Casamento e Separação:O Desenvolvimento Emocional Necessário

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O ‘desenvolvimento’ emocional necessário que esta obra detalha a você, leitor, foi grafado assim propositalmente, e deriva da clareza de que o sofrimento emocional se encontra extremamente vinculado à dificuldade de decisão para a solução do conflito, o que perpetua a crise com as brigas, angústias, insatisfações ou remete ao tédio e à estagnação, com uma espécie de anestesia que cronifica a patologia do vínculo, escondendo a dor. Nesta obra, Mara Regina F. Caruso, psicoterapeuta com mais de duas décadas de experiência no atendimento a casais e famílias, oferece uma visão ao mesmo tempo sublime e prática para a superação de uma realidade absolutamente trivial e, por que não dizer, inevitável, em muitos relacionamentos: a separação. Mas na verdade este livro vai muito além de como lidar com um momento tão delicado quanto pode ser a separação física de um casal, ele mostra como é possível lidar de maneira saudável com separação emocional. Trata-se de um texto atual e esclarecedor, que pode ser extremamente útil tanto ao leitor vivenciando uma crise quanto para profissionais que atendem em psicoterapia casais com vínculos disfuncionais. Uma leitura que certamente irá contribuir em sua atuação profissional, fornecendo uma compreensão maior desse complexo processo como um todo.

8 capítulos

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1. Introdução

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1. Introdução

Quando um casamento entra em crise e chega (ou não) à separação, o sofrimento vivenciado pelos parceiros costuma ser enorme e por vezes bastante longo, dependendo do tempo que se leva para chegar à finalização da crise.

Nos casos em que ocorre a separação, o drama relacional pode se estender desde o início das dificuldades de relacionamento que estão comprometendo o vínculo, passando pela efetivação da separação e prosseguindo até a elaboração emocional posterior ao rompimento

(a separação emocional).

Naqueles em que a crise evolui propiciando a recuperação do casamento, os considerados “finais felizes” (consideração cultural equivocada na medida em que a separação também pode ser um final feliz em muitos casos), o sofrimento pode persistir até que a funcionalidade do vínculo seja recuperada.

Quando acontece a manutenção do casamento sem uma evolução positiva da crise, as dificuldades vão se tornando crônicas e são suportadas com uma boa dose de anestesia emocional, ou o casal

 

2. Casamento e Crise

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2. Casamento e Crise

Todos sabemos que as crises têm um importante lado positivo no que se refere à possibilidade que trazem de transformação e crescimento. Por outro lado, também é conhecido seu potencial destrutivo quando não se direcionam para resoluções satisfatórias em tempo hábil. Isso também se aplica às crises relacionais, das quais tratamos aqui.

É necessário, então, fazer um questionamento sobre o prognóstico da crise. Trata-se de uma crise que caminha no sentido de promover mudanças positivas? Há quanto tempo ela vem ocorrendo? Durante esse período aconteceram progressos ou o drama vem se perpetuando de forma repetitiva, sem soluções?

Pretendo manter esse questionamento implícito em todos os tópicos aqui abordados, com o foco na questão da importância do prognóstico da crise para o seu des-envolvimento, o que inclui a decisão de ficar no ou sair do casamento.

Para entendermos como acontece a crise no casamento, precisamos abordar alguns aspectos da construção desse vínculo desde o seu

 

3. Resistências que Impedem a Evolução

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3. Resistências que Impedem a Evolução

No decorrer de minha prática clínica, pude observar algumas formas de resistência que dificultam a resolução dos conflitos, perpetuando a crise numa dolorosa patinação que impede que se vá a qualquer direção. Trata-se, portanto, de uma impossibilidade no des-envolvimento da crise conjugal.

Retomando aqui a forma como estou utilizando a palavra “desenvolvimento”: ao abordar um problema precisamos nos distanciar um pouco, de forma a diminuirmos nosso envolvimento com ele, envolvimento este que impede uma percepção mais nítida e trava o encaminhamento de soluções (para ter uma imagem concreta do que estou falando, basta aproximar um objeto dos olhos para constatar a perda de clareza da visão desse objeto. Para enxergarmos bem, precisamos de uma distância razoável, que possibilite o foco da visão). Assim, para se desenvolver, muitas vezes se faz necessário se des-envolver.

Com frequência, a pessoa se recusa a enxergar sua responsabilidade nas dificuldades conjugais, adotando uma postura acusatória em relação ao parceiro, o que impede a mudança de suas próprias

 

4. Quando o Processo se Dirigepara a Manutenção do Casamento

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4. Quando o Processo se Dirige para a Manutenção do Casamento

Numa separação didática, temos basicamente três tipos de manutenção de casamento pós-crise.

Sobre o primeiro já vimos bastante até aqui, quando explanei sobre as resistências a terminar o casamento e a respeito da não concretização da separação. É quando não ata nem desata e a relação disfuncional se torna crônica.

O segundo se refere a crises passageiras, reativas às vivências traumáticas.

E o terceiro ocorre quando a crise, embora difícil, se resolve com a reconfiguração do casamento, num processo extremamente complexo, em geral acompanhado de um trabalho psicoterapêutico

(Ufa! O prezado leitor há de concordar que parece um alívio abordar esses casos em que a crise mesmo com luta, é superada a contento).

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casamento e separação

4.1 Manutenção do Vínculo Disfuncional

O primeiro tipo, portanto, caracteriza-se pela manutenção do casamento de casais disfuncionais, optando-se pela continuidade do vínculo neurótico, perpetuando-se o sofrimento inerente a essa escolha ou recorrendo-se a mecanismos de defesa para aliviar a dor, como uma espécie de anestesia ou distanciamento.

 

5. Concretização da Separação e a Participaçãodo Advogado

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5. Concretização da Separação e a Participação do Advogado

Voltamos agora a abordar o momento em que a ilusão do amparo propiciado pelo casamento se desfaz, quando se encara a relação falida sem “tapar o sol com a peneira”. O momento em que aquela decisão de se separar tomada mil vezes e nunca concretizada passa a ser pragmatizada.

Trata-se da etapa em que todas as já citadas resistências foram vencidas e se concluiu e aceitou que o casamento acabou, sendo necessário efetuar a separação concreta, ou seja, da casa, dos bens, dos filhos, do cachorro...

Em geral, nessa etapa, busca-se a oficialização do rompimento por intermédio de um advogado. Com base nos acompanhamentos que fiz de casais em processo de separação, afirmo que é importante a busca desse profissional, porque os bens concretos, o patrimônio e a guarda dos filhos costumam entrar em cena como elementos de barganha, argumentos de chantagem emocional ou como instrumentos para deixar o outro endividado. Esse uso manipulativo (ainda que

 

6. Separação Emocional

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6. Separação Emocional

Já sabemos que a concretização formal do término do casamento não é o final do processo de separação. Como adiantei acima, chegará o momento em que o conteúdo emocional não resolvido vai cobrar seu espaço e voltar à cena, exigindo atenção e elaboração.

Será necessário que ocorra essa elaboração para que haja um final feliz, definido aqui como resolução individual das pendências emocionais, que trará o ganho da tranquilidade e a retomada da realização, num novo formato de vida.

Constatei, em muitos pacientes recém-separados, uma enorme frustração em relação à expectativa do fim do sofrimento com a concretização da separação. As pessoas relatavam que esperavam (após decidir se separar) sentir um alívio imediato após a ruptura, na medida em que, estando livres do outro, não vivenciavam mais as brigas nem as hostilidades (ou pelo menos podiam evitá-las, já que não moravam mais na mesma casa). No entanto, percebiam que estavam insatisfeitas, às vezes deprimidas ou até pensando muito no outro.

E diziam inconformadas: “Como assim? Por que não me sinto livre,

 

7. Fases, Dificuldades e Elaborações Pós-Separação

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7. Fases, Dificuldades e Elaborações Pós-Separação

Organizando didaticamente, diria que podemos dividir o período pós-separação, quando bem-sucedido, ou seja, com uma elaboração emocional efetiva, basicamente em duas etapas:

Na primeira, sofre-se pelas perdas, rejeições e inseguranças do presente, que têm raízes no passado, como já vimos anteriormente.

E a dor vivenciada costuma ser imensa.

Na segunda, ocorre um movimento de crescimento, amadurecimento, incluindo a desassociação das carências e inseguranças com a separação, com consequente diminuição do sofrimento e, claro, aumento da segurança, bem-estar e capacidade de relacionamento.

Esta divisão tem objetivo puramente didático, porque, na vivência, o que ocorre é uma mescla das duas fases, um ir adiante e um retroceder, alternando os diferentes momentos do processo de separação de casais.

Também pude observar em alguns indivíduos, após a separação, uma extensão da estratégia de ocupação já abordada no tópico sobre concretização da separação (quando a pessoa, logo após a ruptura,

 

8. Considerações Finais

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8. Considerações Finais

Embora o presente livro trate da crise no casamento e da separação com o intuito de abarcar tanto os aspectos envolvidos na superação da crise para manter o vínculo quanto a resolução das dificuldades no processo de rompimento, o leitor deve ter observado que me detive muito mais no processo de ruptura e posterior recuperação emocional. Embora eu acredite fortemente na premissa de que “é melhor consertar do que descartar”, ainda mais diante da cultura contemporânea do descartável, que tem se estendido para as relações humanas, é preciso saber admitir que, infelizmente, às vezes não é possível reparar uma construção que está desmoronando e, nessas situações, precisamos abrir mão do que tínhamos, aceitar que se quebrou, que a vida útil acabou ou que não nos serve mais.

O meu trabalho clínico me permitiu observar que, quando o vínculo do casal é forte, o prognóstico é positivo e provavelmente o final da história será a saída da crise e a manutenção do casamento, mesmo que para isso seja necessário um processo de psicoterapia (que será então um trabalho psicoterápico mais fluido e eficaz).

 

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