Psicologia de Família

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Diante das múltiplas configurações familiares presentes no cenário social contemporâneo, torna-se cada vez mais importante o desenvolvimento de pesquisas que aprofundem a compreensão sobre as questões relacionadas ao casal e à família. Nesta 2ª edição revisada e ampliada, o leitor encontrará toda a pluralidade do campo das teorias de família. Entre os tópicos abordados, destacam-se: panorama geral sobre famílias e casais no contexto brasileiro; programas de intervenção para treinamento de pais e para resolução de conflitos na conjugalidade; maus-tratos na infância, transtornos da aprendizagem, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade e desenvolvimento vocacional de jovens; aspectos familiares referentes ao Judiciário e ao contexto social, como divórcio, suicídio, vulnerabilidade social, saúde psicossocial e diversidade sexual.

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1 Família e intergeracionalidade

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1

Está bem documentado pela literatura científica e pelo senso comum que a família é uma instituição muito importante e tende a estar presente em grande parte da vida dos indivíduos. Mas será que é possível gerar hipóteses acerca de futuros padrões cognitivos e comportamentos de seus membros por meio da análise da dinâmica familiar?

Diversas pesquisas se propõem a analisar os membros familiares e como a dinâmica nessa instituição pode influenciá-los ao longo de suas vidas. Esse tipo de investigação, chamada intergeracional, pode ser de grande valia para o entendimento e a predição de padrões cognitivos e comportamentos em indivíduos com base em sua vivência com a família. Assim, o presente capítulo tem como objetivo apresentar, mesmo que de forma introdutória, o conceito de intergeracionalidade e seus desdobramentos, bem como demonstrar sua importância para a compreensão do histórico e da dinâmica familiar.

Pretende-se inicialmente conceituar a instituição família, mostrando sua relevância para os indivíduos. A seguir, a temática intergeracionalidade será apresentada, embasando-a principalmente na teoria da aprendizagem social. Para a elaboração do conteúdo deste capítulo, foi realizada uma busca na literatura científica nacional e internacional dos últimos 20 anos, visando a mostrar ao leitor a consistência dos achados e apresentar mudanças nítidas no escopo das pesquisas sobre família. É cada vez mais presente na sociedade – esta também objeto de pesquisas – a investigação de famílias com diferentes configurações, ou seja, não apenas a análise da família nuclear (pai, mãe e filhos), mas também a de outros modelos, como recasados, uniões homoafetivas, entre outros. A partir dos artigos encontrados na revisão da literatura, foram elaborados tópicos que buscaram relacionar temáticas específicas (suporte familiar, estilos parentais, depressão, conflitos familiares, comportamentos violentos e criminalidade) com a intergeracionalidade.

 

2 A família na visão sistêmica

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A relação entre as ciências permite compreender que toda a verdade sobre o homem só pode vir da diversidade dos elementos que a constitui. O grande desafio atual tem sido aproveitar o intercâmbio intercultural gerado pelo choque das diferentes percepções que compõem os elementos de uma família e comunidade. Os valores culturais e os vínculos interpessoais de um grupo social fortalecem e fazem os elementos desse grupo descobrir o sentido de pertencimento, legitimando a identidade e a inclusão.

A cultura é vista como uma teia invisível que integra e une os indivíduos. Tudo está ligado, cada parte na visão sistêmica depende da outra. As crises e os problemas só podem ser entendidos e resolvidos dentro dessa rede complexa que envolve o biológico (corpo), o psicológico (mente e emoções) e a sociedade. Este pensamento que explora a multidimensionalidade tem como fundo epistemológico o entrelaçamento biológico cultural do viver humano em redes de conversações. A riqueza e a variedade das possibilidades de comunicação dentro do sistema permitem compreender os significados ligados ao comportamento humano. As vivências dolorosas e prazerosas são instrumentos de crescimento e de transformação pessoal e coletiva.

 

3 Família, depressão e terapia cognitivo-comportamental

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A terapia cognitivo-comportamental (TCC) vem ganhando espaço a cada dia como uma forma eficaz de tratamento para diversos transtornos psicológicos. Apesar do grande número de abordagens terapêuticas e das variações na forma de intervenção dentro das chamadas terapias cognitivas, o modelo desenvolvido por Beck, Rush, Shaw e Emery (1997) ainda exerce grande influência na prática terapêutica. Nesta modalidade de intervenção, busca-se compreender o funcionamento individual pela inter-relação entre as cognições, as emoções e os comportamentos, para então modificá-los. O modelo cognitivo trabalha com a hipótese de que os comportamentos e as emoções são influenciados pela maneira como os indivíduos processam as informações dos eventos diários. Isso significa que o modo como as pessoas interpretam as situações determina os seus sentimentos mais do que a situação em si. Mais especificamente, Beck (2013) postula a existência de três estruturas mentais interligadas, responsáveis pela interpretação dos eventos rotineiros, as crenças centrais, as crenças intermediárias e os pensamentos automáticos.

 

4 Sistemas e psicodinâmica: uma visão binocular para a terapia de casal

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O objetivo deste capítulo é descrever algumas contribuições das abordagens sistêmica e psicanalítica à terapia de casal, discutindo sua articulação em uma perspectiva epistemológica batesoniana, orientada pelo conceito de dupla descrição. Essa perspectiva tem como metáfora a visão binocular, na qual diferentes descrições, irredutíveis entre si, podem ser articuladas em suas diferenças e semelhanças, levando à emergência de uma nova descrição, com novas informações, irredutíveis às visões anteriores. Aspectos teóricos de ambas as abordagens são delineados, relacionando diferentes perspectivas e posições em seu desenvolvimento histórico. As possibilidades de articulação de diferentes perspectivas e técnicas são discutidas em termos epistemológicos e metodológicos.

A expressão “terapia de casal” refere-se a diversas modalidades de tratamento que buscam modificar o relacionamento conjugal com o objetivo de melhorar a satisfação conjugal e superar dificuldades do relacionamento. Além disso, busca lidar com disfunções conjugais, aumentar a resiliência do casal e oferecer apoio psicológico em momentos de crises conjugais que podem ser previsíveis, como as decorrentes do ciclo de vida familiar, ou imprevisíveis, como adoecimentos e pressões socioeconômicas, entre outras. A disfunção da conjugalidade pode manifestar-se em vários sintomas, como aumento do sofrimento de um ou de ambos os cônjuges, dos filhos ou da família extensa, incluindo somatizações, e o surgimento ou agravamento de quadros clínicos psicológicos ou médicos preexistentes. Esse foco implica que dois indivíduos razoavelmente saudáveis podem formar, apesar disso, um relacionamento conjugal disfuncional. Ou, de outro modo, dois indivíduos diagnosticados com quadros psicopatológicos podem formar casamentos funcionais, até certo ponto, por complementação de suas dificuldades.

 

5 Saudade da família no futuro ou o futuro sem família?

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Noite de sábado. Recebo o convite para jantar com uma família amiga: Talita e Nilson, casados há pouco mais de duas décadas. Estão à mesa também os dois filhos do casal (é necessário que se diga do casal para os objetivos do capítulo), Cleisson, de 21 anos, que estuda na escola militar, e Cássia, de 18 anos, que estuda medicina. Ao lado da mesa, está Lili, a cachorra de 11 meses, que faz parte da família, como “filhinha mais nova”. Durante o jantar, Talita tece o seguinte comentário:

– Se eu não insistisse, ele (referindo-se ao filho) ficaria mais um final de semana sem aparecer.

– Êh, mãe, que pegação de pé, dá um tempo. Eu não tô aqui?

O pai, até então calado, também se manifesta:

– Mas ela não é muito diferente; aposto que, se não precisasse de dinheiro, não estaria aqui.

– Pai, que injustiça, eu tava aqui há duas semanas – responde a filha.

Todos rimos e voltamos a nos concentrar na comida, felizes, afinal, a família estava reunida.

 

6 Vida familiar e saúde psicossocial

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A vida familiar, em qualquer de suas tipologias, é inerente à espécie humana, uma vez que, ao nascer, somos um dos seres vivos mais dependentes de meio para sobreviver, humanizar e coabitar em nossa comunidade, a qual nos define em quase todas as nossas dimensões, incluindo, obviamente, a nossa saúde psicossocial. Desde o início da nossa história, o recém-nascido precisou de adultos para satisfazer todas as suas necessidades básicas, como alimentação, abrigo, cuidados, proteção, saúde, educação, entre outras, e essa dependência dura por mais de uma década; daí a importância da família como primeiro elo no processo de humanização e socialização em nossa qualidade de vida, em nossa saúde.

A família como o primeiro grupo social tem funções inerentes essenciais para o desenvolvimento e o estabelecimento das relações com os demais. O ser humano, em sua complexidade, necessita de cuidados e de orientação durante os primeiros anos de sua vida. É a vida, em sua multidimensionalidade, que desafia uma formação que considere não somente a pessoa, mas os grupos sociais com os quais irá interagir ao longo da existência. Portanto, este capítulo tem o objetivo de estabelecer um diálogo entre a vida em família e a saúde psicossocial, considerada uma dimensão do cuidado em saúde, na atenção primária.

 

7 Divórcio e recasamento: considerações teóricas e práticas

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Divórcio e recasamento são transições comuns na sociedade contemporânea, mas que se constituem como eventos significativos do ciclo vital devido às repercussões que geram para indivíduos e famílias (Greene, Anderson, Forgatch, DeGarmo, & Hetherington, 2016). O divórcio é considerado um estressor normativo, o qual não é compreendido como uma transição única, pois abre a possibilidade para ocorrência de múltiplas transições, que podem abarcar coabitações, recasamentos e novos divórcios (Amato, 2010; Wagner & Diamond, 2017). Quando o divórcio ocorre em famílias com crianças e adolescentes e, na sequência, ocorre o recasamento de um ou de ambos os pais,1 temos o que chamamos de família recasada (Pasley & Ganeau, 2016). Tal configuração familiar mostra-se complexa em virtude das inúmeras mudanças e dos realinhamentos relacionais que as famílias precisam enfrentar. Essa perspectiva corrobora a compreensão de que o divórcio e o recasamento geram demandas adaptativas para adultos, bem como para crianças e adolescentes, podendo comprometer seu desenvolvimento e seu bem-estar, a depender da forma como essas transições são manejadas e vivenciadas.

 

8 A pessoa idosa no contexto da família

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A população brasileira manteve a tendência de envelhecimento dos últimos anos e ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012, superando a marca dos 30,2 milhões em 2017. Esses dados retratam que esse grupo etário tem se tornado cada vez mais representativo no Brasil (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2018). Nesse cenário, um fato que chama a atenção é que a longevidade humana e as mudanças socioeconômicas e culturais repercutem na família por meio da vivência do papel de avós e bisavós, além da convivência e da corresidência de três ou mais gerações. Além disso, é preciso destacar que a feminização da velhice (fenômeno em que a presença das mulheres na população idosa é superior à dos homens), se observada em um enfoque conjugal, revela que existem mais viúvas do que viúvos, pois, além da maior longevidade feminina, as mulheres costumam casar-se com homens mais velhos, que morrem mais cedo. Por isso, muitas idosas responsáveis pelos domicílios vivem sem o cônjuge, mesmo que ainda residam com outros parentes.

 

9 Maus-tratos na infância e o rompimento do ciclo intergeracional da violência

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O bebê humano é o mais frágil de todas as espécies animais e é aquele que depende integralmente de um adulto cuidador para sobreviver. A criança também precisa de um adulto cuidador capaz de suprir suas necessidades físicas e emocionais e de proporcionar um ambiente seguro e que estimule seu desenvolvimento. Nesse sentido, destaca-se a importância da família como a instituição social que geralmente oferece um ambiente favorável ao desenvolvimento humano. Vale salientar que não basta que esse ambiente oferecido pelos cuidadores seja fisicamente seguro, ele precisa ser emocionalmente seguro para que a criança possa se desenvolver de forma saudável (Biglan, 2015). Nesse sentido, é necessário refletir sobre o que ocorre quando os adultos, que deveriam garantir o bem-estar da criança, são justamente aqueles que geram alto nível de estresse no ambiente. Sabe-se que as experiências de maus-tratos sofridas dentro de casa, sendo um dos pais o agressor ou ambos, podem ser devastadoras ao longo de todo o desenvolvimento do indivíduo.

 

10 Família, socialização e escolarização: a interdependência de fatores no desenvolvimento de crianças e jovens

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O interesse por estudos sobre a família deve-se fundamentalmente ao fato de que, desde o nascimento e durante toda a primeira infância, os principais cuidados e estímulos necessários ao crescimento e desenvolvimento infantil, sejam físicos, econômicos ou socioafetivos, são garantidos pela família. Esse suporte familiar é considerado essencial, já que a família também desempenha o papel de mediadora entre a criança e a sociedade.

A relevância da temática, sobretudo em virtude das alterações significativas verificadas na estrutura familiar nos últimos 20 anos, tem despertado o interesse de muitos pesquisadores. A quantidade de membros que compõem as famílias brasileiras diminuiu consideravelmente. Enquanto, no século passado, a média era de 4,5 pessoas, em 2000 tem-se, em média, 3,4 pessoas por grupo familiar. Outra característica observada é de que o padrão de família tradicional, composta pelo casal com filhos, modificou-se nos últimos anos. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), publicados na revista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2017), desde 2005 o perfil da configuração pai, mãe e filhos deixou de ser predominante nos domicílios brasileiros. Na pesquisa de 2015, o tradicional arranjo ocupava 42,3% dos lares pesquisados, sendo observada uma queda de 7,8 pontos percentuais em relação a 2005, quando abrangia 50,1% das moradias.

 

11 Transtornos da aprendizagem: o que a família tem a ver com isso?

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Família e escola

A família é o primeiro grupo social de que alguém faz parte e se configura em um elemento mediador da relação entre o indivíduo e a sociedade (Christovam & Cia, 2013). Por meio da família, o indivíduo constrói vínculos afetivos e desenvolve habilidades e recursos necessários para a satisfação de suas necessidades básicas e para sua adaptação à cultura existente. Como grupo, a família desempenha importante função psicossocial de proteção aos seus membros, oferecendo suporte ante adversidades que podem surgir ao longo da vida (Mombelli, Costa, Marcon, & Moura, 2011).

O cenário contemporâneo é de famílias estruturadas nas mais diversificadas configurações, que não se referem mais ao modelo tradicional de papéis e obrigações definidas para homens e mulheres (Santos, Araújo, Negreiros, & Cerqueira-Santos, 2018). Pode-se citar, como exemplos desses modelos de organizações modernas de famílias, as pessoas que vivem sozinhas ou com seus companheiros sem a oficialização do matrimônio. Há também as novas modalidades de união legalmente reconhecidas pelo sistema jurídico, como os casais homoafetivos, as famílias compostas somente por um dos genitores e os filhos, entre outras possibilidades (Dessen, 2010; Saraiva-Junges & Wagner, 2016).

 

12 O contexto familiar e sua influência no desenvolvimento vocacional de jovens

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A família é, para a maioria das pessoas, o principal contexto ou ambiente do desenvolvimento psicológico inicial do ser humano. É nela que o indivíduo experimenta suas primeiras ligações afetivas e onde se formam as primeiras impressões sobre quem ele é e sobre como o mundo é. A partir dessas experiências iniciais, o sujeito desenvolve um senso daquilo que considera relevante para a vida e aprende a reconhecer suas capacidades e habilidades, além daquilo que é esperado dele. As experiências vividas no cenário familiar formam a base da construção de projetos e metas profissionais futuras. De fato, o contexto familiar influencia o desenvolvimento vocacional não apenas durante a infância, a adolescência e a vida adulta jovem, mas também na vida adulta média e na maturidade. Neste capítulo, o foco recai sobre o papel da família no desenvolvimento inicial de carreira dos filhos. Está organizado em três partes: primeiro, são descritos alguns modelos teóricos de desenvolvimento e aconselhamento de carreira, com ênfase na importância do contexto familiar. Em um segundo momento, apresentam-se estudos internacionais e brasileiros que tratam da influência da família no desenvolvimento vocacional. Por fim, na última parte, são feitas sugestões de como os aspectos familiares podem ser incorporados às intervenções em orientação de carreira com jovens.

 

13 Famílias de crianças em situação de vulnerabilidade social

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Este capítulo tem como objetivo atualizar ideias relacionadas às famílias de crianças em situação de vulnerabilidade pessoal e social por meio da teoria bioecológica do desenvolvimento humano (TBDH), preconizada por Bronfenbrenner (2011). Uma criança pode ser considerada em situação de vulnerabilidade pessoal quando seu desenvolvimento não ocorre de acordo com o esperado para a sua faixa etária, segundo os parâmetros de sua cultura.

A presença de fatores de risco externos ou internos, como físico (doenças genéticas ou adquiridas, prematuridade, problemas de nutrição, entre outros), social (exposição a um ambiente violento ou a drogas) ou psicológico (efeitos de abuso, negligência ou exploração), pode determinar vulnerabilidade. Eventos externos de risco estão relacionados às condições adversas do ambiente no qual as crianças se desenvolvem. Eles podem ser riscos proximais (em microssistemas nos quais elas interagem face a face) ou distais (sistemas nos quais elas não estão presentes, mas que têm influência sobre elas – nível exossistêmico ou macrossistêmico) (Bronfenbrenner, 2011).

 

14 Família e diversidade sexual: relacionamentos homossexuais, conjugalidade e parentalidade

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Este capítulo trata da família formada por pessoas do mesmo sexo. Falar de família e homossexualidade envolve uma série de temáticas inerentes ao campo que procuram dar conta de uma ampla diversidade de dinâmicas familiares. Passa pela constituição familiar do casal do mesmo sexo, pelas famílias compostas por pais ou mães homossexuais que revelaram sua orientação após relacionamento heterossexual e constituem novo núcleo, assim como por adotantes homossexuais (casais ou indivíduos) e pessoas que se utilizaram de tecnologias reprodutivas para a constituição da parentalidade. Para ilustrar este capítulo, será apresentado o caso de Paulo e Marcelo, um casal de homens participantes de um estudo que acompanhou por dois anos famílias formadas por pessoas do mesmo sexo no Brasil e no Canadá (Cerqueira-Santos & Bourne, 2016).

Paulo e Marcelo se conhecem há 11 anos, namoraram por quatro anos, coabitaram por mais dois, até que em 2011 estabeleceram a oficialização de união estável, sendo o primeiro casal do mesmo sexo a realizar tal ato na cidade onde moravam. Os dois relatam históricos diferentes sobre a vivência da sexualidade e de relacionamentos com outros homens, até mesmo versões diferentes sobre o relacionamento atual. Paulo teve um histórico heterossexual, casou-se com uma mulher e nunca viveu abertamente a homossexualidade, até o relacionamento atual “empurrá-lo para fora do armário”. Marcelo diz que “desde sempre foi gay”, toda a família sabe e apoia a vivência da sua sexualidade e celebrou o casamento com Paulo. Logo após a oficialização da união estável, os dois pensaram em adotar uma criança. Inscreveram-se no cadastro de adoção como casal e aguardaram três anos, até a chegada de João, que já tinha 4 anos de idade.

 

15 Suicídio e o impacto na família

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Este capítulo versa sobre a associação entre os comportamentos suicidas (ideação, tentativa e suicídio) e a família, mais especificamente sobre o suporte social/familiar. É composto por subtópicos que incialmente abordarão as taxas de suicídio no mundo e no Brasil e os principais fatores de risco associados ao fenômeno do suicídio, além da definição do suporte social/ familiar. Na sequência, apontam-se alguns construtos e/ou variáveis aos quais o suporte social/familiar está associado como fator de risco/proteção. Então, abordam-se as várias relações entre a família e o comportamento suicida, por intermédio de pesquisas recentes sobre essas duas temáticas. O objetivo deste capítulo é expor ao leitor as últimas descobertas científicas e apresentar uma visão crítica sobre a importância do suporte familiar à saúde mental e à prevenção do suicídio.

Comportamento suicida

O suicídio é estudado na literatura científica há décadas, e, apesar de não haver uma definição consensual sobre os termos que envolvem o comportamento suicida (ideação, tentativa e suicídio), podem-se adotar definições contempladas por associações internacionais específicas, como Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a American Pychiatric Association (APA), a Organização Mundial da Saúde (OMS) ou o National Institute of Mental Health (NIMH). Como exemplo, o NIMH (2018) e o CDC (2018) assumem como ideação suicida um pensamento, uma consideração ou o planejamento do suicídio; consideram tentativa de suicídio um comportamento autodirigido, potencialmente prejudicial e não fatal com a intenção de morte; e o suicídio é a morte causada por comportamento intencional e prejudicial.

 

16 Instrumentos para avaliação familiar no Brasil

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A avaliação psicológica no Brasil ganhou mais espaço nos meios acadêmicos e profissionais nas últimas décadas. Isso se deve, em grande parte, à formação de grupos de pesquisas nos programas de pós-graduação, à criação do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi) (Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2003) e à regulamentação do uso, da elaboração e da comercialização dos testes psicológicos pelo CFP (2018a). Ademais, mais recentemente, o reconhecimento da avaliação psicológica como especialidade na psicologia (CFP, 2018b) e a regulamentação da prestação de serviços psicológicos, incluída a avaliação, por meio de tecnologias de informação e comunicação, pela Resolução nº 11/2018 (CFP, 2018c), trazem ainda maior potencial de expansão e a necessária reflexão sobre a prática profissional da área.

O grande interesse pela avaliação psicológica reflete-se especificamente na avaliação familiar. No entanto, ainda se percebe uma considerável distância em relação a outras áreas da avaliação, como a avaliação de construtos de inteligência e personalidade, nos contextos de trânsito e organizacional. Um indicativo dessa diferença é o número de instrumentos produzidos para a avaliação familiar. A razão para essa discrepância é possivelmente histórica, já que o interesse pela avaliação da inteligência e personalidade aplicada a contextos e processos seletivos é muito mais antigo. Outra dificuldade na sistematização de instrumentos para a avaliação familiar é a definição de família e suas várias possibilidades de definição.

 

17 Entrevista familiar: técnicas de escuta e investigação

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O objetivo deste capítulo é refletir sobre o desenvolvimento de técnicas de entrevista e avaliação familiar, apontando os desdobramentos epistêmicos, metodológicos e teóricos e seus impactos sobre o estudo, a investigação e a abordagem clínica da família. A entrevista psicológica é a mais antiga e valiosa técnica no contexto de investigação, avaliação e intervenção clínica. Em sentido mais amplo, toda situação de diálogo, com o objetivo de permitir um maior conhecimento do outro ou determinada situação psicológica, é uma entrevista psicológica que se diferencia de outros usos e técnicas de entrevista. No entanto, sendo a psicologia uma ciência de um saber em dispersão (Figueiredo, 2018), também ocorrem diferentes maneiras de compreender, conceituar e atuar em uma entrevista clínica, diagnóstica ou de avaliação psicológica. Além disso, as técnicas de avaliação podem ser conceituadas como situações de entrevista estruturada (Féres-Carneiro, 1996, 2014). Cabe ressaltar que toda técnica de entrevista diagnóstica ou avaliativa é também uma intervenção, assim como toda intervenção valida ou refuta uma hipótese clínica.

 

18 Intimidade conjugal: principais modelos teóricos

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A capacidade de construir e manter relações interpessoais íntimas é considerada uma necessidade vital pelos teóricos para a saúde mental e psicossocial dos seres humanos (Descutner & Thelen, 1991), sendo um importante preditor de bem-estar psicológico (Gore, Cross, & Morris, 2006) e também um critério de maturidade (Feldman & Gowen, 1998). Para a área da saúde, tornou-se, por isso mesmo, um critério fundamental para avaliar a “qualidade de vida” de uma pessoa ou de um casal.

Percebe-se, no entanto, que os estudos que investigam a temática da “intimidade” confundem esse conceito com outros próximos, como é o caso da sexualidade. Muitas vezes, os dois termos aparecem juntos (p. ex., intimidade sexual ou intimidade e sexualidade). Nesse caso, os dois fenômenos não são diferenciados (Rowland et al., 2009). A verdade é que autores que estudam a relação entre sexo e intimidade percebem que ambos estão relacionados, embora ainda não esteja clara a forma como essa relação ocorre (Patton & Waring, 1985).

 

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