Pequeno dicionário de absurdos em educação

Autor(es): Pacheco, José
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23 capítulos

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Talvez revendo-se em um outro lado de um espelho freudiano – eu sei lá! –, o certo é que Alice me respondia numa lógica implacável e repressora de ortodoxias gramaticais.

– O que é isto? – eu perguntava, apontando as mãozinhas do irmão Marcos.

– Ito é as mões do minino!

Reaprendi a gramática do bom senso, compassivamente anotando os absurdos que Alice, sem saber, denunciava, os mesmos absurdos que os adultos de então não conseguiam identificar. Reaprendi com os sábios rabiscos linguísticos da minha neta muito daquilo que tive de desaprender quando, um dia, quis ser professor. E vieram à memória episódios que ouvi contar, quando ainda exercia essa maravilhosa pro­fissão.

Parece que foi ontem, e lá se vão tantos anos! Era no tempo do hegemônico método analítico-sintético por alguns chamado de fônico. Um tempo distante, em que o “p” e o “t” eram aprendidos por meio da repetição soletrada de frases de alto gabarito intelectual do tipo: “a tia tapa o pote”, “a tia é tua”, “é a tua pua”.

Naquele tempo, como atualmente, algum pai, em seu perfeito juízo, se lembraria de repreender o filho, no momento em que este balbuciasse a primeira palavra? Estou vendo o pequeno exclamando “papá!”, e o zeloso genitor corrigindo-o de imediato:

 

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b a cegueira ao Ensaio sobre a lucidez, Saramago não faz outra coisa que não seja nos lembrar a tragédia edipiana, que nos fala daqueles que, tendo olhos, não veem, e de cegos que conseguem ver. Em “Vermelho como o céu”, somente quando alcançam a saída da caverna platônica é que a menina reassume a missão de conduzir.

Visitei uma escola que me diziam ser “inclusiva”. Numa turma de 4a série, encontrei um aluno “incluído”. Copiava frases escritas no quadro tão lentamente que, no fim da cópia, a folha foi para o lixo – estava encharcada de saliva, que escorria sem que ele conseguisse conter.

No fundo da sala, o “incluído” tornou-se invisível. A professora explicou por que razão o “incluído” estava ali:

Que quer que eu faça? Ele continua com o livro da 1a série. Com mais de 30 alunos já é difícil ensinar os normais. Agora, põem um deficiente na sala. Eu nunca tive formação para isso. Não dá!

À impotência e frustração de professores junto o desespero dos pais: Na hora de matricular é aquele abraço – “Nós vamos dar conta da sua filha” – mas, depois, a minha filha passa o tempo todo passeando pela escola, ou no fundo da sala.

 

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c aquilo que é verdadeiro acaba sendo provado. Mesmo que os

“indignados” tentem tapar o sol com a peneira…

Afirmei haver estudantes que alcançam o canudo sem nada terem aprendido, porque plagiam trabalhos de outros, porque parasitam trabalhos de grupo (nos quais, um ou dois se matam e os restantes levam a nota…), ou copiam nos exames.

Há cerca de dois anos, quando um ministro de triste memória quis ressuscitar os pretensos méritos dos exames, voltei à carga, para demonstrar que os testes, as provas e os exames pouco ou nada avaliam. Terminei a série de artigos então publicados com um apelo aos professores: que fossem mais rigorosos na avaliação, para poderem dispensar os exames inúteis. Um jornal mostrou as conclusões de um estudo, que mostrava terem sido justas as minhas palavras de 20 anos atrás: três quartos dos alunos das nossas universidades copiam como uns desalmados.

O estudo divulgado tem um título bem sugestivo: “Cola nas universidades, o grau zero da qualidade”. O autor do estudo relatou que a carga moral da elevação de uma conduta desviada pode ter calado mais do que um dos alunos inquiridos. Mas que, apesar deste possível desvio por defeito, serão

 

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d crianças na aventura de ler, forçando-as a um coro de canções sem sentido?

Tenho lido jornais e escutado conversas. O educador

João afirma, peremptório, que “os países desenvolvidos já perceberam que o método fônico é mais eficiente do que todos os outros, principalmente no caso de crianças que têm dificuldades de leitura”. E finaliza: “Isso não é especulação ou diletantismo acadêmico. Está provado cientificamente”. O educador não informa quais são as provas científicas. Mas poderei dizer que tenho dados concretos que demonstram o contrário. A educadora Magda argumenta que a alfabetização

“é um processo muito complexo e que a criança aprende de várias maneiras”, concluindo que “uma dessas maneiras é a relação entre fonemas e letras, mas não é a única”. O contraste entre os dois educadores é evidente. E não é uma mera questão de diferença de gênero, mas de mentalidade.

Não poderei deixar de realçar a posição de bom senso e de moderação assumida por defensores da linha construtivista. No artigo da Folha, que venho citando, os “construtivistas” afirmam que há “uma polaridade falsa entre os dois métodos, no Brasil”. E acrescentam que ambos “podem ser combinados e que, em alguns casos, o método fônico pode até ser o mais indicado para um determinado aluno, mesmo que ele estude numa escola construtivista”. Esta posição difere do discurso fundamentalista de certos adeptos do método fônico.

 

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Algo me feriu o ouvido... O que seria uma “criança adventista”? Por acaso há “crianças socialistas”? Ou há apenas

“crianças”?

Comentei o caso com professores. Todos se denominavam

“católicos não-praticantes”. Todos haviam batizado os filhos e feito a festa da comunhão solene. Todos inscreveram os filhos na disciplina de Religião, nas escolas públicas que frequentavam. Quis saber o porquê da incoerência de católicos que “não praticavam”. Todos sorriram e só um se pronunciou:

– Quero que meu filho seja uma criança “católica”. E, se a catequese não faz bem, também não faz mal!.

Faz mal, muito mal, sei por experiência própria. Fui aluno numa escola do Portugal de Salazar. Na minha sala de aula, ao lado da fotografia do ditador, havia um crucifixo. O meu colega de classe era “protestante”, mas fingia ser católico. Descoberto, foi rudemente segregado pelos fundamentalistas da época.

“Fazer parte ou não do corpo de Cristo não é uma questão de rótulo, mas de comportamento”, escreveu Jean-Yves

Leloup. Se não for assim, além do poder castrador psicológico e sexual, a sociedade exercerá sobre as crianças um pavloviano condicionamento espiritual.

 

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f mente o porquê de os facilitistas instituírem exames como mito redentor dos erros do sistema. Quem nunca experimentou a deprimente paisagem de um espaço abarrotado de examinandos amontoados ao fundo, mesas da frente desertas, pastas, livros, malas e carteiras de senhora amontoados no fundo da sala? Edificante, não é?

Um inocente candidato a professor confidenciou-me sua perplexidade: “Então, quer saber se as minhas colegas de curso copiam nos exames. E, quando perguntei se achavam correto o seu comportamento, encolheram os ombros e riram na minha cara. Mas o mais incrível é que, quando perguntei se, quando viessem a ser professoras, permitiriam que os seus alunos também copiassem nos exames, responderam: ‘Era só o que faltava!’ Eu não queria acreditar…”. Nem eu! Mas, reconheçamos

(adeptos, ou críticos dos exames) que é assim mesmo. E esses tristes “filhos” dos exames são apenas a ponta de um iceberg, que esconde o facilitismo de tirar cursos parasitando trabalhos de grupo e copiando… em exames.

 

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g te desprevenido. O enquadramento na paisagem é perfeito.

Tudo em harmonia: o canto da cigarra e o silêncio da terra, o voo do tordo refletido na água de uma piscina, o murmúrio do vento que nos embala no cheiro da terra molhada, a sombra da nuvem que se funde na sombra da árvore, o contraste entre a pressa das formigas e a descuidada agitação da criança nua na pedra molhada...

Dentro e fora das casas que compõem o complexo, sente-se o equilíbrio entre dentro e fora: o aroma do eucalipto e a renda da cortina; o encosto da cama com o verniz do soalho e as vigas do telhado, a mesinha de cabeceira embutida em uma parede embutida na paisagem... Melhor dizer que não existe o dentro e o fora. E, em cada recanto, um piano, lembrando que, no princípio... era a música.

A música que chegou ao cair da tarde. O canto dos pássaros recolhidos juntou-se às vozes de muitas crianças do coro de Belgais. Entramos no auditório como se em uma igreja entrássemos. Participamos em uma liturgia de sons, que penetraram o mais profundo dos corpos e acariciaram os nossos sentidos, antes doentes de ruído e de pressa. Uma divina fragrância de flores silvestres insinuou-se entre as frestas do granito, fundiu-se com o perfume das flores da laranjeira, cujos ramos chegavam até a porta, impelidos pelo sopro suave do vento do sul. Indescritível!...

 

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O que quero dizer é o seguinte… Então, é assim: quer dizer, portanto, pois… portanto, quer dizer… O que acho, na minha opinião pessoal,

é que… quer dizer… Eu penso que deve ser assim, porque sempre foi assim. Quer dizer, acho que essa ideia é interessante…

O que significa “interessante”? – Perguntei à professora, mas ela não respondeu

De surpresa em surpresa, percebemos que os professores achistas – alguns já com mais de 30 anos de exercício da profissão – jamais haviam lido um livro sobre Educação.

Eram incapazes de alinhavar duas ideias seguidas, ou de explicar por que faziam o que faziam na sua sala de aula. Manifestavam total relutância ao estudo e abominavam qualquer esboço de reflexão.

Emocionado, um achista falava do último episódio da novela da noite, citando de memória títulos de novelas antigas e atores de quem jamais ouvi falar. Os professores são bons conversadores, e eu poderia deixar que o animado interlúdio se prolongasse. Mas eu dispunha da prerrogativa de gerir o tempo dessa reunião e tentei colocar um ponto final naquele erudito debate novelístico, propondo que regressássemos ao domínio da pedagogia.

 

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O olhar penetrante das crianças “desiguais” invade-nos e nos faz crer que, somente por presunção humana, acreditaremos viver o tempo da História. Na verdade, habitamos a ProtoHistória do Homem. No tempo que nos coube viver, os homens resolvem os seus conflitos por meio das armas. Matam em nome de um credo. Usurpam territórios em nome da paz. Edificam tribunais e prisões em nome da justiça. As frágeis e absurdas instituições do nosso tempo são reflexos de uma humanização precária. E a instituição escola, concebida como berço de oportunidades, ainda é um “berço de desigualdades”.

O espaço público da educação ultrapassou a exiguidade das paredes da sala de aula, mas muitos ainda não perceberam essa mutação. Por outro lado, as medidas políticas que visam reformar a instituição são centradas em vícios institucionais jamais questionados, e sempre medidas avulsas. Sucedem-se decretos e despachos, decorrentes das conclusões de afetados relatórios produzidos por inúteis grupos de estudo. Acumulam-se no Ministério e nas universidades dispendiosos “estudos”, que não conseguem ir além de óbvias e ressequidas “recomendações”.

 

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j medida da infância e apetece voltar a ser criança. Por isso, a presença do adulto que educa faz sentido.

Este país não é pobre em exercícios de canseira e paixão. É importante conhecê-los, resistindo à tentação de lançar novas “modas”. O Brasil não poderá continuar no desconhecimento do que tem de melhor. Educadoras como Therezinha

– uma jovem septuagenária – são razão de esperança, num

Brasil condenado a acreditar que, pela Educação, chegará ao exercício de uma cidadania plena.

Sinto-me privilegiado por a tê-la conhecido. Obrigado a

Dulcília por ter escrito um belo livro, em que relata experiên­ cias de mãe, expondo a outros olhares um espaço de amor maduro, onde a sensibilidade se reinventa e o impulso criativo ganha raízes.

Fernanda foi uma criança feliz no Te-Arte e voltou ali como realizadora de cinema, para fazer um documentário.

Agradeço os momentos passados no Te-Arte, gravando imagens de uma conversa amena. Mas ficou-me o sabor amargo de algumas confidências ouvidas.

Aceite o leitor a possibilidade de a memória me trair, pois fiquei aturdido com a chuva de disparates (leia-se exigências ministeriais), que escutei. Talvez não reproduza a lista por completo ou a adultere. Mas, ainda que corra o risco de não ser exato, não poderei deixar de partilhar aquilo que, desde então, me preocupa.

 

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Como era usual nessa época de privação das liberdades, o título da obra teria de despistar os oficiais da censura. Na capa do livro estava escrito A caça aos coelhos. E foram milhares os caçadores que o compraram…

Em Portugal, jornais publicaram rankings de escolas, na cretina atitude de pretender comparar escolas com diferentes características, públicos diversos e situadas em regiões diferentes. Publiquei um artigo, num jornal diário de grande tiragem, denunciando a farsa dos rankings. A minha intenção era a de defender a dignidade das escolas que tinham ficado situadas nos últimos lugares da lista. Quando o meu artigo foi publicado, recebi cartas de elogio e incentivo de muitos professores.

Fiz publicar o mesmo artigo no jornal da minha terra como gesto de solidariedade para com uma escola que conheço e que estava situada nos últimos lugares do ranking. Decorridos alguns dias, alguns professores dessa escola passavam por mim e nem sequer um bom-dia me davam. Estranhei. Semanas depois, compreendi o que se passava: a diretora dessa escola dizia que eu tinha publicado um artigo atacando a sua escola.

 

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Numa espécie de viagem ao passado, sente-se transportado até ao ano de 1958, menino de tenra idade sentado lado a lado com outros meninos em velhas carteiras com buracos para tinteiro e pena, num coro de cantigas sem sentido, repetindo até à exaustão, cada um voltado para o seu único livro:

“a de águia, e de égua, i de igreja, o de ovos, u de uvas...”

Concluída a análise dos “manuais aprovados” para a 1a série, extraí algumas frases de elevado gabarito intelectual, que as suas criancinhas deverão repetir até a exaustão. “A tia tapa o pote” é a frase campeã das citações, quase empatada com a célebre “a vaca dá leite”. E se sente regressado ao país rural da sua salazarista infância perante frases como: “O Vilela leva a vaca à vila”, “O Vilela veio da vila a cavalo”, “Vovô vai

à vila a pé”. Por meio dos manuais fica também conhecendo o que preenche o cotidiano dos alunos das outras escolas: “É dia de aula e Adélia pula” (o texto não nos informa se durante a educação físico-motora ou se o pulo é dado no recreio).

 

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n obviamente, para o ensino profissional”. O artigo é omisso em relação ao modo como um professor, dando aula a “turmas de nível”, poderá contemplar “o ritmo de aprendizagem e as necessidades de cada aluno”. Talvez num próximo artigo, o articulista nos esclareça.

Desse exercício de senso comum nenhum mal viria ao mundo. Porém, o articulista não está sozinho na sua cruzada.

A unanimidade dos comentários de apoio apenas foi beliscada por um leitor, que sabe que artefatos escolásticos como as

“turmas de nível” já deram provas da sua inutilidade. Como refere no seu comentário, esse leitor aplicou o “ensino tutorial e o ensino cooperativo”, com bons resultados. Mas é compreensível que aqueles que não tenham aplicado ensino tutorial, ensino cooperativo (ou outro qualquer modo de trabalho escolar diferente da mesmice da aula tradicional), produzam comentários favoráveis ao artigo.

Talvez porque a nossa pátria seja a língua portuguesa, ecos da prosa atravessaram o oceano. Afinando pelo mesmo diapasão, uma secretária estadual anunciou que irá criar classes apenas para alunos repetentes, “turmas especiais de alunos que repetiram a 4ª série do ensino fundamental”. Se verdadeira a notícia publicada na Folha de São Paulo, a secretária teria dito: “o aluno com dificuldades é aquele que não

 

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Fiquei feliz pelas crianças”. Professores como Carlos (são tantos os que conheço) vão gravitando em torno do desastre. As suas palavras contrastam com as de outros professores, que me falam de sofrimento, de esforço compensado, de desânimo que, não raras vezes, conduzem à frustração.

Não é fácil a vida nas escolas que temos. O professor está sozinho na sua sala. Esse absurdo – um dos absurdos que sustentam a tradicional e hegemônica organização das escolas – reforça um sentimento mortal de autossuficiência, expõe professores a situações de constrangimento e, por vezes, de violência expressa. Sei de professores que salvaram, in extremis, colegas em risco de serem agredidas dentro das suas salas. Sei de professores que foram ameaçados, humilhados, espancados.

Se isto se deve a uma organização das escolas pautada pelo isolamento e pouco propícia ao exercício da solidariedade, não é menos certo que não cabe às escolas toda a responsabilidade. Não pretendo afagar o ego dos professores, que nunca é minha intenção agradar a quem quer que seja.

 

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“Não sonhe com uma obra acabada. Momentos de extrema elevação se alternam com horas de desordem, de desgostos e de preocupações”, avisava Pestalozzi. Qualquer professor que arrisque fazer diferente será alvo de calúnias dos acomodados, irá ser tentado pela desilusão perante a traição dos seus pares.

O conhecimento das experiências vividas na Escola da Ponte poderá ajudá-los a compreender e a superar decepções.

Como diria Lorraine Moureau, um terço dos professores

é muito bom, um terço pode ficar bom, um terço deve mudar de profissão. Chamemos os primeiros por aquilo que são: professores. Designemos os segundos por quase-professores. Os outros serão… “os outros”.

Um professor contou-me o que aconteceu em uma reunião de Conselho Pedagógico da sua escola. Apresentou um projeto do seu departamento para colher a opinião do conselho. O terço dos professores apoiou. O terço dos quaseprofessores ficou em um silêncio observador. Os “outros” pronunciaram-se: “Isso até pode dar resultado, mas, se der bons resultados, você poderá ter de se estender com o resto da escola.

 

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Chegou às minhas mãos uma obra publicada no Brasil, no ano de 1983. Nela se pode ler: O nosso objetivo no presente trabalho é fazer uma análise detalhada e acurada do uso da vara, do ponto de vista de Deus.

Assim, tal e qual! Ainda pensei se tratar de uma referência ao pedagogo João de Deus, mas, continuando a leitura, vi que não era – era mesmo ao Deus de Abraão que o autor da obra se referia. E acrescentava: É Deus mesmo quem dá grande importância à vara. Vamos examinar algumas passagens das

Escrituras nas quais ele ordena aos pais que a utilizem como instrumento na criação dos filhos.

Decorridos 20 séculos sobre o Sermão da Montanha, eis mais um triste exemplo da barbárie fundamentalista, que mantém o mesmo tom, ao longo de 67 páginas de instruções aos pais. Se o leitor souber conter a náusea, poderá continuar a leitura: Um dos obstáculos à disciplina é o pensamento humanista. A vara veio de Deus. Foi ele quem ordenou que os pais batessem nos filhos como uma expressão do seu amor por eles. A aplicação da vara tem por objetivo corrigir na criança os elementos que podem impedi-la de obedecer ao Senhor com alegria. Em última análise, bater é uma forma de preparar o coração das crianças para buscar o que de melhor Deus tem para ela. Vemos a importância da obediência completa no caso da obediência parcial do rei Saul. Deus havia ordenado que ele destruísse todos os amalequitas, inclusive o gado deles.

 

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Caro Zé, não conhecia ainda o sabor amargo da tristeza profissional. Há quem diga que, mesmo nos momentos difíceis, há que saber tirar os ensinamentos da vida. Eu não consigo. Só quero que o ano letivo termine rapidamente, para mudar de escola e poder me planejar de novo. Aquela sensação de poe­ sia interior, que tantas vezes me dominou, está longe de mim.

Sinto-me um cara insignificante, com alma de manual escolar.

Sei que você percebe onde quero chegar.

Eu sei aonde o professor Carlos queria chegar. E, por saber, fiquei em silêncio, num fraterno e comovido silêncio.

Que poderei dizer, amigo Carlos, que não seja deturpado por aqueles a quem convém que o silêncio protetor da mediocridade o esmague? Que eu poderei escrever, que não seja açoitado por aqueles que roubam a sua “poesia interior”?

Alguém quis que eu ouvisse uma criança:

Vovô, hoje, aconteceu uma coisa muito importante na minha vida.

Quando acordei, chamei a minha mamãe e disse: “Tona chupeta.

Num qué!”(tradução: Toma a chupeta. Não a quero!).

 

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Como sindicalista, senti-me traído. Como professor, envergonhado. Não é fugindo que se conseguirá valorizar a imagem social da nossa profissão – é encarando os desafios.

A Resolução 946 vem fora de hora, é mera distração de políticos, mas os professores não devem jogar fora o menino com a água do banho... deve-se aproveitar a oportunidade para abrir um debate sério sobre o assunto.

A taxa de repetência na 1a série do ensino fundamental no Brasil não anda longe dos 40%. Muitos alunos chegam à 4a série sem terem aprendido a ler. E logo se aponta a “progressão continuada” (prefiro o espírito e a letra desta designação) como responsável, esquecendo que os estados com maior taxa de repetência não adotam o sistema de ciclos nem a chamada

“aprovação automática”.

No mesmo jornal, mas há mais de três anos, também li:

”A organização pedagógica consagrada é baseada na avaliação constante e não em notas e repetência. Mas a implantação é falha. É mais uma história da boa ideia que foi mal-aplicada e mal-entendida. A falta de discussão e preparação para a organização pedagógica em ciclos e a progressão continuada manchou o nome de uma concepção de educação consagrada. Muitos pais, professores e até o presidente da República ainda não entendem a proposta.” A memória é curta. E, talvez por isso, ouvi uma professora exclamar: “Que bom que ainda há aluno repetindo o ano! Isso prova que ainda há escolas sérias que

 

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