As Lições de Paulo Freire: Filosofia, Educação e Política 

Visualizações: 133
Classificação: (0)

Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997) foi um autêntico filósofo social e da educação. Um dos principais pensadores da história da pedagogia mundial, influenciou o movimento chamado pedagogia crítica. Recebeu dezenas de títulos de doutor honoris causa de universidades como Harvard, Cambridge e Oxford. Foi preso em 1964, exilou-se depois no Chile e percorreu diversos países, sempre levando seu modelo de alfabetização, antes de retornar ao Brasil em 1980, após a publicação da Lei da Anistia (1979). Por decreto de abril de 2012, tornou-se Patrono da Educação Brasileira. O filósofo brasileiro Paulo Ghiraldelli Jr. retoma aqui questões e temas inspirados diretamente no convívio com Paulo Freire, na década de 1980, como professor e pensador da vida contemporânea.

FORMATOS DISPONíVEIS

18 capítulos

Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

1. O futuro do oprimido

PDF Criptografado

1.

O futuro do oprimido

O

que nos diz a palavra “oprimido”? Essa palavra se associou de modo umbilical ao nome de Paulo Freire. O livro Pedagogia do oprimido tornou-se mundialmente famoso.

Nos Estados Unidos, em menos de duas décadas, ultrapassou a casa de 25 edições. Uma vez nas livrarias, saltou das prateleiras da área de educação para se reproduzir também nas ciências sociais e filosofia. E isso para o bem e para o mal das relações entre Paulo Freire e a palavra “oprimido”. Qual o papel da palavra “oprimido” no discurso de Paulo Freire? O que ocorreu de ruim e de bom com o ganho de popularidade dessa palavra?

Primeiro, aponto o bom. Durante muito tempo, a educação foi desatenta a uma crença que agora nos parece simples: as relações políticas, ou seja, as relações de poder atravessam nossas vidas e também toda a educação, seja ela escolar ou não. A pedagogia ganhou muito ao ver que estudantes (e professores) podiam ser tomados antes como aprendizes-oprimidos do que simplesmente como aprendizes. Um banho freireano de socio-

 

2. Paulo Freire versus Martin Carnoy

PDF Criptografado

2.

Paulo Freire versus Martin Carnoy

O

s comunistas odeiam utopias. Não foi à toa que Engels se insurgiu contra elas. As utopias são do campo da esperança e os comunistas gostam do campo do conhecimento.

As utopias são feitas por aquilo que os filósofos modernos, desde Hobbes e Descartes, temem: a imaginação. Contra o Renascimento, os modernos abominaram a imaginação e a substituíram pelo entendimento iluminador, que, depois, se transformou em iluminista. Antes conhecer que imaginar. Antes propor o caminho reto que criar utopias. Os marxistas fizeram-se herdeiros aferrados dessa tradição iluminista, praticamente cientificista.

As utopias, como o próprio nome diz, não estão em lugar algum no campo do existente. Não são pensadas para serem realizadas. As melhores utopias são apenas propostas negativas, de denúncia da sociedade existente. Rousseau com o seu Emílio irritou Durkheim exatamente porque, como o sociólogo dizia (e com razão), era algo irrealizável. Diferente de Durkheim, Marx estava preparado para conviver com as utopias, mas os marxistas

 

3. Do mau uso de Paulo Freire

PDF Criptografado

3.

Do mau uso de Paulo Freire

N

ão existe “método Paulo Freire”. Todos nós sabíamos disso, ao menos os da minha geração. Todavia, como tudo na filosofia tradicional (leia-se filosofia moderna) é epistemologizado e, então, metodologizado, e, como na área pedagógica, até pela própria origem da palavra pedagogia, importam antes os métodos que o conteúdo, logo todos engoliram o vocabulário corrente. Surgiu então o tal “método Paulo Freire”.

Daí por diante, não adiantou mais Paulo Freire insistir que sua pedagogia era antes de tudo política. As pessoas repetiam com ele que “tudo é político” e, assim, como não poderia deixar de ser nesses casos, esvaziaram a expressão “política” e reduziram logo a filosofia da educação de Freire a alguns procedimentos de alfabetização associados a não mais que duas ou três frases

“metodológicas”, principalmente a ideia de “levar em conta a experiência do educando”. Foi assim que geramos o “mau uso de Paulo Freire”.

18

 

4. A universidade bancária

PDF Criptografado

4.

A universidade bancária

A

“pedagogia bancária” é uma das melhores caracterizações da pedagogia adotada pela maior parte de nossos professores, inclusive no ensino superior, onde realmente ela não se aplicaria. Trata-se de uma figura criada por Paulo Freire, exatamente para denunciar o caráter dos procedimentos tradicionais em educação. Nos anos 1960-1970, Paulo Freire a utilizou para servir de sparring da sua“pedagogia libertadora”. Com essa expressão,“pedagogia bancária”, o que ele queria dizer, basicamente, é que a dinâmica tradicional em sala de aula implica um professor que deposita informações para os estudantes, os quais por sua vez guardam-nas “no cofre” da memória. Essas informações são, depois, sacadas pelo professor, em geral, no dia da prova. O aluno é o “banco” e o professor o usuário dessa

“casa bancária”.

É bastante interessante que, na universidade atual, até mesmo os professores que se dizem freireanos acabam por ceder à comodidade da “pedagogia bancária”. Uns fazem isso por

 

5. Um grego erótico: Paulo Freire

PDF Criptografado

5.

Um grego erótico: Paulo Freire

J

ohn Dewey usou o termo experience para falar sobre o que nós chamaríamos, em alguns momentos, de “vivência”, uma “expressão bem freireana”. Dewey e Paulo Freire centraram suas atenções em experience e “vivência”, respectivamente, porque viram a educação como algo que não poderia ficar restrito ao mundo das relações de ensino-aprendizagem como têm sido caracterizadas no ambiente escolar, em um sentido estrito. Dewey, particularmente – e Paulo Freire o seguiu nisso –, quis usar experience para sintetizar as noções que havia aprendido com Hegel: Erfahrung e Erlebnis1, ou seja, experiência não só como o que se vive historicamente, mas também como o que se vive psicologicamente. Creio que se Dewey fosse brasileiro, ele não usaria “experiência”, usaria, como Paulo Freire,“vivência”.

1

RORTY, R. & GHIRALDELLI JÚNIOR, P. Ensaios pragmatistas. Rio de

Janeiro: DPA, 2006.

28

As lições de Paulo Freire

A vivência é aquilo que proporciona o caminho aberto para a educação. Por um lado, ela já é a própria educação; por outro, abre a porta para os aperfeiçoamentos mais dirigidos da educação. A vivência tem a ver com o conjunto das relações educativas com que a cidade, com sua cultura, agarra o indivíduo nela inserido. O grego antigo poderia chamar isso, talvez, de paideia.

 

6. Professor ou/e teacher?

PDF Criptografado

6.

Professor ou/e teacher?

O

professor professa. Talvez esse seja o grande problema técnico do campo de formação de professores no Brasil. “Professar” é fazer profissão de, é declarar. Eis aí o drama da língua portuguesa. Nossos mestres professam, eles têm de professar, já que são professores. Ora, não se pode negar que a origem do professar está relacionada aos primeiros cristãos: os que professavam sua fé em público, os que declaravam publicamente terem determinadas crenças. Essa situação tinha, sim, a ver com ensinar. Quem declarava sua fé em público, ou seja, dava o testemunho da fé, podia ensinar a outros o que significava ser cristão. Declarar é uma forma de contar, de ensinar.

Ensinar é declarar.

O interessante é que no mundo de língua inglesa, professor é apenas o professor universitário, o que lida com adultos.

Quem lida com crianças e jovens não é chamado de professor,

é teacher.

32

As lições de Paulo Freire

A palavra “teacher” vem do inglês arcaico tæcam, que diz respeito

 

7. O tal “professor reflexivo”

PDF Criptografado

7.

O tal “professor reflexivo”

P

aulo Freire falou muito e enfaticamente da necessidade de o professor refletir sobre a sua prática. No entanto, em nenhum momento, Paulo Freire quis dizer com isso que sua proposta estava relacionada ao que, depois, veio a se envolver com a idolatria do “professor reflexivo”. Não é difícil ver as razões para isso.

Uma vez vi um jovem mestrando falar sobre o “professor reflexivo”. Perguntei como ele se via: seria ele um professor ou um “professor reflexivo”? Ele respondeu que se esforçava para ser um “professor reflexivo”. Pedi, então, que me dissesse sobre o que refletia. Respondeu-me prontamente que refletia sobre sua “prática diária como professor”. Solicitei que me contasse sobre a reflexão, o que ele fazia, concretamente, nessa reflexão.

No entanto, ele voltou a repetir o jargão, que refletia sobre“tudo” da sua prática. Pedi exemplos. Ele tentou esboçar um, mas novamente preferiu falar o que havia lido, dizendo que refletia so-

 

8. Brinquedoteca

PDF Criptografado

8.

Brinquedoteca

A

s normalistas das décadas de 1950 e 1960 construíam vários brinquedos e, entre esses, os que elas adoravam fazer eram os fantoches – os bonecos para o “teatrinho”. Usava-se todo tipo de material para as roupinhas e, para a cabeça, criava-se uma máscara a partir de jornal, pano ou gesso caseiro.

Na hora de pintar os rostos, então, era uma delícia! Para ser professora naquela época, era necessário ser quase uma artista?

É verdade!

A criação do brinquedo pela normalista estava associada a duas atividades bem construídas na filosofia da educação voltada para a formação de professores daqueles anos.

Primeiro, ela deveria ministrar sua“aula prática”e, em geral, todas gostavam de fazê-lo por meio da apresentação do “teatrinho” para as crianças. Um biombo com um tipo de janelinha e cortina era o palco. Não havia criança que não vibrasse com aquilo e não havia lição moral que não se pudesse apresentar

42

As lições de Paulo Freire

 

9. O tal do “preconceito linguístico”

PDF Criptografado

9.

O tal do “preconceito linguístico”

A

autora do livro Por uma vida melhor, distribuído pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC) para as escolas em

2011, quer abolir o que ela chama de “preconceito linguístico”.

Para tal, imagina que o melhor método é dizer que ninguém mais escreve errado, ou seja, que o “certo” e o “errado” devem ser abolidos da escola, em se tratando do uso de nossa língua. A intenção da autora é boa, mas a maneira como o faz não é útil por causa do uso pouco aconselhável do termo “preconceito”.

Preconceito é, em grande parte, pré-conceito. Ou seja, formamos uma noção que não poderia ser chamada de conceito porque é o nosso entendimento apressado e falho de uma pessoa, situação ou entidade, etc. Assim, no caso imaginado pela autora, alguém que visse uma pessoa falando “nóis vortemo com uma baita di uma reiva”, poderia acabar por julgar a capacidade intelectual e, até mesmo, o caráter moral dessa pessoa por conta desse seu uso da língua distante do padrão da norma

 

10. Norma culta: o certo e o errado são relativos e válidos

PDF Criptografado

10.

Norma culta: o certo e o errado são relativos e válidos

A

linguagem é um todo vivo e dinâmico inventado por nós cotidianamente. Em primeiro lugar, há a comunicação e, só depois, a linguagem. A linguagem implica uma semântica, uma sintaxe e uma pragmática, que são formalizadas após os fenômenos de comunicação se estabelecerem entre usuários, que então são chamados de usuários de uma determinada linguagem. É assim que devemos entender a linguagem, a meu ver. E essa posição nada é senão a que, no campo filosófico, Donald Davidson endossou e fortaleceu.1

No campo linguístico, há uma série de posições paralelas ao que Davidson propôs. Todavia, enquanto nós, filósofos, nunca quisemos tirar nenhuma grande consequência prática de ensino dessas nossas conclusões sobre a linguagem, alguns

1

GHIRALDELLI JÚNIOR, P. Introdução à filosofia de Donald Davidson.

São Paulo-Rio de Janeiro: Luminária-Multifoco, 2010.

50

As lições de Paulo Freire

 

11. Saberes que convivem, mas que não são amigos

PDF Criptografado

11.

Saberes que convivem, mas que não são amigos

À

s vezes, a falta de rancor é antes um problema que uma solução. Esse é o caso da situação vigente na universidade brasileira atual, um lugar que vive atualmente o inverso da guerra hobbesiana de“todos contra todos”. A universidade hoje

é o local da amizade entre todos. Isso pode não ser uma verdade em termos práticos, mas é o que corre no discurso, graças a uma literatura que tem entupido nossa paciência com teses pouco corretas sobre interdisciplinaridade e multidisciplinaridade.

Segundo esse discurso, tudo que o estudante deve fazer

é caminhar no sentido de integrar saberes, mas os professores que assim falam não integram saber algum. Continuam dentro de suas “caixinhas”. No entanto, se são obrigados a falar para os alunos sobre o “sentido dos estudos universitários”, enchem a boca com frases sobre os benefícios da interdisciplinaridade.

No campo do que convencionamos chamar de “humanidades”, esse discurso tornou-se sagrado. Contra ele, elegeu-se um inimigo comum, batizado como “positivismo” – algo que poucos

 

12. Como ler corretamente?

PDF Criptografado

12.

Como ler corretamente?

E

is a pergunta de um amigo: “Paulo, como ler de modo produtivo?” Gostei da pergunta, pois, para ele,“produtivo” quer dizer “como ler e entender corretamente a ponto de ficar bem inspirado?” Sim! É exatamente isso que uma boa leitura faz ao bom leitor. A boa leitura inspira ações, discursos, com­ portamentos e, enfim, outros escritos. Parece fácil e é fácil, mas

é fácil em tese. Na tarefa da leitura, percebemos que até pes­ soas inteligentes e com uma formação não desprezível trope­

çam. Uma boa parte delas não tropeça no meio do texto, mas logo na primeira frase.

O que é que há nas primeiras frases ou até mesmo antes, no título, que se põe como um desvio em vez de ser um gancho para levar o leitor a um bom entendimento do texto? Nesse caso, na maioria das vezes, se o texto é confeccionado por um bom escritor, o problema não está no texto, e sim no leitor. É que o leitor, nesse caso, tem uma frase inicial pronta, posta para ele de antemão, colocada na frente do texto que irá ler. Trata-se

 

13. Bullying

PDF Criptografado

13.

Bullying

H

á uma distinção entre bullying e mobbing que é antes europeia que americana. Ambos apontam para a prática da intimidação que varia da conversa ameaçadora à agressividade física. O bullying é mais americano; diz respeito às ameaças de um indivíduo “fortão” ou poderoso a algum menos musculoso ou sem qualquer poder. Não é uma prática incentivada nos Estados Unidos, mas guarda uma característica que, enfim, tem relação com um modo americano antigo de vida. O cultivo da individualidade e de certa “bravura” foram práticas próprias da maneira como a colonização se fez sentir na América.

O mobbing é, antes de tudo, o comportamento agressivo grupal contra um indivíduo. Está relacionado à intimidação mafiosa, é claro, mas, em determinadas situações, não fica longe do que, no limite, em uma situação de acirramento ideológico de

ânimos, pode levar à intimidação de tipo nazista. Nos Estados

Unidos, talvez fosse tomado por alguns praticantes do bullying como covardia – e o covarde e o looser, na América, têm igual

 

14. Nascemos sem preconceitos?

PDF Criptografado

14.

Nascemos sem preconceitos?

U

m dos melhores filmes nacionais que já vi é de Cacá

Diegues, o Bye Bye Brasil. Cacá não é nada bobo, muito pelo contrário. Em um texto publicado no jornal O Globo, “O horror da diferença” (09/04/11), alinhava uma série de acontecimentos no Brasil e no exterior cuja marca comum é a famosa intolerância, contra a qual o discurso liberal se fez sentir desde o início da modernidade. Ele está certo, ao menos até quase o final do seu artigo. Ao terminar o artigo, no entanto, afirma algo que não ajuda na sua condenação às discriminações,“nascemos todos sem preconceitos”.

Não podemos nascer sem preconceitos. A maior parte de nós, filósofos, acredita hoje que não nascemos com nenhum conceito ou protoconceito e, então, não faz sentido dizer que nascemos sem preconceitos. Essa discussão de nascer ou não nascer com isso ou aquilo não diz nada sobre nós, os “bípedessem-penas”. Além disso, do ponto de vista prático, o que vale dizer que nascemos sem preconceitos? Nada ou quase nada.

 

15. O império “natural”

PDF Criptografado

15.

O império “natural”

A

riadna foi a primeira eliminada do reality show Big Brother Brasil 11. Sem sombra de dúvida, ela tinha a melhor história de vida de todos os participantes. Aliás, por todas as razões, inclusive as mais objetivas – como sua postura simpática na casa –, não é errado especular que tenha sido o preconceito popular que a jogou para fora em tão pouco tempo. Nossa população consegue ser menos intolerante com os gays, ao menos agora, talvez porque tenha encontrado um “demônio” ainda mais malévolo, o transexual.

Todavia, dizer “o nosso povo tem preconceitos” ou “nossa sociedade é hipócrita” e outras frases desse tipo não explicam nada. Quando evocamos a filosofia e as ciências humanas, aí, sim, melhoramos nosso entendimento. No caso, vale lembrar

Paulo Freire, tão preocupado e, em alguns momentos, muito ocupado com as distinções entre “natureza” e “cultura”. O que se pôs na jogada no caso de Ariadna foi uma dupla, identificada pelos nomes “natureza” e “verdade”, e tudo que envolveu seu

 

16. Quem é candidato a fascista?

PDF Criptografado

16.

Quem é candidato a fascista?

A

no de 1958, Hanna Schmitz (Kate Winslet) volta para casa após mais um dia exaustivo de trabalho. Caminha rápido pelo escuro corredor que leva para a escada de sua quitinete, mas não sem perceber que havia pisado em uma poça de vômito. Ela se volta e vê em um banco no corredor o adolescente que ali havia parado por se sentir mal no caminho entre a escola e sua casa. Hanna limpa o chão e, em seguida, acolhe-o.

Cuida dele. O garoto, meses depois, ao melhorar de saúde, volta ao local para agradecer. Seu nome é Michael Berg (David Kross), um bom e culto menino de classe média alta. Inicia-se ali entre eles um romance de verão. Algo fantástico e sedutor para ele, uma vez que Hanna não é só uma linda mulher, mas também mais velha, e, curiosamente, tinha uma estranha sensibilidade docemente infantil. O que Hanna mais gosta é de sexo e de ouvir Michael ler livros para ela. Com ela, Michael ganha confiança em todas as suas atividades e torna-se homem rapidamente.

Todavia, um dia após uma promoção no serviço de ajudante de

 

17. Teoria e prática

PDF Criptografado

17.

Teoria e prática

P

aulo Freire insistia na articulação perfeita entre teoria e prática, ele queria ultrapassar essa dualidade. Todavia, não raro, era difícil que fosse entendido no que efetivamente estava propondo. Uma boa parte de seu público, até por razões

óbvias – a falta de filosofia no ensino médio e até mesmo no superior –, não o compreendia exatamente. Muitos passaram uma vida toda trabalhando com escritos de Paulo Freire sem nunca terem tomado o que ele dizia sobre teoria e prática no sentido que em que ele utilizava essa terminologia.

Frequentemente, as pessoas imaginavam que, com o termo

“prática”, Freire estava se referindo ao cotidiano do fazer educação, envolvendo as relações entre professor e aluno. Tratar-se-ia, portanto, do comportamento de ambos, o que os levariam, após algum tempo, a poder dizer que viveram e se transformaram por meio de uma contínua relação de ensino-aprendizagem.

Nessa mesma linha, essas pessoas imaginavam que o termo

“teoria” referia-se aos princípios políticos e à pedagogia ao que

 

18. Paulo Freire: filosofia da educação e a política

PDF Criptografado

18.

Paulo Freire: filosofia da educação e a política

A

palavra educação pode ser derivada, alternadamente, de dois termos do latim: educere e educare. A primeira tem o sentido de “conduzir exteriormente” e a segunda, de “criar” ou

“alimentar”. É interessante notar que nenhuma das partes dessa etimologia dupla é dispensável. Optando por educere, temos uma acepção de educação em que são importantes as regras exteriores ao aprendiz. Adotando educare, a acepção de educação é a que espera ver o aprendiz colocando regras para si mesmo. Em termos de filosofia da educação, as duas grandes linhas mestras na pedagogia coincidem com essa dupla etimologia.

Há uma pedagogia que acredita que a educação se realiza como uma maneira de tornar o aprendiz aquele que assimila regras que não são suas, mas que passarão a ser e, por isso, o tornarão uma pessoa educada. Há uma outra linha da pedagogia que entende a educação como uma maneira de tornar o aprendiz capaz de forjar suas próprias regras e, tendo isso ocorrido, pode se considerar uma pessoa educada.

 

Detalhes do Produto

Livro Impresso
Book
Capítulos

Formato
PDF
Criptografado
Sim
SKU
BPP0000269864
ISBN
9788520448977
Tamanho do arquivo
18 MB
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
Formato
PDF
Criptografado
Sim
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
SKU
Em metadados
ISBN
Em metadados
Tamanho do arquivo
Em metadados