Pequeno tratado de subversão da ordem

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A vida material da espécie humana tem se modificado. Contudo, o cenário da injustiça social permanece. As desigualdades persistem, a exploração das classes pobres prospera com a lógica equivalente à do escravismo. A ordem social é comandada pelos interesses econômicos dos mais ricos, que detêm o poder. O poder dominante se vale de todos os recursos para impor interesses grupais. A riqueza se concentra dissimuladamente em suas mãos. Reduz-se a capacidade de pensar de parcelas expressivas das populações, submetendo-as ao fascínio da ilusão consumista. Os valores éticos são desprezados em favor dos privilégios da elite dominante. Por isso, a mudança deste modelo de sociedade é inadiável. A violência não é o caminho. A subversão pacífica da ordem é a única estratégia de ação coletiva capaz de promovê-la, com a devida dignidade, pois tem o potencial de mudança que a humanidade pode e deve fazer.

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Conceito de ordem

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A ordem pode ser definida como um conjunto de configurações estruturais de natureza física, química e biológica, regulares e reprodutíveis, presentes no mundo material como regras naturalmente estabelecidas, ou de natureza sociológica, antropológica, cultural, ética e moral, presentes na sociedade criada pelo homem como princípios limitantes ou norteadores de comportamentos aceitáveis, estereotipados pela necessidade de exercer controle sobre as pessoas.

As primeiras configurações estruturais que permitiram a delimitação desse conceito resultaram de evidências do universo objetivo. Consubstanciaram-se como consequência dos conhecimentos que a ciência passou a produzir mediante a metodologia da experimentação difundida no mundo. Explicitada a lógica cientificamente descoberta na dinâmica dos processos da natureza, o homem não resistiu à tentação de aplicá-la à forma e aos conteúdos das relações humanas nascidas espontaneamente desde os tempos das cavernas.

Um marco filosófico importante que contribuiu para estender tal conceito ao domínio das concepções sociais encontra-se na obra de Augusto Comte (1798-1857). O pensador francês do século XIX esboçou a “lei dos três estados” como uma espécie de metamorfose da sociedade humana. Teve início no estado divino, produto da abstração teísta não científica; evoluiu para o estado teológico, em que a fé passa a ter expressão gramatical; e chegou finalmente ao estado positivo, no qual a percepção científica de atos e fatos supera o subjetivismo para alcançar a concretude da realidade objetiva. É, em síntese, a visão do positivismo, corrente filosófica de referência para muitos pensadores da época. A densidade do conteúdo de sua obra fortaleceu a crença de que a sociedade humana é regida por normas que lhe conferem o estatuto de categoria científica. Exsurge paulatinamente a definição da ordem como verdade científica irrecusável. Expressa-se como elemento estruturador da sociedade, sobre o qual se organizam todos os movimentos que

 

A ordem e o progresso

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O conceito de progresso difundido na democracia capitalista está intrinsecamente relacionado ao da ordem em todas as dimensões consideradas. Não concebe a possibilidade de progresso sem que as normas em vigor sejam respeitadas, assim como não se pode imaginar o avanço da sociedade no amplo contexto do progresso sem que as instâncias de controle comportamental da cidadania funcionem com determinação.

A palavra em causa é muito utilizada pelas elites governantes. Trata-se, porém, de expressão vaga a definir conteúdo discutível, para não dizer polêmico. Há correntes de pensamento que não admitem sua existência e outras que a aceitam parcialmente. A maioria, sem dúvida, acredita no progresso. Quando se analisa, no entanto, sob o ângulo da história, a relatividade conceitual do tema aparece com evidência. De fato, a variável do tempo decorrido entre a existência de uma civilização e outra precisa ser abstraída do processo para que a comparação entre civilizações distintas, que existiram em eras diferentes, permita avaliar se o conceito de progresso, como se define na atualidade, pode ser afirmado.

 

A ordem e o atraso social

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Atraso social tem sido o contraponto do progresso gerado pela ordem, contrastando, por meio de quadros desoladores, com a euforia delirante do avanço tecnológico alcançado pela espécie humana. Está presente em todas as sociedades em graus variáveis, mas sempre facilmente identificável. Representa a imagem da miséria insanável a poluir a fotografia da realidade com manchas desbotadas que nem mesmo o Photoshop é capaz de ocultar.

A fase civilizatória vivida pela humanidade é marcada pela tecnologia deslumbrante que lhe dá a aparência de avanço antes inimaginável. O fenômeno inunda o cotidiano e traz o fascínio da robotização plena, base de uma ficção que defende a delegação ilimitada das competências humanas a engenhos criados para substituir o homem na maioria de suas atividades originais. Já não se dorme nem se desperta, não se come nem se pensa, não se fala nem se ouve sem o auxílio de apetrechos criados para aumentar o conforto de uma espécie animal que quer renegar, a qualquer preço, sua condição de integrante da natureza. Ganha-se alcance e precisão nas ações. Perde-se liberdade e privacidade na existência.

 

O poder e a ordem

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Com versões diferentes, o princípio conceitual definido nas peças constitucionais das democracias capitalistas resume-se ao conteúdo da frase: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. De concepção utópica, se não ingênua, esse postulado democrático já tão corroído não traduz a realidade. Presta-se a ocultar, da opinião pública, o embuste que representa. Com efeito, nenhum poder emana verdadeiramente do povo. Para tanto, o livre pensar seria requisito insubstituível, condição que não ocorre em nenhuma sociedade. Até porque, segundo o filósofo alemão Ernst Bloch conceitua em seu livro The principle of hope (O princípio esperança), pensar é, antes de tudo, transgredir, postura que o regramento impositivo jamais aceitaria como prática difundida entre as pessoas. Ademais, a estrutura de poder é criada habitualmente em função dos interesses da minoria endinheirada, da classe rica, jamais das necessidades da maioria espoliada, mantida inculta e dependente. Logo, o poder emana diretamente dos grupos privilegiados da sociedade, das instâncias que controlam a economia e detêm, em suas mãos, a maior parte da riqueza dos países a que pertencem.

 

A manutenção da ordem

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A forte convergência de múltiplas teorias elaboradas para dogmatizar a ordem econômica e o poder das elites produz resultados incontestáveis. A sociedade capitalista, que segue praticamente intacta, resistiu a todas as tentativas de revertê-la. Mostra o profundo enraizamento que chegou a alcançar no seio da população, embotando sua consciência mediante controle comportamental que se aprimora a cada ano. Insiste, com visível êxito, na tônica doutrinária de que o capitalismo é inerente

à espécie humana, não havendo, portanto, qualquer alternativa que se identifique melhor com a organização social atreita ao princípio que emana da lei do mais forte, espelhada no catecismo da natureza, tão claramente delimitado pelo darwinismo.

E a população aceita, assim, como se fossem fenômenos naturais, a desigualdade social, a violência, a criminalidade, a exploração do homem pelo homem, a fome, a miséria, o trabalho escravo, a concentração da riqueza. A sociedade configura-se em função do lucro, gerador da acumulação de capital, fonte da solidez dos donos dos meios de produção. Os espaços urbanos delineiam o apartheid entrevisto como bastião do segregacionismo econômico que impõe fronteiras fechadas às classes inferiores.

 

A libertação pela subversão da ordem

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A ordem ideal é a que dispensa toda e qualquer estratégia de manutenção. Sobrevive espontaneamente por mecanismos naturais. Corresponde aos anseios existenciais de todos os membros de uma sociedade. Não desperta oposição e não gera qualquer exclusão. Qualifica a vida coletiva sem desigualdades. Respeita a individualidade do ser. Não aliena. Extingue a exploração. Socializa a propriedade. Promove virtudes.

Desestimula conflitos. Adota a moeda única do afeto. Incorpora o idioma do amor. Sepulta a beligerância. Desenvolve a indústria da sensibilidade humana. Produz a tecnologia do encantamento. Dispensa fronteiras. Estimula diferenças. Unifica a cidadania. Abole a ciência das regras. Desativa o acervo de normas. Não cultiva disciplina. Edifica a ética como patrimônio maior a regulamentar conscientemente as relações entre pessoas e instituições.

Essa ordem inexiste. É mais que sonho, é uma utopia. Mas uma sociedade que se preza navega no oceano utópico da perfeição. Pretende atingir a planície da vida fértil, regada pelo sentimento cósmico do ser, não pela obrigação do ter. Não admite conviver com iniquidades sociais. Conceitua o direito como recurso de entendimento pacífico, consistentemente fundamentado para promover a igualdade, não o privilégio.

 

Subversão da ordem e repressão

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O sentido primitivo da palavra “subverter” é de origem latina. Subvertere significava, originalmente, “fazer voltar de baixo”. A força natural que permite dar a volta de baixo para cima propiciou a sinonímia de derrubar presente nos Salmos da Bíblia, C. Cat. 13,1, nos quais a expressão subvorsi montes se referia ao poder da fé capaz de derrubar montanhas. Até então, subversão encerrava sentido conceitual positivo, pois supunha ascensão construtiva de uma nova realidade. Com o passar do tempo, as classes dominantes identificaram o potencial revolucionário do termo e associaram-no às rebeliões sanguinárias oriundas das massas oprimidas. Veio daí o sentido figurado do vocábulo, que se tornou de uso corrente e caráter pejorativo.

Passou-se a entender, como consequência, o verbo subverter como o ato de destruir, arruinar. A utilização do novo significado, oriundo da cultura opressiva da ordem prevalecente, incorporou-se à sua linguagem como única versão para a chocante palavra. Converteu-a em uma sorte de condenação a todo e qualquer movimento que contrariasse os interesses das classes superiores na escala socioeconômica da sociedade. Como os afortunados não abrem mão de seus privilégios, são radicais nos conceitos e preconceitos em que fundamentam o poder exercido em benefício de si próprios.

 

Ética e subversão da ordem

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Nada sustenta mais fortemente a subversão pacífica da ordem do que a evolução e o enraizamento da ética no âmago da sociedade. Quanto mais esse componente axiológico se incorpora à mente coletiva, menos se aceita o universo de desigualdades que formam o estofo da sociedade humana.

À luz de tal instrumento perceptivo, nenhuma razão válida justifica o cenário classista, segregacionista, impositivo, escravista e humilhante que faz o pano de fundo da ordem opressora. São perversos estigmas absolutamente incompatíveis com as condições de vida igualitárias, seguras e gratificantes em que merecem viver todos os indivíduos da espécie humana.

Não se fala apenas de direito, mas essencialmente de ética, o valor que, sem limites religiosos ou outros, há de perpassar normas, regras, leis e artifícios condicionantes concebidos para controlar o comportamento das pessoas, fazendo-as submissas ao que o poder da elite dominante entende como estratégia de manutenção da ordem. Assim deveria ser, mas não o é. Na verdade, os preceitos éticos que se universalizam com o passar do tempo são repelidos ardilosamente pela maioria dos legisladores, educadores, dirigentes e demais condutores das políticas públicas e privadas em nome de uma justiça social que não é justa, muito menos social. Fazem-no com calculada desenvoltura, multiplicada pelo imenso contingente dos inocentes úteis, que, frágeis na capacidade perceptiva, disseminam práticas e jargões afinados com os espúrios interesses dos detentores do poder. Daí a estrutura educacional desqualificada na maioria dos países, estratégia sub-reptícia concebida para manter privilégios por meio do cerceamento da conscientização humana, dificilmente atingível sem acesso à educação livre e qualificada.

 

Conclusão

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Como afirma o pesquisador francês Georges Vignaux

(1940-), em seu livro Les imbéciles ont pris le pouvoir, ils iront jusqu’au bout (Os imbecis tomaram o poder, irão até o fim):

É sempre necessária uma crise para a tomada de consciência no sentido de que é indispensável mudar nossas maneiras de considerar as coisas e de viver juntos. Não sabemos evoluir de outra forma que não seja por meio de catástrofes, e deste ponto de vista, a catástrofe é entendida como salutar. Múltiplos sinais anunciam essa catástrofe. Não sabemos lê-los nem interpretá-los. No entanto, a falta de vigor generalizada, o dinheiro que faz a lei, a televisão que faz as opiniões, o desemprego maciço dos jovens, os aposentados no abandono, a multiplicação dos pobres estão aí: tantas catástrofes já ocorridas, as quais nos prometem remediar sem jamais o fazerem, porque os imbecis vivem felizes no mundo que dominam. Isso não pode durar: uma revolução é inelutável. Cabe a cada um tomar seu destino em mãos, tomando inicialmente consciência das coisas.

 

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