Do Belo Musical

Autor(es): Hanslick, Eduard
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Esta obra de Eduard Hanslick, célebre e polémico crítico musical na Viena do século XIX, é um clássico da estética musical, mas também da estética em geral e da filosofia, além de um contributo valioso para uma nova percepção da arte dos sons.

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Advertência do tradutor

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ADVERTÊNCIA DO TRADUTORA presente tradução do opúsculo Do Belo Musical de EduardHanslick pretende ser um acto de justiça e um esforço tardio de reparação (ou até de ocultamento e disfarce) de uma vergonha cultural entre nós provecta, como muitas outras. As principais línguas europeias já há muito fizeram passar pelas suas estruturas sintácticas e semânticas este clássico da estética musical que também o é da estética geral e da filosofia. Era mais do que tempo de o trazer também ao nosso idioma.Crítico musical famoso e polémico na Viena do século xix, injustamente ridicularizado na figura de Beckmesser na Ópera Os MestresCantores, de Richard Wagner, a cuja estética (expressa nos escritos Arte e Revolução, Ópera e Drama, A Obra de Arte do Futuro) tenazmente se opunha, Eduard Hanslick (11.9.1825, Praga, 16.8.1904Baden-Viena), embora de formação jurídica, ensinou História daMúsica e Estética na capital austríaca até 1895.Na sua obra, acusa a influência de Kant, mas ao longo dos anos também não permaneceu indiferente ao fascínio de Hegel. Como era defensor de uma teoria da música absoluta (instrumental, no seu caso), tornou-se para ele inevitável o choque com a estética de Wagner, fervoroso adepto da união da poesia e da música, e para quem esta

 

Prefácio

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PREFÁCIODificilmente o entendido negará que a «estética da arte sonora» até agora prevalecente carece de uma revisão geral.Apresentar os princípios que semelhante revisão teria de estabelecer na sua actividade crítica e construtiva é a tarefa deste escrito.De todo afastada de mim está a arrogância, quase epidémica nas monografias sobre estética musical, de que nestas escassas folhas dormita uma estética integral da arte dos sons. Para uma assim – mesmo no sentido mais restrito em que a considero possível – não era de antemão suficiente nem a intenção nem a força.Basta que eu consiga trazer para o campo de batalha vitoriosos aríetes contra a apodrecida estética do sentimento e aprontar alguns alicerces para a futura reconstrução. A propósito das lacunas, de que estou muito consciente, da minha exposição, tenho de recorrer à esperança de algum dia me ser permitida uma discussão mais pormenorizada dos princípios aqui desenvolvidos.Se este ensaio puder contribuir para, na arte sonora, acercar a fruição e o conhecimento do belo do único solo adequado (isto é, o estético), terá assim plenamente compensado vários desfavores nele patentes para o meu sentimento.

 

Capítulo I

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IPassou o tempo dos sistemas estéticos que abordavam o belo apenas em relação com as «sensações» por ele suscitadas. O impulso para o conhecimento objectivo das coisas, tanto quanto à inquirição humana é concedido, devia abalar um método que partia da sensação subjectiva para, após um passeio pela periferia do fenómeno investigado, retornar mais uma vez à sensação. Nenhuma senda leva ao cerne das coisas, mas cada uma deve para lá dirigir-se. A coragem e a capacidade de pressionar as coisas, de indagar aquilo que, separado das impressões muitíssimo mutáveis por elas exercidas sobre o homem, constitui o seu elemento permanente, objectivo e dotado de imutável validade – caracterizam a ciência moderna nos seus mais diversos ramos.Esta orientação objectiva não podia deixar de bem depressa se comunicar à pesquisa do belo. O tratamento filosófico da estética, que por uma via metafísica tenta aproximar-se da essência do belo e regista os seus elementos últimos, é uma aquisição dos tempos modernos.

 

Capítulo II

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IIEm parte como consequência desta teoria, que considera os sentimentos o fim último do efeito musical, em parte como correctivo seu, estabelece-se a asserção de que os sentimentos constituem o conteúdo que a arte dos sons deve representar.A investigação filosófica de uma arte impele à indagação do seu conteúdo. A toda a arte é peculiar um âmbito de ideias, que ela representa com os seus meios de expressão: som, palavra, cor, pedra.A obra de arte individual encarna, pois, uma determinada ideia como belo em manifestação sensível. Esta ideia determinada, a forma que a corporifica e a unidade de ambas são as condições do conceito de beleza, de que nenhuma inquirição científica de uma arte qualquer pode já separar-se.O que constitui o conteúdo de uma obra da arte poética ou plástica pode expressar-se com palavras e reduzir-se a conceitos. Dizemos: este quadro representa uma florista, esta estátua um gladiador, aquele poema uma façanha de Rolando. A absorção mais ou menos perfeita do conteúdo assim determinado na manifestação artística fundamenta, em seguida, o nosso juízo sobre a beleza da obra de arte.

 

Capítulo III

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IIIAté agora, abordámos as obras de um modo negativo e tentámos simplesmente rejeitar o pressuposto erróneo de que o belo musical poderia consistir apenas na representação de sentimentos.Devemos agora acrescentar o conteúdo positivo desse perfil, ao responder à questão sobre a natureza do belo na arte sonora.É algo especificamente musical. Entendemos por ele uma beleza que, independente e não necessitada de um conteúdo trazido de fora, radica unicamente nos sons e na sua combinação artística. As relações significativas de sons, em si atractivos, a sua harmonia e contraposição, o seu fugir e o seu alcançar-se, o seu elevar-se e o seu apagar-se– eis o que se apresenta à nossa intuição espiritual em formas livres e o que nos agrada como formoso.O elemento originário da música é o som agradável, a sua essência, o ritmo. Ritmo no grande, como a consonância de uma construção simétrica, e ritmo no pequeno, como o movimento regularmente alternado de membros separados na medida do tempo. O material de que se serve o compositor, e cuja riqueza nunca se poderá supor assaz sumptuosa, são os sons no seu conjunto, com a possibilidade, neles ínsita, para distintas combinações de melodia, harmonia e ritmo. Inesgotada e inesgotável, domina sobretudo a melodia, como figura fundamental da beleza musical; a harmonia oferece sempre novos fundamentos com os seus milhares de possibilidades de transformação, de inversão e reforço; move-as a ambas concertadamente o ritmo, a artéria da vida musical, e dá-lhes colorido o encanto de múltiplos timbres.45

 

Capítulo IV

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IVEmbora consideremos que há-de ser princípio e tarefa primordial da estética musical submeter o império usurpado do sentimento ao domínio justificado da beleza, as exteriorizações afirmativas do sentir reclamam, na vida musical prática, um papel demasiado chamativo e importante para se despachar mediante a simples subordinação.Porque a fantasia, enquanto actividade por intuir, e não o sentimento, é o órgão a partir do qual e para o qual nasce todo o belo artístico, a obra de arte musical surge também como uma criação não condicionada pelo nosso sentir, especificamente estética, que a consideração científica, separando-a dos acessórios psicológicos da sua origem e efeito, deve apreender na sua constituição intrínseca.Mas, na realidade, esta obra de arte, conceptualmente livre do nosso sentir, autónoma, revela-se como meio eficaz entre duas forças vivas: o seu donde e o seu para onde, isto é, entre o compositor e o ouvinte.Na vida anímica de ambos, a actividade artística da fantasia não pode extrair-se à maneira de puro metal, tal como se apresenta na obra de arte pronta, impessoal – pelo contrário, opera ali sempre em estreita interrelação com sentimentos e sensações. O sentir conservará, portanto, antes e depois da criação da obra, primeiro no compositor, em seguida no ouvinte, uma importância a que não podemos subtrair a nossa atenção.

 

Capítulo V

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VNada impediu tanto o desenvolvimento científico da estética musical como o valor excessivo que se atribuiu aos efeitos da música sobre os sentimentos. Quanto mais conspícuos se mostravam tais efeitos tanto mais se enalteceram como arautos da beleza musical. Pelo contrário, vimos que nas impressões mais avassaladoras da música se imiscui a fortíssima participação da excitação corpórea, por parte do ouvinte. Do lado da música, esta intensa ingerência no sistema nervoso não reside no seu momento artístico, que dimana do espírito e se dirige ao espírito, mas no seu material, que a natureza dotou com aquela insondável afinidade electiva fisiológica. O elementar da música, o som, e o movimento é o que acorrenta os sentimentos indefesos de tantos afeiçoados da música, cadeias que eles de bom grado fazem retinir. Longe de nós pretender cercear os direitos do sentimento na música. Mas este sentimento que efectivamente se une mais ou menos à contemplação pura só pode passar por artístico quando permanece consciente da sua origem estética, isto é, da alegria encontrada numa beleza e, claro está, determinada. Se esta consciência falta, falta a contemplação livre do belo artístico determinado e o ânimo sente-se apenas prisioneiro do poder natural dos sons, então a arte pode tanto menos atribuir a si semelhante impressão quanto mais intenso ele se apresenta. É muito significativo o número dos que ouvem ou, em rigor, sentem deste modo a música. Ao permitir que o elementar da música actue neles em passiva receptividade, ficam enredados numa vaga agitação, imperceptivalmente sensível,85

 

Capítulo VI

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VIA relação com a natureza é para todas as coisas o [elemento] primeiro, por isso, o mais respeitável e o mais influente. Quem quer que tenha tomado o pulso da época, ainda que só fugazmente, sabe que o domínio deste conhecimento se encontra em poderosa expansão.A investigação moderna é caracterizada por um rasgo tão pronunciado no sentido da vertente natural de todos os fenómenos que até as pesquisas mais abstractas gravitam sensivelmente em torno do método das ciências naturais. A estética, se não pretender levar uma simples existência aparente, tem de conhecer tanto a raiz nodosa como a fibra fina em que cada arte singular está ligada ao fundamento natural.Se, neste conhecimento, a ciência do belo legou aos pintores e poetas aspectos fragmentários, ao músico deve ela não menos do que tudo.As relações naturais da música costumavam sobretudo considerar-se apenas do ponto de vista físico, e pouco se foi além das ondas e figuras sonoras, do monocórdio, etc. Se se deu um passo qualquer no sentido da investigação mais excelente, bem depressa ele se detém porque se alarmou perante os seus próprios resultados ou frente ao conflito violentíssimo com a doutrina dominante. E, no entanto, a relação da música com a natureza desfralda as mais importantes consequências para a estética musical. A posição das suas mais difíceis matérias, a solução das suas questões mais controversas depende da correcta apreciação desta conexão.

 

Capítulo VII

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VIITem a música um conteúdo?Tal é a sua questão mais candente, desde que existe o hábito de reflectir sobre a nossa arte. Foi decidida pró e contra. Vozes importantes afirmam a ausência de conteúdo da música, vozes que, na sua quase totalidade, correspondem a filósofos: Rousseau, Kant, Hegel,Herbart, Kahlert, etc. São incomparavelmente mais numerosos os lutadores que defendem o conteúdo da música; são os genuínos músicos entre os escritores e são secundados pelo grosso da convicção geral.Quase pode parecer estranho que justamente os que estão familiarizados com as determinações técnicas da música não consigam libertar-se do erro inerente à opinião que contradiz uma dessas condições, que se poderia antes perdoar aos filósofos abstractos. Tal deve-se a que muitos dos musicógrafos se preocupam neste ponto mais com a honra putativa da sua arte do que com a verdade. Combatem a doutrina da falta de conteúdo da música não como uma opinião em face de outra opinião, mas como uma heresia perante o dogma. A concepção contrária afigura-se-lhes como uma incompreensão indigna, como materialismo grosseiro e insolente. «Como, a arte que tão alto nos eleva e entusiasma, a que tantos nobres espíritos dedicaram a sua vida, que pode servir as mais sublimes ideias, estaria oprimida pelo anátema da falta de conteúdo, seria um mero joguete dos sentidos, zumbido vazio!?» Com semelhantes exclamações, tantas vezes ouvidas e que geralmente se proferem aos pares, embora uma frase não corresponda a outra, nada se refuta nem demonstra. Não se trata111

 

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