No tribunal do júri, 6ª edição

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A obra descreve a atuação dos profissionais que militam no Tribunal do Júri e aborda casos criminais que tiveram grande apelo na mídia, explicando o procedimento e a prática do Júri. O livro reúne excelente doutrina sobre o tema aliado à prática e apresenta o tópico— “A formação do criminalista” — verdadeiro curso histórico, teórico e, sobretudo, prático da formação e do aperfeiçoamento de todo aquele que milita no foro criminal.

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E. MOUGENOT BONFIM, PRÍNCIPE DO TRIBUNAL DO JÚRI, O DEMOLIDOR DE SOFISMAS

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E. MOUGENOT BONFIM, príncipe do Tribunal do Júri, o demolidor de sofismas*

Para falar a respeito de Edilson Mougenot Bonfim, tem que falar a respeito do príncipe do Tribunal do Júri, tem que falar a respeito de um Promotor de Justiça que tem um talento absolutamente incomparável, tem que falar de um moço que chega à genialidade.

Há treze anos, quando ele fez o seu segundo ou terceiro júri, eu trabalhei com ele, e naquela época eu já pressentia que ele chegaria a esse esplendor, que ele estava para viver nas altitudes, nos páramos infinitos do mundo, porque ele tinha na primeira mocidade a revelação de um talento, de uma capacidade dialética, de uma capacidade interpretativa, tinha um rigor lógico de argumento, tinha uma capacidade de enunciação, tinha uma criatividade, tinha uma imaginação, tinha aqueles dados fundamentais e característicos dos homens geniais.­

Ele é incontestavelmente uma das maiores capacidades, não é do mundo contemporâneo, porque ele é um homem que rivaliza com os Promotores do passado, e dentre todos — e tivemos nós Promotores de extraordinária inteligência — ele é um homem que rivaliza com qualquer um deles. Ele tem a altitude cultural, intelectual e acima de tudo uma honestidade ímpar. O que eu admiro muito nele

 

INTROITO E BREVIÁRIO DA CONFRARIA DO JÚRI

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INTROITO E BREVIÁRIO DA

CONFRARIA DO JÚRI

É para vocês, jovens confrades do Júri, que preparei este livro.

Diz respeito ao nosso ofício, como era, como é, e, possivelmente, como será. Quem o escreve invoca a própria infância, quando via seu pai, advogado interiorano, chegando em casa com sua beca, cheia de histórias, contando como fora o “Júri” naquele dia. Sempre que podia, assim fazia. Amava o Júri, como amava sua profissão. Recitava que a conduta moral é a primeira condição para se exercer a advocacia, lastreando-se em Catão, que pretendia o advogado como o vir bonus dicendi peritus — “homem de bem que sabe falar”. Inegável influência. Consoante Paul Bourget, “Nós nos assemelhamos sempre secretamente à profissão exercida por nosso pai!”. Assim, passei a ver em nossa tribuna, por via reflexa, uma outra defesa, em sentido mais largo, a defesa dos interesses sociais. Traz este escrito, portanto, o doce dessa evocação paterna e a dor sentida da saudade de quem partiu. Saudade, na expressão bem brasileira, “presença na ausência”, como dissera o poeta Amoroso Lima.

 

ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE O NOSSO OFÍCIO: DE EVARISTO A NOSSOS DIAS

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INTROITO E BREVIÁRIO DA

CONFRARIA DO JÚRI

É para vocês, jovens confrades do Júri, que preparei este livro.

Diz respeito ao nosso ofício, como era, como é, e, possivelmente, como será. Quem o escreve invoca a própria infância, quando via seu pai, advogado interiorano, chegando em casa com sua beca, cheia de histórias, contando como fora o “Júri” naquele dia. Sempre que podia, assim fazia. Amava o Júri, como amava sua profissão. Recitava que a conduta moral é a primeira condição para se exercer a advocacia, lastreando-se em Catão, que pretendia o advogado como o vir bonus dicendi peritus — “homem de bem que sabe falar”. Inegável influência. Consoante Paul Bourget, “Nós nos assemelhamos sempre secretamente à profissão exercida por nosso pai!”. Assim, passei a ver em nossa tribuna, por via reflexa, uma outra defesa, em sentido mais largo, a defesa dos interesses sociais. Traz este escrito, portanto, o doce dessa evocação paterna e a dor sentida da saudade de quem partiu. Saudade, na expressão bem brasileira, “presença na ausência”, como dissera o poeta Amoroso Lima.

 

O JÚRI DE HOJE

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dro Lins e Silva, Alfredo Tranjan etc. Os Promotores, por outro lado, alguns eminentes, mas porque recolhidos em seus cargos, não legaram aos novos publicações do gênero. Têm-se, vez que outra, uma peça acusatória de Esmeraldino Bandeira, Melo Matos, alguns fragmentos de Roberto Lyra e, no mais, apenas os discursos compilados há algumas décadas pelo saudoso Araújo Lima, a par de escassas lembranças de Cordeiro Guerra. Ademais, e em geral, apenas esparsos escritos de tribunos menores. Quem quiser que se abebere nas páginas ilustrativas do velho mundo, lendo — na era moderna — Henri Robert,

Maurice Garçon, Moro-Giaferri, René Floriot, Campinchi, Jacques

Isorni, Émile Pollack, Tixier-Vignancour, sobre atuações nas Cours d’Assises. Estes, todos, advogados. Na Itália os primorosos discursos de Ferri — alguns, raros, de acusação —, de Genuzio Bentini (In

Corte di Assise), Carrara e Pessina, dentre muitos. Na Inglaterra,

Erskine, Cokburn, Campbell e Denman, por exemplo. Mesmo algumas defesas criminais proferidas na Espanha — fora do Júri, em outros tribunais —, ressalvada a crítica de Arturo Majada, de que “en la actualidad ... resulta lamentable el nivel oratorio que se observa ante los Tribunales españoles”.

 

O JÚRI PELO BRASIL

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na”, como dizia Ápio. O perigo, hoje, por outro lado, é colocar o tecnicismo jurídico de tal modo, à outrance, exageradamente, que os jurados-leigos não o compreendam, desvirtuando o sentido da fala do orador. Se é verdade que os jurados habitués de Júri têm lá algum conhecimento do jargão técnico, não menos verdade que à maioria cada palavra tem o som novidadeiro, virginal, que tanto pode revelar um conteúdo como escondê-lo, suprimindo a ideia que deveria revestir, ou mitificando-a, deturpando-lhe o sentido, a íntima significação.

Podem, mesmo, tomar o significante pelo significado: “o réu é culpado ... logo seu crime é culposo”.

***

Presencio no Júri estudiosos do direito penal não lograrem êxito em ser compreendidos pelos leigos. Soberba na linguagem? Superfetação do orador? As explicações são variadas, mas, todas, a demonstrar o erro do profissional, porquanto precisa, ao menos, fazer-se entender naquele ambiente delimitado, país único, com usos, costumes, geografia, idioma e soberania (constitucional), o país do

 

DO PITORESCO AO ESTILO

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um teatro”, e demais mesmices assemelhadas. Por outro lado, não menos verdade, serve para avivar o interesse no estudo da Instituição, buscar-lhe a chama nova, cobrar-lhe novos feitos, inquietá-la, mesmo, acordando-a do sono letárgico em que alguns pretendem deixá-la

— como de resto a Justiça, em um todo —, seja por ignorância, seja por inescondível má-fé.

DO PITORESCO AO ESTILO

(Do sono ao físico, passando pela alimentação: a vida a serviço do Júri)

Em Amapá, contaram-me — com direito a testemunha ocular

— que certo advogado, diante da dificuldade em defender um réu que matara o desafeto com forte golpe de machado no crânio, enquanto este dormia, à impossibilidade de encontrar uma tese jurídica minimamente ajustável à defesa, empolou o peito, engrossou a voz e tascou aos jurados: Dormientibus non sucurrit jus ... o direito não socorre os que dormem!... Quando da votação, indagou o magistrado sobre esclarecimentos a serem feitos, ocasião em que um jurado o questionou: “Afinal, o direito socorre ou não socorre os que dormem?”...

 

ELOGIO HISTÓRICO DO JÚRI — UM ERRO JUDICIÁRIO

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aprende por analogia. O homem é o que come ou o que não come.

Destarte, acentuei alhures, a boa gastronomia intelectual é imprescindível à formação do criminalista. Mangia che ti fa bene.

***

Em Alagoas, narraram-me, certo “coronel” do interior teria um seu jagunço sendo julgado e, antecipadamente, dera ordens aos integrantes do Júri para que absolvessem seu preposto. O Promotor, novo na comarca, idealista, bom orador, bravamente vencia a resistência do Júri e cobrava o voto correto, em nome do civismo. Cada um dos jurados, cientes de que a ordem de absolvição fora dada a todos, pensou individualmente: “o voto é secreto ... os demais vão absolver, vou condenar e assim fico em paz com minha consciência”. Os sete pensaram identicamente, e o réu foi condenado por unanimidade.

... No dia seguinte, todos os jurados, com medo, mudaram da cidade.

Defendem alguns que, no quarto voto revelado, ensejando a maioria de votos para uma das partes, o Juiz-Presidente deveria guardar os demais votos sem que fossem evidenciados seus conteúdos.

 

O JÚRI NO BRASIL E NO MUNDO

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ocorrido em Araguari, Minas Gerais, na vigência do Estado Novo.

Dois irmãos foram acusados da morte de um primo. Na verdade, este não morrera, viajara para a Bolívia. Nessa época, suprimira-se a

“soberania dos veredictos” (Decreto n. 167/38), vale dizer, diferentemente de agora — e de antes —, o então “Tribunal de Apelação” podia reformar no mérito o veredicto do Júri. Por duas vezes os acusados foram absolvidos pelo Júri. Posteriormente, o “Tribunal de

Apelação”, reformando o veredicto, condenou-os. Um morreu na prisão, e o outro permanecia preso quando o “morto-vivo” apareceu, anos após, caminhando tranquilamente nas ruas de Araguari. Acertou o Júri, erraram os doutores do Tribunal. Advertência histórica. Com a palavra, Magarinos Torres, antigo Juiz Presidente do Tribunal do

Júri do Rio de Janeiro: “Ninguém dirá que um sábio julga melhor que o leigo, o seu vizinho”.

O JÚRI NO BRASIL E NO MUNDO

(Visão panorâmica)

Tenho viajado, visto, lecionado, ouvido, criticado, debatido, tateado o Júri brasileiro. Estudo-o, literalmente, em conferências, aulas e colóquios, do Chuí (representado pela cidade de Rio Grande) ao Oiapoque (cuja universidade mais próxima é a de Macapá).

 

A DEFORMAÇÃO MORAL DO PROFISSIONAL DO JÚRI

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A DEFORMAÇÃO MORAL

DO PROFISSIONAL DO JÚRI

Este não é um livro de reminiscências, que fique claro; é um livro de registro. Sou homem de posições, e registro-as. Vivo do fogo ardente da tribuna e cuido-me, por vezes, para que algum demônio improvisado não busque comburir-me na expressão pura de uma ação autenticada por minha história. História sem excessos, mas também sem vacilações. Este não é um livro de reminiscências, remarque-se, embora possa servir de lembrança aos mais jovens do que se passa, por vezes, nesta casa oracular. Não abandonei a liça. Sou Promotor do Júri, e no Júri, não me afeiçoando aos cacoetes funcionais, porquanto abomino as “deformações profissionais”, como alertava

Ferri: o Promotor que só vê culpados, o advogado que só enxerga inocentes e, ambos, um e outro, perseguindo-se e malquerendo-se, pois se um não é Saul, o outro não é Davi — na lembrança de Eliézer

Rosa —, para disputar nas farpas da vaidade os excessos malsãos de personalidades desequilibradas. Nem se fale do Juiz que, acostumado a julgar outras causas, esquece-se que no Júri o julgador é o jurado e, também por deformação, busca influenciar-lhe o veredicto.

 

A DIMENSÃO DO HOMICIDA: ERRO COM QUE ENXERGAM OS INTÉRPRETES

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do medo, que em última instância é a própria falta de respeito pela vida, falta de referência que nos ataca nestes tempos modernos. O medo da morte, escrevera Schopenhauer, é o começo da filosofia e a causa final da religião. Nunca se matou tanto como hoje, como nunca esteve tão perdida a identidade do profissional, a quem falta, invariavelmente, o “sal da existência”: mata-se a filosofia; a religião é morta em nome do comércio da fé; mata-se o próximo; se mata; mata-se o medo ... pereat mundus!

É preciso, respeitando o nosso ofício, respeitar a vida.

***

O Júri, por outro lado, não é mercado de palpites emocionais; é preciso um plus, uma crença, um flamejar de fé, para não se entrar no jogo das aparências ou no formal tecnicismo do faz de conta, em que um postula uma absolvição na qual não acredita, e outro postula uma pena que apenas dá pasto a sentimentos pueris, batendo ambos um martelo de plástico na bigorna de algodão de suas mediocridades,

“homens de cortiça”, forjando-se uma estória forjada, banalizando-se o que é quase sagrado, assinando-se sem escrúpulos a mentira que recebe o selo de justiça, quand même.

 

MEDIOCRIZAÇÃO DO JÚRI

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guma! Isto chama-nos à responsabilidade, traz-nos a um “compromisso com a vida”. Da mesma forma, o defensor que alugue o “verbo pela verba” pode — como por vezes ocorre —, ele próprio, ou um dos seus, ser vitimado pela mesma violência que ele tanto justificou

(mais do que defendeu), porque, agora, acha-a defensável, mas injustificável. A César, o que lhe é devido. A morte imposta, dolosamente, criminosamente, merece a exprobração da pena, pelas razões expostas neste trabalho, e por muitas outras, incabíveis, até inexistentes em qualquer trabalho, pois, superando a condição humana, a pena pode mesmo encarar necessidade ou razão, na obra de Deus.

Quase chego ao jusnaturalismo.

***

Ninguém execrará o criminoso. Nem divinizará o delinquente.

Nem maltratará a memória da vítima. Nem fará apologia da miséria ou encontrará na riqueza o único modelo de vida. Trecho da comédia humana, o crime, o criminoso, o binômio penal delinquente e vítima, as circunstâncias humano-sociais de ambos, tudo precisa ser explicado, compreendido, entendido, para que se condene, se mensure adequadamente a pena — arbitrium regulatum — ou se absolva, para que se julgue, enfim. São as regras do art. 6º, IX, do Código de Processo Penal e do art. 59 do Código Penal. Para tanto, no Júri, não se prescinde da ética do intérprete para a não banalização das funções, a pasquinização, a fulanização. Se Ferri falou das “deformações profissionais”, Ingenieros traçou o perfil do “homem medíocre”. O homem superior, no Júri, busca a essência da pareja penal — acusado e vítima —, dando a cada um, em justa proporção, o conceito que lhe é devido. Não deturpa, não acresce, não suprime, não apara, não maquila, retrata-os fielmente para o julgador...

 

MAU PROMOTOR DO JÚRI — AUTOCRÍTICA QUE INCUMBE À CLASSE

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lidade do homem. O que impende é o compromisso em conhecer do que trata, o quanto mais profundo e possível, melhor, retirando toda eiva de puro determinismo: este Júri “vou perder” (porque a prova é má), ou “vou ganhar” (porque a prova é boa). Prova boa ou má, depende do intérprete, de quem, revirando a ideia, descobre por vezes verdades que anteriormente se faziam escondidas. Do novelo das provas se revela o caminho, não se fazendo novela, por quem vela pela justa atuação. A função da prova é esclarecer, e não terminar-se enredado, enleado nela. Foi Magarinos Torres quem disse que “os maus promotores, como os maus advogados, são os que têm mais queixas do Júri”. Acrescento: os maus juízes também, aqueles que com vício judicante não aceitam a existência do Júri pretendendo tudo submeter à força sentenciante de sua caneta, tudo circunscrever

à sua íntima e judiciosa convicção, como se toda justiça do mundo devesse girar em torno de um umbigo togado.

***

Não, no Júri não poderiam ter assento. Nem esse juiz, nem o irresponsável promotor, nem o desleixado advogado. Uma lei inexorável do bom-senso deveria impedi-los de atuar. Afinal, não há tantos lugares que mesmo enrodilhados em sua sensaboria não causariam grandes danos a outrem! Por que deixá-los manobrar com a liberdade, com a honra, com a função, com o conceito moral, se não veem o alto céu da justiça ou a poesia da lua, enxergando apenas o dedo que aponta para estes?

 

CAUSAS E CONCAUSAS DA CRIMINALIDADE

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condenação, recebe abraços pela ‘vitória’, apressa-se, diante da absolvição, a atribuí-la ao Júri... Ah! O Júri! Se ‘ganha’, tudo se deve ao ganhador (de quê?); se ‘perde’... Porque não aceita, como sua, a derrota? É claro que, nos julgamentos em geral, e não só no Júri, influem os méritos e os esforços de acusadores e defensores”.

***

Balanço? Um só! Na conta-corrente da sociedade, o patrimônio público da justiça pode ser manejado por inoperosos ou irresponsáveis gerentes das coisas alheias. Daí a necessidade da vocação

(substrato: bons propósitos; honestidade, ideal de bem servir) e da especialização (fornece meios à concretização dos pendores demonstrados na vocação).

CAUSAS E CONCAUSAS DA CRIMINALIDADE

Muitos crimes, hoje, hediondos, terríveis, poderiam ser explicados pelo materialismo e hedonismo, pelo descompromisso com valores maiores, pela busca do lucro fácil, pelo despojamento de princípios de indivíduos de caráter deformado ou malformado, expressão de muito “homem moderno” — deterioração do “homem light”, como o chamou Enrique Rojas (psiquiatra espanhol da geração dos médicos humanistas), tudo facilmente transcrito como ódio, impulso, maldade, degeneração. À impossibilidade do estabelecimento de uma causa precisa da criminalidade — adiante da má distribuição de renda e dos broken homes —, estudiosos e criminólogos modernos con­cluem como multifatoriais as causas da criminalidade. De Ortega y Gasset — “Yo soy yo y mis circunstancias” — a Tony Platt, o crimi­ nólogo crítico americano — “o homem é a síntese dramatizada da estrutura social inteira” —, sempre haverá, intocável, um sétimo véu indevassável da personalidade dos indivíduos que nenhum strip-tease mental poderá seguramente revelar. Daí o mistério. Mas reincidente ou criminoso de ocasião, primário ou recidiviste, o fato é que nada melhor, ainda, descobriu o homem para responder à sociedade em face do crime que infligir uma pena ao criminoso. Pena que alguns dela tenham escasso conhecimento filosófico ou lhe negam valor, pelo desvalor interpretativo. A condenação, quando não calcada em

 

HOMICÍDIOS, PRISÃO E O “PARADOXO DO MENTIROSO”

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ultrajada, mano a mano, face a face, e faca a faca. É passado o tempo dos foutoirs, dos bordéis, enquanto “instituição”, das “raparigas de viver equívoco”, trocadas hoje pelo equívoco viver de algumas, que tornam rubras as águas da vida. Sangue. O sangue hoje é rio que corre sem foz e sem margem. O crime de sangue é desamor que, às vezes, nem o amor para com este cura.

HOMICÍDIOS, PRISÃO E O

“PARADOXO DO MENTIROSO”

“Prisão não corrige! Abaixo as prisões...” Esse o cliché que suprime toda a inteligente análise que deve nortear o estudo da pena.

Ora, não é só Concepción Arenal a discursar pela ressocialização ou reeducação. A pena tem inegável caráter utilitário, desde Beccaria,

Romagnosi e Feuerbach, desde Bentham e Grolman. Se obtivermos uma melhoria do homem apenado, após o cumprimento da reprimenda, tanto melhor; infinitamente melhor. Mas, em verdade, busca-se a prevenção geral e especial com sua aplicação, fruto da exemplaridade que gera advertência. Por outro lado, inegável também que o só discurso da “ressocialização” do delinquente desembocaria em um impedimento constante de punição aos criminosos. Seria o dilema sem resposta que acentuei em meu livro Direito Penal da Sociedade: se fosse pobre o réu, não haveria por que puni-lo para ressocializá-lo, porque se antes ele era um “excluído”, se nunca fora “socializado”, não se poderia falar em “ressocialização”; se fosse rico, da mesma sorte, seria inócuo, porque o rico é hipersocializado...

 

IMPUNIDADE ... LINCHAMENTO

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social, porém não excessivamente intervencionista e fragmentário, mas respeitador da dignidade humana e das liberdades democráticas”.

Bem assim, a pena constituída através de um devido processo legal, justa, reta, é pressuposto de democracia, senão...

IMPUNIDADE ... LINCHAMENTO

Pior que muitos substitutivos penais, a impunidade retratada por absolvições indevidas, infundadas, é outra grande geradora de novos crimes. “Dieu me pardonnera; c’est son métier” (Heinrich Heine). É o sensualismo egoísta em voga, “Deus me perdoará” — posso errar!

— “é o seu ofício”. Isso é a tônica do inconsciente, do subconsciente ou mesmo do consciente de muitos criminosos: tamanha é a gama da complacência para com a delinquência, de tal forma o péssimo exemplo da impunidade, que a todos infratores in potentia já existe de antemão a esperança em tal impunidade, configurada por uma absolvição indevida, por alguma espécie de “benefício estatal” (prescrição, indulto etc.), não obstacularizando o crime; afinal, já é de seu métier...

 

SOBRE UM FEIO E INÚTIL VÍCIO DO FORO

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SOBRE UM FEIO E INÚTIL VÍCIO DO FORO

Há profissionais do foro criminal que rezam na “Cathédrale de la chicane”, assim batizada por Balzac. Fazem chicanas, maquinações, armadilhas, aratacas, arapucas, trapaças, velhacarias ... coisas que de tão sujas não confessariam à filha mais velha. Nem à mais nova. Estes são dispensáveis. Dispensáveis e disponíveis: sempre se aprestam a qualquer causa cujo efeito seja de logo conhecido; dinheiro, poder, fama, não importa se ao preço de sua barata consciência. Não colocam um tijolo que seja na construção do edifício da humanidade. Ao contrário, trocam o cimento por vento — na fonética do descompromisso —, desconstruindo qualquer proposta maiúscula de coletividade: a arquitetura por estes defendida é a da casa sem gente, do homem sem alma, da mulher sem coração, do filho sem propósito, do choro sem lágrima e do riso sem graça. De verdade? De verdade, só uma coisa — invoco Rui outra vez! —, “em não ser verdadeiro nunca, tendo para Deus e o Diabo o mesmo carão de boneco de vitrine”.

 

DA LINGUAGEM DO JÚRI AO ADVOGADO PERFEITO

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SOBRE UM FEIO E INÚTIL VÍCIO DO FORO

Há profissionais do foro criminal que rezam na “Cathédrale de la chicane”, assim batizada por Balzac. Fazem chicanas, maquinações, armadilhas, aratacas, arapucas, trapaças, velhacarias ... coisas que de tão sujas não confessariam à filha mais velha. Nem à mais nova. Estes são dispensáveis. Dispensáveis e disponíveis: sempre se aprestam a qualquer causa cujo efeito seja de logo conhecido; dinheiro, poder, fama, não importa se ao preço de sua barata consciência. Não colocam um tijolo que seja na construção do edifício da humanidade. Ao contrário, trocam o cimento por vento — na fonética do descompromisso —, desconstruindo qualquer proposta maiúscula de coletividade: a arquitetura por estes defendida é a da casa sem gente, do homem sem alma, da mulher sem coração, do filho sem propósito, do choro sem lágrima e do riso sem graça. De verdade? De verdade, só uma coisa — invoco Rui outra vez! —, “em não ser verdadeiro nunca, tendo para Deus e o Diabo o mesmo carão de boneco de vitrine”.

 

RETRATO DE UM BOM TRIBUNO DO JÚRI, SEGUNDO UM BOM ADVOGADO

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é dialeto. Não há “doutorança em Coimbra” que outorgue a alguém o título de bom tribuno, de exímio criminalista, nem pós-doutorado no estrangeiro que confira sapiência, inteligência, ou apenas e tão somente, ética a alguém. E no Júri, é preciso tê-la. Se perdida, pode-se tentar reconquistá-la, certamente; mas encontrar-se-á o mesmo grau de dificuldade havido para recobrar o coração da mulher que já não ama e foi embora. Melhor não perdê-la. Pena que uns quantos creiam seja a ética — como o amor — moeda de museu, na numismática dos colecionadores de valores morais. Se é assim, que a vejam como moeda rara, porque de valor, por isso que reclamada.

Ninguém é perfeito, ninguém o será. Nem promotor, nem juiz, nem advogado. Vale, aos três, o mesmo inalcançável sentido de perfeição, com que Paillet, famoso bâttonier da França, definia, pretendendo o advogado perfeito:

“Dai a um homem todas as qualidades do espírito; fazei com que ele tenha tudo visto, apreendido, retido; que tenha trabalhado sem esmorecimento durante trinta anos de sua vida; que seja, a um só tempo, literato, crítico, moralista; que tenha a experiência de um velho, o ardor de um moço e a memória infalível de uma criança; imaginai, enfim, que todas as fadas se hajam assentado em torno de seu berço e o tenham dotado de todas as faculdades; talvez com tudo isso conseguireis formar um advogado perfeito”.

 

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