Das coisas ao redor

Autor(es): Marcos Beccari
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Olhando para as coisas ao redor e o modo como instauram processos de subjetivação, Marcos Beccari percorre, neste belíssimo livro, temas variados, como política, linguagem, ornamentos, mitos, tecnologia sexual, todos atravessados pelo design. Ao propor a noção de visualidade — complementar à de discurso — para pensar as coisas ao redor, o autor considera que, assim como o discurso não se reduz a um arranjo de enunciados, a visualidade não se limita a imagens, ao que é visível, já que também reflete e refrata a invisibilidade dos arredores. Assim, mais do que reproduzir, comentar ou aplicar o pensamento de Foucault ao design, Beccari investe no diálogo e, entre acréscimos, atualizações e contraposições, tece uma potente e original rede conceitual, de tal forma que Das coisas ao redor poderia muito bem se chamar Ao redor de Foucault. Rogério de Almeida - Professor da FE-USP

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INTRODUÇÃO

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Introdução

Jacques-Alain Miller: Não estou muito satisfeito com os conceitos abrangentes que você está utilizando; eles parecerem se diluir quando olhamos as coisas mais de perto.

Michel Foucault: Mas tudo isso é feito para ser diluído [...].1

O que vemos ao redor são as coisas que nos circundam? Ora, as coisas não podem ser vistas todas ao mesmo tempo. Mas, embora dois corpos não possam ocupar um mesmo espaço, é certo que um mesmo espaço possa conter vários olhares em disputa. Bem, talvez fosse mais fácil falar sobre o dentro e o fora, ou simplesmente sobre certas leis discursivo-visuais. Ocorre que nunca há um

“dentro” (eu não consigo vê-lo), tampouco leis que só alguns dizem ver (também não as vejo). O que há, então, para se ver?

Há somente o que está fora, ao redor, o que se dá a ver. E esse “ao redor”

é cinza. É um mundo de coisas ditas e embaralhadas, apagadas, reescritas várias vezes — de modo que ver é confrontar o que se dá a ver. Pois não há, como se diz, um consenso possível entre miradas ou posições dadas. Há, antes, diferentes focos, circunstâncias e ocasiões em que é possível entrever alguma regularidade em curso. Uma regularidade que se mostra como tal mediante o que dela se distingue, o que nela resta de

 

1 Um horizonte foucaultiano

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Um horizonte foucaultiano1

Cada nova obra altera profundamente os termos de pensamento que eu havia alcançado com a obra anterior. Nesse sentido, considero-me mais um experimentador do que um teórico […]. Quando escrevo, faço-o, acima de tudo, para mudar a mim mesmo, e não para pensar a mesma coisa que antes. — Michel Foucalt 2

Foucault foi um filósofo disposto a pensar diferente do que ele mesmo pensava.

Não construiu sua obra como um projeto unitário, formado de vários desdobramentos em torno das mesmas premissas (por mais que os termos e temas sejam recorrentes), e sim como uma tentativa permanente de recomeçar uma vez mais. O invariante, então, é a pergunta: como certos con1

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ceitos, práticas e valores nos levaram a ser o que somos, a

revisada e expandida de: Beccari,

fazer o que fazemos e a pensar como pensamos? E em cada

Marcos N. “O que significa ser

livro vemos uma nova tentativa de identificar as condições

 

2 Língua e discurso, Flusser e Foucault

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Língua e discurso, Flusser e Foucault1

Decisivo, na relação com a arte, é estar disposto a destruir tudo que se achava que sabia. Mas renunciando também à ideia de um saber mais profundo ou elevado, supostamente localizado além desse achar-saber. O que existe é o chão.

— Eduardo Sterzi

Propor um diálogo entre Flusser e Foucault implica, de saída, tentar contornar uma questão intransponível: tais pensadores não apenas apresentam interesses distintos, trajetórias peculiares e vocabulários demarcatórios, mas antes de tudo modos singulares de escrita e expressão. O valor da tentativa, no entanto, consiste em revelar que tais diferenças, se postas em perspectiva, coadunam-se em torno de uma prerrogativa em comum, algo que Deleuze e Parnet certa vez assim assinalaram: “As relações são exteriores a seus termos”. 2 Flusser e

Foucault buscaram demonstrar, cada qual ao seu modo, a exterioridade das relações que perfazem as conjunções heterogêneas entre palavras, modelos, práticas etc. Tal esfera relacional opera deslocando os termos e os reenviando a uma dispersão de fundo que lhes é imanente.

 

3 Política e visualidade

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Política e visualidade

O interessante não é ver que projeto está na base de tudo isso, mas, em termos de estratégia, como as peças foram dispostas.

— Michel Foucault 1

A noção de “visualidade” tem sido amplamente discutida no circuito acadêmico, sobretudo nos chamados estudos da cultura visual, mas também noutros campos, como no da crítica da arte e no da filosofia do design. Por conseguinte, as definições não cessam de ser disputadas, de modo que, cada vez que o conceito é adotado, tem de ser colocado entre aspas e definido uma vez mais.

Mesmo porque a discussão não é nova e, em certa medida, dá continuidade (o que também não é pacífico) ao velho debate em torno da representação, desde a sua interdição platônica, passando por Plínio, Vasari, Ruskin até Gombrich e

Panofsky. Mas a questão representacional já não comporta, de fato, toda a dimensão que a “visualidade” veio a alçar no decorrer do século XX — desde quando, por exemplo, Benjamin salientava a circulação política das imagens, e Merleau-Ponty enfatizava a corporeidade da visão, Lacan o custo psíquico do olhar, Fanon sua importância colonialista etc. Sem contar, ademais, toda a contenda advinda da chamada “virada linguística”, como se vê ao longo da obra de Barthes, que se estende do estruturalismo ao pós-estru1

 

4 Contra-visualidades

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Contra-visualidades1

A contra-visualidade propriamente dita é a reivindicação do direito de olhar.

É o dissenso com a visualidade, significando uma disputa sobre o que é visível enquanto elemento de uma situação, sobre quais elementos visíveis pertencem ao comum, sobre a capacidade dos indivíduos para identificar este comum e reivindicá-lo. — Nicholas Mirzoeff 2

Ao falar em termos de “direito de olhar”, Nicholas Mirzoeff salienta que não se trata de uma reivindicação do tipo “direito à liberdade”, como na prédica da Revolução Francesa, pois o olhar faz alusão, aqui, a algo mais elementar: o direito

à existência, que o autor associa à Revolução Haitiana. Não custa lembrar, nesse

ínterim, que os Estados Unidos, uma vez já independentes da Grã-Bretanha, recusaram-se a reconhecer a independência do Haiti, posto

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que esta decorrera diretamente de uma rebelião bem-suce-

revisada e expandida de: Beccari,

 

5 Do ornamento ao design

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Do ornamento ao design1

Pode-se afirmar que, quando se conseguiu superar a separação entre arte e técnica, abriu-se um horizonte dentro do qual podemos criar designs cada vez mais perfeitos, liberar-nos cada vez mais de nossa condição e viver de modo cada vez mais artificial (mais bonito). […] A palavra design adquiriu a posição central que tem hoje no discurso cotidiano porque estamos começando (e provavelmente com razão) a perder a fé na arte e na técnica como fontes de valores. Porque estamos começando a entrever o design que há por trás delas. — Vilém Flusser 2

Embora Flusser não se considerasse um nietzschiano, o trecho acima parece-me análogo ao seguinte aforismo de Nietzsche: “Tudo o que tem algum valor no mundo atual não o tem em si, não o tem por sua natureza — a natureza é sempre sem valor — mas um dia ganhou valor, como um dom, e nós somos os doadores. Fomos nós que criamos o mundo que diz respeito ao homem!”. 3

Flusser emprega um raciocínio similar ao localizar o design

 

6 Arte e design sob outros critérios

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Arte e design sob outros critérios

Um modo de enfrentar as provocações de uma nova arte é permanecer firme e manter princípios sólidos. Os princípios são estabelecidos pelo gosto experimentado dos críticos e por sua convicção de que só serão significativas as inovações que promoverem a direção já estabelecida da arte avançada. O demais é irrelevante. Julgada pela “qualidade” e por um “avanço” mensurável por determinados critérios, cada obra é então graduada numa escala comparativa.

Há um segundo modo que é mais producente. O crítico interessado numa nova manifestação mantém afastados seus critérios e seu gosto. Uma vez que foram formulados com base na arte anterior, ele não presume que sejam adequados para a arte de hoje. Enquanto busca compreender os objetivos subjacentes à nova arte produzida, nada é excluído ou julgado irrelevante a priori. Já que não está dando notas, ele suspende o julgamento até que a intenção da obra entre em foco, e sua reação será — no sentido literal da palavra — de empatia; não necessariamente para aprovar, mas para sentir junto dela como junto de uma coisa que não se parece com nenhuma outra. — Leo Steinberg 1

 

7 Terreno baldio

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Terreno baldio1

O embaraço que faz rir quando se lê Borges é por certo aparentado ao profundo mal-estar daqueles cuja linguagem está arruinada: ter perdido o “comum” do lugar e do nome. Atopia, afasia. — Michel Foucault 2

Por pertencer a todos e a ninguém, o espaço supostamente comum da linguagem é também um território acirrado de disputas e resistências. Se, para

Foucault, poder e saber são vetores de forças estrategicamente articulados,

é porque a condição de conflito é constitutiva da linguagem, da formação dos saberes, dos processos histórico-sociais e de subjetivação. Não se trata de antagonismo, mas de “agonismo”: as posições não apenas se opõem, mas antes interagem e tencionam umas às outras. Seguindo esse olhar foucaultiano que enxerga diagramas de forças sem centro, proponho neste capítulo refletir sobre certo “terreno baldio” em que circulam as verdades contemporâneas, esse espaço anônimo e partilhável da linguagem que dispara novos modos de injunção e de enfrentamento no tocante às disposições políticas do tempo presente.

 

8 A dispersão de Fausto

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A dispersão de Fausto1

De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? — Michel Foucault 2

O mito de Fausto, como se sabe, é associado principalmente à imagem do homem moderno em sua busca do saber absoluto, da superação da morte e do impulso por satisfazer seus desejos a qualquer custo e até em sacrifício de si mesmo. Não é raro, pois, pensar em Fausto como uma versão de Prometeu, embora a difusão literária do mito faustiano, que se diversifica desde o século

XVI, não possa decerto ser reduzida a uma única versão. O personagem, afinal, é sem dúvida um dos mais recorrentes e mais reinterpretados da cultura moderna. Muito já se debateu, ademais, sobre as possíveis roupagens contemporâneas de Fausto, como a do desejo humano de fabricar a vida ou

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Este capítulo é uma versão

revisada e expandida de: Beccari,

Marcos; Almeida, Rogério de. “A

 

9 O espelho de Drácula

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O espelho de Drácula1

[...] que a beleza quebre o espelho com tempo e com astúcia, e não com impaciência depois, ao ver seu desengano. — Baltasar Gracián 2

E um pôr-do-sol é belo por tudo aquilo que nos faz perder. — Antonin Artaud 3

A mitologia que era cantada pelos antigos poetas não chegou a nós como uma religião. Desde a conversão do Império Romano ao cristianismo, no século IV, os cultos às divindades do Olimpo se extinguiram. Esses personagens greco-romanos passaram, então, ao registro da literatura, da filologia, do entretenimento. Eles ainda persistem, e persistirão, pois permane1

Este capítulo é uma versão

cem fortemente vinculados às mais notáveis produções da

revisada e expandida de: Beccari,

poesia e das belas artes, antigas e modernas, para caírem no

Marcos; Almeida, Rogério de.

esquecimento. Só que a compreensão atual do mundo não

“A morte infinita: uma breve genealogia de Drácula”. In: Araújo,

se abstém de novos mitos que, embora dispersos, retomam

 

10 A dissimulação de DFW

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A dissimulação de DFW1

Ninguém entende os motivos de um suicida. Ninguém. A única pessoa talvez capaz de entendê-los é morta pelo ato. — Caetano Galindo 2

Este capítulo não trata de suicídio enquanto ato intencional de pôr fim à própria vida, e sim do mito literário que o nome David Foster Wallace se tornou após o suicídio do autor. A tal advertência devo acrescentar outra: falar sobre Wallace,

“um autor universalmente reconhecido por ter sido expresEste capítulo é uma versão

samente obcecado com a mediação em todas as suas for-

revisada e expandida de: Beccari,

mas paradoxais”, 3 implica assumir a impostura de que seu

1

Marcos. “Você acaba se tornando você mesmo? O personagem

nome será uma vez mais distorcido, duplicado, enviesado,

David Foster Wallace”. Criação

tornado enfim personagem. Mas reitero o primeiro ponto:

& Crítica, n. 23 (Dossiê “Morrer pelas próprias mãos: Literatura e

não resta aqui o menor interesse sobre o que levou Wallace,

 

11 Design e a tecnologia sexual

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Design e a tecnologia sexual

A metafísica da falta, que certas teologias e certas formas de psicanálise compartilham, gostaria de nos convencer de que falta alguma coisa a todos nós.

Dizem-nos que o mundo está em ordem porque às mulheres falta o pênis, porque aos homens falta os úteros/seios, porque aos homens e às mulheres falta o “falo transcendental” — ou o megadildo. Dizem-nos que aos animais falta a alma, e que

às máquinas cibernéticas falta a carne e a vontade que as conexões elétricas vêm compensar com um excesso de informação... Não nos falta nada. [...] Não nos falta nem o pênis nem os seios. O corpo já é um território pelo qual órgãos múltiplos e identidades diversas cruzam. — Paul B. Preciado 1

Em nenhum dos quatro volumes da História da sexualidade 2 Foucault aborda a sexualidade como uma questão isolada e autônoma, e sim como resultante de tudo o que historicamente a instituiu ao seu redor. A começar pela conjuntura do século XIX: a histerização do corpo feminino, a pedagogização do sexo da criança, a socialização reguladora das condutas de procriação e a psquiatrização do prazer perverso/desviante. No primeiro volume da História da sexualidade, tais questões são abordadas à luz de um processo maior que remonta a transformação da sociedade europeia do final do século XVIII, saindo de um regime de poder soberano em direção a um regime de poder disciplinador, até culminar no regime do biopoder — isto é, aquele que planeja e regula

 

Coordenadas para além dos arredores

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Coordenadas para além dos arredores

Há um otimismo que consiste em dizer: de todo modo, isso não pode ser melhor. Meu otimismo consiste mais em dizer: tantas coisas podem ser mudadas, frágeis como são, ligadas a mais contingências do que necessidades, a mais arbitrariedades do que evidências, mais a contingências históricas complexas mas passageiras do que a constantes antropológicas inevitáveis... você sabe dizer: somos muito mais recentes do que cremos, isto não é uma maneira de abater sobre nossas costas todo o peso de nossa história, é mais colocar

à disposição do trabalho que podemos fazer sobre nós a maior parte possível do que nos

é apresentado como inacessível. — Michel Foucault 1

1

Foucault, Michel. “É importan-

te pensar?”. In: ______ . Ditos e Escritos VI: Repensar a política. Rio

Como dito na Introdução, o meu objetivo com este trabalho foi traçar algumas coordenadas para a investigação do dis-

de Janeiro: Forense Universitária,

 

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