Histórias de Ciúme Patológico: Identificação e Tratamento

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O fenômeno do ciúme normal é fisiológico e tem ocorrência universal, sendo encontrado inclusive em outras espécies animais além do ser humano. No entanto, quando há uma variação na quantidade desse sentimento, surge o ciúme exagerado. Além disso, variações qualitativas do ciúme normal produzem o ciúme obsessivo e o francamente patológico. Histórias de Ciúme Patológico: Identificação e Tratamento aborda os diferentes tipos de ciúme, permitindo analisar quais situações exigem atenção profissional, como é o caso dos exemplos a seguir: • No meio da noite, depois de um sonho sobre traição, a mulher acorda o marido para manifestar dúvidas acerca de sua fidelidade conjugal. • Como demonstração de lealdade, não basta a mulher ter conversado com o atual namorado sobre seu relacionamento anterior. Ele insiste em saber detalhes de tudo o que ocorreu nesse namoro, em interrogatórios que se repetem cansativamente. • Após a separação, surge um ciúme exagerado do espaço perdido: ciúme de quem poderia estar usando sua antiga casa, sua ex-cama, convivendo com seus ex-cães… • A briga começa porque a esposa “tem certeza” de que seu marido nutre pensamentos obscenos em relação a outras mulheres. Ela sente ciúme sobre o que imagina que ele pensa. A Psiquiatria é uma área médica em que os efeitos diretos e imediatos da doença não são exclusivos do paciente. A dor causada pelos transtornos psiquiátricos, entre eles o ciúme patológico, é compartilhada por outras pessoas, que muitas vezes sofrem muito mais do que ele próprio. A leitura desta obra permitirá que as vítimas do ciúme compreendam a natureza desse incômodo emocional que pode se transformar em doença e, assim, motivem mudanças capazes de aliviar os sofrimentos.

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Ciúme normal

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Ciúme normal

Nas questões emocionais, às vezes é difícil distinguir o que é francamente patológico e o que é absolutamente normal. Em geral, as pessoas costumam perceber quando uma pessoa é louca, esquisita, sensata, confiável, imprevisível ou normal. Entretanto, quando se avaliam atitudes e sentimentos, costuma ser complicado estabelecer os limites entre o normal e o não normal, ou entre o pouco sadio e o discretamente patológico.

O ciúme é um desses casos. Quando ele é francamente doentio

é mais fácil identificá-lo, e qualquer pessoa percebe que se trata de uma atitude bizarra, mas entre os casos totalmente patológicos e aqueles mais ou menos anormais a questão torna-se mais complicada. Para iniciar o entendimento do sentimento de ciúme normal, ele será referido apenas como ciúme. Os adjetivos excessivo, obsessivo e patológico serão acrescidos e abordados posteriormente. O ciúme

é definido, na maioria dos textos, como um sentimento fisiológico, natural e marcado pelo medo real ou imaginário de perder o objeto de desejo ou o relacionamento. Essa definição é incompleta e muito acanhada. Alguns etólogos acreditam tratar-se de uma reação adaptativa no sentido de favorecer a sobrevivência e/ou a reprodução da espécie. Ele existe no ser humano e em outros animais superiores, como macacos, golfinhos e outros vertebrados. A experiência pessoal a seguir serve de ilustração.

 

Quem são os ciumentos?

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Quem são os ciumentos?

Existem três tipos de ciúme não normal: exagerado, obsessivo e patológico. Nesses casos, já não se trata de sentimentos banais, caprichosos ou voluntários. O ciúme não normal faz parte do grupo de emoções e sentimentos que fazem sofrer, que fogem ao controle e são capazes de escravizar tanto o ciumento quanto o objeto do ciúme.

E quem são as pessoas ciumentas? Existe um grupo de pessoas que mais parecem personagens de ficção, não são encontradas por aí, parecem pessoas que só existem teoricamente. Tanto quanto as ciumentas, também não se encontram pessoas invejosas, pessimistas, rancorosas, miseráveis e todas as portadoras de adjetivos menos nobres e mais vexatórios. Esses traços e os comportamentos decorrentes são mantidos sob sigilo para manter o prestígio pes­ soal, social e familiar.

Há pessoas sensatas e com boa reputação social que enlouquecem sigilosamente por dinheiro, prestígio, medo, vaidade etc. Pode ser muito perturbador descontrolar-se e sucumbir também pelo amor e pelo ciúme. Pesquisas sociopsicológicas mostram que essas pessoas existem de verdade, mas não são vistas, não são encontradas nem em entrevistas profissionais. À pergunta “você é ciumento?”, a resposta é sempre “não”. E continua a mesma quando se pergunta sobre a inveja. Os avarentos, então, parecem figuras do além, embora se saiba que eles também existem.

 

A pessoa é ciumenta ou fica ciumenta?

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A pessoa é ciumenta ou fica ciumenta?

A questão da origem do ciúme patológico é constantemente referida nos consultórios de saúde mental: “Doutor, por que esse ciúme todo?”. Essa pergunta curta implica considerações mais complexas do que este livro pode oferecer. O que está em jogo é saber se a pessoa é ciumenta desde sempre ou se ela ficou ciumenta a partir de algum momento de sua vida.

Essa dúvida não pode ser resolvida por meio de apenas duas alternativas (o ciúme não normal foi adquirido ou é inato?). A situação parece ser mais complexa. Rodrigues, Assmar e Jablonski, citados por Thiago de Almeida3, consideram as condições necessárias para o aparecimento de ciúme não normal agrupadas em três tipos de fatores. Esse agrupamento é meramente acadêmico e, na maioria das vezes, o mesmo caso envolve mais de um tipo de fator.

A seguir, são referidos os três grupos adaptados de Rodrigues,

Assmar e Jablonski.

Causas pessoais

O mais correto seria chamar esse grupo de causas de personalidade. As características ou traços de personalidade de cada uma das pessoas influi na relação. A maneira como a pessoa se relaciona com a realidade é determinada por seus traços de personalidade, os quais definem sua sensibilidade, tonalidade afetiva, relacionamento com o outro e assim por diante.

 

Ciúme na separação

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Ciúme na separação

Quem foi deixado tem um tipo de sentimento, e quem deixou tem outro. A frustração inicial de quem foi deixado é tão forte e traumática que parece não sobrar espaço para o ciúme típico e normal. Por algum tempo as emoções e os sentimentos entorpecem e sufocam totalmente a razão.

Quando se confirma uma separação, por motivo de traição ou não, quando o fim do relacionamento foi desejo e iniciativa de apenas uma pessoa, o sentimento que isso desperta na pessoa deixada não será mais o mesmo sentimento de ciúme que girava em torno de devaneios e suposições.

No ciúme verdadeiro há medo de deixar de significar um objeto exclusivo para a pessoa amada, medo de deixar de ser fortemente desejado e capaz de prender totalmente a atenção do outro. Nos casos concretos de traição ou de iniciativa para separação, a pessoa ferida não tem mais medo, não tem mais suspeita de perder a condição especial. De fato, ela sabe que já não é mais importante para a pessoa amada.

 

Sofrimento no ciúme

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Sofrimento no ciúme

O sofrimento produzido pelo ciúme não normal não se restringe apenas a danos psíquicos, angústia, depressão, ansiedade, obsessão etc. Há uma intensa participação de todo o organismo no ciúme em geral e, em particular, durante uma crise aguda de ciúme, tal como ocorre durante os episódios de estresse agudo. A onda de sentimento disparada pelo gatilho de ciúme terá efeito sobre o chamado sistema límbico do cérebro, liberando catecolaminas*, que geram uma rápida reação orgânica vigorosa.

Buss et al.8 mediram a atividade do sistema nervoso autônomo de universitários em situações imaginárias de infidelidade. A frequência cardíaca e a sudorese mostraram-se aumentadas quando imaginavam suas parceiras tendo relações sexuais com outras pessoas. Nessa mesma pesquisa, as mulheres ficaram mais perturbadas ao imaginar o parceiro apaixonado por outra mulher. Isso confirma a hipótese de que o ciúme masculino tem uma conotação predominantemente sexual e o ciúme feminino, sentimental.

 

Ciúme exagerado

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Ciúme exagerado

Em relação às atitudes humanas não se pode usar uma ótica binária de certo/errado, lícito/ilícito, feio/bonito e assim por diante. Isso quer dizer que no espectro que vai do normal ao francamente patológico, passando ainda pelo não normal, existem limites pouco nítidos. A tendência em particularizar cada caso se aplica bem ao ciúme.

Classificar a pessoa ciumenta entre o normal e o doentio pode ser complicado. Todos nós temos um sistema pessoal “não científico” de avaliar as coisas do mundo. É pessoal e relativo julgar se alguma coisa é bonita, feia, agradável, incômoda, indiferente, interessante, chata, inexpressiva, atraente, repugnante, semelhante, diferente, louca ou sã. O ciúme está nessa situação, ou seja, saber se ele é exagerado ou não depende da opinião da pessoa ciumenta, da pessoa objeto desse ciúme e de terceiros observadores.

Seria mais fácil se o ciúme tivesse uma escala de grandeza.

Seria bom se o ciúme fosse de 0, representado pelos casos sem uma gota de ciúme – e possivelmente sem um vínculo afetivo expressivo

 

Ciúme obsessivo

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Ciúme obsessivo

A intromissão indesejável de um pensamento na consciência de maneira insistente e repetitiva, fenômeno normalmente reconhecido pela própria pessoa como incômodo e absurdo, é denominada pensamento obsessivo. Portanto, para que sejam consideradas obsessivas, essas ideias devem ser involuntárias, bem como reconhecidamente fantasiosas. A crítica que normalmente o próprio paciente tem sobre suas ideias obsessivas de ciúme contribui bastante para o surgimento de ansiedade e angústia.

Assim como acontece na ideia prevalente, o pensamento obsessivo não é exclusivo do ciúme patológico, podendo aparecer em ampla variedade de quadros emocionais. São pensamentos que aparecem na consciência com repetição persistente e obrigatória, sendo impossível afastá-los por esforços voluntários. Os pensamentos obsessivos de ciúme estão tão enraizados na consciência que não podem ser removidos simplesmente por um aconselhamento razoável nem por livre decisão do paciente.

O ciúme decorrente de ideias obsessivas parece ter existência própria, emancipada da vontade. Por não ter seu juízo crítico comprometido, a pessoa pode ter bom conhecimento do absurdo de seu ciúme, mas ainda assim não consegue deixar de senti-lo­.

 

Ciúme patológico

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Ciúme patológico

A expressão ciúme patológico significa ciúme doentio. Na realidade, o ciúme patológico é, na maioria das vezes, mais um sintoma de alguma outra patologia psíquica do que uma doença em si. O ciúme exagerado, descrito anteriormente, é apenas um ciúme não normal, enquanto o ciúme patológico representa, como o próprio nome diz, uma patologia.

O ciúme patológico em sua forma mais grave também é conhecido como síndrome de Otelo, referindo-se à peça Otelo, escrita por

William Shakespeare em 1694, que mostra o lado obscuro desse sentimento capaz de produzir pensamentos irracionais e comportamentos inaceitáveis ou bizarros. A síndrome de Otelo homenageia a obra literária que descreve o homicídio cometido pelo marido que suspeita da traição de sua mulher e seu subsequente suicídio.

Muitos outros autores da literatura universal, entre eles Goethe,

Proust, Dante e Dostoiévski, retrataram em suas obras a angústia desse sentimento que, por vezes, assume um caráter avassalador.

 

Diagnóstico do ciúme

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Diagnóstico do ciúme

“Você acha que isso é mesmo loucura?”. Esta pergunta é feita frequentemente, tanto em relação ao ciumento quanto às pessoas ao seu redor. Os critérios para determinar se um caso é ou não doença são altamente didáticos, podendo, inclusive, convencer algumas pessoas ciumentas a se tratarem. Aliás, quanto mais fácil for convencer uma pessoa ciumenta a se tratar, menos patológico será o ciúme, e o inverso também é verdadeiro.

Para pensar em qualquer diagnóstico, a psiquiatria recomenda no mínimo dois critérios: estatístico e valorativo. Pelo critério estatístico, realçam-se os casos que podem ser considerados não normais ou incomuns, considerando o que é frequente à maioria das pessoas. Mas só isso não é suficiente para afirmar que se trata de um caso patológico. Apenas mostra um caso não normal, como uma gravidez de gêmeos, uma pessoa mais inteligente que a média, com aptidão artística diferenciada e assim por diante.

A partir do não normal a medicina recorre ao segundo critério para diagnóstico, o critério valorativo. Por meio desse critério de valores será avaliado se o não normal em questão produz sofrimento. Caso alguém sofra, pode-se considerar o caso não normal como patológico, ou seja, tem em si um componente mórbido causador de sofrimento.

 

Codependência – Se a relação está ruim, por que não se separam?

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Codependência

Se a relação está ruim, por que não se separam?

Algumas pessoas que sofrem com o ciúme de outra se queixam da situação de constrangimento ou mesmo sofrimento que lhes é imposta, e só não se queixam mais porque receiam a pergunta óbvia:

“Então, por que não se separa?”. A situação não é assim tão simples.

O amor, entre tantas características curiosas, exige uma espécie de rendição ao outro. Entretanto, essa rendição não deve ser compreendida como privação imposta da liberdade, já que a convivência com o outro deve ser espontânea, e ambas as pessoas escolhem livremente estar juntas e se renderem reciprocamente.

O amor sadio não produz um cárcere da posse. Ele deve ser, sobretudo, compreensivo e generoso. O amor patológico, entretanto, apoia-se na obsessão, no desejo de controlar, possuir, manipular e, invariavelmente, é acompanhado de ciúme patológico. As características do amor patológico são tão diferentes das do amor sadio que seria preferível chamar este último de amor verdadeiro e o outro de falso-amor, uma vez que, por meio do domínio, ele deixa de reconhecer o outro como pessoa livre e senhora de seus sentimentos.

 

O que fazer com o ciúme?

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O que fazer com o ciúme?

A cura existe. Quando não existe, pelo menos há possibilidade de boa administração do ciúme não normal. O objetivo do tratamento psicológico e psiquiátrico, como em tantos outros estados emocionais problemáticos, visa o equilíbrio e não a eliminação dos sentimentos; visa a administração dos excessos emocionais.

Conforme já comentado, para a pessoa saudável, sentir ciúme desperta reflexões e questionamentos sobre esse sentimento. Ela chega a compartilhar com outras pessoas as emoções e mecanismos do ciúme que está sentindo, havendo consciência de algumas coisas importantes sobre a forma de ser. A pessoa ciumenta, por sua vez, pode não perceber a anormalidade de seu sentimento, permanecendo em vigília o tempo todo, tensa, aflita, tomando atitudes destemperadas, sempre procurando uma forma de confirmar suas suspeitas.

Como já foi dito, entre os estados emocionais perturbadores dos quais se quer escapar, o ciúme não normal parece ser um dos mais intransigentes. Na verdade, é o mais sedutor dos sentimentos negativos, pois, além de inevitável, ele vive convocando uma discussão interna entre a razão e a emoção, frequentemente dando vitória à emoção. O afastamento da realidade, do bom senso e da razão ocorre porque o ser humano costuma ser mais servo do que senhor de suas emoções. Em função disso, os pensamentos ou imagens irracionais de ciúme são involuntários, surgem de forma automática e emancipada da própria vontade consciente.

 

Algumas conclusões

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Algumas conclusões

O ciúme é um sentimento que perturba todas as pessoas e tem origem diante da ameaça ou do medo de perder a posição de prioridade na vida de alguém. Para o ciumento é válida a máxima sartreana de que o problema não está em nós: “o inferno está no outro”. Não fossem as atitudes “levianas” do outro, que ousa preterir-nos, continuaríamos a desfrutar um lugar de destaque absoluto na vida dessa pessoa.

Como característica humana, embora seja sempre perturbador, o ciúme pode ser considerado um sentimento normal. Pretender não sentir ciúme é o mesmo que pretender a anulação do ego; seria transformar as pessoas em autômatos. De certa forma, o ciúme mostra a aspiração, a importância que cada um tem para si mesmo e o quanto cada um gostaria de também ser importante para outra pessoa. Quanto maior o ciúme, maior o medo de deixar de representar para outra pessoa aquilo que se quer representar.

Enquanto o ciúme normal é transitório, específico e baseado em fatos reais, o ciúme não normal aparece como uma preocupação infundada, absurda e emancipada do contexto atual do relacionamento.

 

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