Amordaçados

Autor(es): Julia Carvalho
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Durante seus mais de 512 anos de existência, o Brasil passou apenas 14 deles - entre 1988 e 2002 - em plena liberdade de expressão. Este livro resulta de um ano de pesquisas sobre os processos de censura prévia ao teatro abertos pela Divisão de Diversões Públicas do Estado de São Paulo. Foi dividido em duas partes: a primeira reconstrói a história da censura desde os tempos coloniais até os dias de hoje; a segunda apresenta os perfis de dois autores perseguidos - Joracy Camargo e Nelson Rodrigues - e de um censor que abominava a perseguição - João Ernesto Coelho Neto. Foi possível criar hipóteses sobre o motivo pelo qual cada veto foi realizado, mas talvez o mais interessante tenha sido perceber que a imprensa combateu a censura às artes muito menos do que podia. Não foram poucos os jornalistas que defenderam algum tipo de controle sobre a criação intelectual e artística no país.

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1. Do papa ao ditador

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o d a t i d o a do papa

capítulo

1

945

1500 a 1

“Se tanto tenho de esperar à Porta do Paraíso, prefiro ir ao

Inferno!”. Por essa frase, André Gavião foi investigado pelas visitações do Santo Ofício ao Brasil e processado pelo Tribunal de Inquisição em Portugal.1 Foi apenas uma colocação infeliz, provavelmente dita em um momento de raiva. Entretanto, em tempos de Inquisição, isso era inadmissível. É até possível imaginar a cena. Era mais uma manhã de domingo e uma multidão reunia-se em frente à igreja de Nossa Senhora de Ilhéus, esperando que a missa começasse. Naquela temporada de verão, os dias especialmente quentes castigavam as mulheres embaixo de suas sombrinhas e dentro de seus pesados vestidos.

Mesmo no calor da Bahia, elas insistiam em seguir a moda europeia, com seus corpetes apertados e três ou quatro camadas de saias armadas, justapostas e

1 Souza, Laura de Mello e. O diabo na terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras,

 

2. Do populista ao militar

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capítulo

2

r

do po

lita i m o a a t pulis

985

1946 a 1

Na quinta-feira, dia 18 de julho, meu teatro foi atacado pelo bando do CCC (Centro de Caça aos

Comunistas). Tínhamos recebido diversos telefonemas anunciando o ataque. A própria Cacilda [Becker] me telefonou para avisar que soubera, por um jornalista amigo, que seria nessa noite. Não dei importância: parecia-me mais um lance de guerra psicológica. Fui ao cinema ver 2001 e, quando saí, passei pelo teatro para ver o final do espetáculo. Ao estacionar o carro, percebi algo estranho: duas radiopatrulhas estavam na frente do teatro enquanto, de dentro, saíam gritos de tumulto e ruídos de móveis e aparelhos sendo arrebentados. Da bilheteria e do escritório começaram a surgir funcionários para verificar o que acontecia. As portas do Galpão estavam trancadas por dentro e, em poucos minutos, de mistura com berros e gritos de pânico pedindo socorro, as portas se abriam e um grupo de dezessete homens se precipitava rumo

 

3. Do parlamentar ao juiz

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capítulo

3

iz u j o a r a rlament

do pa

até hoje de 1986

Cinco de outubro de 1988. Pela primeira vez na história do Brasil, estava a democracia plena, com todos os direitos individuais garantidos, instituída pela

Constituição:55

Art. 5º

III - Ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

IV - É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

V - É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;

IX - É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

55 Durante o Império e o período de 1945 a 1964, a liberdade de imprensa foi garantida, mas as diversões públicas ainda eram submetidas à ação da censura. A Constituição de 1988 foi a primeira a garantir a liberdade de expressão em todos os seus âmbitos.

51

XIV - É assegurado a todos o direito à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.

 

4. O protetor dos mendigos

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capítulo

os

ig d n e m s o otetor d

4

o pr

amargo

Joracy C

Depois da crise de 1929, da Revolução de 1930 e da

Revolta Constitucionalista de 1932, São Paulo fervilhava. Seus habitantes, em grande parte imigrantes europeus, traziam de sua terra natal ideias novas como o marxismo e o anarquismo, enquanto uma classe média urbana surgia da industrialização. Todo esse contexto de ebulição econômica e social não era acompanhado pelo desenvolvimento do teatro, que ainda era predominado pelo teatro de revista e as famosas “comédias para se fazer rir”.

Para o dramaturgo Joracy Camargo, esse cenário era inconcebível.68 O homem sério, de cabeleira vas68 As informações contidas nesse capítulo foram retiradas dos primeiros seis meses de pesquisa que realizei como bolsista de Iniciação

Científica do CNPq, no Arquivo Miroel Silveira, sob orientação da Profa. Dra. Mayra Rodrigues Gomes. Meu trabalho consistiu em terminar e complementar a pesquisa iniciada por outra bolsista, Carolina Rossetti de Toledo, sobre o dramaturgo Joracy Camargo. Seu relatório foi essencial para que eu pudesse saber mais sobre a vida do dramaturgo, que possui pouquíssima bibliografia dedicada a ele.

 

5. O pai dos perseguidos

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os

uid g e s r e p s pai do

capítulo

5

es

odrigu

Nelson R

Flor de obsessão. Eis um dos apelidos que melhor define Nelson Rodrigues, cravado por Cláudio Mello e

Souza, um dos jornalistas mais conhecidos do ramo.

As passagens de Cláudio pelo Jornal do Brasil e suas crônicas esportivas no O Globo marcaram, respectivamente, o jornalismo das décadas de 1960 e 1980.

Em retribuição ao apelido, Nelson o chamaria, em crônica, de “remador de Ben Hur”, em razão de seu permanente bronzeado. A amizade entre os dois permitiu que Cláudio acertasse em cheio. O também jornalista, escritor e dramaturgo era mesmo um obcecado: pela morte, pelo sexo, pelo Fluminense e

— como eterna vítima — pela censura. Quase todas as suas peças sofreram algum tipo de corte, quando não foram totalmente vetadas. Seu livro, O casamento, foi retirado das livrarias. Suas novelas só seriam liberadas graças à influência dos diretores da TV Globo, que escreviam longas cartas tentando convencer

 

6. O anticensor

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6

sor n e c i t n a o to oelho Ne

capítulo

esto

João Ern

C

João Ernesto Coelho Neto entrou bufando pela porta da sala. Tinha andado os últimos quarteirões em um passo apressado, e subiu as escadas o mais rápido que pode. Estava atrasado. Odiava estar atrasado, mas estava, não teve jeito. Já estavam todos esperando, Décio de Almeida Prado entre eles. A discussão do dia era o futuro do teatro amador no Brasil. Décio, como anfitrião, achou que poderia fazer a cobrança:

— O que aconteceu, Coelho?

— Desculpem-me o atraso, a prova era hoje e não podia faltar.

— Prova? Prova do quê?

— A prova do concurso público — respondeu João, hesitante.

— Mas que concurso, homem?

— Concurso para censor.

A sala ficou em completo silêncio. Todos se olharam, incrédulos. E, então, começaram a rir. Primeiro bai-

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xinho, depois gargalhando alto: João Ernesto Coelho Neto, o presidente da Federação Paulista de Teatro Amador, o diretor de mais de 30 grupos, um dos homens mais apaixonados pelos palcos, trabalhando para o Departamento de Censura? Finalmente, alguém estaria lutando de dentro! Finalmente, o teatro seria salvo!

 

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