Nova Filosofia da Educação

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Este livro deixa bem claro para o leitor o que é a chamada “crise da educação” atual no Ocidente. Trata-se da crise dos modelos educacionais advindos do que se construiu em termos pedagógicos e culturais a partir da modernidade. Em palavras mais apropriadas: crise do Humanismo, crítica e desconstrução do sujeito moderno, deslegitimação epistemológica e moral das instituições de ensino e enfraquecimento de energias utópicas. Os filósofos brasileiros Paulo Ghiraldelli Jr. e Susana de Castro apresentam neste volume pequenos artigos que mostram como ambos têm lidado com a crise do Humanismo, expondo textos que nasceram de provocações mútuas. Neste trabalho de redescrição e equacionamento da filosofia da educação, os autores passam por Nietzsche, Hegel, Marx, Dewey, Davidson, Rorty e outros grandes nomes da filosofia.

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1. Os impasses do Humanismo e a “crise da educação”

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Os impasses do Humanismo e a “crise da educação”

Paulo Ghiraldelli Jr.

O que é que está mesmo em crise?

Dos estudantes do ensino superior brasileiro, 38% não sabem

ler e escrever de modo satisfatório. Esse dado, de julho de 2012,

é alarmante e caracteriza uma crise da educação brasileira. Ou-

tros países populosos, mesmo em fase de melhoria de vida da população, já tiveram crises da educação no passado. Os Estados

Unidos detectaram uma crise assim no ensino básico, na década

de 1950, em plena época de ouro de sua economia. Eles saíram

dessa situação e hoje o estudante norte-americano rivaliza com

o europeu. Talvez o Brasil saia dessa crise, talvez não. Pode ser até que entre de cabeça nisso de modo irrecuperável em médio

prazo. Não sabemos. O que sabemos é que essas crises que apon-

tam as deficiências dos estudantes estão circunscritas a tempos

e lugares, e vão e voltam. É importante prestar atenção nelas,

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2. Infantilização, filisteísmo e indústria cultural

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Infantilização, filisteísmo e indústria cultural

Paulo Ghiraldelli Jr.

É fácil ver que os jovens hoje ficam mais tempo jovens, até crian-

ças. Não sob aspectos morais muito específicos, mas intelectual­

mente, tomando isso de modo amplo e geral. Falta-lhes capacidade intelectual para se colocarem no lugar do outro e saírem

de certo egocentrismo. Carecem daquela percepção pós-adoles-

cência que permite a nós todos vermos que o que sabemos não

é mais nem talvez melhor do que o que os mais velhos sabem.

No passado recente, a ampliação de números de anos do que

se entendia por infância ou adolescência tinha uma causa nos

países do Ocidente ou ocidentalizados. Falávamos de certo es-

forço das classes médias de protegerem seus rebentos, até mesmo

mimá-los, dando-lhes condições de se integrarem ao trabalho

só tardiamente. O trabalho, então, seria o fator de “maturidade”.

Essa tese não se sustenta mais. Em vários países emergentes, o

 

3. E o erro?

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E o erro?

Paulo Ghiraldelli Jr.

O filósofo italiano Giorgio Agamben (2010, p. 132) escreve: “a

arte de viver é […] a capacidade de nos mantermos numa re-

lação harmoniosa com aquilo que nos escapa”. À primeira vista,

trata-se de uma fórmula enigmática. Mas não é. Agamben ex-

plica que o conhecimento parece ter necessidade de um pressuposto, que é a existência de um campo no qual reina o que

não é conhecido, um centro do qual emana a ignorância. Sem esse lugar da ignorância, como poderíamos falar de um espaço

preenchido de conhecimento? O conhecimento então é conhecimento do conhecido e, concomitantemente, um saber do que

se pode pressupor como existente, embora um campo cheio do

que nada sabemos ou ainda não sabemos.

Ah! Mas como é difícil rapidamente deixar a harmonia de

lado e acreditar que o campo do conhecimento, sozinho, é o que

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importa, e o que nos escapa é algo de menor valor! Podemos

 

4. Moralidade e moralismo

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Moralidade e moralismo

Paulo Ghiraldelli Jr.

As religiões elaboraram nossos primeiros códigos morais. Criamos os deuses justamente para que eles nos dissessem como

fazer de modo melhor o que vínhamos fazendo, ou ao menos

ensaiando. Eles foram nossos primeiros educadores, para o bem e para o mal. As histórias dos deuses deveriam nos dar bons

exemplos a serem seguidos, mas também apresentariam situa-

ções embaraçosas, que deveríamos evitar, e personagens ataba-

lhoados, que teríamos de observar bem para rechaçar e condenar.

Essa pedagogia tinha de nos ensinar a viver de forma coleti-

va, em situações públicas, fazendo com que não perdêssemos o nosso ethos, ou seja, nossos costumes e hábitos, principalmente

quando deixamos de ser nômades. Demos valor a isso. Daí nas-

ceu a ética. A pedagogia divina também nos ensinou a reproduzir costumes e hábitos não para o convívio público, na cidade,

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mas para a vida em nossos lares, em especial quando fizemos de nossas casas um ambiente privado, deslocado do ambiente

 

5. Infância

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Infância

Paulo Ghiraldelli Jr.

Sabemos mais ou menos o que é criança, mas não o que é infância. Ou melhor: todos nós sabemos bem o que é infância e, por

isso mesmo, por tais certezas de primeira hora, temos a impressão de estarmos lidando com uma noção corriqueira.

Desse modo, fazemos afirmações completamente contradi-

tórias sobre nossos filhos e os filhos dos outros, e defendemos

posições favoráveis ao que achamos ser a infância, paradoxalmente agregadas ao endosso de regras que, diante de olhos mais

atentos, nos desmentiriam. Isso piora bem quando lidamos com

o que os intelectuais, hoje em dia os psicólogos, nos ensinaram a chamar de “pré-adolescentes”. Falamos para a menina tirar o

batom, porque “está muito jovem para usá-lo”, e, na mesma frase, exigimos dela um sutiã, porque “já está uma moça”. Tratamos

nossos filhos, às vezes já com barba, como bebês e, ao mesmo

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tempo, queremos condenar o filho do vizinho, de oito anos, a penas que a legislação só permite serem aplicadas para maiores

 

6. Identidade

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Identidade

Paulo Ghiraldelli Jr.

Ninguém mais é burguês ou proletário. Alguns até dizem que

são comunistas, mas são tão poucos que caberiam no banco traseiro de um Lada. Há os que se proclamam ateus, mas antes para

afastar evangélicos fundamentalistas ou de igrejas caça-níqueis

e católicos da linha-dura do que por querer negar Deus. Há os que se afirmam negros, mas nem sempre – conforme o lugar é desnecessário, e há os lugares em que isso é tão necessário que é

bom não ir. Agora, há algo que se diz sempre e até é gritado por aí. Parece essencial dizer que se é heterossexual ou homossexual

ou bissexual ou alguma outra coisa, mas que seja “sexual”. Ou se é “sexual” ou não se é nada. Finalmente, chegamos ao que eu

disse que chegaríamos: uma identidade calcada no corpo ou em

alguma coisa bem relacionada ao que está no imaginário popu-

lar como sendo do corpo ou no corpo.

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Já se disse, certa vez, que o maior escândalo do mundo nos

 

7. A vida moral e a utopia

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A vida moral e a utopia

Paulo Ghiraldelli Jr.

Introdução

O título indica dois elementos básicos da educação humanista que, creio eu, mesmo quando essa educação tiver desaparecido

por completo – o que implica termos esquecido até mesmo de

sua crise –, vão se sustentar como tópicos a serem observados. A

não ser que deixemos de lado qualquer tipo de educação e nos

tornemos uma sociedade sem educação, exclusivamente mantida pelo treinamento e por regras diluídas pela cidade, mais ou

menos como as regras de trânsito, teremos em algum lugar algo

como um currículo e, nele, estarão inscritos dois tópicos do Humanismo: “vida moral” e “utopia”.

Uma sociedade, para fazer vingar alguma vida comunitária

e ser efetivamente uma sociedade, precisa de mecanismos de

reprodução de mores e ethos, ou seja, de hábitos e costumes afi85

nados com a vida privada e a vida pública, além de sustentar algum tipo de esperança de melhoria de si mesma. A filosofia

 

8. Interesse e educação

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Interesse e educação

Susana de Castro

A pedagogia filosófica de John Dewey

Em suas obras fundamentais sobre educação, John Dewey aponta para a importância de o educador criar um ambiente de

aprendizagem estimulante que seja capaz de provocar o interesse do educando. O seu diagnóstico é claro, a fim de atingir as

camadas mais profundas do entendimento do aluno, e é preciso

engajá-lo na sua educação, torná-lo um sujeito ativo desse pro-

cesso. Ao despertarem o interesse do educando por sua formação, os educadores os estarão formando não só para sua inserção

futura no mercado de trabalho, mas, e principalmente, para a

vida; para serem, por um lado, cidadãos socialmente atuan­tes em

suas comunidades e, por outro, indivíduos senhores de suas von-

tades, capazes de traçar metas de vida enriquecedoras e cumulativas, isto é, relacionadas a experiências anteriores. Os aspectos

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filosóficos e psicológicos da experiência educacional estão intrinsecamente associados na pedagogia deweyana.

 

9. As conferências de Nietzsche sobre educação – a diferença entre Bildung e Gelehrsamkeit

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As conferências de Nietzsche sobre educação − a diferença entre

Bildung e Gelehrsamkeit

Susana de Castro

De 16 de janeiro a 23 de março de 1872 o jovem Nietzsche proferiu cinco conferências sobre educação na Sociedade Acadêmica (Akademische Gesellschaft) da Basileia, Suíça, sob o título

“Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino” (Über die

Zukunft unserer Bildungsanstalten). Com apenas 24 anos, havia

sido admitido como professor de filologia clássica da Universi-

dade da Basileia. E, aos 27 anos, publicou, duas semanas antes

dessas conferências, O nascimento da tragédia, seu primeiro grande texto de filosofia. Ele ocupou a cátedra de filologia durante

dez anos. A publicação do Nascimento, somente três anos de-

pois de haver se mudado para a Basileia, não foi bem-recebida pelo meio acadêmico e marcara o início do distanciamento de

Nietzsche do estilo e do ambiente academicista. A partir daí, o

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10. Filosofia do horror e o ensino de filosofia

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Filosofia do horror e o ensino de filosofia

Susana de Castro

O termo “filosofia do horror” foi cunhado pelo filósofo Noël

Carroll. Em The philosophy of horror, or paradoxes of the heart (Filosofia do horror ou paradoxos do coração, 1990), Carroll descreve sua atividade na filosofia do horror como atividade semelhante

à de Aristóteles quando descreveu a filosofia do trágico em sua

Poética. Como bem apontado por inúmeros autores, a começar por Peter Szondi (2004), ainda que Aristóteles não estivesse

preocupado com a delimitação geral da condição trágica do ser

humano, como os românticos, foi, no entanto, o primeiro autor de uma filosofia do trágico, se entendermos que foi o primeiro

a sistematizar esse gênero dramático segundo a estrutura de sua

narrativa: peripécia, reconhecimento e catástrofe; e segundo as

emoções que provoca em seus espectadores, a catarse da piedade e do medo/terror. Tal qual a tragédia, o horror possui uma

 

11. Três temas essenciais à filosofia da educação: cidadania, razão e arte

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Três Temas essenciais à filosofia da educação: cidadania, razão e arTe

Susana de Castro

O tripé “cidadania, razão e arte” é constituído por elementos centrais para uma abordagem filosófica da educação. No que se

segue abordarei cada um deles isoladamente indicando temas e

autores pertinentes a cada um.

I

Cidadania

As origens dos princípios da educação liberal e republicana

Em entrevista a um jornal de grande circulação do Rio de Janeiro, o historiador José Murilo de Carvalho, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ufrj), afirmou que

“os brasileiros não têm grande consciência de seus direitos civis

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e políticos, mas conhecem bem seus direitos sociais, que é exa-

tamente aquilo que o Estado provê: saúde, educação, etc.” (O

Globo, 23/05/2009). Segundo o historiador, essa situação decorreria da nossa herança cultural advinda das monarquias ibéricas,

caracterizadas por um Estado intervencionista e protecionista.

 

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