espécie de lâmpada mental se acender, mas também não se trata de uma lenta e meticulosa coleção de observações. Essa é uma visão baseada na ideia de que podemos identificar certos passos na descoberta, certos movimentos que os cientistas fazem que são tanto racionais quanto capazes de desempenhar um papel na explicação de como as descobertas são feitas e, portanto, de como a ciência funciona. Tais movimentos estão sob o guarda-chuva geral do que é conhecido como “heurística”.

 

4. Justificação

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Justificação

INTRODUÇÃO

Você fez a sua descoberta e pensa que está na trilha de algo importante, mas agora as pessoas estão começando a perguntar “Onde estão as evidências”? Essa pergunta leva-nos para a nossa próxima fase a respeito de como a ciência funciona, o que tem a ver com o modo como as teorias relacionam-se com as evidências. Isso é o que os filósofos da ciência chamam de “justificação”

(é evidente que, se as fases da descoberta e da justificação podem ser bem separadas, esta é em si mesmo uma questão filosófica).

Eis, então, a nossa questão fundamental: qual é o impacto dos dados experimentais nas teorias? Examinaremos duas respostas. A primeira coloca que os dados verificam as teorias; a segunda insiste que, ao contrário, os dados falsificam as teorias. Consideremos essas duas respostas antes de avançarmos para além delas.

VERIFICABILIDADE É TUDO O QUE IMPORTA!

A primeira resposta à nossa questão foi proposta, de maneira que ficou famosa, por um grupo heterogêneo de filósofos, cientistas, economistas e outros teóricos que vieram a ser conhecidos como os “positivistas lógicos”. Eles eram chamados assim porque, em primeiro lugar, eram vistos como parte de uma linha de comentários da ciência que enfatizava o conhecimento científico como o supremo ou, em certo sentido, a mais autêntica forma de conhecimento, obtido por meio do apoio positivo dado às teorias pelas observações através do método científico; e, em segundo lugar, por que eles empregavam todos os recursos da lógica, e em particular a formalização da lógica tornada acessível por teóricos como Hilbert, Russell e Whitehead no início do século XX, tanto para analisar quanto para representar essa forma de conhecimento.

 

5. Observação

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Observação

Nós nos lembramos do capítulo anterior que tanto o verificacionista quanto o falseacionista afirmam que teorias e hipóteses são testadas contra enunciados de observação. Desse modo, para as teorias as serem testadas (e então serem ou verificadas ou falsificadas, dependendo do nosso ponto de vista), esses enunciados de observação precisam ser seguros. Permitam-me colocar isso de outro modo: uma visão típica, muitas vezes expressa pelos cientistas e pelos leigos, é que a “ciência é uma estrutura construída sobre fatos”,1 e então precisamos perguntar: quão sólidos são os fatos?

Comecemos com uma questão secundária que nos ajudará a lidar com a nossa primeira questão: como obtemos os fatos? A resposta é óbvia: através da observação. Consideremos a natureza da observação, começando com uma abordagem de senso comum.

A VISÃO DE SENSO COMUM DA OBSERVAÇÃO

No centro dessa visão está a afirmação de que o olho é como uma câmera: a luz entra através das pupilas, sofre refração pelas lentes e forma uma imagem na retina. Isso estimula bastonetes e cones, enquanto impulsos elétricos são transmitidos pelo nervo ótico ao cérebro e, voilá, o sujeito “observa”. Ora, acontece que, segundo essa visão, duas pessoas vendo o mesmo objeto nas mesmas circunstâncias – uma bela escultura numa peça bem-iluminada, por exemplo – “verão” a mesma coisa. Bem, de fato, elas não verão.

 

6. Experimento

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Experimento

INTRODUÇÃO

Lembremo-nos do que vimos no último capítulo. Em primeiro lugar, o que você “vê” (isto é, as experiências perceptivas que você tem) não é determinado só pela imagem na retina; isso também depende da sua experiência, do seu conhecimento, das suas expectativas, das suas crenças, das suas pressuposições teóricas, etc., que o ajudam a selecionar o que é relevante, o que é real, o que é um artefato, e assim por diante. Em segundo lugar, o papel dos instrumentos na observação é crucial. Esse talvez seja um ponto óbvio, mas muitas vezes é negligenciado em certas discussões filosóficas. E, por fim, as observações são frequentemente guiadas pela teoria (lembre-se do exemplo de Hertz e de sua busca frustrada pelas ondas de rádio). Já podemos começar a ver que a observação na ciência – e, portanto, o processo pelo qual as teorias são justificadas – é um pouco mais complexo do que pensávamos inicialmente.

Em particular, o que esses pontos mostram é que as observações e os resultados experimentais em geral são revisáveis (lembre-se das estacas de Popper!). Porém, se isso é o caso, o que dizer sobre a base observacional segura da ciência?

 

7. Realismo

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Realismo

INTRODUÇÃO

Então você descobriu a sua hipótese e a submeteu a testes rigorosos, levando em consideração tudo o que dissemos até aqui, e ela parece sustentarse em face de todas as evidências. Isso significa que o que ela diz sobre o mundo é verdadeiro? Isso significa que os objetos e processos dos quais ela fala de fato existem? A resposta óbvia seria dizer “sim, é claro” e, se você estiver inclinado a seguir esse caminho, então você é um “realista” de algum matiz.

Embora possa parecer a resposta mais óbvia, veremos que objeções podem ser levantadas a ela. Os que levantam tais objeções são conhecidos como

“antirrealistas” e, também como veremos em breve, eles vêm em diferentes formatos.

Assim, esta é a questão fundamental do presente capítulo: o que nos dizem as teorias científicas? Eis três respostas diferentes:

A1: elas nos dizem como o mundo é, tanto em seus aspectos observáveis quanto inobserváveis (realismo).

Esta é a resposta realista. Os realistas consideram as teorias como mais ou menos verdadeiras, e elas nos dizem como o mundo é: não somente como ele

 

8. Antirrealismo

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Antirrealismo

INTRODUÇÃO

No Capítulo 7, nós examinamos detalhadamente a visão realista da ciência. Ela considera que o objetivo da ciência é a verdade, não em um sentido esquisito, pós-moderno, mas no sentido de corresponder aos estados de coisas que estão “lá fora”, no mundo. E o argumento principal, alguns dirão “definitivo”, para essa visão é que o realismo é a única posição que não faz do sucesso da ciência um milagre. Esse é o “Argumento Sem Milagres” ou ASM. Em outras palavras, assim como as teorias são aceitas – a afirmação realista – porque constituem as melhores explicações dos fenômenos com os quais elas lidam, assim também o realismo é a melhor (de fato, a única) explicação do sucesso da ciência.

Vimos os problemas que essa posição enfrenta. Em primeiro lugar, aquele de mentalidade histórica dirá “Já vi essa história antes e não gosto dela”, registrando que, ao longo da história da ciência, teorias aparentemente bemsucedidas vieram e se foram; teorias que, estivessem os realistas presentes, aceitariam como verdadeiras, ou algo próximo disso, mas na medida em que elas foram posteriormente jogadas fora como falsas, por que acreditar que as nossas teorias atuais, não importando o quão impressionantemente bemsucedidas elas sejam, devam ser consideradas verdadeiras ou aproximadamente verdadeiras? Isso é conhecido como o problema da “MetaIndução Pessimista” ou MIP.

 

9. Independência

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Independência

INTRODUÇÃO

Você tem a sua teoria, ela teve algum sucesso empírico e, com base nisso, você acredita que ela diz como o mundo é, caso você seja um realista, ou como o mundo poderia ser, caso você seja um empirista construtivista. Mas então aparece um sociólogo e afirma que você é filho do seu tempo, o produto de condições socioeconômicas e políticas específicas e que, portanto, assim é a sua teoria. Ela diz menos a respeito de como o mundo é, ou poderia ser, e mais a respeito daquelas condições. Ora, essas são afirmações contundentes, mas, como veremos, elas têm alguma força. Na verdade, o sociólogo está apresentando a seguinte questão fundamental: a ciência é independente do seu contexto social?

Uma resposta é: obviamente que não! Há, sem dúvida, um sentido no qual as condições socioeconômicas e políticas têm de ser as certas para a ciência prosperar. Se não há dinheiro suficiente, por parte das universidades, do governo ou da iniciativa privada, ou estruturas institucionais apropriadas que possam sustentar o treino adequado e o desenvolvimento de carreiras, então no mínimo a ciência não terá o apoio de que precisa. Podemos até olhar para a história novamente e sugerir que a revolução científica do século XVII não teria acontecido sem a saída de um sistema feudal, ou que os grandes desenvolvimentos do século XIX não teriam ocorrido sem a revolução industrial.

 

10. Parcialidade de gênero

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mulheres com altas posições na academia, por exemplo, diminui drasticamente na medida em que subimos na escada em direção às posições dos titulares.

Não estão claras quais sejam as razões para isso. Em geral, o tópico do cuidado das crianças é ventilado: as mulheres não são contratadas como cientistas porque elas são vistas como um risco na medida em que poderão deixar seu lugar para ficarem grávidas; as mulheres têm dificuldades de voltar

à profissão depois de terem dado à luz devido às providências para o cuidado adequado da criança; ou as mulheres têm dificuldade de se estabelecer como parte de uma equipe científica porque elas têm obrigações familiares que evitam que fiquem no laboratório as horas necessárias. Um relatório recente da União

Europeia abordou o assunto da seguinte forma:

As razões para o desequilíbrio são muitas. Certas áreas são consideradas a propriedade dos homens e, portanto, a parcialidade de gênero afeta os julgamentos de excelência científica. As indústrias e a academia também são relutantes em contratar mulheres porque elas não são vistas como flexíveis o suficiente.

 

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