A Sabedoria da Recuperação

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A dependência química é um problema que atinge milhares de pessoas e contra o qual é difícil lutar. Reunindo depoimentos de quem enfrentou esse problema e foi bem-sucedido, este livro traz histórias de vida reais e emocionantes que provam ser possível, com esforço e apoio, superar essa doença que impacta não apenas os portadores, mas também seus familiares e pessoas próximas.

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Capítulo 1. Histórias simbólicas sobre o que é recuperação

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1

HISTÓRIAS SIMBÓLICAS

SOBRE O QUE

É RECUPERAÇÃO

A vivência do alcoólico no Alcoólicos Anônimos (AA) vai muito além do intercâmbio de experiências individuais sobre o desenvolvimento da doença ou o fortalecimento do propósito de se manter abstinente por meio de uma disciplina comportamental comum de mútuo apoio. Na verdade, o que acontece é uma relação de cumplicidade no processo de crescimento e aprimoramento das consciências, que dá, a cada um, ganhos na qualidade de vida e na realização pessoal psíquica e material que realmente compensam as dores da abstinência, com uma nova cosmovisão e novos objetivos de vida.

Nesse caminho, a criatividade e o repertório simbólico das buscas individuais se so­mam e formam uma cultura própria, na qual elementos de diversas expressões se reúnem de modo a convergir em um caminho único, que mostra alegoricamente saídas para angústias e indefinições comuns no cotidiano. Essas histórias, muitas delas refletindo máximas de filosofia perene (conjunto de verdades universais presentes em diversas civilizações de todas as eras), são contadas pelos membros da irmandade quando ex­ põem suas reflexões e acabam funcionando como ícones, indicando o que se fazer ante distorções emocionais ou encruzilhadas nos rumos da existência.

 

Capítulo 2. Errar é humano, só não erra quem não faz

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2

ERRAR É HUMANO,

SÓ NÃO ERRA QUEM NÃO FAZ

THELMA

SOBRE AL-ANON E NEURÓTICOS ANÔNIMOS

Nos parágrafos a seguir, tento passar a noção de como a dependência química de qualquer droga, mesmo que lícita, como o álcool, pode se manifestar e destruir muito mais do que simplesmente o dependente.

Eu fui (ainda sou) esposa de um alcoólico que bebeu por muito tempo. Em consequên­ cia, sou também uma codependente de carteirinha, com todos os comportamentos de quem desenvolveu essa condição. Além disso, venho de uma família neurótica, e os comportamentos hoje descritos como neurose foram meus companheiros desde a infân­ cia, mantendo-se por perto durante a adolescência, a juventude e o que chamam de idade adulta; estando presentes e se manifestando em todos os momentos importantes do caminho, sem exceção.

Assim, posso dizer com segurança que as consequências lógicas de reações ilógicas – raiva, desconfiança, tentativas de controle, críticas aos outros e julgamentos p­ recipitados

 

Capítulo 3. Não julgue, olhe-se primeiro, depois olhe-se de novo

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3

NÃO JULGUE,

OLHE-SE PRIMEIRO, DEPOIS

OLHE-SE DE NOVO

ANGELINA

SOBRE O ALCOOLISMO

Sou Angelina, uma alcoólica que não bebe há muito tempo – desde que cheguei aos

Al­coólicos Anônimos (AA) e compreendi a natureza de minha doença.

Comecei a desenvolver o alcoolismo com 9 anos de idade, tomando uma groselha

“ba­tizada” com cachaça no almoço junto ao meu pai, que sempre tinha uma branquinha como complemento da comida. Ele acabou morrendo em decorrência de sua dependência do álcool, que foi minando sua saúde até derrubá-lo de vez, por causa da cirrose, que a gente no interior de Minas chamava de “barriga d’água”.

Quando isso aconteceu, minha mãe, à beira do caixão dele, se virou para mim e disse que tinha aguentado o meu pai porque era seu marido, e achava que tinha sido seu dever de esposa segurar todo o sofrimento provocado pelas bebedeiras dele. Em seguida, disse que não tinha mais forças nem sentia ter a obrigação de segurar a barra das minhas bebedeiras, que já estavam ficando comuns, e me mandou sair de casa e ir cuidar da minha vida longe dela, pois não pretendia participar de uma história que, certamente, em seu modo de ver, acabaria tão mal como a de meu pai.

 

Capítulo 4. A serenidade está em primeiro lugar

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4

A SERENIDADE ESTÁ

EM PRIMEIRO LUGAR

MARIA LUÍSA

SOBRE AL-ANON

Meu nome é Maria Luísa, sou esposa de um alcoólico e entrei para o Al-Anon há 27 anos. Entrei, mas não entendi nada. Apesar de ser formada em psicologia e trabalhar na

área, minhas noções do que era o alcoolismo ainda beiravam a ignorância total. Como consequência, me afastei da irmandade, que enxergava, na época, como um grupo de velhos conservadores e puritanos.

Minha família tinha muitos festeiros – a grande maioria bebedores sociais que, de vez em quando, bebiam um pouco além do que aguentavam e ficavam meio “alegres”, alterados, mas sempre em um clima amigável, sem problemas reais de atitude ou de relacionamento. Então, minha relação com o álcool era sempre considerando o beber demais – fazer escândalo, dizer besteiras, dar mancadas, causar acidentes dirigindo, etc. – como culpa da imaturidade, de descontroles emocionais ou da fraqueza de caráter do bebedor. Jamais tinha passado pela minha cabeça a possibilidade de que a situação dos “bons de copo” não poderia ser resolvida com conselhos ou até “chamadas na chincha”, que lhes despertassem “vergonha na cara”. Mas até isso, na verdade, meu código social só colocava como ação válida em situações de alto prejuízo material, ético ou de estrutura familiar – afinal, tomar um porre aqui, outro lá, mesmo que essa situação aumentasse gradualmente em frequência e intensidade, era normal para quem trabalhava, sustentava a família, encarava a dureza da vida e se estressava com desafios financeiros ou maus casamentos, falta de apoio e outros incidentes nada raros entre a população em qualquer nível social, principalmente entre os menos favorecidos.

 

Capítulo 5. Encontre seu próprio caminho!

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5

ENCONTRE SEU

PRÓPRIO CAMINHO!

ALEXANDRE ARAÚJO

SOBRE DEPENDÊNCIA CRUZADA

Meu nome é Alexandre Araújo. Sou o filho do meio de mãe alcoólatra; fui adotado e cria­do pela minha avó. Cresci em uma família conturbada de dependentes químicos que chegaram ao estado extremado da doença, com três de seus membros vítimas do

álcool – meu pai, meu irmão e minha irmã mais velha, já falecidos.

Quando meu pai se uniu com minha mãe, na década de 1960, ela já tinha uma filha com outro homem, e todos nós crescemos juntos. Nessa época, ele era uma pessoa legal, boa gente, que nem mesmo bebia exageradamente. Era um típico jovem do início da era rock and roll, com sonhos de liberdade e autenticidade, procurando novas respostas nos chamados anos rebeldes.

Mas ele também sempre foi um pai extremamente irresponsável e imaturo, que me deixou absolutamente solto a maior parte da infância e da adolescência, sem controle maior. Até frequentei, no começo, bons colégios, como o Sion, e gostava bastante de estudar e aprender, mas fui obrigado a abandonar as aulas porque meu pai teve problemas com a justiça em relação a dívidas, colocando a família em dificuldades, com recursos minguados, que nem davam para suprir direito os gastos diretos da simples sobrevivência.

 

Capítulo 6. Cair não é o problema. O que vale é se levantar

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6

CAIR NÃO É O PROBLEMA.

O QUE VALE É SE LEVANTAR

ISABEL

SOBRE CODEPENDÊNCIA E TRATAMENTO

Meu nome é Isabel e sou filha de alcoólatra, alcoólico ou alcoolista, já que as três palavras definem exatamente o mesmo conteúdo: uma pessoa que se torna dependente do álcool e acaba perdendo o controle de sua vida. Sou formada em psicologia e me especializei, muito mais por circunstâncias ocasionais do que por planejamento próprio, no tratamento de portadores de dependência química e codependência, o que me levou a outra área do mesmo problema básico: pessoas com comportamentos compulsivos.

A convivência com o alcoolismo de meu pai tornou nossa família disfuncional, e a codependência se tornou a característica de todos os que a integravam, como geralmen­te ocorre. Minha irmã, minha mãe e eu apanhamos a vida toda desse problema, e tenho que agradecer a uma Força Maior por ter percebido isso e, já adulta, começar um proces­so de consciência e livramento, deixando gradualmente de agir, ao menos em parte, conduzida pelos condicionamentos, mágoas e ressentimentos que pautaram as atitudes de meus outros familiares.

 

Capítulo 7. Este é um programa para aprender

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7

ESTE É UM PROGRAMA

PARA APRENDER

MARLI

SOBRE ALCOOLISMO

Eu sou a Marli, uma dependente do álcool, hoje abstêmia (é assim que me mantenho sóbria há 25 anos, cuidando de um dia de cada vez), graças ao que aprendi com o

Programa dos 12 Passos e as experiências de inúmeros companheiros de Alcoólicos

Anônimos (AA), todos com problemas semelhantes ao meu.

Para nós, a maneira compulsiva de beber de quando estávamos na ativa é apenas o sintoma mais evidente de uma doença em parte hereditária, em parte desenvolvida pelo consumo, que atinge cerca de 10% da população do mundo. Estou falando do alcoolismo, que, no meu caso, foi terrível, a ponto de eu me considerar resultado de um verdadeiro milagre. Com toda certeza, sem a ajuda do AA, o resultado dessa doença seria minha morte prematura, a loucura, a prisão ou, na melhor das hipóteses, uma existência miserável, promíscua e de muito sofrimento.

Meu pai e minha mãe já tinham problemas com a bebida. Eu mesma, ainda no início da adolescência, já demonstrava descontrole quando bebia em festinhas. O primeiro porre que deixou marcas foi já aos 14 anos, no Natal, quando outra característica minha, uma carência afetiva angustiante, também se manifestou para valer pela primeira vez.

 

Capítulo 8. Não lamente os erros, só pare de repeti-los

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8

NÃO LAMENTE OS ERROS,

SÓ PARE DE REPETI-LOS

ZÉ PEQUENO

SOBRE ALCOOLISMO

Meu nome é José. Sou conhecido no AA como Zé Pequeno, um alcoólico em reparação, extremamente grato a um Poder Superior, que eu mesmo defini em minha cabeça como

Deus, bem como a vários companheiros da irmandade que me auxiliaram – e até hoje auxiliam – a enfrentar e vencer as dificuldades de se manter em sobriedade. Além disso, também sou grato pelo entendimento cada vez mais amplo do Programa de 12 Passos, que é a base do trabalho dos Anônimos em irmandades voltadas para assegurar a chance de uma vida com qualidade a portadores de mais de 100 transtornos diferentes. Sou vítima de uma doença cerebral crônica que, se eu não me mantiver totalmente abstêmio, vai sempre me levar a uma dependência (tenho certeza disso, porque vi acontecer com muitas outras pessoas) e cujas consequências em geral oscilam entre prisão, loucura ou morte prematura.

Minha relação com a bebida começou mais ou menos nos mesmos moldes de outros por­tadores. Nasci e vivi até o início da minha adolescência em uma cidade do interior do Ceará onde todos, ou quase todos, tomavam lá sua talagada de cachaça, em geral produzida nos alambiques das fazendas e sítios das redondezas. Meu pai também se encaixava no modelo, e bebia bem, principalmente nas festas e confraternizações, muito comuns por lá.

 

Capítulo 9. As mudanças dos nossos modos de vida são as reparações mais significativas que podemos fazer

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9

AS MUDANÇAS DOS NOSSOS

MODOS DE VIDA SÃO AS

REPARAÇÕES MAIS SIGNIFICATIVAS

QUE PODEMOS FAZER

CRISTINA SOUZA

SOBRE ALCOOLISMO

A história do meu envolvimento com a dependência química, expresso principalmente por meio do contato e ingestão de álcool, só pode ser contada com o resgate de inúmeros capítulos, muitos deles tão condensados em minha mente e meu espírito que levei anos para decifrá-los. Isso só foi possível depois que consegui, como dizemos no Alcoólicos

Anônimos (AA), deter a doença, que continua aqui, comigo, crônica e incurável, mesmo após os 20 anos de absoluta abstinência que caracterizam minha vida a partir do contato inicial com a irmandade, em 1994.

Mas o texto existencial da minha dependência começou muito antes, sem uma razão ló­gica clara. Basta dizer que, com pouco mais de 2 anos e meio de vida – quase 3 –, em um almoço comemorativo com amigos da minha mãe, o garçom, para “brincar” com o quase bebê que estava na cadeirinha, perguntou o que eu queria beber, e eu respondi de pronto: “uma caipirinha”. Todos acharam graça, e o episódio virou uma curiosidade relembrada em outras festas similares. Depois, caiu no esquecimento. Até hoje, ninguém, incluindo eu, tem a menor ideia de que lugar da minha mente infantil saiu a frase, até porque minha mãe não bebia, nem outras pessoas de meu convívio, e não havia nenhum histórico de beber contínuo no nosso grupo social.

 

Capítulo 10. A vida existe para você crescer

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10

A VIDA EXISTE

PARA VOCÊ CRESCER

JOSÉ CARLOS

SOBRE RECUPERAÇÃO

Sou José Carlos, um dependente químico do tipo que popularmente chamamos de cruza­do.

Tenho 62 anos, e desenvolvi principalmente o uso de álcool e de anfetaminas na época de “ativa”. Hoje, conto 26 anos de sobriedade, graças a uma abstinência contínua obtida pela frequência em Alcoólicos Anônimos (AA) e pelo aprofundamento consciente nos ensinamentos da espiritualidade.

Sou o filho mais velho de uma família de oito irmãos, com um pai disfuncional, expulso ainda criança de sua casa por causa de seu comportamento rebelde – peralta demais, um verdadeiro traquinas, conforme na época, ou com transtorno da conduta, conforme a pedagogia atual. Meu pai seguiu assim pela vida afora, sempre trabalhando por conta própria, sem patrão; era um camelô profissional que desenvolveu o alcoolismo e teve todo tipo de problemas.

Evidentemente nós, seus filhos, passamos dificuldades extremas por causa da falta de dinheiro e de uma estrutura psíquica que nos desse um norteamento com relação ao comportamento social normal. Eu, por exemplo, desde muito cedo fui pressionado pelo meu pai a trabalhar e ajudar na subsistência familiar.

 

Capítulo 11. Não espere perfeição

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11

NÃO ESPERE PERFEIÇÃO

ESPERIDIÃO

SOBRE ALCOOLISMO

Sou Esperidião, um alcoólico, dependente também de outas drogas, que conseguiu entrar em recuperação porque escolheu o único caminho absolutamente seguro para estacionar o crescimento da dependência química de substâncias psicoativas lícitas ou ilícitas: a abstinência, acompanhada de um sistema para melhorar a qualidade de vida. Esse sistema, além da abstinência completa, leva o indivíduo a um conhecimento amplo e dinâmico de seus problemas físicos, psicológicos, éticos e espirituais, por meio de uma observação permanente de seus motivos e atitudes consigo próprio e com a sociedade com quem se relaciona.

Embora conheça outras formas de tratar minhas dependências, como as tentativas de controlar o consumo ou a utilização de medicamentos aversivos, já apanhei demais da embriaguez e dos “baratos de noia” para deixar em aberto qualquer possibilidade de voltar ao uso. Por isso adoto os 12 Passos dos Anônimos, um programa com oito décadas de experiência acumulada que, hoje, atende milhões de pessoas no tratamento de mais de 100 transtornos diferentes. Sua proposta se enquadra em uma lógica infalível: manter distância completa e permanente de seu problema compulsivo.

 

Capítulo 12. Tome decisões completas

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12

TOME DECISÕES COMPLETAS

HUGO LEAL

SOBRE DEPENDÊNCIA QUÍMICA

Sou um dependente químico multidisciplinar, membro ativo das chamadas irmandades de Alcoólicos Anônimos (AA) e Narcóticos Anônimos (NA). Graças a isso, hoje 30 anos me separam da última insanidade que o álcool, a maconha, as anfetaminas, a cocaína e o tabaco, reunidos, provocaram – alimentaram – durante as três primeiras décadas da minha vida, que gradualmente se tornou um inferno delirante, que eu já não me acreditava capaz nem de suavizar.

Na verdade, na época eu não tinha a menor noção do que estava acontecendo comi­ go. Nem sequer percebia quem era, o que fazia e o porquê de tudo. Encasquetei que era um cara diferenciado, acima das convenções e das caretices do pessoal da minha geração. Eles, na minha opinião, eram um bando de retardados sem nenhum atributo que os fizesse especiais.

Por motivos que, na época, julguei ligados às intervenções bem humoradas que eu fazia quando em meio aos ditos adultos, e a uma vivacidade que eu, espertamente, fingia ser capacidade intelectual, fui consolidando em meus parentes, em especial meu avô general e seus irmãos igualmente conceituados, esperanças de que estivessem diante de um grande futuro gênio de alguma área – científica, religiosa ou artística –, o qual elevaria a honorabilidade familiar às alturas.

 

Capítulo 13. Não lamente o pneu furado. Agradeça pelo telefone perto!

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13

NÃO LAMENTE O PNEU FURADO.

AGRADEÇA PELO TELEFONE PERTO!

JOSÉ ALVES

SOBRE ALCOOLISMO

Meu nome é José Alves e sou um alcoólico em recuperação. Minha relação com a doença não resultou da hereditariedade, pois na minha família não havia bebedores, e, mesmo socialmente, o consumo se resumia a quantidades mínimas – meu pai e minha mãe, por exemplo, dividiam um copo pequeno de vinho uma vez por ano, na festividade do Natal

–, e o mesmo comedimento caracterizou também os hábitos de meus avós de ambos os lados, tios, tia, primos e outros parentes. Posso dizer que, talvez com exceção de um ou outro familiar distante, que histórias meio lendárias diziam ser bons de copo, eu fui o fundador da dinastia dos cachaceiros no clã. Mas as coisas não surgiram assim do nada, como ouço vários companheiros do Alcoólicos Anônimos (AA) narrarem.

O sistema lá em casa era rígido, mas amoroso. Meu pai era um homem simples, mas com grande descortínio das necessidades do futuro, e fez de tudo para que eu e meus irmãos tivéssemos estudo, que considerava imprescindível para uma vida melhor. Isso importava tanto para ele que assegurou nosso acesso à informação, mesmo morando distante da cidade: conseguiu, do prefeito, carteiras, que colocou em um cômodo de nossa casa, montando uma sala de aula, e até uma professora, que morava conosco e almoçava em nossa mesa, ensinando às crianças durante o dia e alfabetizando os idosos durante a noite.

 

Capítulo 14. O exemplo não é a melhor forma de convencer. É a Única!

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14

O EXEMPLO NÃO É A

MELHOR FORMA DE CONVENCER.

É A ÚNICA!

JOSÉ BERNARDO

SOBRE ALCOOLISMO

Meu nome é José, sou um alcoólatra, e só por hoje não bebi. É assim que eu inicio meus depoimentos – partilhas – nos grupos de AA e é também assim que me apresento a mim mesmo, para nunca me esquecer de quem sou e de tudo que isso significa.

Meu ingresso no AA pode ser registrado com uma frase: acordei de madrugada, passando mal de novo, e concluí que estava na hora de parar de beber. Fui a um grupo e, a partir daí, nunca mais bebi. Uma história em que grande parte do texto está no preâmbulo.

Bebi dos 13 aos 40 anos e, na casa dos 18, a chamada maioridade, já era um “profissional do porre”, com várias entradas quase fora do ar no pronto-socorro, inúme­ras aventuras etílicas e uma série de abusos e besteiras nem sempre aceitas pela comunidade na boa. Tudo isso exigia, algumas vezes, um trabalho de “diplomacia” para serenar os

âmbitos e promover uma relativa harmonia entre as partes, ou seja, eu e as outras pessoas envolvidas nas minhas maluquices.

 

Capítulo 15. Acomodação não é serenidade, é defeito

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15

ACOMODAÇÃO NÃO É

SERENIDADE, É DEFEITO

LUTT

SOBRE ALCOOLISMO

Todos os meus companheiros de irmandade, familiares, amigos e conhecidos do mundo me chamam de Lutt, e eu sou um doente alcoólico. Bebi durante décadas e estou em recuperação desde 2001, graças ao programa dos Anônimos, uma passagem por clínica especializada e trabalhos com diversos psicólogos “avulsos”. Estou prestes a completar

78 anos de idade, e, hoje, tudo vai bem comigo. Minha vida segue um ritmo normal, com percalços, pequenos perrengues de saúde e também êxitos, inclusive na tarefa de ajudar outros dependentes químicos, tanto do álcool como de outras drogas, em seus caminhos de recuperação.

Quem me vê (já disseram isso), na maioria das vezes, não consegue imaginar as estradas que segui no desenvolvimento da doença. Tenho características que me acompanham desde a juventude, comportamentos que talvez sejam resultantes da criação e do jeitão familiar. Sempre fui uma pessoa, se não fechada, com certeza calada, econômica em palavras, embora não exatamente travada nem depressiva. Talvez por meu “comedimento corajoso” – ponderação natural, mais ousadia regada á álcool –, sempre ocupei posições de liderança na comunidade estudantil e em todo seu entorno social, bem dentro do conceito de “rapaz popular”: bem visto, simpático com todos e para todos, sempre à frente de eventos festivos, comemorações, homenagens a pessoas ilustres da cidade, etc.

 

Capítulo 16. Humildade não é humilhação, é força

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16

HUMILDADE NÃO É HUMILHAÇÃO,

É FORÇA

MARCO NOGUEIRA

SOBRE DEPENDÊNCIA QUÍMICA

O pessoal que lida com dependência química me chama de Marco, e ser identificado assim já está bom. A vida, para mim – acredito que para todos –, tem altos e baixos, e descer e subir muitas vezes na existência não é de forma alguma uma novidade na estrada.

Minha dependência química cruzada – álcool, medicamentos, cocaína e outras drogas eventuais – aconteceu meio que naturalmente, repetindo a história geral dos dependentes.

O início de tudo hoje está meio nebuloso na memória, e não lembro o dia exato do

“evento de estreia”, nem qual foi exatamente. Digamos, no entanto, que as coisas começaram a piorar quando cheguei aos 24 anos, época em que passei a tomar porres pe­riódicos em uma frequência cada vez maior. Quando vi, minha maneira de beber estava bem mais intensa, deixando de merecer o rótulo de “social”. Comecei a perder o prumo aqui e acolá, tomando porres eventuais, mas ainda mantinha, na maioria das vezes, alguma compostura, sem participar de confusões e levando tudo na maciota, tipo

 

Capítulo 17. Aceitação é a solução

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17

ACEITAÇÃO É A SOLUÇÃO

RAIMUNDO

SOBRE ALCOOLISMO E RECUPERAÇÃO

Meu nome é Raimundo e sou um alcoólatra em recuperação.

Nestes 38 anos como membro de Alcoólicos Anônimos (AA), perdi a conta das ve­zes em que me apresentei assim, seja nas reuniões de grupo na irmandade ou fora delas, em partilhas feitas em empresas, igrejas, hospitais, albergues e outros lugares onde fui, com outros companheiros, tentar transmitir uma mensagem de esperança tanto a outros dependentes do álcool como a seus familiares, já que o desalento, o desespero e a frustração são presenças constantes nas vidas devastadas direta e indiretamente pela doença.

Sou de Fortaleza, no Ceará, radicado em São Paulo desde 1953, onde cheguei aos 22 anos de idade, sem ter nunca experimentado uma gota sequer do álcool na vida. Tinha até uma antipatia sem muita explicação, misturada com desprezo, pelos bêbados que via cambaleando ou caídos na rua e, durante minha adolescência, cheguei mesmo a ser cruel com eles, roubando meio de arrelia seus sapatos ou mesmo alguns trocados que encontrasse no bolso daqueles que desmaiavam de tanta pinga ingerida, e que não eram tão poucos assim.

 

Capítulo 18. Foi bom você ter vindo

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18

FOI BOM VOCÊ TER VINDO

SÍLVIO

SOBRE RECUPERAÇÃO

Minha dependência do álcool se manifestou desde cedo. Como ocorre com muitos de nós, alcoolistas, a bebida foi, de início, um apoio notável para facilitar meu “enquadramento”, possibilitando um discurso social regado a álcool, em que dúvidas e medos simplesmente não existiam. Meus problemas, com isso, eram relegados a um segundo plano, já que o estado de euforia, confiança e grandeza pessoal me transformava em um personagem muito melhor do que eu era quando sóbrio.

O refúgio na fantasia foi criando um simulacro de realidade em que todos os desafios naturais para o crescimento “aconteciam” no terreno da imaginação, sempre com um enorme sucesso de “mentirinha”, que eu até reconhecia como tal, mas, no plano dos fatos concretos, negava, pois a imaturidade emocional me levava a fugir, pelos caminhos do devaneio, dos efeitos devastadores de meu medo de fracassos. Assim, fui criando um círculo vicioso que se apertava cada vez mais, à medida que meu comportamento trazia as consequências de praxe para quem tem problemas com a bebida.

 

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