A Anatomia da Violência

Autor(es): Adrian Raine
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Por que algumas crianças de boas famílias tornam-se assassinos? O que podemos fazer para identificar e tratar aquelas com predisposição para o comportamento criminoso? Durante mais de 30 anos, Adrian Raine buscou respostas para essas e outras perguntas por meio de sua pesquisa sobre as bases biológicas da criminalidade. Neste livro, ele apresenta um conjunto de evidências que mostram como a genética e fatores ambientais podem contribuir para gerar um cérebro criminoso.

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Introdução

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Introdução

Era o verão de 1989, em Bodrum, uma bela estância balneária da costa sudoeste da Turquia, embebida em sol, história e vida noturna. Eu estava de férias, e havia sido um longo dia. Tomei o ônibus de Iráklion, onde havia sofrido o segundo pior caso de intoxicação alimentar que já tive na vida, que incluiu dois dias de cama, vomitando e com dores intensas.

Estava muito quente naquela noite de julho, e eu não conseguia dormir.

Havia deixado as janelas abertas para tentar refrescar o local. Tossi e me virei, ainda um pouco doente e sem dormir – com a consciência indo e vindo, enquanto minha namorada dormia na cama de solteiro ao lado. Era pouco mais de 3 horas da manhã quando me dei conta de um desconhecido em pé acima de mim. Naquela época, eu estava dando aula sobre o comportamento criminoso, e teria dito a meus alunos que, caso percebessem a presença de um intruso em seu apartamento, deveriam fingir estar dormindo. Uns 90% dos ladrões só querem roubar suas coisas e ir embora. Deixe-os ir – e, então, ligue para a polícia. Você não corre risco algum e ainda tem a chance de reaver seus pertences sem um confronto violento.

 

Capítulo 1 - Instintos básicos: Como evolui a violência

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Instintos básicos

Como evolui a violência

O estudo científico da criminologia biológica começou em uma manhã fria e cinzenta de novembro de 1871, na costa leste da Itália. Cesare Lombroso, um ex-médico do exército italiano, estava trabalhando como médico psiquiatra em um abrigo para criminosos psiquiátricos na cidade de Pésaro.1 Durante uma necropsia de rotina, ele observou o crânio de um infame bandido calabrês chamado Giuseppe Villella. Naquele momento, teve uma epifania que iria mudar radicalmente tanto o curso da sua vida quanto o da criminologia. Lombroso descreveu essa experiência fundamental do seguinte modo:

Parece que vi, de um só relance, tão claro como uma vasta planície sob um céu ardente, o problema da natureza do criminoso, que reproduz nos tempos civilizados características não apenas de selvagens primitivos, mas de tipos ainda mais sombrios, tão antigos quanto os carnívoros.2

O que Lombroso viu quando olhou atentamente para o crânio de Villella?

 

Capítulo 2 - Sementes do pecado: A base genética para o crime

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Sementes do pecado

A base genética para o crime

Jeffrey Landrigan nunca conheceu seu pai. Nasceu em 17 de março de 1962, de uma mãe que o abandonou em uma creche quando ele tinha apenas 8 meses de idade. Mas o pequeno Landrigan teve sorte: foi adotado por uma família norte-americana típica em Oklahoma. Seu pai adotivo era um geólogo chamado Nick Landrigan, cuja esposa, Dot, foi uma mãe coruja tanto para Jeffrey como para sua filha biológica, Shannon. Bem-educados, sérios e respeitáveis, eles forneceram um novo começo perfeito para o jovem.

No entanto, foi lançada sobre esse bebê uma insidiosa sombra do passado que estava para selar de modo definitivo o seu destino. Aos 2 anos, já demonstrava um temperamento explosivo, com ataques de cólera e exibição de descontrole emocional, o que rapidamente se agravou. Ele começou a fazer uso abusivo de álcool aos 10 anos de idade. Sua primeira prisão veio no ano seguinte, depois que invadiu uma casa e tentou arrombar o cofre. Ele fugia da escola, fazia uso abusivo de drogas, roubava carros e passou algum tempo em centros de detenção. Estava evoluindo rapidamente em sua carreira criminal. Quando fez 20 anos, Jeffrey estava bebendo com um amigo de infância que queria que ele fosse padrinho de seu filho, que nasceria em breve. A resposta de Jeffrey? Esfaqueou o amigo até a morte do lado de fora de seu trailer. Em 1982, começou a cumprir uma sentença de 20 anos por assassinato em segundo grau.

 

Capítulo 3 - Mentes assassinas: Como funciona o cérebro de pessoas violentas

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Mentes assassinas

Como funciona o cérebro de pessoas violentas

Randy Kraft era um homem com uma mente assassina. Mas você nunca teria imaginado isso se o tivesse conhecido. Um consultor de informática com 129 de QI, algo próximo do meu, ele cresceu no sul da Califórnia, perto de onde eu costumava dar aulas, na USC. Randy, assim como eu, foi criado como filho de pais respeitáveis que trabalhavam duro. Era o caçula de sua família e, novamente como eu, tinha três irmãs mais velhas. Ele cresceu em uma região conservadora de classe média, em um lar comum, relativamente sem problemas, o que combinava com o lar em que cresci. Esperto na escola, foi colocado em classes de aceleração, assim como eu fui. Estudou na Westminster High School e na prestigiada Claremont Men’s College, uma faculdade liberal de artes de elite, onde concluiu uma licenciatura em economia. Randy tinha muita coisa em comum comigo.

Você pode ver por si próprio no site de Randy, onde ele relembra sua infância, que sua vida era basicamente “torta de maçã e Chevrolet” nos bons anos de 1950 e 1960. Randy fala carinhosamente sobre sua vida em casa, repleta de memórias felizes a respeito de jogar boliche com seu pai e preparar morangos e chantilly com sua mãe. Ele reflete sobre a emoção de assistir com seu pai à luz pálida e misteriosa liberada pelo local de testes de explosão nuclear, em Nevada, e sobre sua primeira dança na escola com uma garota, aos 13 anos. Randy ponderava sobre isso em sua casa, que tinha como pano de fundo os campos de morangos da zona rural de Orange County. Ele claramente amava ajudar seu pai a fazer fogo pela manhã com o lixo do jardim, e pinta uma cena multimodal e colorida, cheia de sons, odores e texturas:

 

Capítulo 4 - Assassinos de sangue-frio

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Assassinos de sangue-frio

O sistema nervoso autônomo

Imagine cometer um crime hediondo que lhe beneficia, mas prejudica os outros.

Cravar uma faca no marido detestável que lhe bate. Estrangular um chefe agressivo no trabalho. Arrombar uma casa à noite e saqueá-la. Vingar-se do homem que roubou sua namorada. Desviar milhões de dólares de sua empresa. Pior ainda: sequestrar, torturar, estuprar e matar inúmeros estranhos, um por um.

Pense bem sobre isso, colocando-se em uma situação real. Você está bebendo de noite no campus, e sua excitação e sua mente ficam fora de controle.

Sua namorada parece entediada com você, começa a olhar para outros caras e, então, dá uma desculpa esfarrapada para ir embora. Ela abandona-o ali mesmo, no bar. Você queria muito fazer sexo com ela naquela noite e, agora, sente-se frustrado e irritado.

Você está caminhando de volta para seu dormitório e é tarde da noite.

Então, não muito à frente, vê uma estudante bonita. Você acelera o passo para alcançá-la, mas mantém uma distância segura e anda com cuidado, de modo a não fazer muito barulho. Quando chega à parte do caminho que se afasta dos prédios e passa perto de árvores, moitas e arbustos, você a alcança. Olha rapidamente para trás, e não há ninguém por lá. Você a agarra pelas costas. Coloca uma mão sobre sua boca e empurra-a para o mato e para o chão. Você pega uma faca e ameaça matá-la, a menos que ela pratique atos sexuais com você.

 

Capítulo 5 - Cérebros com problema: A neuroanatomia da violência

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Cérebros com problema

A neuroanatomia da violência

Às vezes, você não acha que o Natal é um pouco demais? Todos nós ficamos irritados uns com os outros quando permanecemos enfiados em casa durante todo o período de férias. A sensação de inchaço com todas as guloseimas e o peru de Natal. Assistir à interminável programação de esportes da televisão.

A ressaca e a atmosfera abafada. Os presentes indesejados que você sabe que vai ter que repassar a outra pessoa no aniversário dela. O desespero das resoluções de ano novo que você não é capaz de manter. Sim, todos nós sabemos quão “alegre” o Natal pode ser. Nesses momentos, podemos realmente sentir empatia com Ebenezer Scrooge.*

Herbert Weinstein, um executivo de 65 anos da área de publicidade, não foi exceção. Assim que terminaram os 12 dias do recesso de fim de ano, na noite de 7 de janeiro de 1991, ele e sua esposa, Barbara, tiveram uma grande discussão em seu apartamento, no 12º andar de um prédio em Manhattan.

 

Capítulo 6 - Assassinos natos: Influências precoce na saúde

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6

Assassinos natos

Influências precoces na saúde

Peter Sutcliffe nasceu em um parto tão difícil que os médicos achavam que ele não iria sobreviver à noite. Ele veio ao mundo às 22h do dia 2 de junho de

1946, na maternidade Bingley, em West Yorkshire. Havia passado apenas um ano desde o término da mais longa guerra de que a Inglaterra já participara, e a taxa de mortalidade de recém-nascidos era alta. Mas o pequeno Peter era um lutador de 2.268 g. Apesar do trauma experimentado ao nascimento, o bebê prematuro recebeu alta do hospital depois de uma dramática luta de 10 dias pela vida.

Após esse êxito biológico precoce, o jovem Peter cresceu em Bingley como um menino muito normal. Ele era muito parecido comigo. Nós dois tivemos complicações no parto. Ambos éramos rapazes tímidos educados no norte da Inglaterra, em uma casa típica da classe trabalhadora. Nós dois éramos pequenos para a nossa idade, e ambos tínhamos uma família grande e crescemos católicos. Parecia que Peter havia escapado das garras da morte – mas havia mesmo? Foi quando era coveiro do Cemitério Bingley, em 1967, que

 

Capítulo 7 - Uma receita para a violência: Desnutrição, metais e saúde mental

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Uma receita para a violência

Desnutrição, metais e saúde mental

Amsterdã não era um bom lugar para se estar no inverno de 1944-1945, sobretudo se você fosse uma mulher grávida. Era o início do Dutch Hunger Winter (inverno da fome na Holanda). A invasão dos aliados à Normandia – em junho do ano anterior – acabara dando certo alívio aos holandeses, mas, no seu rescaldo, trouxera miséria. Os aliados haviam sido bloqueados no Reno e não foram capazes de livrar grande parte da Holanda da ocupação alemã. Em setembro, o governo holandês, exilado em Londres, ordenou que os trabalhadores ferroviários de seu país entrassem em greve, a fim de ajudar os aliados.

Eles seguiram devidamente as instruções, porém o resultado foi desastroso. Os administradores alemães retaliaram com um bloqueio de alimentos, privando a Holanda ocidental de suas fontes de alimento.1

Tudo ia de mal a pior. Em primeiro lugar, o inverno chegou muito cedo naquele ano e foi impiedosamente duro. Os canais congelaram. Os alimentos não podiam ser transportados. As tropas alemãs, em retirada, destruíram pontes e docas, dificultando ainda mais o transporte. Em segundo lugar, grande parte da terra arável havia sido devastada pela guerra e estava estéril – incapaz de prover o sustento para os cidadãos holandeses. Mais dois golpes dolorosos para estômagos vazios em sofrimento.

 

Capítulo 8 - O cruel quebra-cabeça biossocial: Juntando as peças

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O cruel quebra-cabeça biossocial

Juntando as peças

Henry Lee Lucas nunca teve uma oportunidade na vida. Desde o início, foi uma mercadoria avariada. Seu pai, um alcoolista vagabundo chamado Anderson Lucas, perdeu as duas pernas depois de cair de um trem de carga. Ele gastava seu tempo bebendo, vendendo lápis e produzindo licor ilegal. O próprio

Henry se viciou em álcool já aos 10 anos de idade. Bêbado na maior parte do dia, Anderson não tinha tempo para Henry – nem para qualquer outra pessoa.

A mãe de Henry, Viola, era ainda pior. Alcoolista e prostituta, ela deu à luz Henry quando tinha 40 anos, depois de já haver abandonado quatro filhos em lares adotivos. Henry, seu irmão mais velho Andrew, seus pais e o cafetão de Viola compartilhavam o mesmo quarto em uma cabana imunda, caindo aos pedaços, perto de Blacksburg, Virginia, sem eletricidade nem encanamento.

Desde pequeno, Henry teve de assistir sua mãe fazendo sexo com seus clientes.

Cronicamente desnutrido, Henry foi forçado a procurar comida nos latões de lixo para se manter vivo. Sua mãe cozinhava apenas para seu cafetão, e as crianças comiam restos que eram jogados no chão, uma vez que Viola não lavava pratos. Sua primeira refeição quente na vida veio quando começou a frequentar a escola e uma professora teve pena dele. Essa mesma professora também lhe deu seu primeiro par de sapatos.

 

Capítulo 9 - Curando o crime: Intervenções biológicas

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Curando o crime

Intervenções biológicas

Danny parecia ser um caso perdido. Apesar de ter um bom ambiente domiciliar em Los Angeles, com apoio e cuidados de pais afetuosos e atenciosos, aos 3 anos de idade já roubava constantemente. Mais tarde, tornou-se um mentiroso compulsivo e contumaz. Na tenra idade de 10 anos, ele não apenas ficava fora a noite toda, mas também comprava e vendia drogas. Era conhecido pelas outras crianças do bairro como alguém de reputação desagradável, e, por se tratar de um bairro de classe média, todos mantinham distância dele. Isso não aconteceu por falta de tentativas de seus pais. Como sua mãe lembrou: “Não importa qual fosse seu castigo, ou as consequências de seu mau comportamento, nunca era suficiente. Não havia como pará-lo. Nós não sabíamos mais o que fazer.”1

Danny cresceu, ficou mais forte e, praticamente, comandava a casa de seu pai. Ele roubava carros e se apropriava das joias de sua mãe para traficar drogas.

Tirava as piores notas na escola. Fazia uso abusivo precoce de drogas, escalando do uso de maconha para cocaína e metanfetamina. Quando tinha 15 anos, foi condenado a cumprir 18 meses em um centro de detenção juvenil. É uma história comum, com todos os sinais precoces reveladores de uma vida de crime e provavelmente também de violência – talvez outro futuro Jeffrey Landrigan.

 

Capítulo 10 - O cérebro no banco dos réus: implicaçoes jurídicas

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10

O cérebro no banco dos réus

Implicações jurídicas

Michael – ou Sr. Oft, como vamos nos referir a ele aqui – era basicamente o sujeito norte-americano de meia-idade comum que você encontra por aí. No início de sua carreira, trabalhou como agente penitenciário, terminando mais tarde um mestrado e se tornando professor em Charlottesville, Virgínia. Gostava de crianças e de ensinar. Segundo consta, ele realmente amava e cuidava tanto de sua segunda esposa, Anne, quanto de sua enteada de 12 anos, Christina, a quem conhecia desde que a menina tinha 7 anos. Ele se deu fabulosamente bem com ela. Oft não tinha antecedentes psiquiátricos, nem qualquer histórico de comportamento desviante. Ele não era muito diferente de você ou de mim

– até que o relógio se moveu em direção à virada do século, no fim de 1999.

Aos 40 anos de idade, seu comportamento mudou, de modo lento, mas evidente. Ele nunca havia se interessado por massagens antes, mas passou a frequentar casas de massagem. Também começou a colecionar avidamente pornografia infantil. Em seguida, o ato uma vez inocente de colocar sua enteada para dormir mudou de uma maneira indescritível.

 

Capítulo 11 - O futuro: para onde a neurocriminologia nos levará?

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11

O futuro

Para onde a neurocriminologia nos levará?

Você se lembra de Kip Kinkel? Provavelmente não. Ele é esquecido com facilidade em meio a todos os outros assassinos em massa dos Estados Unidos e de outros lugares.

Você com certeza não vai se lembrar de Howard Unruh, que atirou em 13 pessoas em Nova Jersey, em 1949. Duvido que se lembre do trágico assassinato de 16 crianças escocesas da escola primária em 1996. Você provavelmente nunca ouviu falar de One Goh, o coreano-americano que matou sete pessoas em sua faculdade cristã em Oakland, na Califórnia, em abril de 2012. Você deve se lembrar do professor e dos 12 estudantes mortos na Columbine High School por Eric Harris e Dylan Klebold – ou de Seung-Hui Cho, o coreano-americano que assassinou 32 em Virginia Tech, em 2007. É muito provável que se lembre de James Holmes, que matou 12 pessoas durante a exibição da meia-noite do filme Batman: O cavaleiro das trevas ressurge (The Dark Knight Rises). Pode demorar algum tempo para que você se esqueça de Adam Lanza, que matou 20 alunos na Sandy Hook Elementary School, em Newtown, Connecticut, em 14 de dezembro de 2012. Mas o restante vai se tornando um borrão – e, de fato,

 

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