Neurobiologia dos Transtornos Psiquiátricos

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O exercício da psiquiatria no século XXI não pode prescindir de um aprofundado conhecimento do funcionamento do cérebro na saúde e na doença. Neurociência, neuroquímica, genética, epigenética, neuropatologia, neuroimagem, psicofarmacologia e psiquiatria translacional não são mais termos estranhos ao psiquiatra moderno. Considerando essa realidade, este livro, por sua abrangência, constitui-se em fonte bibliográfica completa para o neurocientista, mas também concisa e compreensível para o psiquiatra clínico.

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1 – Neuroanatomia funcional e comportamental

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C A P Í T U L O  [ 1 ]

ANDREA PAROLIN JACKOWSKI

ANDRÉ ZUGMAN

O sistema nervoso é um sistema complexo que define uma série de aspectos relacionados à interação dos indivíduos com o mundo. Ele pode ser dividido de diversas formas, que variam de acordo com vários critérios de classificação, sendo os principais:

1. Critérios anatômicos. Sistema nervoso central (SNC – encéfalo e medula espinal) e sistema nervoso periférico (nervos, gânglios e terminações nervosas).

2. Critérios embriológicos. Prosencéfalo (telencéfalo e diencéfalo – cérebro), mesencéfalo e rombencéfalo (metencéfalo – cerebelo e ponte – e mielencéfalo – bulbo).

3. Segmentação ou metameria. Sistema nervoso somático (aferente e eferente) e sistema nervoso visceral (sistema nervoso autônomo: simpático e parassimpático).

4. Comportamental. O cérebro humano pode ser dividido em quatro componentes principais: córtex sensitivo primário, córtex motor primário, córtex associativo e sistema límbico.

 

2 – Neurofisiologia e neuroquímica

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C A P Í T U L O  [ 2 ]

PÂMELA BILLIG MELLO-CARPES

O neurônio é considerado a unidade funcional do sistema nervoso (SN). Presentes em grande número no SN, de fato, essas células excitáveis se organizam em redes e têm papel fundamental no funcionamento das estruturas nervosas e nos processos fisiológicos que garantem a atuação do SN. Adicionalmente, nos últimos anos, muitas evidências destacam a importante ação das células gliais em diversas funções nervosas. Nesse sentido, é essencial entender a fisiologia celular do SN, como se dá a comunicação entre as células e quais os mediadores químicos envolvidos, visto que, em diversas situações, disfunções em tais estruturas ou substâncias químicas estão relacionadas a doenças, assim como muitos dos tratamentos farmacológicos disponíveis atuam modulando a função neuronal e/ou a comunicação celular. Neste capítulo, a partir do entendimento prévio da organização macroscópica anatômico-funcional do SN, a fisiologia celular desse sistema é brevemente revisada, sendo apresentadas descobertas recentes acerca do papel das diferentes células que compõem o SN. Ainda, os principais sistemas de neurotransmissores químicos são abordados, assim como a relação entre suas disfunções e alterações no SN que podem desencadear doenças.

 

3 – Psiconeuroendocrinologia

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C A P Í T U L O  [ 3 ]

MARIO FRANCISCO P. JURUENA

Os hormônios desempenham um papel crítico no desenvolvimento e na expressão de uma ampla gama de comportamentos. Um aspecto da influência dos hormônios no comportamento é a sua potencial contribuição para a fisiopatologia dos transtornos psiquiátricos e para o mecanismo de ação dos psicotrópicos. De todos os eixos endócrinos, o eixo hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal (HHS) tem sido o mais amplamente estudado. São objetivos deste capítulo analisar as evidências relativas à correlação entre doenças afetivas e alterações psiconeuroendócrinas no estresse; discutir as teorias que dizem respeito à prevenção ou à reversão das consequências do impacto do estresse no eixo HHS em doenças como a depressão; e explorar a importância dos novos conceitos apresentados para as diretrizes de tratamento.

Um problema-chave do diagnóstico em psiquiatria é o fato de que os elaborados sistemas de classificação hoje existentes baseiam-se somente em descrições subjetivas dos sintomas. Tal fenomenologia detalhada inclui a descrição de diversos subtipos clínicos, no entanto não há uma característica biológica que diferencie um subtipo do outro. Uma variedade de transtornos pode exibir sintomas clínicos semelhantes, e um mesmo transtorno pode se ­manifestar de forma distinta em pessoas diferentes. Assim, uma abordagem de pesquisa que descreve achados neurobiológicos confiáveis, com base na síndrome psicopatológica, seria mais ­consistente do que um sistema não etiológico de classifica­ção. Um futuro sistema de critérios diagnósti­cos, em que a etiologia e a fisiopatologia sejam essenciais na tomada de decisões diagnósticas, colocaria a psiquiatria mais próxima de outras especialidades médicas. A relação entre o estresse e a enfermidade é um forte exemplo de uma área de estudo que pode ser mais bem compreendida a partir de uma perspectiva integradora: o potencial de um enfoque integrador para contribuir com as melhorias.1 Essa abordagem mostra, muito claramente e sem qualquer dúvida, que as causas, o desenvolvimen­to e o prognóstico dos transtornos são determinados pela interação de fatores psicológicos, sociais e culturais com a bioquímica e a fisiologia.

 

4 – Mecanismos imunológicos que modulam o sistema nervoso central

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C A P Í T U L O  [ 4 ]

MOISÉS EVANDRO BAUER

NATALIA PESSOA ROCHA

ANTONIO LUCIO TEIXEIRA

Este capítulo apresenta uma visão geral dos mecanismos imunológicos que afetam o funcionamento do sistema nervoso central (SNC) na saúde e na doença. Discutiremos as principais vias de comunicação bidirecional entre esses sistemas, em especial as vias humoral, neural e celular (leucócitos). Por exemplo, o aumento das citocinas pró-inflamatórias no soro pode afetar a cognição e induzir sintomas comportamentais depressivos (“comportamento de doente”). O fenótipo de micróglia ativada, um tipo de célula fagocitária de origem mieloide, foi associado à neuroinflamação descrita em vários transtornos psiquiátricos. Este capítulo também discute a respeito de novos papéis fisiológicos da modulação direta da imunidade adaptativa no SNC, bem como que os linfócitos T modulam a neurogênese hipocampal, a cognição, o humor, a resiliência ao estresse e, outrossim, são protetores para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos.

 

5 – Genética e epigenética dos transtornos psiquiátricos

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C A P Í T U L O  [ 5 ]

GABRIEL R. FRIES

O caráter hereditário dos transtornos psiquiátricos já é conhecido há anos, porém as bases genéticas específicas responsáveis pelo risco e pela vulnerabilidade a eles ainda estão sendo estudadas. Estudos moleculares indicam que, de modo geral, os transtornos psiquiátricos são poligênicos, multifatoriais e altamente complexos, com centenas de variantes genéticas de baixo efeito interagindo entre si. Além disso, a importância do ambiente e de sua interação com os genes tem apontado para um papel fundamental dos mecanismos epigenéticos nos transtornos psiquiátricos, como a metilação do ácido desoxirribonucleico (DNA), as alterações de histonas e a regulação da expressão gênica por ácidos ribonucleicos (RNAs) não codificantes. Neste capítulo, serão discutidos conceitos básicos de genética e epigenética psiquiátrica, com foco nos aspectos metodológicos, nas limitações e nas perspectivas desse campo.

Os transtornos psiquiátricos são, em sua maioria, altamente complexos e heterogêneos. Embora pesquisados há décadas, os primeiros achados consistentes em relação ao caráter hereditário dos transtornos psiquiátricos datam da década de 1980, quando estudos começaram a descrever agregação em famílias e maior risco para o desenvolvimento dessas condições em familiares de primeiro grau de pacientes psiquiátricos.1 Desde então, a área da genética psiquiátrica tem crescido significativamente e acompanhado diversas revoluções tecnológicas nos campos da genética e da biologia molecular humana, como o sequenciamento do genoma humano no início dos anos 2000, o desenvolvimento de técnicas de microarranjo para análises de varredura genômica e a recente constatação de que a genética dos transtornos psiquiátricos é mais complexa do que inicialmente imaginada.2

 

6 – Disfunção mitocondrial e transtornos psiquiátricos

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C A P Í T U L O  [ 6 ]

GISELLI SCAINI

DEBORAH BENEVENUTO

JOÃO QUEVEDO

As mitocôndrias desempenham papel crucial na função neuronal, não só por sua ação bioenergética central de produção de adenosina trifosfato (ATP), mas também porque são a principal fonte de espécies reativas de oxigênio (EROs), sendo responsáveis por manter a homeostase do cálcio. Assim, não surpreende que estudos recentes tenham mostrado que perturbações na fisiologia mitocondrial exercem efeitos profundos no desenvolvimento e na função neuronais, bem como que estejam relacionadas com a fisiopatologia dos transtornos psiquiátricos. Neste capítulo, são apresentados e revisados os mais recentes achados que corroboram a teoria da disfunção mitocondrial nos transtornos psiquiátricos, fornecendo uma visão geral atualizada sobre os componentes genéticos e fisiológicos das mitocôndrias e as evidências de anormalidades mitocondriais nos transtornos psiquiátricos.

Apesar do constante avanço da neurobiologia dos transtornos psiquiátricos nos últimos anos, há ainda considerável limitação envolvendo, principalmente, a área da psicofarmacologia. Um bom exemplo está relacionado ao transtorno depressivo. É surpreendente o fato de que, apesar de décadas após a divulgação da teoria das monoaminas e sua relação com a patogênese da depressão, o principal pilar dos atuais antidepressivos ainda se baseie nesse conceito, quando se sabe que há diversos outros mecanismos envolvidos na fisiopatologia desse transtorno. Com base nesse argumento, tornam-se primordiais a investigação e a descoberta de novas opções que possam atuar de forma mais ampla e eficiente em diversos componentes envolvidos com os transtornos psiquiátricos.

 

7 – Modelos animais de transtornos psiquiátricos

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C A P Í T U L O  [ 7 ]

CRISTIANE R. G. FURINI

JOCIANE DE CARVALHO MYSKIW

IVAN IZQUIERDO

Os modelos animais têm sido amplamente usados em psiquiatria para se entender os mecanismos fisiopatológicos dos transtornos psiquiátricos, bem como para a busca de novos tratamentos farmacológicos. Para que um modelo animal de transtorno psiquiátrico seja válido, é preciso que atenda três características principais: 1) mimetize os sintomas da doença (validade de face); 2) seja capaz de reproduzir alguns aspectos fisiopatológicos da doença (validade de construto); 3) os agentes terapêuticos usados no tratamento devem reverter os sintomas induzidos no modelo animal (validade preditiva).

Mesmo com críticas quanto à aplicabilidade de modelos animais para doenças em seres humanos, é evidente sua contribuição para uma melhor compreensão dos transtornos psiquiátricos, pois modelos animais, sobretudo pequenos roedores, como camundongos e ratos, podem contribuir para a determinação dos mecanismos neurológicos envolvidos nos transtornos psiquiátricos e possibilitar a aplicação de novas terapias a eles. Neste capítulo, são descritos alguns dos principais modelos animais usados para estudar os seguintes transtornos psiquiátricos: depressão, ansiedade, esquizofrenia, mania e dependência química.

 

8 – Biologia do aprendizado e da memória

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C A P Í T U L O  [ 8 ]

IVAN IZQUIERDO

JOCIANE DE CARVALHO MYSKIW

CRISTIANE R. G. FURINI

Denomina-se memória a aquisição, o armazenamento e a evocação de informações. A aquisição é também denominada aprendizado, e a evocação, lembrança ou recordação. Os termos lembrar, evocar e recordar são sinônimos. Só podemos medir ou avaliar a memória por meio da recordação.

As memórias são adquiridas por meio das experiências, sejam estas originadas pela percepção sensorial, sejam originadas pelo processamento interno de memórias preexistentes (insight), modificadas ou não.

As memórias podem ser classificadas pelo conteúdo (declarativas e de procedimentos), pela duração (imediata, curta e longa) e pelos sistemas utilizados no aprendizado e na evocação (visuais, auditivas, olfativas, táteis, gustativas, proprioceptivas, de linguagens e musicais).

O estudo da memória como função neural pertence à neurociência, disciplina fundada pela obra de Santiago Ramón y Cajal (1952-1934), Charles Sherrington (1857-1952) e Ivan Petrovich Pavlov (1849-1946), que é a base biológica da neurologia e da psiquiatria modernas.

 

9 – Neuroimagem em psiquiatria

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C A P Í T U L O  [ 9 ]

ANDRÉ ZUGMAN

ANDREA PAROLIN JACKOWSKI

“Neuroimagem” é um termo amplo que diz respeito a um conjunto de técnicas com o objetivo de realizar imagem do sistema nervoso central (SNC) in vivo. Entre essas técnicas, estão incluídas a tomografia computadorizada (TC), a tomografia por emissão de pósitrons (PET), a tomografia computadorizada por emissão de fóton único (SPECT, do inglês single photon emission computed tomography) e a imagem por ressonância magnética (IRM). Essas técnicas vêm sendo empregadas desde meados da década de 1970 para a pesquisa de mecanismos subjacentes aos transtornos psiquiátricos. No entanto, seu uso clínico permanece restrito ao diagnóstico diferencial e à exclusão de quadros neurológicos. Neste capítulo, vamos fazer uma revisão ampla sobre a aplicação desses métodos em psiquiatria. A literatura científica de neuroimagem aplicada à psiquiatria é vasta e ainda apresenta muitas técnicas e conceitos em evolução. Por se tratar do método mais utilizado para o estudo da estrutura e da função do cérebro relacionadas aos diferentes diagnósticos psiquiátricos, vamos focar principalmente os estudos de ressonância magnética.

 

10 – Psicofarmacologia

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C A P Í T U L O  [ 10 ]

TIAGO C. RAMACCIOTTI

RICARDO HENRIQUE-ARAÚJO

EDUARDO PONDÉ DE SENA

A psicofarmacologia é um vasto campo da farmacologia, compreendendo desde o desenvolvimento dos agentes terapêuticos, passando por diversas etapas pré-clínicas e clínicas, até o uso do medicamento para fins terapêuticos. Para todo médico interessado em prescrição medicamentosa, convém entender questões relacionadas a farmacocinética e farmacodinâmica. Ademais, eficácia e segurança são importantes aspectos a serem observados na psicofarmacoterapia.

Os psicofármacos têm ação terapêutica ao promoverem eventos relacionados à neurotransmissão central. Há mais de século, a ciência se debate sobre a natureza do sistema nervoso central (SNC). Camilo Golgi defendia que os neurônios estavam conectados em uma “rede nervosa”, enquanto Ramon y Cajal acreditava que os neurônios estavam separados por pequenos espaços chamados de sinapses.1 Ramon y Cajal, como averiguado mais tarde, estava correto. Posteriormente, observou-se que os neurônios se comunicavam por meio da liberação de substâncias químicas (os neurotransmissores) ou mesmo mediante sinapses elétricas. Sabe-se que a neurotransmissão química é muito mais comum do que a neurotransmissão elétrica. Dessa forma, os neurotransmissores precisam ser produzidos e liberados para atuação em receptores específicos.1

 

11 – Terapias biológicas não invasivas

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C A P Í T U L O  [ 11 ]

PAULO J. C. SUEN

ANDRE RUSSOWSKY BRUNONI

As terapias biológicas não invasivas se apresentam como campo promissor para o desenvolvimento de novos protocolos de tratamento de transtornos neuropsiquiátricos. Elas se baseiam na estimulação de redes neurais com o intuito de modular a atividade sináptica delas para níveis adequados. Para isso, é necessária a determinação precisa de quais redes estão relacionadas a quais funções cerebrais e do nível de ativação normal de cada uma dessas redes, para que seja possível direcionar a estimulação às redes afetadas a fim de induzir os efeitos desejados. Essas relações estão sob intensa investigação pela comunidade científica e vão contribuir para o avanço dos tratamentos por neuroestimulação, com o surgimento de protocolos cada vez mais precisos e efetivos para diferentes transtornos. Atualmente, as técnicas não invasivas mais utilizadas são a estimulação transcraniana por corrente contínua (ETCC) e a estimulação magnética transcraniana (EMT), a aplicação mais comum no tratamento do transtorno depressivo maior (TDM). A eletroconvulsoterapia (ECT) continua sendo o tratamento mais eficaz para o TDM, porém com efeitos colaterais importantes. O avanço das pesquisas possivelmente determinará novas redes-alvo para estimulação no tratamento de outros transtornos, estendendo a aplicação dessas técnicas, bem como o conhecimento sobre o funcionamento cerebral.

 

12 – Terapias biológicas invasivas

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C A P Í T U L O  [ 12 ]

DOUGLAS AFFONSO FORMOLO

HIAGO MURILO DE MELO

ALEXANDRE PAIM DIAZ

MARCELO N. LINHARES

ROGER WALZ

Praticamente todos os órgãos, sistemas e funções fisiológicas de nosso corpo podem ser influenciados direta ou indiretamente por circuitos neuronais. O uso de impulsos elétricos para controlar e restituir as funções normais de circuitos disfuncionais, via sistema nervoso central (SNC) ou periférico, é denominado de electroceuticals.1 Apesar de apenas recentemente o termo ter ganho destaque na literatura médica, o uso de equipamentos destinados a modular circuitos neuronais não é novidade (p. ex., marca-passos cardíacos). O primeiro relato moderno do uso de corrente elétrica na psiquiatria foi publicado por Aldini, em 1803, para o tratamento da “melancolia”.2 Contemporaneamente, a modulação elétrica da atividade neuronal pode ser alcançada por meio de terapias não invasivas (conforme discutido em outros capítulos) ou invasivas. As terapias invasivas envolvem a realização de procedimento cirúrgico para implantação de um sistema de neuromodulação, que irá gerar e conduzir impulsos elétricos até a região de interesse.2 Neste capítulo, abordaremos alguns avanços da estimulação cerebral profunda (ECP) e da estimulação do nervo vago (ENV) no tratamento de doenças psiquiátricas.

 

13 – Transtornos de ansiedade

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C A P Í T U L O  [ 13 ]

LAIANA AZEVEDO QUAGLIATO

ANTONIO E. NARDI

Os transtornos de ansiedade constituem uma das principais causas de incapacidade ao redor do mundo. Como características essenciais desses transtornos, podemos citar o medo excessivo e persistente, bem como mecanismos evitativos de ameaças percebidas. Embora a neurobiologia de cada transtorno de ansiedade seja amplamente desconhecida, algumas generalizações foram identificadas para a maioria deles, como alterações no sistema límbico, disfunção do eixo hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal (HHS) e determinados fatores genéticos. Este capítulo revisará a neurocircuitaria da ansiedade, buscando compreender os mecanismos fisiopatológicos envolvidos nos transtornos de ansiedade sob a luz dos mais recentes achados da neurobiologia.

A ansiedade é um estado mental que é ­suscitado em antecipação de ameaça ou de ameaça poten­cial, resultando em estado de maior vigilância ­mesmo na ausência de ameaça imediata.1,2 Ela é carac­te­rizada por experiências subjetivas, como tensão, preocupação excessiva e pensamentos negativos, bem como alterações fisiológicas, entre as quais sudorese, tontura, aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca.1 ­Esse estado emocional pode ser desencadeado por estímulos que não representam perigo imediato ou por estímulos internos (p. ex., sensações corporais).3 A ansiedade ocasional é um ­aspecto normal do repertório emocional e ajuda na sobrevivência, aumentando a consciência e permitindo respostas rápidas a possíveis perigos, sendo uma experiência humana comum.3 Embora indivíduos saudáveis experimentem episódios esporádicos de ansiedade, a ansiedade ­persistente, disruptiva ou desproporcional ao perigo real pode tornar-se debilitante e, portanto, ser considerada patológica.1

 

14 – Transtorno depressivo maior

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C A P Í T U L O  [ 14 ]

GISLAINE Z. RÉUS

MORGANA SONZA ABITANTE

RITELE HERNANDEZ DA SILVA

JOÃO QUEVEDO

O transtorno depressivo maior (TDM) é altamente prevalente e considerado um problema de saúde pública. Embora uma disfunção no sistema monoaminérgico seja a teoria mais aceita para explicar a fisiopatologia desse transtorno, vários estudos, e o fato de muitos pacientes não responderem aos antidepressivos que agem regulando a concentração de monoaminas, tornam essa teoria falha. Nos últimos anos, muitas pesquisas têm relatado o envolvimento de vias de sinalização implicadas na sobrevivência celular e na neuroplasticidade e de outros sistemas, como o glutamatérgico e o imune, na fisiopatologia do TDM, bem como na não resposta sintomatológica dos antidepressivos. Neste capítulo, são evidenciados estudos que mostram a relação dos principais sistemas e vias envolvidos na neurobiologia do TDM.

O TDM mostrou-se como desafio não só aos profissionais da saúde mental, mas à sociedade como um todo. O entendimento da fisiopatologia do TDM é de suma importância na busca de novas alternativas de tratamento. Desde a hipótese monoaminérgica até o reconhecimento do possível envolvimento inflamatório na fisiopatologia do TDM, diversos aspectos demonstram participação e relevância nos sintomas depressivos. Neste capítulo, serão apresentadas e discutidas, ainda que de forma resumida, as alterações do eixo hipotalâmico-hipofisário-suprarrenal (HHS) que relacionam o estresse como fator de risco para desencadear a resposta inflamatória, ainda que de baixo grau, com ativação de células microgliais, que, em última análise, culminariam em excitoxicidade, evidenciando o envolvimento do sistema glutamatérgico. Além disso, será abordada a relação do TDM com alterações da microbiota intestinal, vias de sinalização e fatores neurotróficos.

 

15 – Transtorno bipolar

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C A P Í T U L O  [ 15 ]

SAMIRA S. VALVASSORI

JOÃO QUEVEDO

O transtorno bipolar (TB) é um grave transtorno do humor que afeta a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Apesar de o conhecimento e as pesquisas sobre essa condição terem evoluído muito, ainda não se conhece sua neurobiologia com precisão, o que dificulta o desenvolvimento de novos fármacos. De fato, as pesquisas sobre o TB são um verdadeiro desafio, pois o curso clínico desse transtorno envolve variações de humor, incluindo episódios maníacos, depressivos e mistos. Durante muito tempo, a hipótese monoaminérgica explicou tanto a fisiopatologia dos transtornos do humor quanto os mecanismos de ação dos psicofármacos. No entanto, essa teoria tem muitas limitações e não explica mecanismos adicionais, os quais, sabe-se, estão relacionados ao TB, como as alterações na sinalização intracelular. Estudos recentes mostraram que alterações em diversos mecanismos bioquímicos e moleculares também estão envolvidas no TB, incluindo a Na+K+-ATPase, a glicogênio sintase quinase-3 (GSK-3), a proteinoquinase C (PKC), o estresse oxidativo e fatores neurotróficos. Este capítulo procura apresentar e revisar os tradicionais e os recentes estudos relacionados aos mecanismos neurobiológicos do TB, fornecendo uma visão geral sobre os sistemas de neurotransmissores e as principais vias de sinalização envolvidas no transtorno.

 

16 – Esquizofrenia

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C A P Í T U L O  [ 16 ]

JAIME HALLAK

MARA ROCHA CRISÓSTOMO GUIMARÃES

TIAGO MORAES GUIMARÃES

A esquizofrenia é um dos mais, ou o mais, intrigantes e incapacitantes transtornos psiquiátricos. Caracteriza-se por sintomas psicóticos graves e persistentes, déficits cognitivos e prejuízos sociais. Os pacientes com diagnóstico de esquizofrenia apresentam alta morbidade e carecem de cuidados apropriados em várias regiões do globo.

Sintomas leves e inespecíficos estão, muitas vezes, presentes antes do primeiro episódio psicótico, que ocorre, sobretudo, entre o final da adolescência e o início da vida adulta e causa prejuízo significativo no funcionamento individual, social e ocupacional, gerando altos custos ao setor socioeconômico e aos sistemas de saúde.

A esquizofrenia é um transtorno crônico, incapacitante e com prevalência de 0,7% durante a vida. Os pacientes têm cerca de 13 a 15 anos potenciais de vida perdidos. A expectativa de vida é de 68 anos para mulheres e de 60 anos para homens. Estando entre as 10 causas mundiais de incapacidade ajustada por anos de vida, apesar dos avanços clínicos e científicos essa condição continua sendo um desafio etiológico, diagnóstico e terapêutico.

 

17 – Bases biológicas dos transtornos relacionados ao uso de substâncias

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C A P Í T U L O  [ 17 ]

FELIPE ORNELL

LISIA VON DIEMEN

FELIX HENRIQUE PAIM KESSLER

Os transtornos por uso de substâncias (TUSs) estão entre as psicopatologias mais prevalentes no mundo.1-4 De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% da população dos centros urbanos consome substâncias psicoativas (SPAs) de forma nociva, independentemente de sexo, idade e nível socioeducacional,5 e 5% da população adulta (247 milhões de pessoas) faz uso de drogas ilícitas. E, entre essas pessoas, 11,74% (29 milhões) apresentam critérios para dependência. Isso torna os TUSs um problema de saúde pública desafiador em todo o planeta.6-9 Historicamente, observa-se que essa condição foi contemplada por muito tempo sob uma ótica moralista, gerando a percepção errônea de que a continuidade do uso estava relacionada à falta de vontade ou a algum tipo de fraqueza. Por algumas décadas, isso moldou a visão dos TUSs como uma questão social ou mesmo criminal, e não como um problema de saúde, o que contribuiu para a desassistência histórica a essa população.10,11

 

18 – Impulsividade

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C A P Í T U L O  [ 18 ]

YGOR ARZENO FERRÃO

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento, e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.

Clarice Lispector

O valor está no ponto intermédio entre a covardia e a impetuosidade irreflexiva.

Aristóteles

Este capítulo não pretende esgotar o conhecimento vigente sobre a neurobiologia da impulsividade, mas verificar o que já está consolidado, levantar as possibilidades de acordo com a literatura atual e instigar pessoas a pesquisar o cenário neurobiológico e ambiental justo e perfeito em que a impulsividade pode servir de tempero para tomadas de decisão.

O entendimento do que chamamos de impulsividade é motivo de interesse há mais tempo do que se imagina, e sua total compreensão é necessária para o conhecimento exato de sua neurobiologia, ou, de outra forma, estaremos falando de várias neurobiologias, uma para cada significado do termo “impulsividade”.

 

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