Dicionário dos apaixonados pelo Brasil

Autor(es): Gilles Lapouge
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Um ?Dicionário dos Apaixonados? é o encontro amoroso de um escritor com seu assunto favorito. Aqui, o jornalista francês Gilles Lapouge fala sobre o Brasil, país em que morou por muitos anos e do qual retém lembranças e um carinho especial.

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Abelhas

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A

Abelhas

Em 1956, o Brasil comprou abelhas africanas. Desejava-se cruzar a abelha da Tanzânia (Apis mellifera scutellata), robusta e adaptada aos climas tropicais, com a abelha brasileira de origem europeia (Apis mellifera ligustica ou Apis mellifera iberiensis).

Um centro experimental de São Paulo se encarregou da operação. Foram-lhe confiadas 56 rainhas africanas. Durante uma manipulação, 26 delas fugiram. Partiram para uma aventura no campo. Tiveram amores. Inúmeras pequenas abelhas africanas nasceram, algumas por causa de um encontro com abelhas brasileiras. Infelizmente, a viagem e essas famílias desfeitas estragaram o humor delas.

Ao passo que os modos da Apis mellifera scutellata são delicados na Tanzânia, uma vez no Brasil, ela se torna melancólica. Qualquer coisa a irrita; ela pica e, se for preciso, mata. Os brasileiros chamam essa abelha híbrida, ou melhor, mestiça, de

“abelha assassina”.

Nada conseguiu deter ou diminuir a invasão. A abelha africana espalhou-se por todo o Brasil e, depois, por outros países da América do Sul. Chegou até o

 

Acolhida

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Acolhida

das à sua descendência. Ela deposita o mel em pequenos potes de cera, o que impõe ao apicultor procedimentos complicados. Os preços do mel nativo são mais elevados do que os do mel comum. Além do mais, a comercialização da fauna doméstica foi por muito tempo proibida no Brasil. Felizmente, desde 2004, essas restrições foram retiradas em relação às abelhas.

Esses inconvenientes são, contudo, compensados por qualidades que as abelhas europeias não possuem. O mel da abelha nativa é uma farmácia fabulosa, que contém toda espécie de remédios. Ele trata dos mais variados sofrimentos, queimaduras, ferimentos. É mais ativo do que o mel comum contra as bactérias Escherichia,

Salmonella spp, Pseudomonas e Streptococcus. Alguns estudos acadêmicos estabeleceram que uma aplicação de mel nativo destrói em 24 horas o Bacillus anthracis, o antraz, essa terrível infecção glandular que faz parte do arsenal de alguns grupos terroristas.

Outra superioridade da abelha nativa sobre a da Europa: sua maior habilidade para a polinização. Por exemplo, algumas espécies de orquídeas ou de bromélias só suportam ser fecundadas pelas abelhas pertencentes à tribo Euglossini, magníficos insetos revestidos de cores metálicas que vão do verde ao vermelho. No Brasil, são chamadas de abelhas das orquídeas. O mesmo acontece com o maracujá. É claro que a abelha europeia-brasileira visita de bom grado a flor (Passiflora edulis), mas, em razão de seu reduzido tamanho, ela não tem acesso à parte fêmea da flor, o que limita o alcance de suas carícias. Ao contrário, a abelha nativa mamangava (da tribo Bombini) é grande, peluda e alcança facilmente essa parte da flor do maracujá.

 

Aleijadinho

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Aleijadinho

sentiria mais à vontade. Agradeci, como se o sr. Mesquita, em sua mansidão, tivesse mandado construir esse arranha-céu especialmente para mim. Ele leu minha coluna em minha presença. Achei a leitura longa, quase interminável. Em seguida, voltei a respirar. Disse a mim mesmo que ficaria nesse país por um bom tempo.

Os dois filhos do diretor trabalhavam no jornal também. Nós nos entendemos bem. O mais velho, Júlio de Mesquita Neto, tinha minha idade. Toda noite, depois de eu terminar minha coluna, ele me levava até a Pensão Americana, na rua Barão de Tatuí. A cidade nunca adormecia. Eu a achava esplêndida. Muitos franceses me diziam que ela era feia, mas eu não concordava com eles. Eu estava tão feliz. Os anos não a estragaram, é uma cidade magnífica. O carro de Júlio Neto era um

Ford branco. Ele tornou-se um amigo. Morreu já faz alguns anos. O seu irmão chama-se Ruy. Ele é muito culto e debatíamos como estudantes de Dostoievski.

Fiquei três anos no Brasil, e então voltei para a França. Meus pais estavam um pouco mais velhos. Depois de minha partida, o sr. Mesquita pediu-me para ser o correspondente do jornal em meu país, de forma que nunca deixei o Brasil. Não me tinha enganado naquela agradável manhã de Copacabana, no primeiro dia.

 

Amazônia

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Amazônia

A grandeza de Aleijadinho foi reconhecida com dois séculos de atraso. Estranhamente, o número de suas obras aumentou à medida que sua fama se espalhava.

Hoje, as falsificações, realizadas em grande parte no século XX, pululam.

No ano 2000, uma importante exposição sobre Aleijadinho foi apresentada no

Brasil. Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, que era a curadora, recusou-se a incluir nessa retrospectiva as peças que considerava duvidosas. Os proprietários dessas peças não aprovaram tal rigor. Ela foi demitida de suas funções pouco tempo depois, quando a exposição foi apresentada em Nova York, no Museu

Guggenheim.

Uma catálogo de suas obras foi publicado em 2003 no Rio de Janeiro, sob o título O Aleijadinho e sua oficina – Catálogo das esculturas devocionais. O livro foi realizado em segredo absoluto e assinado por Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira e dois outros especialistas. Um colecionador entrou com uma ação na justiça. Ele perdeu o processo, mas a venda do livro foi suspensa durante dez meses. Hoje, é vendido em toda parte, mesmo na Internet.

 

Babaçu

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B

Babaçu

A palmeira se sente à vontade no Brasil. Das 3 mil espécies relacionadas no mundo, a América detém 1.140 espécies endêmicas, 420 só no Brasil.

Por muito tempo, ela foi uma desconhecida. Ainda que a Bíblia celebre seus frutos e suas palmas, a Europa não a conhece bem. Catarina de Médici fala sobre ela, pois a viu em Hyères. Achou-a magnífica. Alain Hervé, que conhece tudo sobre a natureza e fala de forma magnífica sobre flores, árvores e palmeiras, ensina-nos em seu livro Le palmier (Actes Sud) que Lineu, o grande taxonomista do século XVIII, conhece apenas quinze palmeiras, entre as quais a tamareira.

“Em 1880”, diz Alain Hervé, “o naturalista alemão Alexander von Humboldt descobre cerca de quarenta espécies, no decorrer de sua expedição pelo Brasil, junto com o francês Aimé Bonpland. Em 1823, Karl Friedrich Philipp von Martius, outro naturalista alemão que viajou pelo Brasil, depois de descrever quinhentas palmeiras em sua Historia naturalis universalis palmarum, recebeu o título de ‘pai das palmeiras’. Ele, além de tocar violino, também os fabricava, gravando em sua madeira esta bela frase: ‘Nas florestas me calei; agora que estou morta, canto’. E também dizia: ‘Entre as palmeiras sempre sinto-me jovem, entre as palmeiras, ressuscito’”.

 

Bala, o homem da floresta

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Bala, o homem da floresta

José Edisto Gonçalves Ribeiro é um homem alto, entusiasmado e com um belo rosto duro. Ele chegou a Machadinho D’Oeste, em Rondônia, há quinze anos. Vinha do litoral, da região da Bahia. Tinha vivido até então como um trabalhador da terra. Recebeu um lote no norte de Rondônia. Levou-me para visitar sua propriedade e a casa que ali construiu. Em pé, de jeans e camiseta, glorioso, mostra-me seu pedaço de terra como um castelão mostra seus domínios, faz admirar seus móveis de época, suas matilhas de cães, seus massacres de cervos, sua árvore genealógica.

Quase não consigo acompanhá-lo quando ele salta sobre os troncos de árvores que abarrotam o solo inclinado; são troncos gigantescos. Há um rio. José colocou uma prancha por cima. Essa prancha não é larga, ela se mexe um pouco e, além do mais, há os jacarés que moram no rio. Ele me espera, encorajando-me e tranquilizando-me. Se tivesse coragem, daria meia-volta, mas não tenho. José é “uma força que vai” e eu vou também.

 

Bandeirantes

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O riso dele é como seu nome, como uma bala que parte a toda velocidade. A sua mulher diz:

– Nos dias em que não trabalha, ele trabalha. Você sabe o que ele faz? Em vez de descansar, vai para a floresta.

Bala é orgulhoso. No domingo, passeia na floresta. Ele olha. Ouve os pássaros.

A passagem da capivara, dos tamanduás, e os cães querem o tempo todo atacar os tamanduás, mas “não deixo eles fazerem o que querem”.

O que Bala gosta na natureza, o que o cativa e o enfeitiça, é a abundância, os renascimentos, a decomposição, as floradas, a profusão, a vida. É a fertilidade. O inesgotável da terra. A floresta é igual a um ventre. A floresta é um ventre de mulher.

“Você está vendo? A folhagem, lá em cima, está ‘coalhada’ de macacos. [Não sei o que significa essa palavra “coalhada”, sem dúvida cheia, recheada de macacos.]

O que é certo é que ouvimos sua gritaria. São os barrigudos... e eu juro que eles enchem bem a barriga com todos esses frutos que estão por todo lado. Quando vejo de longe os galhos sacudindo, como se fosse um furacão, isso quer dizer que estão se enchendo de frutos e de carnes. Comem até não poder mais todas as delícias do mundo, e é isso o que me alegra, que a floresta se mexa e que ela seja boa; tem todas essas coisas que estão lá no seu interior e todas aquelas que eu não vejo.

 

Borracha

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Borracha

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Borracha

A cidade de Manaus ainda não existe. O que existe é uma floresta imortal, toneladas de formigas e de onças, cem mil nuvens, sóis e nevoeiros, jacarés, araras e lontras gigantes, tucanos cujo bico amarelo é tão volumoso que sempre achamos que o pássaro vai cair para frente, sapos venenosos, mosquitos, macacos de todos os tipos, rios.

Entre esses vários rios, existem dois que se encontram a 2 mil quilômetros a oeste da costa atlântica, em pleno coração da selva. O primeiro é o Solimões. Ele desce dos Andes, é imponente e se tornará o Amazonas. O outro chega do noroeste.

Receberá um dia o nome de rio Negro, pois suas águas são ácidas e negras. Na junção dos dois cursos de água, uma vasta praia é frequentada pelos índios manaós. As crianças manaós divertem-se com estranhas bolas moldadas com o látex, essa seiva pegajosa que escorre dos cortes infligidos a uma árvore; elas pulam e é divertido.

Os índios maias chamam a árvore de cahuchu (em língua quéchua, “árvore que chora”). Para os acadêmicos, é denominada Hevea brasiliensis, a seringueira.

 

Boto cor-de-rosa

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Boto cor-de-rosa

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na um estoque gigante no qual se empilham riquezas vindas do mundo todo. Os três mil miseráveis de Manaus dos anos 1600 são substituídos por um milhão de negociantes, merceeiros, controladores, mercadores, mas essa atividade desvairada permanece um pouco artificial. Manaus não desapareceu, está novamente ganhando dólares. No entanto, onde foi parar aquela linda cidade louca da Louca Época?

E o que foi feito de seus sonhos?

Boto cor-de-rosa

Os golfinhos são mamíferos do mar, cetáceos carnívoros cuja cabeça se prolonga por uma espécie de bico. Eles gostam dos homens e das marcas que os barcos deixam na água. Alguns ebanistas dos séculos passados esculpiram “braços de poltronas em forma de golfinhos”. No Brasil, conhecemos os golfinhos rosa. Os cientistas os nomeiam Inia geoffrensis. Os habitantes os chamam de botos.

O boto, mamífero da ordem dos odontocetáceos, nada nos rios da Amazônia.

O que não lhe falta é perseverança, pois, originalmente, como todos os golfinhos do mundo, ele só poderia subsistir nas águas salgadas. Todavia, os mares e os continentes ainda não se tinham fixado e, no mioceno, isto é, entre 24 e 5 milhões de anos antes de nossa era, a Amazônia foi inundada pela água do mar em alguns períodos. Alguns grupos de golfinhos se perderam na Bacia Amazônica. Então, após alguns outros movimentos geológicos, a água do mar se retirou da Bacia Amazônica e os golfinhos se surpreenderam quando constataram que sua água era doce.

 

Cães

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C

Cães

A chegada dos portugueses no início do século XVI mudou os hábitos dos índios: a cultura europeia instala bruscamente, sem avisar, um “posto avançado” no neolítico. Os indígenas, ainda que conhecessem o fogo, não sabiam produzir nem forjar o metal. Por isso, os povos do Brasil (como mais tarde os da Polinésia) ficaram fascinados pelas facas, pelos machados e as machadinhas que as caravelas da

Europa transportavam em seus porões. As grandes conquistas traziam a Terra da

Vera Cruz para a “idade do prego”.

Os soldados portugueses não ofereceram apenas pregos e facas aos índios.

Trouxeram-lhes outro presente, ainda mais luxuoso: o cão. Para o pesquisador e ecologista Evaristo de Miranda, a chegada do cão nas sociedades brasileiras representa “um salto tecnológico comparável ao domínio do fogo”.

O cão, o cão comum, sem pedigree, o cão vira-lata, mudará a vida cotidiana

dos índios. Até então, as tribos viviam no terror, no perigo e na angústia. Elas estavam sempre alertas. À noite, não tinham sossego. Dormiam mal e seus sonhos eram sinistros. Tinham um medo sem fim, pois as guerras entre as tribos eram constantes. Essas guerras eram ainda mais desagradáveis porque os vencedores gostavam de comer os vencidos. As vítimas mais cobiçadas eram as mulheres e as crianças. Buscar água ou se divertir na floresta era uma aventura. A vida desses povos está sempre ameaçada e é sempre inquieta. As noites são de pesadelos. É preciso que os cães europeus cheguem para que as aldeias encontrem o sono e tenham sonhos bons.

 

Café

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be boas cartas, o vira-lata, muito espontâneo, não esconde sua alegria e balança o rabo.

Depois de cinco séculos de companheirismo, o cão faz parte da vida familiar dos indígenas. Não é raro ver, nos vilarejos, uma mulher amamentando um jovem vira-lata que, claro, balança o rabo.

Café

O café nasce na Etiópia, quando um pastor chamado Kaldi observa que suas cabras, depois de comerem os grãos vermelhos de um arbusto desconhecido, ficam muito agitadas, saltando e subindo nas árvores. O pastor come um desses grãos e também fica agitado. Ele sobe nas árvores. Ele se vangloria de sua descoberta. A novidade chega ao Iêmen e depois às tribos nômades da Arábia Feliz*. O grão também se torna nômade. Ele recebe o nome de kahwa, que significa “revigorante”. Esse episódio fundador também é nômade. Ele atravessa o tempo e o espaço. Uns dizem que aconteceu na Etiópia, na cidade de Bonga, perto de Djimma. Outros, no

Iêmen. E será que um dia saberemos se o pastor Kaldi viveu há 2 ou 3 mil anos? E saberemos se a Bíblia se refere ao café quando o Livro de Samuel diz: “Havia o trigo, a cevada e os grãos torrados”?

 

Cangaceiro

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Cangaceiro

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de cruzeiros. Esses cruzeiros estavam cobertos de uma leve película vermelha, pois os cafezais do Paraná gostam principalmente das terras roxas.

Cangaceiro

Virgulino Ferreira da Silva é o mais célebre dos cangaceiros. É um homem terrível.

Usa pequenos óculos e, como o Napoleão de Raymond Queneau e de Zazie, um

“chapéu esquisito” sobre o qual fixou moedas de ouro. O seu sorriso é raro, seco.

Magro. Ele é instruído, audacioso e trágico. Chamam-no Lampião, em alusão ao brilho de morte que sai de seu fuzil. O fogo de sua arma ilumina a noite. Alguns dizem que seu apelido é uma referência à sua brilhante inteligência.

Durante quase vinte anos, de 1922 a 1938, Virgulino faz reinar a justiça ou a injustiça no sertão, uma região árida cujo coração incandescente é o Estado do Ceará e que invade os estados vizinhos, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. O sertão – palavra que tem sua origem em desertão

 

Canibais

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Canibais

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Canibais

Hans Staden é um soldado alemão nascido por volta de 1525 e morto em 1579. Esse soldado tem o coração aventureiro. Em 1547, ele “toma a decisão” de visitar as Índias. Por causa de uma tempestade, seu barco naufraga perto da ilha de São Vicente e indígenas, tupis-guaranis, o capturam. Hans Staden não tem sorte. Foi recolhido por canibais. Ele permanece prisioneiro durante nove meses aguardando a morte. Inteligente e corajoso, ele consegue, com a ajuda de seu deus, o deus dos protestantes, alterar sua relação com seus carcereiros. Pouco a pouco, se transforma em um sábio, um feiticeiro, um profeta e quase um deus. Os tupis-guaranis compreendem que Staden tem o apoio de um aliado ainda mais poderoso do que os deuses dos indígenas. Por isso, aceitam vendê-lo a um navio francês e a vida de

Hans Staden continua.

Ele retorna à Alemanha depois de dez anos de aventuras. Narra sua estadia entre os canibais em um livro publicado em 1557.

“Verdadeira história e descrição de um país habitado por homens selvagens, nus, ferozes e antropófagos, situado no novo mundo chamado América, desconhecido no país de Hesse, antes e depois do nascimento de Jesus Cristo até o ano passado.

 

Capitais: Salvador, Rio, Brasília

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Capitais: Salvador, Rio, Brasília

De tempos em tempos, o Brasil muda de capital. Nos primeiros anos, a capital é

Lisboa. A Terra da Vera Cruz, mesmo rebatizada Brasil, é tão decepcionante! Um continente indistinto, só o vazio, índios e poeira. Não vamos nomear um funcionário para governar desertos. Portugal gerencia a colônia à distância, preguiçosamente. Todos os pensamentos dos monarcas e todas as cobiças são para a Índia, para seus nativos catequizados por jesuítas, para seus tecidos preciosos e seus milênios. O Brasil aborrece Portugal. Ele não rende um centavo e os índios são às vezes desagradáveis. Em 1530, o rei João III, o Piedoso, aquele que estabelece a Inquisição em Portugal, se limita a retalhar o continente em quinze capitanias donatárias, de um comprimento de trinta a cem léguas portuguesas. O feliz donatário possui sobre seu território uma autoridade soberana. Ele nomeia os juízes, os funcionários. Distribui terrenos de acordo com sua vontade. Fixa os impostos.

 

Chica da Silva

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Chica da Silva

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No entanto, há coisas bem mais graves. Lúcio Costa e Niemeyer eram comunistas e jamais questionaram sua ideologia da igualdade. Brasília era um sonho comunista. Os dois homens quiseram fundar uma arquitetura sem classes, homogênea, e na qual nunca houvesse lugar para a miséria, mas o concreto e o aço não obedeceram. Nem a miséria. Ela se convidou. Ela surgiu. Prosperou nas cidades-satélites. Ali, permanecem os pobres; aqueles que, todo dia, dirigem-se ao coração suntuoso da cidade para fazer girar as engrenagens e facilitar a vida dos funcionários, dos políticos, dos diplomatas e dos homens de negócios. Eles se deslocam de suas casas até os palácios nos quais está concentrada a renda mais alta de toda a federação, indecentemente alta.

“Comunistas”, dizem os pobres, “vocês esqueceram os pobres!”. E, mais uma vez, Jean-Pierre Langellier resume de forma brilhante: “Niemeyer venceu o ângulo reto, mas não o capitalismo”.

Chica da Silva

Ela é uma mulher do Brasil barroco. E Chica ou Xica da Silva é o seu nome. A sua vida é como um conto. Ela é escrava e é negra. O seu amante é um branco muito rico. E também muito submisso. Um dia, Chica da Silva lamenta que nas montanhas escarpadas de Minas Gerais não haja um lago, pois ela ama o mar e sua alma

 

Chuva de Belém do Pará

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sileiros? Chica é uma dessas mulheres negras, talvez mais aperfeiçoada que outras, ocupando um lugar mais inacessível que suas irmãs, um lugar ao mesmo tempo ausente, proibido, inexistente e vencedor. Ela usa o poder aterrador de sua cor, de sua condição e de seu sexo para conduzir um combate quase político e talvez metafísico. Ao dominar o corpo do representante do rei em Minas Gerais, não é o poder branco que ela escraviza? A carne enigmática de Chica da Silva subjuga o corpo do rei branco de Lisboa. Assim, a negra Chica da Silva se situaria no mais secreto da inacessível identidade brasileira, no coração de seus enigmas, de seus silêncios e de seus conflitos: Chica é uma mulher. Chica é uma escrava. Chica é uma negra e, com todas essas supostas insuficiências, Chica, pelo poder mirabolante da feminilidade, se alça milagrosamente ao topo da sociedade. Sobre o tabuleiro invertido, o corpo do rei branco levou um xeque-mate.

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Claude Lévi-Strauss

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Claude Lévi-Strauss

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como o luto, uma batalha ou uma sagração. E, afinal, por que a chuva de Belém ficou por tanto tempo agarrada à minha lembrança? Outras tempestades, de igual beleza, desapareceram sem deixar rastro. Se a tempestade da moça perdurou, foi certamente porque ela era uma das protagonistas da comédia, da tragédia que é uma existência.

Claude Lévi-Strauss

Claude Lévi-Strauss faleceu em 31 de outubro de 2009. Tinha cem anos. Os anos o abandonaram. No entanto, a verdade é que ele também não gostava dos anos. Entre Lévi-Strauss e o tempo, as relações sempre foram glaciais. Ele não se interessava muito pelo tempo que passa. Preferia o tempo que não passa. Por isso se especializou na ciência antropológica. Instalou seu acampamento longe desses povos ocidentais que se esforçam para entrar para a história. Ele preferia interrogar os povos cuja história é pesada, arrogante e de certa forma cataléptica.

Um dia ele me disse que, de tanto decifrar os mitos e as fábulas dos povos primitivos, tornara-se um homem do neolítico. Não era uma frase de efeito. Ainda mais extremista que seus colegas historiadores da Escola dos Anais, não era sobre as longas durações que ele se debruçava. Era sobre as durações intermináveis. A sua ciência preferida não era nem a filosofia, nem a história, nem a geografia, nem mesmo a antropologia. Era a geologia que recorta o tempo em largas fatias.

 

Cordel

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bem como aos seus próprios cansaços e misérias, às suas doenças, ele respondia com esse estoicismo heroico que opunha à injustiça das coisas.

Ele esperava, sem dúvida, que o soberbo e também miraculoso e luminoso tecido da vida se desfizesse. Habitava um mundo ultrapassado cujos mecanismos, estruturas, constâncias, regularidades e racionalidades, harmonias, ele continuava a desmontar, mas não via muito bem por que ele ainda vivia. Sonhava com outras sabedorias que não as da Europa. Sonhava com “pensamentos selvagens” e em seu esplendor, com os tupinambás, o budismo, mas permanecia “ocidental”. Não era desses intelectuais que um belo dia se esquecem do Ocidente para esposar de repente a sabedoria dos brâmanes ou dos bororos. Eu me dizia que algumas noites ele pensava no odor das florestas, nesse Brasil do qual se lembrava, segundo me dissera, “como de um perfume queimado”, nas cintilâncias dos rios da Amazônia, talvez nas grossas nuvens que andam acima do Planalto Central ou do Mato Grosso.

 

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