Crônica dos Afetos

Autor(es): Celso Gutfreind
Visualizações: 61
Classificação: (0)

Este livro avança de propósito com a clínica, trazendo a prática antes da teoria. Assim na vida, assim na psicanálise. E o amor, entre outros temas centrais da psicanálise ou da vida, que vem antes e ficará depois. São crônicas, portanto resgatam com síntese e lirismo o cotidiano fora da psicanálise, onde talvez ela mais seja verdadeira. Na verdade, não se mirou muito. Foi-se contando soltamente, inventando (associando) livremente para reter o sumo da vida de forma que o livro começou mais literário como talvez a psicanálise, movendo-se a partir do inconsciente como a literatura, ainda que o resultado final não deixe de abrir certo leque de elementos essenciais ao campo da análise como metáfora do dia a dia, daí também o interesse da obra para o público – mãe, pai, cuidadores, educadores – em geral.

FORMATOS DISPONíVEIS

Impresso
eBook

86 capítulos

Formato Comprar item avulso Adicionar à Pasta

Capítulo 1. Ok, o contrato

PDF Criptografado

1

OK, O CONTRATO

O contrato – essas combinações antes de iniciar o tratamento – é fundamental na psicanálise. Desde Freud, não passou despercebido pelos autores. O contrato oferece referências de tempo e espaço que são básicas desde bebê. Proporciona limites e colabora com a organização do caos no inconsciente. Do indivíduo à civilização, somos frutos de certas regras.

Elas também nos contêm.

Como disse Etchegoyen, a partir de Freud, o contrato é feito para não ser obedecido; porém, essa desobediência é o que mais interessa. Como um sonho, a via régia, um ato falho, o acesso ao desconhecido. Como uma radiografia da falta a ser compreendida, ou seja, preenchida. Podemos falar das referências do contrato: tempo de sessão, frequência, honorários, férias, etc. E variantes que costumam ser individuais ou da dupla (o campo), construídas a partir de experiências sempre originais.

De minha parte, cuido com o que possa acontecer fora da sessão. Costumo ser firme nos limites de espaço e tempo oferecidos além do setting.

 

Capítulo 2. Dinheiros

PDF Criptografado

2

DINHEIROS

Um psicanalista não pode ser tarado por dinheiro.

Primeiro, porque, ao contrário do que se diz, fazer psicanálise não traz fortuna material. Segundo, porque, ao utilizar tecnicamente o contrato, terá de brincar seriamente com a falta de um pagamento.

O autor

Ela tinha perdido um filho, conforme, na véspera, chorara ao telefone. Eu sabia o que era isso? Talvez o meu silêncio a tenha feito continuar vindo.

Afinal, eu tentaria saber, porque sabia. Na primeira sessão, continuou chorando – talvez tenha sido a mais importante. Na segunda, contou o episódio: um latrocínio, meio minuto. Na terceira, tentei desculpabilizá-la

(e também ao filho) da morte: possivelmente morreríamos se estivéssemos no lugar dele. Justo o que ela precisava: alguém que se sentisse em seu lugar. Mas precisávamos fazer o contrato; ela era balconista, não podia pagar integralmente. Havia um pré-contrato, pois me comprometi a atendê-la na crise conforme ela pudesse; depois, se preciso, seria encaminhada.

 

Capítulo 3. Isto não é psicanálise

PDF Criptografado

3

ISTO NÃO É PSICANÁLISE

Quando um dos meus jovens colegas me confia, constrangido: “Não consegui compreender nada”, eu respondo: “É um bom sinal, você começa a se tornar analista”.

J.B. Pontalis

No dia anterior, durante o seminário sobre técnica, discutíamos a importância ou não de apresentá-la ao paciente. Líamos um texto do Racker.

Dentro ou fora dele, pairou certa unanimidade sobre a importância de fazê-lo, ou seja, de expor já no contrato o que será feito. Sem alongar-se, mas não tão breve: no tom, sempre difícil de acertar. No mais, era achar a arte de não saturar (Bion) ao mencionar brevemente aspectos como a associação livre e a busca do autoconhecimento como superiores ao alívio imediato. Dizer que dói, mas vale a pena. E mãos à análise.

No dia seguinte, Eliane arrastou seu corpo como de hábito, sentou-se na poltrona ao lado do divã e suspirou com uma leveza perceptível:

– Ainda bem que isto não é psicanálise!

Estávamos no terceiro ano do tratamento daquela mulher de quarenta e oito anos. Lembrei-me de nosso primeiro dia, quando chegou arrastando-se ainda mais. A voz era de um peso imensurável. Naquele tempo, há horas eu não deixava de indicar um tratamento analítico sempre que possível. Também já não costumava prescrever medicamentos e, igualmente há horas, não me assustava tanto assim.

 

Capítulo 4. O abajur alemão e o recorde

PDF Criptografado

4

O ABAJUR ALEMÃO

E O RECORDE

Ele me disse que no passado costumava quebrar tudo. Nunca o fazia fora de casa, sempre dentro. Teve época em que trabalhava só para repor o prejuízo. Por causa disso, não comprava nada caro ou importado. Tentou três terapias, melhorou em todas, mas nunca o suficiente. Quando estava

“quase bom”, voltava a quebrar.

Melhorou quando recebeu o diagnóstico há seis anos. Transtorno bipolar. Passou a tomar um estabilizador do humor e nunca mais quebrou nada, nenhum graveto sequer. Continuou indo ao psiquiatra, mas agora queria mais. Achava que não quebrar não bastava. Desentendia-se com a filha adolescente, desejava pensar sobre isso. Queria “juntar os cacos”.

Sabia que eu era um psicanalista e perguntou se eu o aceitava com a medicação. Com “tantos cacos acumulados”, não queria voltar a quebrar.

Aceitei. A filha desejava sair de casa, buscava autonomia, liberdade. Ele batia de frente: “sem quebrar, sou um pai, sei o que é melhor para ela”, dizia em companhia não da mulher, uma executiva que nunca estava em casa, mas da mãe, presente, onipresente, que tinha a chave da porta e não tinha hora para entrar e sair.

 

Capítulo 5. Encontro, transferência, contratransferência

PDF Criptografado

5

ENCONTRO,

TRANSFERÊNCIA,

CONTRATRANSFERÊNCIA

Confesso que tenho pouca curiosidade sobre o futuro, no qual, a continuarem assim as coisas, tendo a descrer. Por outro lado, interessa-me muito o passado e muitíssimo mais o presente.

Mario Vargas Llosa

A ligação pedia uma consulta urgente. Eu não costumava atender urgências, mas tinha um horário à primeira hora da manhã seguinte. Marcamos e dormi mal naquela noite. Tive sonhos habitados por ogros assustadores que carregavam tochas acesas e ameaçavam me perfurar com lanças afiadas.

Ela chegou com olheiras maiores do que as minhas. Tinha quarenta e cinco anos, chamava-se Regina. O seu relato era sincopado, aos trancos e barrancos, entre muito choro e poucas palavras. Utilizou duas caixas de lenço de papel. Não esqueci, porque faltou a terceira. Até hoje guardo duas de reserva.

Ela transitava entre o que chamava de “crise de pânico” há uma semana e o atendimento domiciliar de seu terapeuta. Tinha o diagnóstico – disse

 

Capítulo 6. Psiquiatria e psicanálise enfim juntas

PDF Criptografado

6

PSIQUIATRIA E PSICANÁLISE:

ENFIM JUNTAS

Psicanálise evoca dialética. Entre ausência e presença, entre vida e morte.

Dual, binária, dialética como leva a pensar tudo o que chega perto dela.

A psiquiatria, por exemplo. Olhada pela psicanálise, ela viria mais para abafar (aliviar), deixando aquela com a tarefa de expandir em busca de mais subjetividade (e dor). Contrária a ela, enfim, como uma analgesia diante de um verdadeiro reforço muscular sem alívio nem abafamento, outra vez o paradoxo.

Ana tinha setenta anos e chegou “destroçada”. “Quero um colo”, pedia depois de perder o marido para um câncer e o trabalho para uma aposentadoria compulsória. Se eu pensasse – como pensava – que sou um psiquiatra que utiliza a psicanálise, eu não daria. Cheguei a cogitar, sob o efeito da mais verdadeira contratransferência, que fosse procurar alguém mais maternal e propenso a colos. Não eu, não posso te atender com colo, eu diria empaticamente, a encaminhando para um profissional competente para o abraço, um psiquiatra que soubesse usar um mínimo de medicação e conselhos. Mas do que é feita a pessoa? A pessoa é binária?

 

Capítulo 7. Amor e rótulo

PDF Criptografado

7

AMOR E RÓTULO

Que hoje eu me gosto muito mais

Porque me entendo muito mais também.

Gonzaguinha

A psiquiatria, desde há muitos manuais, chama de transtorno de oposição desafiante. Ao sistematizar o distúrbio, arma-se de critérios quase irretorquíveis, de análises sistematizadas e de muito poder científico para, nos casos mais estridentes, poder, inclusive, medicar. Medicar é histórico e humano, portanto, ambivalente. Pode aliviar e salvar. Pode lucrar e afogar.

Quem vive o transtorno – mãe e pai especialmente, mas também professores – sente a dureza. A criança se opõe a tudo e a todos com uma energia profunda. De criança. Ao sim, não, ao não, sim, invariavelmente e vice-versa do contrário, assim por diante. Não tem descanso, e a energia do adulto já não é intensa, porque não é de criança. Mas, sendo possível pensar no meio disso (o grande desafio), se vê como quase sempre o cenário

é deslocado. Afinal, desde o começo, tudo é teatro no drama humano.

 

Capítulo 8. Agarrado ao paradoxo - a clínica do vazio

PDF Criptografado

8

AGARRADO AO

PARADOXO – A CLÍNICA

DO VAZIO

Era como estar em uma obra sem estacas ou como estar antes da obra e ouvir palavras desconexas, um balbucio. As imagens faziam sentido, elas não me deixavam sozinho e me levavam a uma paisagem desoladora de um deserto, ou a uma presença incômoda de um bebê incomodado, entoando um choro sem tradução no momento.

Pensei também no Primo Levy, no Jorge Semprun, no Viktor Frankl, e consegui continuar pensando que todos haviam pensado no irrepresentável, tornando-o menor ao pensarem, porque o que ela dizia era desta ordem desordenada. O relato, um arremedo de relato, a dor sem porta para sair, mas balbucio e arremedo de relato poderiam abrir uma fresta.

Eu tinha medo de espiar, porque sentia um jorro de água (neve, areia) incontrolável, vindo dali e rebentando a porta. Seu nome? Idade?

Silêncio. A dor sem porta tomava conta de tudo. Considerei a falta suprema de mãe, pai, empatia. Pensei no fim dos dias antes do começo.

 

Capítulo 9. A psicanálise e o nada - a clínica do vazio revisitada

PDF Criptografado

9

A PSICANÁLISE

E O NADA – A CLÍNICA

DO VAZIO REVISITADA

À época, eu acompanhava duas situações muito difíceis. Não que as outras não fossem, mas aquelas pareciam especialmente complicadas, uma delas mais ainda, conforme eu pensava no início e confirmou-se ao longo das respectivas tramas.

Na primeira, depois de anos de embate e muito gramar de vazio em vazio, meu interlocutor tornou-se capaz de encontrar um amor. Como era de hábito no seu sentimento de culpa, em vez de contar o romance com prazer, gastava a energia em tentar discutir comigo. Ele me atacava, eu o acolhia, cada um em seu papel no drama que agora vinha dando certo. Ele utilizava a imagem de ferros no interior de uma coluna (era engenheiro, embora não o exercesse por causa de “discussões”) para dizer que havíamos inventado completamente “aquela coluna” (de amor), já que nada tinha em seu passado que pudesse prepará-la, fosse mãe, pai ou as suas próprias tentativas anteriores. Ele sabia o quanto eu discordava dessa hipótese, o que era claro em minha permanente proposição de procurarmos algum fio solto e positivo do seu passado para compreender a parte boa do presente.

 

Capítulo 10. José não é propriedade

PDF Criptografado

10

JOSÉ NÃO É PROPRIEDADE

Eu tinha quase posto abaixo o consultório. Passara o mês de férias em reformas, e José foi o primeiro paciente na retomada. Doze anos, olhar agudo (para cima), observador. Muita coisa mudou por aqui, foi logo dizendo, e eu pensei no quanto ele havia mudado. Há dois anos, chegara com o olhar cronicamente para baixo, tinha um quadro dermatológico de psoríase e, sobretudo, uma relação de muita dependência e passividade com pais, colegas e professores. Falava pouco, chafurdado nos problemas alheios, e não era observador.

Olhei para a reforma do consultório (a mudança do divã, a nova cor da parede), e tudo pareceu menor do que a reforma no José. Ainda bem que parei de pensar, porque ele pensava também e avançava resoluto no assunto seguinte. Queria comprar com seu próprio dinheiro um game proibido para menores de dezesseis anos. Seus argumentos vinham sólidos: tinha economizado a quantia, o conteúdo do jogo (vampiros) não parecia impróprio para ele, os pais já tinham autorizado que visse outros filmes considerados impróprios para a sua idade. Tudo chegava de forma convincente e não recuei nem mesmo diante da possibilidade que aventara de comprar escondido.

 

Capítulo 11. Maria viajando por dentro

PDF Criptografado

11

MARIA VIAJANDO POR DENTRO

Maria era uma jovem adulta que abusava de álcool e maconha. Exibia o perfil da família, desde os avós, imigrantes e jogadores. O tratamento era familiar, com sessões individuais, em duplas e em grupo. A evolução foi favorável, e Maria estava feliz com seu namoro e o curso na Universidade. Ela tinha bons amigos, a vida ia suficientemente bem, não havia mais consumos prolongados, e sim episódios cada vez mais esporádicos.

O tema do dia era o de sempre: a dificuldade de esperar. Maria havia sido aprovada em um programa de bolsas de estudo no exterior, calculava cada minuto que faltava para a partida e, por detrás de uma angústia talvez parcialmente explicada por separações que se avizinhavam (de seu analista, inclusive), ressurgia a angústia diante da falta e do não atendimento imediato de um desejo.

Maria deitava-se no divã e, naquele dia, sacudia-se inquieta entre longos silêncios e alguns murmúrios. Optei por dizer só uma vez o que eu pensava

 

Capítulo 12. Se a força, se a fraqueza...

PDF Criptografado

12

SE A FORÇA, SE A FRAQUEZA...

Um psicanalista que ignora a sua própria dor psíquica não tem qualquer possibilidade de ser analista...

Janete Frochtengarten

Quando eu disse ao menino de onze anos que não batesse tão forte na bola, ele perguntou “por quê?”. Respondi que por consideração aos vizinhos de consultório e porque eu não queria tomar uma batida que me machucasse.

– Como tu é frágil! – ele comentou.

E, porque eu passasse por um momento que realmente me rendia frágil, achei a frase impressionante em termos de palavras e percepções, mas viria mais, e ele veio com esta:

– Já tomei muitas boladas dolorosas nesta vida cruel.

Ali fiquei na dúvida sobre o que em nós mais contribuía com o trabalho de analista: se a força, se a fraqueza...

 

Capítulo 13. Casquinhas

PDF Criptografado

13

CASQUINHAS

Existe na dor uma realidade intensa, extraordinária.

Oscar Wilde

Ela tinha quinze anos e já sabia pensar sobre si mesma. O sintoma que a trouxe – urticárias refratárias – tinha quase desaparecido. Já estávamos em outra fase, refletindo sobre a relação com o primeiro namorado. Ela reclamava que ele era possessivo, ciumento, não a deixava fazer nada sem ele, como sair com as amigas, dançar balé, jogar tênis, “Nem cocô”.

Ela também era ciumenta, reconhecia, mas achava que nem tanto: “Ele pode pelo menos fazer xixi em paz”. Ziguezagueávamos já com algum humor entre isso e a relação com a mãe, vista mais no tempo das urticárias. Enfim, dependia muito da mãe para sair, voltar – estar ali. Se a mãe esquecia, não vinha. Se a mãe atrasava, também atrasava.

Comentávamos um atraso e uma falta decorrentes de falhas da mãe.

Ela tentava me explicar que não eram muitas faltas nem atrasos ao defender as dificuldades maternas com uma resistência (refratária) ao que eu dizia. Acolhi. Depois de um tempo em silêncio, tirou uma casquinha da perna e falou:

– Não sei por que tenho o hábito de tirar casquinhas.

 

Capítulo 14. Ele, o analista e o amigo

PDF Criptografado

14

ELE, O ANALISTA E O AMIGO

Quinze anos de idade. Estava de férias. O amigo telefonou e disse que queria ir à casa dele. Ele falou que agora não podia, porque estava indo ao analista. O amigo:

– Tá louco? De férias e ir num lugar desses?

Estava lúcido. Havia percebido a delícia de ter com quem contar, de ter para quem contar o que sonhava acordado e dormindo, de contar sobre si e ser ouvido pelo outro, de ouvir a própria voz com testemunha.

O amigo achou mais louco ainda, mas é o que ele disse, do jeito dele, adicionando: a delícia de falar da dor, especialmente depois de ter falado, mas também durante; de se sentir compreendido e de compreender; de voltar a ver o amigo depois, olhando melhor e mais atentamente para a sua fraqueza, podendo se sentir mais ele, mais forte, mais amigo.

 

Capítulo 15. Ela, dois parágrafos e uma cura

PDF Criptografado

15

ELA, DOIS

PARÁGRAFOS

E UMA CURA

Estávamos avaliando a possibilidade de alta daquela adolescente. Ela tinha quinze anos e a dúvida mais o receio de parar ou não. Eu, quarenta e tantos e receava também. Não costumo dar altas quando não me pedem.

Então, mudamos de assunto. Aparentemente. Em uma conversa verdadeira, o assunto nunca muda: ou é vida ou é morte, e sempre é amor, nem que na sombra dele. Ela disse que o pai estava brabo, porque ela tinha perdido a carteira de identidade em uma festa. Não bebeu muito, não ficou muito, mas, no trajeto de uma mesa à outra, enquanto conversava com a amiga, esqueceu o documento. Como já estávamos em estado adiantado de tratamento, dei-me ao luxo de interpretar que ali também, durante todo aquele tempo, havíamos acompanhado a perda de uma identidade e o ganho de outra. Isso talvez a deixasse triste como no passado e braba como o pai agora. E feliz – acrescentou, quando achei que não carecia interpretar mais nada.

 

Capítulo 16. Da explosão à palavra

PDF Criptografado

16

DA EXPLOSÃO À PALAVRA

Uma jovem adulta me disse: “A minha mãe acha que eu não nasci”.

Ela havia nascido depois de dois abortos espontâneos. A interação com a mãe era marcada pela superproteção, que agora entendíamos como expressão do medo de que ela também morresse. Assim, não podia viver.

Eu queria escrever aquilo, mas logo chegou o outro momento. Um adolescente que tinha acessos de cólera sem aparente significado para ele e para os pais contou-me um pesadelo. Estávamos eu, ele e a avó materna em um casarão. Com crueldade, eu tranquei a velha em uma espécie de sótão, enchi de explosivos e os detonei. Ao ver a avó explodindo, ele sentiu muita raiva de mim, pois gostava dela.

Aquela avó era mesmo afetiva e participou dos seus cuidados desde bebê. Porém, como a mãe da primeira paciente, sempre foi superprotetora com a filha e igualmente com ele. Se, por um lado, compunha a matriz de apoio (Stern), por outro, podia ser invasiva (Mahler) e dificultava a autonomia, a vida própria. No fundo, aprendíamos ali que a superproteção

 

Capítulo 17. Ela - a teoria nova

PDF Criptografado

17

ELA – A TEORIA NOVA

Ela já tinha vinte anos e vivia como a adolescente que ainda era. Falávamos sobre drogas em geral, incluindo a maconha, que consumia regularmente.

Sabia falar com certa liberdade (a alta talvez não estivesse assim tão longe) e associou em seguida com o episódio ocorrido em uma festa de família.

O tio era cabeça-dura, “todo de direita”, ela “meio de esquerda”, e ele havia desprezado uma de suas opiniões.

O tio, para nós, era o pai, e aquele desprezo, uma violência, uma desconsideração, dessas que a deixava tensa, paralisada, sem alívio à vista.

Era o que vinha do que mais lhe incomodava do pai, irmão do tio.

O fascínio de trabalhar compreendendo é justo este. Para cada sintoma, cria-se uma nova teoria. Ela não está em nenhum livro ou, se está, não foi descrita bem assim. O sintoma não é visto como algo que se repete ou deva ser combatido. Para enfrentá-lo, não há mapa nem protocolo.

A escrita, de certa forma, é sempre nova.

 

Capítulo 18. Épico - a cena primária ou literária?

PDF Criptografado

18

ÉDIPO – A CENA PRIMÁRIA

OU LITERÁRIA?

Sou o menino com a mãe na praia

O pai no meio do rio me chama

Entre os dois divide-se minha alma

Nei Duclós

O gurizinho tinha um plano para invadir o quarto dos pais à noite. Já desconfiava de que algo muito estranho se passava ali dentro durante a sua ausência. Ouvira uns sons baixos, imaginara outros mais elevados. Era criança, era curioso, queria saber, não sabia sossegar.

Todo plano de criança é eficaz, mera questão de tempo para calibrar a imaginação. Tempo de criança sobra, e o gurizinho calculou a hora exata e mexeu na maçaneta delicadamente (não havia buraco de fechadura como antigamente). Quando entrou, surpreendeu o pai recitando um trecho do George Steiner sobre as origens da criação. A mãe ouvia, extasiada:

O artista “reconta”; ele estabelece o inventário do existente.

Messiaen insistirá que a dinâmica de sua música é uma mera transcrição do canto de pássaros e dos “ruídos” inscritos na natureza física pela Divindade.

 

Carregar mais


Detalhes do Produto

Livro Impresso
Book
Capítulos

Formato
PDF
Criptografado
Sim
SKU
MFPP000001916
ISBN
9788582712764
Tamanho do arquivo
8,1 MB
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
Formato
PDF
Criptografado
Sim
Impressão
Desabilitada
Cópia
Desabilitada
Vocalização de texto
Não
SKU
Em metadados
ISBN
Em metadados
Tamanho do arquivo
Em metadados