Fundamentos Psicanalíticos

Autor(es): David E. Zimerman
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O propósito deste livro é o de sintetizar os princípios fundamentais do método psicanalítico – teoria, psicopatologia, técnica e prática clínica – com uma abordagem didática sem, no entanto, perder uma necessária simplicidade e acessibilidade.Errata: Na página 456, o autor faz referência equivocadamente a uma poesia de Cyro Martins. O texto é de autoria de Clara Feldman, sob o título “Convite”, publicado originariamente em 1983 na obra Construindo a Relação de Ajuda.

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1 Evolução Histórica da Psicanálise

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1

Evolução Histórica da Psicanálise

Todo texto psicanalítico, quer seja ele de natureza teórica ou técnica, para adquirir um significado vivencial e uma ressonância empática com o autor e o assunto, necessita ser lido dentro de um contexto histórico-evolutivo, social, cultural e científico no qual está inserido.

Assim, utilizando um recurso unicamente de finalidade didática, penso que podemos dividir a história da assistência aos transtornos mentais e emocionais em três grandes períodos: pré-história, pródromos científicos e psicanálise como ciência.

PRÉ-HISTÓRIA

De forma esquemática, convém enumerar os seguintes aspectos que podem dar uma idéia da evolução de como nossos ancestrais entendiam e enfrentavam as doenças mentais:

• Existem registros arqueológicos no antigo

Egito que comprovam a prática de trepanações cranianas possivelmente feitas com o objetivo de localizar alguma causa da doença mental que estaria localizada dentro do crânio, porquanto os vestígios encontrados atestam uma regularidade nas bordas e uma apurada perícia na execução daquela prática.

 

2 Psicoterapia e Psicanálise: Semelhanças e Diferenças

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Psicoterapia e Psicanálise:

Semelhanças e Diferenças

As semelhanças e diferenças entre o que se costuma denominar “psicanálise” e “psicoterapia”, assim como as suas convergências, divergências, tangências e superposições, têm sido muito estudadas e discutidas, principalmente a partir da década de 40, sendo que, na atualidade, tais questionamentos continuam plenamente vigentes, controvertidos e polêmicos.

A relevância deste tema pode ser medida por dois tipos de parâmetros: os objetivos e os subjetivos. Os primeiros manifestam-se por meio de uma relativamente grande quantidade de trabalhos que se dedicam ao assunto, assim como também a efetivação, em diferentes épocas, de mesas-redondas, inclusive em congressos internacionais, reunindo psicanalistas de renome, sendo que as opiniões deles em relação às diferenças e semelhanças entre psicoterapia e psicanálise tanto são convergentes como também aparecem essencialmente diferentes entre si. Da mesma forma, tem crescido o número de projetos de pesquisa relativos a este polêmico assunto, por parte de instituições sérias, enquanto, ao mesmo tempo, não é difícil perceber a existência de um clima algo constrangedor entre aqueles que praticam a “psicanálise oficial” e aqueles que fazem, ou fizeram, uma paralela formação de base psicanalítica.

 

3 As Sete Escolas de Psicanálise

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As Sete Escolas de Psicanálise

Em épocas passadas, os analistas ficavam radicados em uma única escola psicanalítica e buscavam precipuamente aquilo que dividia os autores da psicanálise; na atualidade, muitos cometem um exagero oposto, buscando unicamente aquilo que os reúne e unifica. No primeiro caso, corremos o risco de cair num extremo de um teoricismo ou de um excessivo pragmatismo, enquanto a posição extremada de uma sistemática busca de unificação pode representar o risco de um ecletismo empobrecedor. Embora ainda persistam manifestas querelas narcisistas entre os seguidores das distintas correntes psicanalíticas, em que cada uma delas arvora-se como a representante da “verdadeira psicanálise” e luta por excluir as demais, a nítida tendência atual consiste em evitar as posições polarizadas, promover uma formação pluralista de cada analista praticante e aproveitar as vantagens de pensarmos analiticamente a partir de uma multiplicidade e diversidade de vértices, muitas vezes convergentes, outras vezes divergentes e até contraditórias, porém, até um certo ponto possíveis de serem integradas e reversíveis entre si.

 

4 A Psicanálise Contemporânea

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A Psicanálise

Contemporânea

A psicanálise comemorou recentemente um século de existência. Nestes 100 anos, acompanhando as modificações que se processaram em todas as áreas científicas e no pensamento humanístico em geral, também a psicanálise sofreu – e vem sofrendo – profundas transformações, a ponto de, na atualidade, se comparada com os tempos pioneiros de Freud, não exagerarmos ao dizer que ela está quase irreconhecível. Isso se deve não só ao crescimento do número de correntes psicanalíticas, cada uma delas com concepções contestadoras, inovadoras ou ampliadoras, mas também pelo fato de que cada uma delas também vem passando por sucessivas mudanças, desde as suas formulações originais.

Assim, talvez possa servir de exemplo, para ficar em um único, a forma como a escola kleiniana concebeu inicialmente o problema da “inveja” na teoria e técnica da psicanálise e como é hoje: para

M. Klein, mais precisamente a partir de 1957, a inveja primária é sinônimo de “pulsão de morte”, de sorte que ela é inata e, independentemente de alguma frustração externa, o bebê já nasce devotando um “ódio ao seio materno”, que ele vivencia como sendo “mau”. Essa postulação metapsicológica, seguindo o princípio de que toda mudança teórica é seguida de uma mudança técnica, e viceversa, acarretou para as gerações de analistas kleinianos uma forma de analisar que consistia primordialmente em encarar as manifestações transferenciais a partir desse vértice da inveja primária, ou seja, de ataques sádico-destrutivos contra as fontes geradoras de alimentos (mãe no passado, analista no presente), seguidos de culpas, medo de uma retaliação persecutória, necessidade de reparações, etc. Embora haja bastante respaldo nessa perspectiva, ela pecava pelo excesso e quase exclusivismo dessa abordagem na prática clínica,

 

5 A Estrutura e o Funcionamento do Psiquismo

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A Estrutura e o Funcionamento do Psiquismo

O simples título deste capítulo dá uma idéia da enorme abrangência conceitual que ele permitiria

– virtualmente toda a psicanálise –, caso a pretensão fosse a de uma completude, o que, praticamente, demandaria um livro especial. Destarte, o propósito do presente texto é eminentemente de natureza pedagógica, tentando estabelecer uma síntese, quase que à moda de um glossário, a fim de situar aquele leitor que ainda não esteja completamente familiarizado com as, essenciais, concepções genético-dinâmicas que fundamentam a metapsicologia, teoria, técnica e prática da psicanálise. Por esta razão, a maioria dos conceitos deste capítulo aparece repetida em diversos outros capítulos.

PRINCÍPIOS BÁSICOS DE FREUD

O termo “princípio” é bastante utilizado nas ciências em geral, e designa um “ponto de partida” para a construção de um sistema ideativo-cognitivo que mantenha uma certa lógica. Pode-se depreender a existência de vários e distintos princípios que estejam agindo simultaneamente e interagindo entre si, embora cada um deles mantenha uma autonomia conceitual, com regras e leis específicas. No campo da psicologia e da psicopatologia, rastreando historicamente as então revolucionárias concepções de

 

6 A Formação da Personalidade

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A Formação da

Personalidade

São tantos e tão diversificados os fatores que estão em permanente interação e influência na formação da personalidade que talvez fosse mais adequado nomear este capítulo de construção da personalidade. Isso justifica-se porque a evolução da psicossexualidade não se processa de uma forma linear, obedecendo a uma prévia programação de natureza genética, mas sim ela deve ser construída, durante um longo tempo, levando em conta os fatores constitucionais inatos da criança e os que serão adquiridos pela influência do meio ambiente exterior, principalmente a influência dos pais.

Assim, continua válida a clássica “equação etiológica” (ou “série complementar”) formulada por Freud (1916), pela qual ele postula que são três os fatores formadores da personalidade da criança: 1) Os heredo-constitucionais (anlage). 2) As antigas experiências emocionais com os pais. 3)

As experiências traumáticas da realidade da vida adulta. Na atualidade, os autores costumam reduzir esta equação a um simples assinalamento de que há uma permanente interação entre nature (fatores biológicos) e nurture (fatores ambientais).

 

7 O Grupo Familiar: Normalidade e Patologia da Função Materna

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O Grupo Familiar:

Normalidade e Patologia da Função Materna

Na atualidade, é consensual entre todos os psicanalistas, independentemente se a orientação conceitual dos mesmos inclina-se mais para o foco pulsional ou ambiental, o fato de que o grupo familiar exerce uma profunda e decisiva importância na estruturação do psiquismo da criança, logo, na formação da personalidade do adulto.

contribuem para este estado de coisas são, entre outros, os seguintes: • Um novo significado de família, com novos valores, expectativas e papéis a serem desempenhados. • Uma maior emancipação da mulher, que geralmente deve trabalhar fora e que, por isso, deve fazer uma extenuante ginástica para conciliar as funções de maternagem com as profissionais. • Em contrapartida, também o perfil do homem tem mudado bastante, especialmente quanto à sua maior participação na economia doméstica e nos cuidados precoces com os filhos. • Igualmente os avós, de modo geral, não têm mais o mesmo tipo de uma disponível participação ativa que tinham junto aos netos. • O crescente índice de divórcios e recasamentos, sendo que neste último caso acresce o fato de uma mistura dos respectivos filhos. • Um número cada vez maior de mães adolescentes e solteiras. • Uma crescente mentalidade consumista, em grande parte ditada pela “mídia”, que também exerce uma influência na formação de valores ideológicos. •

 

8 Trauma e Desamparo

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Trauma e Desamparo

Entendi ser útil incluir o presente capítulo neste livro pela razão de que, cada vez mais, aumenta o contingente de pessoas, em condições bastante regressivas, que procura tratamento analítico, de modo que, paralelamente, também vem aumentando significativamente o interesse dos psicoterapeutas pelos traumas – físicos e psicológicos – que tais pacientes sofreram na sua primitiva infância e que provocaram a mais dolorida das angústias: a de um estado de desamparo.

O conceito de “trauma” aparece na literatura psicanalítica com vários significados, sendo que inclusive nos trabalhos de Freud ele também sofreu consideráveis modificações. Um passeio pelas distintas correntes psicanalíticas permite perceber que as noções de “trauma” e de “desamparo” aparecem com terminologia distinta, porém com significados equivalentes. Assim, importa mencionar os seguintes autores representantes das sete escolas de psicanálise, embora não se pretenda, aqui, dar mais do que uma pálida idéia das concepções de cada um deles.

 

9 As Pulsões do Id

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As Pulsões do Id

Este capítulo que trata do id, juntamente com os dois seguintes, que enfocam o ego e o superego, compõem aquilo que, na “teoria estrutural” de

Freud, costuma ser denominado “estrutura tripartite da mente”. Convém, portanto, esclarecer o conceito da palavra “estrutura”, em psicanálise: ela define um conjunto de elementos que se constituem numa relação organizada, e que, portanto, são rigorosamente intedependentes entre si, não obstante o fato de cada um deles, separadamente, conservar uma relativa independência. Assim, toda estrutura

é um sistema, ligado de um modo tal que qualquer mudança produzida em um elemento provoca mudança nos demais.

Depreende-se daí que as pulsões do id, as funções do ego, os mandamentos do superego e a realidade ambiental externa agem entre si de forma continuada e indissociada, um influenciando ao outro, e somente serão abordados em capítulos distintos pela razão de obediência a um esquema didático de exposição.

 

10 As Funções do Ego

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As Funções do Ego

O significado do termo “ego” aparece na literatura psicanalítica de uma forma algo ambígua e pouco uniforme entre os distintos autores, podendo, por isso, causar algum tipo de confusão conceitual. Esse clima algo confusional pode ser exemplificado com quatro situações: 1) Alguns desses autores utilizam a escrita minúscula “ego” para designar essa conhecida instância psíquica, e reservam a grafia “Ego”, com a letra “e” maiúscula para indicar o que atualmente se entende por self.

2) Os psicanalistas da Escola Francesa de Psicanálise, que tem uma larga produção e divulgação no mundo psicanalítico, costumam empregar dois termos em relação ao ego: um é “je”, que designa mais especificamente o ego como uma instância psíquica encarregada de funções; o outro é “moi”, que se refere mais precisamente a uma representação da imagem que o sujeito tem de “si mesmo”, logo, do seu sentimento de identidade. 3) O próprio Freud, ao longo de sua obra, empregava no original alemão tanto a expressão “das ich” (geralmente com o acima mencionado conceito de “je”) como também usava “zelbst” (com o significado de “si mesmo”); porém, às vezes, ele usava-os indistintamente, o que veio a aumentar a imprecisão conceitual. 4)

 

11 Os Mandamentos do Superego

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Os Mandamentos do Superego

O termo superego foi introduzido por Freud

(com o nome original, em alemão, de Uber-Ich) e aparece pela primeira vez na literatura psicanalítica no seu clássico trabalho de 1923, O ego e o id, integrando a segunda teoria do aparelho psíquico, ou seja, a teoria estrutural. Nessa publicação, Freud descreve o superego como uma instância psíquica que se separou do ego – encarregou-se das funções de um juiz representante da moral, legislador de leis e proibidor das transgressões dessas leis – e passou à condição de poder dominar ao próprio ego que lhe deu origem, como demonstram os estados de melancolia em que o indivíduo é criticado por uma parte, sua, que emite mandamentos que provêm desde dentro dele próprio.

Antes disso, em 1914, no seu célebre Uma introdução ao narcisismo, Freud empregou a expressão ideal do ego (Ichideal) para designar uma formação intrapsíquica relativamente autônoma, que

é uma substituta do narcisismo perdido do sujeito e que lhe serve de referência para apreciar as realizações de seus próprios ideais. Em 1921, no trabalho Psicologia das massas e análise do ego, Freud voltou a empregar o termo “ideal do ego” como sendo uma formação nitidamente separada do ego, o que lhe permitiu explicar a “submissão dos grupos ao líder” – como pode ser o comandante de uma tropa militar – ou Jesus Cristo para os religiosos, os quais são idealizados coletivamente, e em quem os indivíduos depositam os seus próprios

 

12 Inveja: Pulsão ou Defesa?

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Inveja: Pulsão ou Defesa?

O sentimento de inveja é, seguramente, um dos fenômenos que mais têm merecido da literatura psicanalítica um minucioso e aprofundado estudo quanto às suas causas e conseqüências. Uma revisão dos autores em relação ao estudo da inveja permite verificar quão importante e controvertida é a sua conceituação, tanto do ponto de vista da metapsicologia como da teoria e das aplicações na prática psicanalítica.

Inicialmente, cabe fazer uma distinção entre conceitos que, embora assemelhados, têm características próprias e específicas, tal como são os sentimentos de inveja, ciúme, voracidade, despeito e admiração. Neste trabalho, empregamos a seguinte conceituação de cada um deles:

INVEJA

Implica uma relação de objeto com uma-únicaoutra pessoa, e sempre remonta a uma relação diádica e exclusiva com a mãe, a quem o sujeito invejoso quis incorporar e ter a qualquer preço.

Aliás, a etimologia da palavra inveja, formada pelos étimos latinos “in” (dentro de) e “vedere”

 

13 Posições: A Posição Narcisista

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Posições: A Posição Narcisista

Segundo Baranger (1971), o conceito de “posição”, na obra de M. Klein, alude a uma constelação de fenômenos inter-relacionados, como: o tipo de angústia predominante em uma determinada situação (a paranóide ou a depressiva); os mecanismos defensivos utilizados para dominá-las; as pulsões que estão em jogo; as características dos objetos que estão envolucrados nessa constelação; a qualidade e a intensidade das fantasias inconscientes ativadas; o estado das instâncias psíquicas do ego e do superego; os sentimentos e os pensamentos do sujeito – tudo isso configurando uma totalidade em movimento na qual nenhum fator pode ser considerado de forma independente de todos os demais.

M. Klein inicialmente descreveu três tipos de posições: a esquizoparanóide, a depressiva e, entre elas, situou a posição maníaca, porém, ao longo de sua obra, desconsiderou a última e adotou a sua concepção definitiva das duas primeiras posições. As passagens da “posição esquizoparanóide” para a “posição depressiva”, e vice-versa, com as oscilações entre ambas, acompanham-se de modificações e transformações da estrutura e do funcionamento dos objetos internalizados e, de forma correlata, determinam as mesmas modificações no sujeito.

 

14 Vínculos: O “Vínculo do Reconhecimento”

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Vínculos: O “Vínculo do

Reconhecimento”

A psicanálise contemporânea inclina-se, cada vez mais, para o paradigma da vincularidade, isto

é, para o fato de que o processo psicanalítico consiste sempre em uma interação entre analisando e analista, a partir dos vínculos que se estabelecem entre ambos e que constituem o campo psicanalítico.

Por outro lado, o universal sentimento de uma necessidade de reconhecimento, por parte da criatura humana, aparece na literatura psicanalítica desde os seus primórdios até a atualidade, em diversos autores de distintas correntes psicanalíticas, com denominações, abordagens e contextos diferentes. Em uma detida revisão da literatura ao meu alcance, em meio às múltiplas referências à importância deste genérico “sentimento de reconhecimento”, não consegui encontrar mais do que alusões passageiras e eventuais, embora relevantes e férteis, e senti falta de um texto que objetivasse darlhe uma integração, consistência e destaque.

 

15 Sonhos: Formação e Funções

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Sonhos: Formação e Funções

FREUD

Até antes das descobertas de Freud, a busca de entendimentos dos sonhos, que desde sempre acompanham os seres humanos, estava entregue aos demiurgos e charlatães em geral que procuravam extrair anúncios proféticos, premonitórios, mensagens de espíritos ou interpretações fantásticas. Da mesma forma, na época em que a ciência começava a dar os seus passos mais firmes, coube aos filósofos e a alguns médicos neuropsiquiatras tentarem desvendar os mistérios e enigmas contidos no ato de dormir e de sonhar, mas não conseguiram passar do plano das especulações, além de também, insistirem na tecla de emprestarem a cada fragmento simbólico, de qualquer sonho, um determinado significado específico, o qual valeria para todas pessoas.

A partir de Freud, mais exatamente em 1900, com a elaboração e publicação do seu mais famoso livro – A interpretação dos sonhos –, os sonhos não só ganharam uma nova dimensão científica, como também o aprofundamento de seu estudo abriu as portas para a consolidação da teoria da psicanálise. Esse trabalho, no qual Freud traz uma abundância de sonhos pessoais, representa um marco essencial na história da psicanálise pelas seguintes razões: 1) Representa a primeira análise

 

16 O Espelho na Teoria e na Prática Psicanalítica

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• A imagem reproduzida no espelho das águas

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O Espelho na Teoria e na Prática Psicanalítica

O espelho é tão antigo como a história da humanidade. Muito antes de adquirir a forma científica de um vidro com a parte posterior recoberta por uma amálgama, os primitivos miravam-se no espelho das cristalinas águas paradas e construíram suas crendices diante do misterioso fenômeno da reflexão.

Sob diversas formas, é relevante a presença do espelho em todas as áreas humanísticas, como arte, literatura, folclore, religião, mitologia, ciência e, naturalmente, nas concepções psicanalíticas, sendo que essas últimas é que constituirão o enfoque principal deste capítulo.

A função do espelho é indissociável da função do olhar e, por isso, creio ser útil repassar alguns dos mitos que a envolvem, com o propósito de embasar as considerações analíticas que seguem.

A mitologia e a bíblia mostram-nos a freqüência com que o ato de olhar foi significado de forma persecutória. Assim: • As filhas e a mulher de Ló foram transformadas em estátuas de sal por terem desobedecido a proibição de Deus no sentido de que não mirassem os pecados de Sodoma e

 

17 Neuroses

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Neuroses

No início de sua obra, Freud dividiu os transtornos emocionais, que então ele denominava psiconeuroses, em três categorias psicopatológicas:

1) As neuroses atuais (que estavam em desuso na psicanálise, mas que recentemente voltam a ocupar, com esse mesmo nome, um lugar de destaque, principalmente a partir dos estudos com pacientes somatizadores). 2) As neuroses transferenciais, também conhecidas como psiconeuroses de defesa (que eram as histerias, as fobias e as obsessivas). 3) As neuroses narcisistas (que constituem os atuais quadros psicóticos). Freud afirmava então que somente as neuroses transferenciais poderiam ser tratadas pelo método psicanalítico, visto a transferência ser a matéria-prima da psicanálise, e, na época, a psicanálise não reunia condições para perceber a existência da transferência naqueles pacientes que estavam em um estado de encapsulamento narcisístico próprio das psicoses.

De lá para cá, muita coisa modificou substancialmente na ciência da psicanálise e na da psiquiatria: as síndromes da psicopatologia foram ganhando uma crescente compreensão genético-dinâmica e paralelamente os autores foram ampliando, subdividindo, diversificando, construindo novos modelos e, portanto, aumentando a complexidade nosológica, tal como aparece nas modernas classificações diagnósticas, como o DSM ou o CID. Seguindo o planejamento do presente livro, fica evidente que este capítulo não ficará reduzido à simplória (vista de hoje) classificação original de

 

18 Histerias

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Histerias

Deliberadamente, preferi a forma plural (histerias) para titular este capítulo, tendo em vista que existe um largo leque de possibilidades de como o termo “histeria” costuma aparecer nos textos psicanalíticos, com formas e significados muitas vezes bastante distintos e até algo contraditórios entre si. Tanto é assim, que a histeria é o campo mais amplo da psicanálise, como também é o mais próximo da normalidade convencional, a tal ponto que, de certa forma, poderia abarcar a todas aquelas pessoas que se caracterizam por uma nítida predominância do emprego de repressões.

Mais ainda: o conceito de histeria abrange muitas modalidades e graus de quadros clínicos dentro da categoria de “neurose histérica”, porém também permite ser abordado de outros vértices, como o de uma “personalidade (ou caracterologia) histérica” ou o da possível presença de “traços histéricos” em praticamente todas as personalidades normais ou psicopatológicas, inclusive em psicóticos.

Pode servir como exemplo o fato de que, considerando unicamente a “neurose histérica”, a mesma costuma ser descrita por múltiplos pontos de vista: assim, do ponto de vista psiquiátrico, essa histeria costuma ser dividida em dois tipos, a conversiva e a dissociativa, mais adiante explicitadas.

 

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