Língua de Herança

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Neste livro, Ronice Müller de Quadros inaugura as pesquisas sobre as línguas de herança – aquelas usadas por comunidades locais em contextos nos quais outra língua é utilizada de forma mais abrangente –, com enfoque na língua brasileira de sinais. A autora discute as relações entre língua de sinais e língua falada, apresentando um amplo panorama, com estudos, definições e exemplos de histórias pessoais e interações das comunidades surda e ouvinte.

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Introdução

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Introdução

Língua de herança é uma língua usada pelas comunidades locais (étnicas ou de imigrantes) em uma comunidade na qual outra língua é utilizada de forma mais abrangente. Língua de herança é, normalmente, a língua da família, em um contexto no qual outra língua é falada nos demais espaços sociais, tais como a escola e a mídia. “Herança” significa transmissão de bens culturais e materiais de uma geração para a outra. Nesse sentido, os falantes de herança herdam um patrimônio cultural que inclui uma língua em seu berço familiar. No entanto, o termo é usado aqui para se referir especificamente àqueles que nascem em uma família e herdam uma língua que carrega uma bagagem cultural diferente da que está disposta no local onde vivem. São aqueles que têm contato com a língua de herança antes ou paralelamente com a língua usada na comunidade. Dessa forma, esse falante tem a oportunidade de compartilhar duas experiências culturais e linguísticas diferentes. O falante de herança cresce com uma língua de herança e com a língua usada em sua comunidade mais geral, portanto, é supostamente um bilíngue com duas (ou mais) línguas nativas. No entanto, apesar de estarem expostos à língua de herança de forma intensa no período da infância, esses falantes podem não ter a fluência de seus pais. Nesse caso, os falantes de herança podem ser bilíngues com mais ou menos fluência em uma e outra língua (desbalanceados). Fishman (2001) os identifica como aqueles que contam com uma herança cultural, em vez de uma herança linguística.

 

Capítulo 1 - Línguas de herança

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Línguas de herança

Línguas de herança são as línguas que, em um contexto sociocultural, são dominantes diferentes da usada na comunidade em geral. A palavra

“herança” remete à ideia de tradição herdada, assim como a ideia de patrimônio, que remete à relação familiar. As línguas que a pessoa adquire em casa com seus pais, diferentes da língua usada de forma massiva no país, configuram línguas de herança. Isso é o que normalmente acontece com as famílias de imigrantes e de indígenas. Os pais que ainda preservam sua língua nativa e a usam em casa passam a sua língua para seus filhos, embora essa língua não seja falada por outras pessoas na comunidade onde estejam inseridos. De certa forma, essa herança pode estar sendo passada por uma comunidade em que a família esteja inserida. Assim, língua de herança está diretamente relacionada linguística e culturalmente aos usos de uma língua por pessoas de um grupo social específico dentro de um grupo social maior. Essa língua não é a mesma da comunidade dominante, “dominante” no sentido de ter o maior número de pessoas utilizando uma língua com abrangência e número de falantes muito maior do que as línguas usadas em comunidades locais inseridas em determinado país.

 

Capítulo 2 - Comunidades de línguas de herança

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Comunidades de línguas de herança

As comunidades de línguas de herança podem ser representadas por 1) uma família em um país que não é seu país de origem, 2) uma comunidade que envolve um grupo de famílias e seus descendentes ou, ainda, 3) uma comunidade que abrange diferentes famílias com línguas diferentes, mas compartilhando uma língua comum. Em cada um desses contextos, podemos ainda ter uma série de variações. Vamos apresentar alguns casos para ilustrar esses diferentes níveis de comunidades que envolvem línguas de herança.

Em São Paulo, temos a família de David, que veio dos Estados Unidos, pois o pai de David é cônsul norte-americano. David nasceu no Brasil, mas fala inglês com seus pais, embora tenha contato com o português em diversos contextos fora de casa. No caso de David, a família optou em colocá-lo em uma escola norte-americana, pois é uma alternativa disponível em São

Paulo. A escola norte-americana é uma escola em inglês, com a opção do ensino do português como segunda língua. David está crescendo bilíngue em inglês e português de forma “balanceada”, pois tem várias oportunidades de falar inglês e português em diferentes contextos sociais.

 

Capítulo 3 - O caso da língua brasileira de sinais: língua de herança?

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O caso da língua brasileira de sinais: língua de herança?

Considerando que a Libras é passada de geração em geração de surdos da comunidade (não necessariamente dentro do núcleo familiar) e que é uma língua usada por comunidades brasileiras dos grandes centros urbanos em um país que usa outra língua como oficial, a língua portuguesa, veiculada nos meios de comunicação, documentos oficiais, órgãos públicos e educação, essa língua de sinais configura sim uma língua de herança. Neste capítulo, vamos abordar a Libras, suas origens, as pesquisas sobre a língua e suas formas de transmissão como língua de herança.

A LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - LIBRAS

A língua de sinais é a minha língua, afinal de contas, a mão é sua ou é minha?

(Gelda Maria de Andrade, depoimento concedido à TV Minas, 1996, informação verbal)

Libras é uma língua que expressa todos os níveis linguísticos, assim como as demais línguas. Essa língua se constituiu na “comunidade surda brasileira”, principalmente dos grandes centros urbanos, no encontro surdo-surdo. Desde antes da proibição do uso da língua de sinais em sala de aula à permissão de seu uso, os surdos usam a Libras em diferentes espaços da sociedade. Em 2002, foi aprovada a Lei 10.436, que reconheu a língua brasileira de sinais como a língua dos surdos brasileiros:

 

Capítulo 4 - Pesquisas com línguas de sinais como língua de herança

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Pesquisas com línguas de sinais como língua de herança

AS PESQUISAS COM LÍNGUAS DE HERANÇA

As pesquisas com línguas de herança começam a ser estabelecidas, especial­ mente, por causa do ensino de línguas nas escolas. Os falantes de línguas de herança chegam à escola e se deparam com o ensino de sua primeira língua como língua estrangeira. Esse é o caso dos bilíngues de fronteira no Brasil, em que a escola está organizada na língua portuguesa e contempla o ensino da língua espanhola como língua estrangeira. Na verdade, o espanhol não

é uma língua estrangeira para esses falantes de língua de herança, pois eles adquiriram essa língua em suas famílias ou em suas comunidades linguísti­ cas, uma vez que as fronteiras configuram espaços multilíngues. O estatuto de língua estrangeira e as metodologias usadas no ensino de línguas estran­ geiras não contemplam esses contextos sociolinguísticos. A partir disso, as pesquisas começaram a discutir sobre as línguas de herança e sobre os falantes de línguas de herança do ponto de vista sociolinguístico e a partir da perspectiva linguística, com o objetivo de estimular políticas linguísticas, assim como subsidiar teoricamente as propostas de ensino dessas línguas.

 

Capítulo 5 - Língua de herança: políticas linguísticas e a língua brasileira de sinais

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Língua de herança: políticas linguísticas e a língua brasileira de sinais

As políticas linguísticas se ocupam em pensar a respeito de formas de garantir que as línguas preencham espaços de diferentes ordens dentro de um país.

A partir das políticas linguísticas, são estabelecidas ações para a implementação das línguas. No caso do Brasil, existe uma política linguística em relação à língua brasileira de sinais, a Libras, instaurada por meio da Lei 10.436 de 2002, chamada de Lei de Libras, que reconhece essa língua como língua nacional usada pelas comunidades surdas brasileiras. A partir da Lei de

Libras, foi assinado um decreto para implementar essa lei, o Decreto 5.626 de 2005, que apresenta uma série de ações relativas à Libras, no sentido de garantir seu reconhecimento, sua valorização, sua disseminação e sua manutenção.

Agora, aprendemos que a Libras constitui uma língua de herança. Isso nos leva a pensar em propostas de manutenção da Libras, pois, em vários casos apresentados neste livro, os sinalizantes adotam a Libras como uma língua secundária. Há os surdos, filhos de pais ouvintes, que terão acesso à sua língua de herança de forma inusitada, pois normalmente a primeira língua será adquirida por outros sinalizantes da Libras que não são seus pais.

 

Capítulo 6 - Biografias: o que os filhos ouvintes de pais surdos contam sobre as línguas, as identidades e as culturas

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Biografias: o que os filhos ouvintes de pais surdos contam sobre as línguas, as identidades e as culturas 16

Ter uma segunda língua é possuir uma segunda alma.17 (Charlemagne)

Essa frase de Charlemagne, amplamente difundida na internet, procura captar o quanto as línguas refletem nossa forma de viver. No caso de filhos ouvintes de pais surdos, codas, a língua de sinais e a língua falada no país, adquiridas de modo concomitante, estão intrinsicamente relacionadas com suas experiências. Compreendo aqui “alma” como base de nossas experiências de vida, nossos sentimentos, nossas culturas. A relação das línguas e dos significados traduzidos por elas afetam a constituição dessas pessoas.

Neste capítulo, abordamos as histórias de alguns codas. Essas histórias foram contadas a mim por meio de uma conversa realizada como parte de um subprojeto do Inventário Nacional de Libras, Corpus de Libras,

Codas, que objetiva documentar produções em Libras. A proposta era fazer uma conversa sobre as histórias de vida desses filhos ouvintes de pais surdos, contando sobre a relação deles com os pais surdos, com a comunidade ouvinte, com a comunidade surda e com suas línguas: a língua que herdaram de seus pais, a língua de sinais, e a língua portuguesa falada no resto da sociedade brasileira, nas escolas, nas igrejas, nos hospitais, nos órgãos públicos e assim por diante. O foco aqui é mais antropológico, com o objetivo de captar momentos que ilustram as formas dessas pessoas de se relacionarem com as culturas, com zonas de conforto, com zonas de conflito, as fronteiras

 

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